sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O ANJO EXTERMINADOR (1962)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: El Ángel Exterminador
Realização: Luis Buñuel
Principais Actores: Silvia Pinal, Enrique Rambal, Claudio Brook, José Baviera, Augusto Benedico, Antonio Bravo, Jacqueline Andere, César del Campo, Rosa Elena Durgel, Lucy Gallardo, Enrique García Álvarez, Ofelia Guilmáin

Crítica:


AS BESTAS HUMANAS

Há filmes do diabo. O Anjo Exterminador serve-se, eu diria, da mais disparatada epidemia apocalíptica para assinalar nas suas forma e narrativa a conversão do realismo para o surrealismo, passando de uma sátira corrosiva e hilariante para um trágico e degradante quadro de selvagaria. Buñuel filma a crónica de costumes daquela alta burguesia com uma elegância e sofisticação ímpares - qualidades que são, aliás, extensíveis à direcção artística e ao guarda-roupa. Espertos são os criados, que fogem, não por que pressintam o fim do mundo mas por que já saibam talvez o que a casa gasta.

E eis que desfilam os snobs, chegados da ópera, do brilho dos vestidos delas à ponta dos bigodes deles. Sobem a escadaria, como se fossem para um baile de máscaras, mal sabendo eles que as máscaras acabariam todas por cair. Aperaltados em aparências e com desejos reprimidos, lá jantam os hipócritas, os falsos tanto para os outros como para consigo próprios. Aprisionados em convenções, são tudo menos seres livres... e a alegoria ampliará precisamente esta prisão invisível à sala de estar, de onde por razões desconhecidas e também elas invisíveis se verão impedidos de sair, dias a fio. Se a hipocrisia se contagia entre aristocratas, é pela imitação que se proporciona a degradação. Veja-se, pois, como o argumento cai intencional e regularmente em imitações de situações já anteriormente acontecidas, como que denunciando as causas da decadência por meio desse ritual simbólico... Só por essa tomada de consciência encontrarão o caminho para a cura, a saída, mas haverá entre eles ainda alguma luz, discernimento ou inocência?

Até lá, passarão fome e sede, ficarão doentes e enlouquecidos, morrerão ou matar-se-ão. Perderão a racionalidade, toda a dignidade, perante a iminência da morte e da situação-limite. Aos olhos do espectador mais humilhados e gozados não poderiam ser. Poucos terão a coragem para enfrentar a situação. O sentimento de clausura será cada vez mais assustador e asfixiante.

Duas marchas em simultâneo: enquanto o surrealismo marcha pela liberdade do inconsciente, o marxismo marchará pela liberdade dos trabalhadores (talvez por isso também sejam os criados os mais livres e imunes à epidemia). Descodifique-se, à luz desta passagem, alguns dos episódios finais da película. A bandeira, seja ela artística ou política, eleva-se pela liberdade. O Anjo Exterminador levanta, inegavelmente, as duas, enquanto observa e analisa estes miseráveis ratos de laboratório.

A obra de Buñuel impõe-se, por tudo isto e do seu ponto de vista interpretativo, como um dos mais imprevisíveis, impenetráveis ou até mesmo inalcançáveis pedaços de cinema alguma vez criados. Ficar-me-ia, no entanto, por caracterizá-la como uma obra aberta, ambígua e inconclusiva; absolutamente livre, como o sonho... ou como a própria vida deveria ser vivida.

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