terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

MYSTIC RIVER (2003)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Mystic River
Realização: Clint Eastwood

Principais Actores: Sean Penn, Tim Robbins, Kevin Bacon, Laurence Fishburne, Marcia Gay Harden, Laura Linney, Kevin Chapman, Adam Nelson, Emmy Rossum, Tom Guiry, Spencer Treat Clark

Crítica:

ÁGUAS PROFUNDAS

Maybe some day you forget
what it's
like to be human and maybe then, it's ok.

Os lobos podem corromper, para sempre, a idade de inocência. Por isso mesmo, os contornos trágicos de um determinado acontecimento, na infância, podem traumatizar e assombrar toda uma existência.

Jimmy. Sean. Da... prenúncio simbólico do que se sucederia, o terceiro nome não chegou a ser concluído. Na inscrição do cimento jaz a memória de três amigos de bairro, que em crianças brincavam pelas ruas de Boston, quando foram abordados por um polícia impostor, pedófilo. Dave é enganosamente levado num carro e, durante dias, abusado numa cave escura. Brilhantes, o anel com a cruz e o crucifixo ao peito - Eastwood é claro na acusação. O mal veste pele de cordeiro. Desde que conseguiu escapar, Dave tornou-se um homem emocionalmente perturbado, sempre ausente e distante em pensamentos e perseguido pelos fantasmas do passado. Envolto, até, numa certa aura sinistra e misteriosa. Tantos anos depois, o destino dos três amigos vê-se forçosamente interligado, uma vez mais. A filha de Jimmy é brutalmente assassinada, Dave é considerado o principal suspeito do crime e Sean é o polícia que se encarregará do caso.

Sean: When was the last time you saw Dave?
Jimmy: That was twenty-five years ago, going up this street, in the back of that car.

O Mystic, que flui ao largo da cidade, é como que a metáfora das mágoas submersas e que, face às circunstâncias da tragédia, voltam à tona. Os travellings sobre o rio mostram como que uma testemunha presencial constante - o rio é o elo entre o passado e o presente, é um marco inalterável na paisagem e no meio que viu crescer aqueles miúdos. O rio sabe os seus segredos, o rio sabe mais do que nós; passe o trocadilho do título.

A inimaginável dor de perder um filho, o luto, a sede de vingança e de justiça. Aquilo que as personagens de Mystic River experienciam é uma situação limite, tanto no passado como no presente. O Jimmy de Penn protagoniza todo esse agitar de águas interior. Como lidar com o reconhecimento na morgue? Como suportar o interrogatório policial quando a cabeça e o coração parecem explodir? Como tratar do funeral? Como aceitar a morte, a morte da filha?

That's what Katie looked like when I saw her in the morgue. Like they put her in a bag and then they beat the bag with pipes. Janie died in her sleep, all due respect, but there you go. She went to sleep, she never woke up. Peaceful. (...) My daughter was murdered. They put a gun to her. As we stand here, she's on an autopsy slab getting cut open by scalpels and chest spreaders, and you're talking to me about domestic fucking responsibility? Good to see you, Theo.
Jimmy para Theo

A conversa de alpendre, entre Jimmy e Dave, é memorável. Após o choque, o momento em que Jimmy cai em si, cedendo à frieza:

Jimmy: It's really starting to piss me off, Dave! She's my own little daughter, and I can't even cry for her!
Dave: Jimmy, you're crying now.

Mystic River é um thriller policial, ritmado pelo suspense - descobrir a identidade do assassino é a grande demanda -, encontra reminiscências dos filmes de gangsters - procura-se fazer justiça pelas próprias mãos -, mas é sobretudo um drama poderosíssimo, de emoções fortes. De uma contenção e intensidade e de uma densidade e profundidade psicológica absolutamente notáveis. Como na generalidade da sua obra, Eastwood fica-se pelos meios essenciais: o argumento (sublime, o trabalho dramatúrgico de Brian Helgeland, a partir do romance de Dennis Lehane), as cenas fazem-se com poucos mas precisos enquadramentos. A fotografia (Tom Stern) ou a montagem (Joel Cox), longe de quaisquer potencialidades distractivas, contribuem para o realismo e para a mimesis, sempre com temperança, com peso e medida. Eastwood é sóbrio na direcção do seu arquétipo e um movimento de câmera menos subtil e mais ousado, quando existente, ganha logo um significado relevante. De notar que o realizador é especialmente cuidadoso com o término de algumas das suas cenas, pontuando-o geralmente com um enquadramento mais distanciado. A banda sonora, também com a assinatura do cineasta, surge apenas nos momentos cruciais.

Para além da narrativa e dos termos técnicos, talvez o elemento mais preponderante: as prodigiosas interpretações do casting. Sean Penn como Jimmy Markum, cujo rosto se transfigura perante a dor da perda. Is that my daughter in there?! Arrepiante. Tim Robbins como Dave Boyle, consumido pelos medos e inseguranças da sua personagem. They were wolves, and Dave... was the boy who escaped from wolves. Marcia Gay Harden como Celeste, a dedicada e incansável mulher de Dave, cujas desconfianças do marido precipitarão, inesperadamente, o seu desfecho cruel. He's been acting kind of nuts lately. I'm almost afraid of him. Celeste, na sua bondade e ingenuidade será, com certeza, outra das personagens que mais sofrerá, corroída pelo remorso e pela culpa. Grande papel da actriz, que ao lado de Laura Linney (como Annabeth Markum, mulher de Jimmy) compõe o principal elenco feminino da longa-metragem, um dos melhores filmes de Eastwood-realizador.

Sometimes I think, I think all three of us got in that car...
Sean

À luz dos acontecimentos, a frase de Sean (que atravessa também um conflito conjugal) acaba por fazer todo o sentido. Os danos colaterais daquele fatídico dia terão possibilitado, afinal e no presente dia, todo o engano e mal-entendido, qual tragédia grega.

Their daddy's a king. And a king knows what to do and does it. Even when it's hard. And their daddy will do whatever he has to for those he loves. And that's all that matters. Because everyone is weak, Jimmy. Everyone but us. We will never be weak. And you, you could rule this town.
Annabeth

Na realidade, contudo, nem reis nem heróis... apenas seres humanos. A vida segue o seu curso e a responsabilidade pelos erros fatais, pesa-a o tempo no derradeiro julgamento. Não há redenção, a erosão da culpa e do remorso é impossível. Daí o desencanto que o filme atinge, tão naturalmente. É uma pena pesada, por vezes, a vida.

11 comentários:

  1. Concordo abolutamente a respeito de ser um dos melhores filmes de Eastwood. Concordo também sobre Tim Robbins e Marcia Gay Harden. Porém, acho que Sean Penn é muito inexpressivo. Não vejo diferença nas suas atuações: elas sempre se repetem. Na minha opinião, Sean Penn diminui o brilhantismo do filme e roubou o Oscar a que concorreu de alguém.
    Sua resenha já diz que você discorda de mim a respeito de Sean Chato Penn.

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  2. LUÍS: Sean Penn inexpressivo? Discordo realmente de você ;) Um dos seus melhores papéis.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD – A Estrada do Cinema

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  3. Eastwood é de facto um mestre como já há poucos! Mystic River é, para mim, uma das suas obras-primas recentes, a par de Gran Torino!

    Este "Ciclo Clint Eastwood" é uma iniciativa bastante interessante!

    Cumprimentos

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  4. CATARINA NORTE: Não creio que seja uma obra-prima, mas é um triunfo magistral. Isso sem dúvida.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  5. Um absurdo achar Sean Penn inexpressivo! este filme é único! das atuações, ao roteiro adaptado, da trilha sonora inspirada de Clint, da direção dele e do desempenho marcante de Tim Robbins.

    Este sim merecia oscar de filme, direção...Menina de Ouro é inferior a esse, por exemplo.

    Poderia ter desenvolvido uma resenha maior pra este filme, Roberto. Ele merece, abs

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  6. CRISTIANO CONTREIRAS: Um filme único, sem dúvida, também para mim dos melhores de Clint Eastwood.
    Publicarei certamente uma resenha (crítica) ao filme; é claro que o merece. Não desenvolvi mais porque de facto não escrevi ainda a crítica. Por isso é que diz lá no texto: "comentário" e não "crítica". Mas espero fazê-la em breve, mais à altura desta obra magistral.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  7. Sim merece com certeza de uma crítica mais elaborada, aliás como muito bem o sabes fazer.
    Quanto ao filme, é uma obra maior de um cineasta destacável no panorama actual cinematográfico.
    De destaque é a fotografia, as interpretações, a banda sonora e o grande argumento que prima pela inteligência acima de tudo.
    É de mais este Eastwood, que sempre espero quando saem mais obras dele!

    abraço

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  8. JORGE: MYSTIC RIVER é, também para mim, uma das obras maiores de Eastwood.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  9. O Sean Penn inexpressivo? Não pode! Ele está fabulosamente expressivo; uma força de interpretação...

    Para mim, também é dos melhores, talvez, até, o melhor filme do Eastwood e das melhores interpretações do Sean Penn; um actor de uma versatilidade admirável.

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  10. Grande pedaço de escrita, gostei muito da crítica. E não sei se é por ser um filme que tenho um apreço especial, mas foi mesmo a crítica que mais prazer me deu de ler, ou pelo menos uma das.

    Quanto ao filme já o disse, uma pérola daquelas...que nos envolve e nos contagia com o seu mistério e o seu drama. História muito bem contada, articulada e desenvolvida, aliás características que Eastwood possui e executa magistralmente. A contenção e o ritmo são de tal ordem que magnetizam, captam a atenção e o coração.

    Um dos melhores filmes de Eastwood enquanto realizador, na minha opinião.

    abraço

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  11. D: Pois, com o "inexpressivo" referes-te ao comentário do Luís. E também a mim me parece absurdo. Não será Penn, afinal, dos mais expressivos actores? O seu rosto é dos primeiros a sofrer a metamorfose que se insurge na construção das suas personagens.

    JORGE: Muito obrigado ;) É, sem dúvida, um dos melhores e mais maduros trabalhos de Eastwood-realizador.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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