sexta-feira, 16 de agosto de 2013

EXPIAÇÃO (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original:Atonement
Realização: Joe Wright
Principais Actores: Keira Knightley, James McAvoy, Romola Garai, Saoirse Ronan, Brenda Blethyn, Vanessa Redgrave, Juno Temple

Crítica:

A CULPA, O CASTIGO

Come back. Come back to me.

Sempre que se dactilografa ou se imagina, ficciona-se. Da mesma forma, afirmar a verdade perante a dúvida pode conduzir-nos a consequências inimagináveis, derradeiramente irreversíveis e irreparáveis. É essa a possível sentença da mentira. A mentira é ficção e a ficção é mentira; compreenda-se a pertinência do quiasmo sintático. Mimesis, já Platão a definira e condenara. Por isso, sempre que o romance começa, a mentira começa. Suportamo-la pelo incomensurável prazer da ilusão. Se estivermos conscientes e assumirmos essa nossa consciência, sabemos que estamos a ser enganados a cada imagem, com a mesma certeza de que, dessa forma, jamais desfrutaremos da tão reconfortante evasão que é apreciar uma grande história.

Expiação, esse delicado e subtil pedaço de cinema de Joe Wright - tão delicado e subtil quanto o próprio artista, que é poeta - joga com todos estes conceitos, em mise-en-abyme. A sua (tremenda) construção narrativa assume-se fundamental para o efeito. No início, a miniatura da mansão, a reprodução do real que é mentira por ser ficção. Esse brinquedo que convida à efabulação. A génese da criação artística começa precisamente na infância, na brincadeira. Brincar é imaginar, é fazer-de-conta, é fingir: é mentir. Briony com 13 anos (prodigiosa revelação de Saoirse Ronan) é, naturalmente, a evolução dessa menina, que se comporta como adulta e cuja brincadeira agora é inventar e escrever peças (interessante, talvez a adolescência se possa definir também como um ritual em que as brincadeiras passam a sérias possibilidades). Para alguém como Briony, um mero equívoco na vida real pode despertar a imaginação e uma série de males-entendidos pode tornar-se bastante perigoso. Não tardará, pois, a confundir a relativa leveza com que se manipulam bonecos ou se orquestram personagens com a justiça com que devem ser tratados os destinos de pessoas reais, sejam familiares ou amigos. Uma só mentira pode destruir vidas para sempre e, em consciência, levar a uma culpa incurável, incapaz de expiação.

A primeira parte do filme - ou, se quisermos, o seu primeiro acto - dá-nos a conhecer o romance improvável entre Cecilia e Robbie (Keira Knightley e James MacAvoy, respectivamente, num acting tão portentoso e apaixonante como a sua própria relação). Improvável, digo, não por duvidar do amor que nutrem um pelo outro mas pela incompatibilidade social, estabelecida a priori, pelos costumes da Inglaterra dos anos 30. A acção centra-se em três episódios, o primeiro deles passado junto à fonte do jardim, durante a tarde solarenga, e os dois seguintes decorridos à noite, um escaldante encontro sexual na biblioteca e, na sequência de um desaparecimento inesperado e de uma violação cujo tarado já fora denuciado antes, ainda que dissimuladamente, por uma dentada numa tablete de chocolate, a condenação que altera o rumo da história para sempre. Tanto para o episódio da fonte como para a flagrante cena da biblioteca, o tratamento da narrativa é o mesmo: primeiro, é-nos dado a conhecer o ponto de vista de Briony e o entendimento do ocorrido é um. Imediatamente depois, em analepse, somos confrontados com a versão real dos factos e o entendimento do ocorrido muda drasticamente, o que aponta para a importância do ponto de vista na arte de contar uma história. O olhar é preponderante e pode mudar tudo. A interpretação errónea de Briony soma e segue, de episódio em episódio, e, por cúmulo de equívocos, delibera uma terrível sentença, com a maior das convicções. Yes. I saw him. I saw him with my own eyes. Robbie é acusado e preso. A história de amor é, assim, tragicamente impedida. Mais tarde, perceber-se-á que outra razão justificou também o incidente. Briony amava Robbie. O seu testemunho às autoridades, motivado pelo ciúme e pela decepção, foi igualmente uma forma de vingança, de punição. O fim de qualquer inocência.

How old do you have to be before you know 
the difference between right and wrong?
Robbie

Quando o segundo acto começa estamos entregues a uma narração cujo narrador desconhecemos. Rapidamente percebemos que o ponto de vista é o de Robbie. I will return. Find you, love you, marry you and live without shame. Há um hiato, a acção recomeça em plena 2ª Guerra Mundial: o antigo criado é agora soldado entre as ruínas da destruição e Cecilia é enfermeira numa Londres transformada pelas necessidades do confronto. Numa cuidada recriação de época (dos cenários ao guarda-roupa e ao mais ínfimo detalhe), somos levados pela viagem no tempo. Apercebemo-nos dos fugazes encontros entre os dois e sabemos que a relação continua, mas desconhecemos o que se passou no intervalo. Se o tempo voltasse atrás... (Wright chega a ousar o rewind, para materializar a ideia). Sentimos que estão mudados, seja pelo sucedido e trágico mal-entendido, seja pela guerra que, inequivocamente, mudou o cenário da acção.

A extraordinária e original banda sonora de Dario Marianelli que, no primeiro acto, nos envolvia e prendia ao suspense, definindo, em crescendo, a montagem e a velocidade da narrativa, dá agora lugar a um instrumento só, melancólico e lúgubre, ou a uma suíte sentimentalista, intensa e dramática, que alteram completamente o tom da história. A narrativa flui misteriosa e envolvente, pelas mãos de Christopher Hampton, a partir do aclamado romance de Ian McEwan. A filmagem sensível, um olhar, um gesto, as mãos - sempre as mãos -, a arte do focar e desfocar, a iluminação... toda essa qualidade de Wright atinge o seu auge no surprendente e memorável plano-sequência sobre a praia de Dunquerque, de cortar a respiração, verdadeiramente. Magnificamente fotografada por Seamus McGarvey, a cena é de uma beleza indiscritível e desarmante, simultaneamente tão desoladora. Que precisão na encenação, que perfeição arrepiante. Quão horrível é a guerra, diz-nos essa cena, entre tantas outras coisas, pois tanto nos diz, tantas histórias nos conta, resume e condensa. Enfim, é daquelas cenas que valem um filme, não valesse o filme o tanto que vale, no seu todo.

Quando as teclas se tornam a ouvir, prenuncia-se a inquietação e instala-se novamente a dúvida sobre a veracidade daquilo a que assistimos. Briony. Cordas. Regressa o tema da primeira parte e mesclam-se sonoridades. Terceiro acto; outro ponto de vista - o de Briony. Também enfermeira, espera reencontrar o seu amado de infância entre os soldados feridos. Corroída pelo remorso, desvendado o mistério daquela fatídica noite, procura a irmã em busca do perdão e do alívio. Não obstante, quando surge no ecrã o rosto de uma Briony envelhecida (brilhante Vanessa Redgrave), dá-se o twist, a confissão e a revelação. Escritora, apresenta o seu último romance - Atonement - na televisão: It’s my last novel. Strangely enough, it would be just as accurate to call it my first novel (...). Quanto ao que se passou na infância, the absolute truth. No rhymes, no embellishments. Quanto ao que se passou depois, romanceou, tentando ser o mais verosimilhante possível, dando-lhes - a Robbie e Cecilia - a final act of kindness (...): their happiness, a mesma felicidade que lhes tirou. Por isso, nas últimas imagens, o postal ilustrado ganha vida. Percebemos então que tudo aquilo que vimos após a detenção de Robbie - tão-somente, passe a ironia, a segunda metade do filme - foi pura ficção. Tal como as restantes personagens, outrora, acreditámos na versão de Briony, tão longe da verdade. Sentimo-nos por fim profundamente indignados, pela ficção dentro da ficção. Fomos enganados.

Um clássico instantâneo e absoluto.

15 comentários:

  1. O título deste filme aqui no Brasil é "Desejo e Reparação". Um filme magnífico, desde um detalhe de produção até os efeitos visuais, trilha sonora, atuações, montagem etc.

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  2. A sequência da praia é das melhores que já vi em cinema. Genial.

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  3. Vê lá se dás boa nota :p É dos melhores filmes de todo o sempre.

    Abraço

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  4. Justo, sim ;) Acho que a magnificência do filme atinge, sim, com a cena de Dunquerque.
    Abraço

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  5. Comecei a ver este filme e adormeci... Mas adormeci porque estava a achar uma grande seca...O que não quer dizer que essa seja a minha opinião, uma vez que no dia estava muito cansado, e mal-disposto e sei que isso pode ter influenciado a minha opinião. Tenho que o ver um dia destes...

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  6. Anderson Siqueira e Filipe Machado,

    Inteiramente de acordo.

    Cumps.



    Flávio Gonçalves,

    Não será na minha opinião um dos melhores filmes de sempre, mas é claramente um filme muito bom.

    Cumps.


    The Subsidal,

    Compreendo que tenhas adormecido. Aconteceu-me o mesmo com O RESGATE DO SOLDADO RYAN ou O NOVO MUNDO. Há filmes que pelo ritmo e banda sonora (e algum cansaço adicional) suscitam a sonolência. Mas como poderás verificar, revi todos esses filmes e as críticas falam por si.

    Cumps.


    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD

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  7. um dos meus filmes favoritos...a cena dos soldados na praia é inesquecivel e acredito que a lembrarei por muito,muito tempo...quiçá, para sempre

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  8. É mesmo um filme... delicado. Intenso e directo, mas também uma história de uma imensa tristeza. É um dos melhores da década.

    9/10.

    Abraço.

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  9. Um lírico comentário a um lírico filme. Competente como sempre.
    Mas uma reparação pessoal. Quando dizes delicado concordo em certa forma, na sua reprodução e não no seu âmago. Tem um argumento duro, cruel, cru e frio. A destituição de um amor, a fraca compatibilidade da diferença de estratos sociais e as consequências de um avançar penoso. É delicado na sua linha mais sucinta que o apresenta, como a banda sonora, os adornos gráficos, sim, tens de facto razão. Mas o seu coração é bem bruto.

    Cumprimentos.

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  10. Close Up,

    Sim, a cena de Dunquerque é genial.
    Memorável.

    Cumps.


    Red Dust,

    Não sei se será assim tão directo, penso que é mesmo delicado a tocar nos assuntos. Directo será mesmo, e às tantas, na apresentação do termo «cona». De resto, a abordagem de Wright é sempre muito subtil.

    Cumps.


    Jackson,

    Obrigado pelas palavras simpáticas. Estou inteiramente de acordo contigo, o filme é, o seu tema, muito cru, cruel. É a expiação de um assunto pesado moralmente. No final, desculpa-me a hipérbole, se quiseres poderei explicá-la melhor, mas penso mesmo que o filme "cheira a morte". A cena dos amantes na praia, no final, tem qualquer coisa de fúnebre, eu penso. É triste. Muito triste. Mas é tudo sempre abordado muito delicadamente. Subtilmente.

    Cumps.

    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD

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  11. É exactamente isso que interpretei, nem eu o diria melhor!
    Esse contraste de um guião e argumento pesadíssimo com um ritmo e realização ligeiros no sentido de delicados e contornados com cenas de um calibre súbtil e não gráficamente directo, é vincado e torna-o (ao filme genéricamente) essencialmente um feito cinematográfico memorável.

    Cumprimentos.

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  12. Gostei imenso deste filme, um dos melhores... mt bom mesmo.
    Não gostei assim imenso do final, mas o filme no geral foi mt bom ;)
    Bjs

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  13. Pois eu ao contrário gosto imenso do final, acho até que é nesse ponto que o filme atinge o seu máximo, e nos faz (a mim pelo menos) adorar o seu todo, ainda que algo cansativo por vezes.

    Um grande filme, está listado como um dos meus dramas predilectos, sendo também um filme que explora a guerra; a subtileza em tudo é assombrosa, tudo é feito da mesma forma linear, trazendo no fim uma obra tocante e coerente até nós.
    A sequência da praia é muito boa, muito pela banda sonora também!

    abraço

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  14. JACKSON: Absolutamente de acordo!

    GEMA: O final é inesperado. Gostei bastante.

    JORGE: Eu também gosto bastante do final. E do filme todo, um drama essencial. Clássico instantâneo! ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
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  15. Adoro. O final é inesperado e é também um autêntico soco no estômago. A banda sonora? Provavelmente uma das melhores que já ouvi :) Abraço

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões