sábado, 6 de março de 2010

BRINCADEIRAS PERIGOSAS (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Funny Games U.S.
Realização
: Michael Haneke

Principais Actores: Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt, Brady Corbet, Boyd Gaines, Siobhan Fallon, Devon Gearhart

Crítica:


UM-DÓ-LI-TÁ

Ouve-se, ao longe, o eco de Laranja Mecânica. Porém, o cinema de Michael Haneke confronta-nos com outros horizontes. Brincadeiras Perigosas não é senão um estimulante exercício narrativo, aberto a múltiplas interpretações, filmado com realismo e frieza quanto baste. O tom é marcado pela verdadeira - ainda que improvável - união entre tragédia e comédia. E o resultado é, no mínimo, insólito. Eis, pois, uma experiência intensa, de viscerais emoções, que certamente não deixará ninguém indiferente e que, cumprirá, desse modo, os desígnios para que foi concebida.

Realidade ou ficção, ambas podem ser perversas, inquietantes, perturbadoras, cruéis ou, simplesmente, más. Sabemo-lo bem. O que muda, consoante cada dimensão, é a nossa função nela. Na realidade, somos os próprios actores da história - agressores ou vítimas. Na ficção, estamos condenados ou limitados ao papel de leitores/espectadores e, à partida, estabelecemos uma relação passiva para com os actos praticados. Mas será bem assim? Será a relação dos espectadores meramente passiva? Ao consumir violência na literatura e nos media, não terá o papel do espectador sérias implicações na realidade?

É disso que nos dá conta este filme magistral. Como? Sendo uma obra auto-reflexiva, o mundo ficcional de Brincadeiras Perigosas estabelecerá uma relação de cumplicidade - meta-diegética - com o espectador. Mais concretamente, é a personagem Paul (Michael Pitt) que nos lança um sorriso e que, intencionalmente, nos convida a entrar no jogo e a tomar consciência do quão participativos somos ou podemos ser enquanto espectadores de uma representação de violência. É por meio deste artifício narrativo que Haneke nos atinge o consciente: porque é que assistimos àquela tortura assustadora, quais voyeurs sem escrúpulos, e desenvolvemos alguma empatia por aqueles dois... simpáticos e extremamente delicados, depois indiscretos e absolutamente inconvenientes e, às tantas, autênticos sádicos e hediondos monstros, inteiramente desprovidos de valores e sentimentos?! Somos convidados a entrar no jogo e, de repente, jogamo-lo quase compulsivamente querendo saber como será o seu desfecho. What do you think? Think they stand a chance? Well, you’re on their side, aren’t you? Who are you betting on, hmm? Como é que nós, sem abandonar a sala ou desligar o ecrã, alinhamos na aposta? Seremos também, e de alguma forma, monstros? Parceiros de uma juventude que se rende ao fascínio da violência e da apatia moral? Paul e Peter são meros artefactos, é certo, mas basta ler um jornal para saber como existem nos nossos dias. E, quando menos esperarmos, podem estar à nossa porta, inesperadamente. A ficção imita a realidade? Claro que sim. Mas a realidade imita - e cada vez mais, aparentemente - a ficção. De artefactos a concretizações de alma, carne e osso é, às vezes, um passo. E por isso temos que nos questionar a propósito da violência gratuita que, constantemente, invade a literatura, a televisão, o cinema, a internet... sem apelo à reflexão. Quantas gerações não têm crescido com a violência gratuita como capítulo imprescindível dos comportamentos em sociedade? É que nos media estamos no plano ficcional, ainda pode possibilitar divertimento. Agora na realidade as consequências existem e causam sofrimento e destruição.

- Why don't you just kill us? - pergunta Ann, brilhantemente interpretada por Naomi Watts.
- You shouldn't forget the importance of entertainment - responde Peter (Brady Corbet).

Cada vez que Paul se vira para a câmera e nos olha nos olhos, reconhecemos o carácter conceptual que a obra assumiu: há pura manipulação; e muita ironia, nisto tudo. Se ainda algumas dúvidas restassem, isso torna-se mais do que evidente quando Anna dispara sobre Peter e finalmente vibramos com o sabor da vingança (muito satisfeitos, admitamos). É aí que Paul trata logo de procurar o comando e de rebobinar a acção. Volta atrás no tempo e altera o curso que a acção havia tomado. Estamos, por isso, num terreno onde tudo é possível e onde tudo pode acontecer: a ficção. Podemos respirar de alívio. Na realidade, não teremos comando. E, se o tivermos, certamente não rebobinará. Há, por isso, uma importante e pertinente reflexão a fazer sobre as consequências possíveis da representação da violência. Brincadeiras Perigosas convoca toda essa reflexão.

No final, o diálogo entre Peter e Paul é por demais elucidativo:

- But isn't fiction real?
- Why?
- You can see it in the movie, right?
- Of Course.
- Well then she's as real as reality because you can see it too.

O filme? O filme tem uma mise-en-scène relativamente simples, mas é em tudo eficaz; um pouco como os enquadramentos, que apesar de tudo ajudam a construir uma estranha sensação de claustrofobia. O filme põe as personagens numa situação-limite. E, por meio delas, somos igualmente levados ao extremo da dor e da humilhação. É duro. É chocante. E é preciso ser forte. Enfim, o filme? É uma obra incontestavelmente brilhante. A não perder.

14 comentários:

  1. O facto de teres auto-plagiado a tua critica mostra bem a aceitação pessoal de Brincadeiras Perigosas ;)

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  2. FLÁVIO GONÇALVES: E o mesmo facto mostra a minha posição em relação ao auto-plágio de Haneke.
    Este remake do seu próprio filme é um motivo não só insólito como interessantíssimo para estudar.
    Não conhecêssemos nós Haneke e toda a sua natureza crítica e falaríamos, como muitos e apenas, na existência deste remake como uma mera forma de chegar ao mercado americano e, através dele e mais facilmente, ao mundo.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  3. Estou com o Flávio, até porque «auto-plagiar-se é estilo». :p

    Abraço

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  4. JACKSON: Agora estiveste bem! ;D À la Hitchcock!

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  5. Que filme espectacular, só não é original porque é uma cópia frame-a-frame do original. Pessoalmente, penso que Haneke é um verdadeiro amante do seu Cinema pois faz um remake frame-a-frame de um filme seu anterior sem alterar nada o que nos indica que o filme dele é como é e como tinha de ser...

    Em relação ao filme, pontos interessantes que referiste, nomeadamente o entretenimento/diversão, mais que uma morte, eles(os vilões, Pitt estava excelente!) queriam proporcionar um espectáculo digno de entretenimento!

    Espectacular!

    Abraço
    Cinema as my World

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  6. Escusado. Sinceramente, se tivesse quieto era bem melhor.

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  7. NEKAS: Creio que a questão não é tanto o facto de Haneke amar o seu cinema ou não. Um meio crítico de demonstrar como uma obra se torna apenas acessível ao actual mundo globalizado se for falada em inglês. Uma forma para criticar a cultura americana por promover os temas que o filme bem estuda (a violência, o sadismo da comunicação social e do próprio cinema). Enfim...

    ÁLVARO MARTINS: Não concordo mesmo nada nada, nada nada!

    Cumps.
    Roberto Simões
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  8. Não o vi ainda porque preciso de distanciamento do primeiro. Mas digo-te o mesmo que disse de Michael Haneke. É de facto positivo a realização de um remake frame-by-frame naquilo que significa uma total consciência do seu trabalho e que não podia ter sido melhor. O mesmo se aplica a ti.

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  9. TIAGO RAMOS: Pois, eu também quis dar algum distanciamento entre a visualização da versão original e a desta U.S.. Mas como seria incongruente baixar a nota a um filme destes, só porque não é original! ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
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  10. Ah, violência gratuita se eu o achasse em algum lugra pra locar... eu conheço a história de ponta a cabeça, mas nunca vi o filme

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  11. Lady on the Radiator10 de março de 2010 às 00:39

    Concordo com o Álvaro. isto não é auto-plágio, isto é jogada de marketing. O filme, do ponto de vista estético, retira muito ao original. mas concordo que seja um assunto a analisar e estudar e principalmente responder à questão: o que leva um realizador a transformar a sua obra de arte em lixo????

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  12. MIRELLA SANTOS: Merece ser visto. Há-de encontrá-lo.

    LADY ON THE RADIATOR: Não creio que o filme perca do ponto de vista estético, nem tão pouco que se torne um "lixo". Não percebo esses argumentos. Marketing? Garantidamente, também. Mas isso não invalida a proposta artística.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  13. Esbarrei-me com este filme há três dias atrás. Não gostei da capa, por demais estadunidense e li que era obra de Haneke, para meu espanto. Já que gostei imenso de "A fita branca" e de "71 fragmentos de uma cronologia do acaso", e após ler os comentários anteriores vou atrás do "autoplágio" rs...

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  14. ENALDO: Veja também a versão original (http://cineroad.blogspot.com/2010/01/brincadeiras-perigosas-1997.html).

    Roberto Simões
    CINEROAD

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CINEROAD ©2017 de Roberto Simões