sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A ORIGEM (2010)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Inception
Realização: Christopher Nolan
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Pete Postlethwaite

Crítica:

O SONHO E A REALIDADE

Our dreams, they feel real while we're in them (...)
Its only when we wake up then we realize that something was actually strange.

O argumento de A Origem (da autoria de Christopher Nolan) é tremendamente engenhoso e complexifica-se na tentativa de penetrar o espectador acordado no universo onírico que, não raras as noites, invade a sua in-/sub-/consciência, numa recriação - ilógica e sem limites - do mundo real. A experiência de sonhar dentro do sonho - num efeito de myse en abyme quase perpétuo - é amplamente explorada. É esta riquíssima dimensão de potencialidades que Nolan transporta para a forma de um empolgante thriller de acção e espionagem.

Leonardo DiCaprio - à frente de um elenco excepcional, mas sem tridimensionalidade de origem - tem uma prestação memorável como Dom Cobb - especialista em extrair, pelos sonhos, os segredos mais preciosos dos seus alvos. Agora, a missão quase impossível de implantar uma ideia, descendo os níveis do inconsciente rumo ao cofre mais profundo, confrontá-lo-á com as memórias mais dolorosas e perigosas da sua existência.

What is the most resilient parasite? Bacteria? A virus? An intestinal worm? An idea. Resilient... highly contagious. Once an idea has taken hold of the brain it's almost impossible to eradicate. An idea that is fully formed - fully understood - that sticks; right in there somewhere.

Tecnicamente, o requinte e a sofisticação da fotografia (Wally Pfister), da direcção artística (Guy Hendrix Dyas, Larry Dias, Douglas A. Mowat) e dos efeitos especiais (Chris Corbould, Andrew Lockley, Pete Bebb, Paul J. Franklin) expandem uma criação visionária e espectacular. A composição musical de Hans Zimmer, assim como a exímia montagem de Lee Smith, servem eficazmente os propósitos do ritmo e da condução das emoções, no decorrer dos avanços e recuos da narrativa, do exigente e vertiginoso labirinto. A interessante premissa é elevada a um magnífico pedaço de entretenimento. Memoráveis, a cena em que a cidade se dobra sobre si própria, ou aqueloutra da espantosa luta de Arthur the point man (Joseph Gordon-Levitt) pelo corredor do hotel, em gravidade zero. Brilhante.

O filme, em primeira ou última instância, assume-se como um reflexo do sonho: um estado de inspirada arquitectura e de prodigiosa imaginação, onde as coordenadas espacio-temporais são livremente distorcidas, transportando e absorvendo inteiramente o espectador para a sua plenitude trágica. Para este, afirmar ou distinguir com absoluta certeza o que é, narrativamente, sonho ou realidade constituirá eternamente o maior desafio do filme. Até a última pista aponta para a ambiguidade.

21 comentários:

  1. Acho-o mais que um pedaço de entretenimento mas não é o melhor do ano.

    Abraço
    Frank and Hall's Stuff

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  2. Pois, eu também concordo com o Bruno: gostei mais dele do que tu, embora também ache que agora lhe descia a nota ridiculamente alta que lhe dei quando o vi no Verão.

    É um 'blockbuster' em condições e ainda bem que a Warner Bros confiou quase cegamente no Chris Nolan e neste projecto e lhe deu o gigante orçamento que lhe permitiu fazer isto.

    E sim não é o melhor do ano, mas é uma das melhores ofertas que 2010 nos proporcionou.

    Cumprimentos,

    Jorge Rodrigues
    Dial P For Popcorn

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  3. Ora bem, não gostaste do filme... :P

    Bem, estamos em desacordo, considero-o um pedaço de Cinema fascinante e envolvente em todos os sentidos, adorei mesmo.

    EXCELENTE para mim.

    Abraço ;)

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  4. Compreendo o que dizes sobre ser "um bom pedaço de entretenimento" e, lendo o resto da crítica, facilmente se percebe que não o estás a reduzir a isso, já que enalteces devidamente todos os seus méritos narrativos e estéticos. É um filme muito bom, que conjuga muito bem as directrizes das grandes produtoras com um produto original, interessante, envolvente, que vale a pena rever. Ser dos melhores do ano ou não, depende do número de "melhores" que estivermos a abarcar ;)

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  5. Estamos sim de acordo Roberto, uma vez mais :)

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  6. BRUNO CUNHA: Também o considero um tanto mais do que entretenimento. Mas é sobretudo isso, sem qualquer desprestígio.

    JORGE RODRIGUES: Por acaso, dado o frenesim à sua volta, até esperava encontrar um quebra-cabeças daqueles. É labiríntico, mas tão-pouco é genial, aparte uma ou outra ideia que foi muito bem desenvolvida para o ecrã.

    RUI FRANCISCO PEREIRA: Tendo em conta que o avaliei como "BOM" custa-me a crer como é que tenhas concluído que não gostei do filme. Por acaso até gostei bastante. Mas não é nenhuma obra-prima, longe disso. "Fascinante e envolvente" sem dúvida.

    DIOGO F: Não o reduzo a isso, efectivamente. É um exercício narrativo assaz estimulante e gostei. Um dos melhores do ano, sem dúvida.

    FLÁVIO GONÇALVES: É verdade ;)

    Roberto Simões
    CINEROAD

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  7. Para mim mais que um pedaço de entretenimento, achei o filme excelente, deslumbrante. Um dos melhores filmes que já vi da actualidade ;)
    Bjks

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  8. Bom, não tenho como não ficar um pouco desapontado, embora tenhas gostado, mas claramente não tanto como eu. A sensação depois de o visionar pela primeira (e segunda) vez foi tal que não me lembro assim de repente de muitos mais filmes que o conseguiram de forma tão viciante e emocionante.

    De resto estou de acordo com a crítica e considero aqui o argumento como valor por excelência em relação a tudo o mais. Também partilho da tua opinião em relação às prestações, nomeadamente a de DiCaprio, actor muito subvalorizado. Fica acima de tudo o entretenimento avassalador como inquestionável em ambas (nossas) opiniões.

    Do Nolan este Inception é mesmo o que prefiro (por hoje), seguido de Memento, The Dark Knight e The Prestige.

    abraço

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  9. GEMA: Não iria tão longe, mas quer dizer - é só a minha opinião. O filme não me transcendeu a esse ponto. Compreendo o porquê do sucesso tremendo que teve. Não compreendo, isso sim, que o considerem excelente (com o mesmo valor que eu emprego à palavra) e uma obra-prima.

    JORGE: Não há porque ficar desapontado ;) Gostei bastante do filme, é uma obra com originalidade e com um argumento muito bom. Tem qualidades que nunca mais acabam e é filme para rever ao longo da vida ;)

    Roberto Simões
    CINEROAD

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  10. Inception...Dele digo o mesmo que diria do Shutter Island: o deslumbre com que saí da sala de cinema supera qualquer detalhe que, lembrado a posteriori, tenha falhado.
    Uma história única, original e uma mão cheia de actores talentosos. Já revi e mantenho a minha posição: o melhor do ano (ou, enquadrando, o melhor dos 10 nomeados - que vi e, alguns, revi)

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  11. Uma nova obra prima. Diversão e entretenimento com inteligência e originalidade.

    Nolan superou as minhas expectativas depois de The Dark Knight.

    Abraços
    Rodrigo

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  12. Roberto, fico satisfeito por ler a tua aprovação a INCEPTION.

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  13. JOÃO MARECOS: Sem dúvida um dos melhores de 2010, tendo a concordar com o resto do testemunho. Volte sempre!

    RODRIGO MENDES: Não creio. Mas é tudo isso que disse na frase: "Diversão e entretenimento com inteligência e originalidade".

    SAM: Porquê?

    Roberto Simões
    CINEROAD

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  14. Roberto, para além do que escrevi no meu blog e que recentemente comentaste, porque também o achei um dos melhores de 2010 e, apesar de só estarmos no seu início, desta década.

    Para mim, é um blockbuster como todos os blockbusters deveriam ser: desafia e entretém o espectador sem o insultar.

    Talvez não seja totalmente original, mas a sua concretização é, no mínimo, arrojada.

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  15. Inception é um grande filme de entretenimento em modo blockbuster de acção que não deixa de lado a componente, de ser também ele um filme inteligente e desafiante.
    Inception atinge níveis interessantíssimos de complexidade. Complexidade essa que é tão exaustivamente explicada durante o filme, que o filme passa a desfilar á nossa frente sem qualquer esforço sequer.
    O Inception arrebata por introduzir as camadas de sonhos dentro de sonhos e as noções de diferentes velocidades, que faz o tempo triplicar a cada nova camada de sonho mais profunda (conduzindo no final aos vários climax simultãneos do filme a passarem-se durante a genial cena da carrinha a cair).

    Eu adorei o filme, que foi visto e revisto, mas deixou-me insatisfeito. Fica a insatisfação por sentir nele uma ausência de ligação "honesta" à realidade, pois o twist final coloca tudo em suspenso.
    (O totem de Cobb a rodopiar... questiona todo o filme, conduzindo esta história toatalmente a uma não-história... passa a ser literalmente tudo um sonho!) De tal maneira que o transforma num embuste, um filme traidor e um enorme logro até… que resulta na mais presunçosa obra de Nolan. E não lhe vi nada disso nos filmes anteriores.

    E depois ter uma personagem para apenas estar constantemente a fazer perguntas (Ariadne) para as respostas nos indicarem o que fazer a seguir... é um ponto muito triste para o argumento. Parece uma falha e dá a netender que Nolan acha o espectador tão estúpido que não iria compreender a sua obra "superior" (e quanto mais o tempo se afasta menos aprecio o filme).

    O filme de Scorcese, o magnifico "Shutter Island" é várias vezes superior como filme. Inception é, isso sim, um bom blockbuster de acção e aventuras, com um nível de conceitos que não é normal encontrar nos tempos actuais num filme de acção e efeitos visuais.

    Mais aqui: Cine-review: Inception... deu-me mixed-feelings

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  16. SAM: Pode não ser inteiramente original, mas tem originalidade, é inegável. Pelo menos fiquei com a sensação de que experienciava algo de diferente (mais pelo exercício, não tanto pelas técnicas cinematográficas de filmar e montar a acção).

    ARMINDO PAULO FERREIRA: Concordo com tudo o que disseste neste teu comentário. Partilho, inteiramente, desta opinião. Contudo, não penso que o facto de ser uma "não-história" diminua propriamente o filme, depende daquilo que se espera de um filme enquanto espectador, não é?
    SHUTTER ISLAND de Scorsese, também o considero superior, mas resisto inteiramente à comparação.

    Roberto Simões
    CINEROAD

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  17. Roberto, o facto de ser uma não-história, na minha maneira de o descodificar (a história da presença ou não da aliança é para mim uma treta que não prova nada também), não diminui nada ao valor que o filme tem. Agora acho sim é que houve falta de humildade de Nolan & Cia a "vender" o filme pois colocaram-no acima de tudo, como se nada mais houvesse de melhor. O hype é tanto que se transformou num lobby que o conduziu a tudo o que é premios como se não tivesse saido melhores obras em 2010. Não dá para comparar ao Shutter Island directamente mas que ambos têm pontos de contacto não dá para negar. O mesmo actor, a história encapuçada, o filme questionador...
    Directamente, no Shutter há representação muito mais admirável (o DiCaprio mostra-se um verdadeiro actor e no Inception funciona mais em automático), há muito mais visão artistica no trabalho de camera (recordo-me sempre da cena do "copo invisivel"), e tem um argumento mais recompensador.
    Gosto do Inception mas ele não é tanto como se faz crer ser.
    Roberto, a tua classificação foi certeira!
    É Bom mas nada mais que isso...

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  18. Gostei do filme, e o Inception foi provavelmente o blockbuster do ano. A montagem é simplesmente fenomenal! Os efeitos especiais também são irrepreensíveis.

    O meu maior problema prende-se com o argumento do filme: É uma ideia extremamente interessante e intrigante, mas a forma de como ela foi concebida... Hm. Diria que o grau de complexidade que o Nolan injectou no desenrolar da acção apenas prejudicou a história, tornando-a desnecessariamente «complicada».

    Anyway, tirando isso, e alguns dos elementos do elenco, não tenho qualquer problema com o filme :)

    Abraço

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  19. Continuo sem perceber onde é que o raio do filme é complicado...
    Nolan trata-nos ainda por mais burros que normalmente fazem na América e introduz a personagem para nos guiar por onde ele quer, calando-nos completamente, e vamos apenas visionando o filme sem poder interpretar ou pensar em algo, apenas sentados e levados por onde ele quer...

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  20. NUNOB: Eu até gostei do labirinto ;) Pena que não haja espaço para se modelarem as personagens.

    NEUROTICON: Opiniões ;) Não me revejo especialmente nas tuas palavras, ainda que concorde tendencialmente com "vamos apenas visionando o filme sem poder interpretar ou pensar em algo, apenas sentados e levados por onde ele quer..."

    Obrigado a todos pelos comentários!

    Roberto Simões
    CINEROAD

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  21. Fico dividido com relação a Christopher Nolan. Ele tem algo de alguém que se põe a divertir com a maneira MTV de ver filmes. É como se dissesse: pois é, pessoal, já que vocês precisam de tomadas com poucos segundos, dou-lhe o que estão a pedir. Se quiserem reflectir, dou-lhes material, caso não venha a calhar, fiquem com os efeitos especiais.

    E, então, ponho-me a perguntar: truque ou inteligência?

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões