sexta-feira, 16 de agosto de 2013

PARNASSUS: O HOMEM QUE QUERIA ENGANAR O DIABO (2009)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: The Imaginarium of Doctor Parnassus
Realização: Terry Gilliam
Principais Actores: Heath Ledger, Johnny Depp, Colin Farrell, Jude Law, Christopher Plummer, Lily Cole, Andrew Garfield, Peter Stormare, Tom Waits

Crítica:

O FABULOSO MUNDO PARA LÁ DO ESPELHO

Can you put a price on your dreams?

Esta maravilhosa fantasia surrealista de Terry Gilliam supera habilmente os excessos de um barroco Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton. Não é porque seja menos infantil (esse não é um argumento válido, pois a qualidade dos filmes para crianças não corresponde à altura dos seus espectadores), nem é tão-somente por incluir menos cenas num universo artificialmente criado por computador (esse também nunca seria um argumento válido, afinal tudo é artifício e um julgamento depreciativo a respeito seria sempre uma questão de gosto). Ainda que não tenha um storytelling perfeito - longe disso, há passagens menos bem resolvidas e capazes de suscitar alguma confusão desnecessária no espectador - penso que é por aí, pelo storytelling, pela construção narrativa e pelo doseamento das emoções, que este Parnassus se sobrepõe. Quase a findar a comparação, que não é de todo o objectivo, creio que jamais os delírios criativos para lá do espelho abafam a essência narrativa, como no filme de Burton a determinada altura. É certo que há um ir e voltar constante e em Alice há uma viagem única, mas a dimensão onírica em Parnassus maravilha-nos, nunca nos cansa com um exibicionismo perpétuo. Obrigatoriamente inverosímil, aceitamos e deleitamo-nos com esse mundo de sonhos. O diálogo da influência estabelece-se, claramente, para com a tela de Dalí. Nessa relação irresistível, somente em Um Sonho Encantado terei encontrado, porventura, um arrojo e uma excelência maior.

O que suporta e sustém - com notável solidez - este rico e triunfante (às vezes bizarro, mas sempre engraçado) universo visual é a qualidade das interpretações, notem-se os nomes do elenco: Christopher Plummer (sempre brilhante), Heath Ledger (no seu último papel, falecido a meio das filmagens), Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law (que substituiriam Ledger, completando o alter-ego do seu Tony em paragens fantásticas) e os promissores Lily Cole e Andrew Garfield. Depois, a esmerada direcção artística de Anastasia Masaro e Caroline Smith (note-se cada cenário, cada detalhe) e o faustoso guarda-roupa de Monique Prudhomme. O trabalho de todos estes departamentos conjugado aprimora a pintura de todo e cada frame, inspiradamente enquadrado por Nicola Pecorini. A fotografia é essencial para o deslumbramento.

Entre o real e o imaginário, fica uma fábula excêntrica e a espaços alucinada, mas absolutamente fascinante, bem-humurada e endiabrada. Pura aventura, consciente do espectáculo que nos pode proporcionar. Lamentável apenas que a história, prolífera em ideias, não tenha sido melhor polida e aproveitada (o tratamento da personagem de Ledger parece-me às tantas desnorteado, mal-desenvolvido no que conduz à revelação da sua verdadeira identidade - pudera; ainda assim Terry Gilliam desenvencilhou-se muito bem do infortúnio). Enfim, you can't stop a story being told. Finalmente, o filme é dedicado a Ledger, que atravessou o espelho e nunca mais voltou.

Não se tornará um clássico, muito provavelmente, mas está longe de ser um caso perdido.

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