segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

SACANAS SEM LEI (2009)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Inglourious Basterds
Realização
: Quentin Tarantino

Principais Actores: Brad Pitt, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger, Mélanie Laurent

Crítica:

A OBRA-PRIMA

I think this might just be my masterpiece.

Tentem imaginar uma mente genial e excêntrica que, no auge da sua arte de reinvenção, arrisca uma mistura explosiva. Pois bem, é assim que nasce Sacanas Sem Lei. E a criativa origem não poderia ter outro nome se não Quentin Tarantino... o seu cinema tem um cunho singular, tão irreverente quanto autêntico. E aqui, mais do que, num plano absolutamente ficcional, ousar reescrever a História (dando um final porventura merecido a uma das mais hediondas criaturas que habitou esta Europa), o seu cinema atinge a maturidade e concretiza a ambição da obra de arte completa, sendo que há uma perfeita coesão de estilos, registos e géneros que nunca se torna ridícula, apesar do non-sense.

A narrativa é estruturada em cinco capítulos. A efabulação é desde logo invocada pelo Once upon a time. Once upon a time in Nazi-occupied France onde judeus se escondem, quais ratazanas, aterrorizados pelo extermínio. A cena inicial é das melhores cenas de abertura de todos os tempos. Em termos artísticos é, simplesmente, qualquer coisa de... transcendente. E de absoluto detalhe. A paisagem impõe-se e lembra-nos a ambiência do western: no alto de uma colina campestre, mais um dia de esperança. Uma casa, várias árvores. O gado vagueia pelo verde pasto. Um agricultor corta a lenha a machado, uma mulher estende a roupa ao vento. Poderíamos estar no oeste americano. Porém, detrás dos brancos lençóis não se descobrem cavaleiros empoeirados, justiceiros ou malfeitores. Vislumbra-se um carro e duas motas. Soldados alemães. Nazis. Mortinhos pela desratização.

O primeiro capítulo marca o extraordinário grau de qualidade que se perpetuará por toda a obra: cenas longas, diálogos inteligentes, irónicos e mordazes, interpretações de luxo (o sádico e engenhoso Coronel Hans Landa, magistralmente interpretado por Christoph Waltz, é uma criação memorável!), uma mise-en-scène criteriosa e um trabalho de fotografia deslumbrante (Robert Richardson), assim como uma montagem em tudo brilhante, a marcar o compasso e o ritmo da obra. Tarantino serve-se tanto do texto como da sua inspirada e sublime arte de filmar para construir momentos de alta tensão e de verdadeiro terror psicológico, aqui e ali atenuados por eficazes e hilariantes comic reliefs. Recordo, por exemplo, quando no auge da sua assustadora retórica, Hans Landa retira do bolso um cachimbo de um tamanho descomunal - creio que é impossível não libertar uma gargalhada, nesse preciso instante, descomprimindo assim do intenso acumular do suspense que até ali imperava.

Brad Pitt é o tenente Aldo Raine, caricatura do americano e líder dos Sacanas. A missão da sua tropa? We're gonna be doin' one thing and one thing only... killin' Nazis. O escalpe dessas bestas alemãs é o seu objectivo primeiro. Ainda que dados ao discurso, à sátira e ao ludo linguístico - ou não fossem eles personagens tarantinescas (e Tarantino, por sua vez, um dos grandes artistas da palavra) -, os Sacanas servem a retaliação a sangue frio, numa violência brutal e explícita; mas nunca gratuita, sempre estilizada. Alguma da encenação que antecede a corporal punição sobre os nazis tem mesmo direito a Morricone, convocando os bons velhos tempos de Leone e d'O Bom, O Mau e O Vilão. Tarantino aliás, e como sempre, conflui estéticas e invoca as mais variadas referências na elaboração do pastiche. O próprio filme de 2ª Guerra Mundial, enquanto género, é aqui desconstruído, reinterpretado e reconstruído. O resultado é algo completamente novo, genuíno e único.

Poder-se-á dizer que o tema de Sacanas Sem Lei é a vingança. Num nível metadiegético, é claro que a efabulação tarantinesca representa a vingança da Arte sobre a História. Dentro da diegese, Shosanna Dreyfus (Mélanie Laurent, numa virtuosa performance) empreende um plano maquiavélico para acabar de uma vez com Hitler, Landa e os seus súbditos leais e assim vingar o raticídio que lhe dizimou a família e do qual escapou, por um triz. As cenas em Paris concentram um sem fim de mise en abymes de elevadíssimo potencial semântico. A começar pelo cinema que a judia terá herdado dos tios Mimieux. É no cinema que se desencadeia a vingança, estabelecendo um paralelo com os espectadores, que assistem ao filme: o ecrã em chamas é o ecrã dentro do ecrã. E a metragem Stolz der Nation é o filme (de 2ª Grande Guerra) dentro do filme (de 2ª Grande Guerra), ambos com Daniel Brühl como actor.

A imprevisibilidade da narrativa é uma das características mais notáveis do filme. Nunca sabemos bem o que pode acontecer. Ou melhor, o que vai acontecer. Porque sabemos que tudo pode acontecer. A cena do bar, em que uma conversa se arrasta por mais de vinte e tal minutos e depois, num ápice, se resolve numa chuva de tiros fatais é a prova disso. Há um momento, ainda antes disso, em que o ecrã se divide em dois e somos surpreendidos por um narrador desconhecido, que nos dá conta do quão inflamável pode ser uma película cinematográfica. Depois há metáforas incríveis e insólitas. Aquela massagem no pé só para rematar com looks like the shoe's on the other foot é qualquer coisa... Percebe-se, com tudo isto, que Sacanas Sem Lei é muito mais do que entretenimento sofisticado. É uma criação de amor, de puro amor à arte e a uma estética que dialoga consigo própria.

Um clássico instantâneo. A masterpiece, indeed.

26 comentários:

  1. Afinal sempre viste o filme!

    Venha essa crítica!

    Abraço
    http://nekascw.blogspot.com/

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  2. Quentin Tarantino dá uma dimensão nunca vista à sua estética, num projecto quase megalómano, mas praticamente isento de erros. Como habitualmente dividido em capítulos, o cineasta reduz o seu espírito sanguinário e aumenta a extensão dos diálogos à la Tarantino, misturando os géneros filme de guerra, western spaghetti, melodrama, filme noir, comédia e thriller num único filme.

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  3. Grande, grande filme. Uma obra-prima, sem dúvida! Parece-me que vá ser do teu gosto...

    Abraço

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  4. Não menos do que um EXCELENTE, é o que espero.

    Abraço

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  5. AO lado de Pulp Fiction, o melhor de Tarantino.

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  6. Estou a ver que sempre cedeste aos encantos de Tarantino :p

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  7. Não esperava esse excelente (embora estivesse tentado a atribuir), mas, de facto, é um filme tão extraordinário como injustiçado nos Globos de Ouro (será que a Academia vai surpreender e fazer deste o ano de Tarantino?)

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  8. Pois para mim fica a milhas do melhor filme dele, o Reservoir Dogs. É um bom filme, um grande filme pela sua homenagem ao cinema, pela sua cópia directa de estilos cinematográficos como o western spaghetti e os filmes de guerra, mas daí a ser uma obra-prima ainda vai um longo caminho a percorrer.
    My opinion of course

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  9. Sem dúvida o melhor filme de 2009.

    Tarantino demonstra algo ao alcance de poucos ou mesmo nenhuns. Com a sua imaginação incomparável elaborou diálogos magistrais, que foram as verdadeiras cenas de acção do filme, criando um clima de tensão que nos agarra e prende, e nos leva a pensar em como irá aquele momento terminar.

    Além disso, mais uma vez ficou provado que Tarantino sabe elaborar papeis femininos de forma excepcional: Diane Kruger e Mélanie Laurent são excepcionais, tal como Brad Pitt e Christoph Waltz, em particular. Até Eli Roth não destoa.

    Um destaque final para a banda sonora do filme. Muito, muito boa! :)

    Abraço!

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  10. Não vi outros filmes de Tarantino, mas gostei particularmente deste. O modo como o realizador coordena a fotografia, as excentricidades das perdonagens, os pequenos pormenores do cenário, o guião... talvez um pouco de sangue a mais, mas já percebi que é uma imagem de marca.
    Simplesmente fantástico.
    Os amantes de históriaé que, se calhar, não vão achar grande piada ao final...

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  11. Esses casanas sem lei...

    Bastard!!!

    Filmaço!

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  12. NEKAS: Vi, pois. Aí está a crítica. Tardou, mas há filmes que é preciso rever e rever antes de me prenunciar sobre eles.

    TIAGO RAMOS: E o resultado é assombroso. Grande, grande filme!

    JACKSON: Parece-te e pareceu-te bem! ;) Obra-prima com todas as letras.

    JACKIE BROWN: Desta vez dá para festejares a nota! :D ahah Agora a sério, é inteiramente merecido. O filme é sublime, assaz arrojado e genial.

    DIEGO RODRIGUES: Eu não os colocaria ao lado. De PULP FICTION não gosto. É muito sobrevalorizado, na minha opinião.

    FILIPE COUTINHO: Já gostei de KILL BILL. E neste INGLOURIOUS BASTERDS, Tarantino mantém-se ao mais alto nível, novamente. Só não reconheço esse mesmo nível em PULP FICTION, por exemplo. Daí dizeres isso.

    FLÁVIO GONÇALVES: A Academia não o agraciou, como seria de esperar, com a excepção do Óscar a Christoph Waltz. Mas para mim é o melhor filme do ano.

    ÁLVARO MARTINS: Of course. Para mim é uma obra-prima absoluta.

    DAN: Estou absolutamente de acordo com as tuas palavras. Com todas e cada uma delas ;)

    MARTA: Se os amantes de História forem igualmente amantes de Arte... é provável que achem toda a piada! ;) Grande, grande filme.

    REINALDO GLIOCHE: LOL Filmaço, sem dúvida. Mas isso é dizer pouco, claramente.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  13. Pessoalmente, ainda prefiro Kill Bill, mas reconheço perfeitamente que este Inglorious Basterds, é cinema ao mais alto nível. A realidade alternativa criada pelo realizador, é um mimo para os sentidos e os diálogos são magistrais.Só para referir 2 pormenores.

    O melhor filme do ano e o que deveria ter sido premiado na academia.

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  14. Grande obra esta do Tarantino! Para mim, o melhor de Tarantino!

    Cumps***

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  15. RICARDO VIEIRA: Reconheço geniais qualidades também em KILL BILL. São, apesar de tudo (KILL BILL e BASTERDS) obras tão distintas que não consigo, pelo menos para já, dizer sobre qual das duas recai a minha preferência. Provavelmente, preferirei estes BASTERDS.
    Quanto aos teus dois pormenores, estou totalmente de acordo.

    BLACKBERRY: Provavelmente, sim ;D

    Cumps.
    Roberto Simões
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  16. Uma obra-prima absoluta! Um argumento brilhante, interpretações memoráveis, com destaque óbvio para Cristoph Waltz mas também Melánie Laurent, diálogos excelentes, enfim, um filme magistral, para mim também o melhor de 2009!
    Gostei da tua crítica :)

    Cumprimentos

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  17. Bela crítica!

    Achei imensos aspectos comuns na minha opinião como Tarantino e a sua violência não gratuita mas estilizada...

    Sacanas sem Lei é um fruto de inspiração e criatividade que veio de um dos maiores génios contemporâneos do Cinema que neste filme apresenta um final histórico paralelo ao verdadeiro mas ele próprio escreve história verdadeira ao longo do tempo, ao longo do tempo, escreve o seu nome na 7ª arte!

    Abraço
    Cinema as my World

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  18. CATARINA NORTE: Obrigado ;) Estamos absolutamente de acordo!

    NEKAS: Muito obrigado ;) Sem dúvida. Por muitos hoje incompreendido. Por muitos amanhã imortalizado.

    Cumps.
    Roberto Simões
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  19. Não gostei, um filme totalmente ZOG, ser referências, exagerado, faz dos nazis o bicho papão o que é uma falácia.

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  20. Grande filme, sem dúvida. Para mim o melhor do Tarantino, e o que me fez adorar este homem. Os kill Bill são também muito bons, já o Pulp Fiction, Jackie Brown ou o Reservoir Dogs estão um pouco abaixo, na minha opinião (aqui parece que estamos muito de acordo :))

    Mas de facto este Basterds é uma coisa deliciosa, para mim a cena inicial (a fazer lembrar a cena inicial de Once Upon a Time in the West) está deslumbrante, agarrando logo o espectador para as duas horas seguintes de filme.

    Gostei bastante também, e ainda não vi referido, de Brad Pitt, para mim fez-me rir imensas vezes, grande interpretação e personagem, tal como claro de Christoph Waltz!

    abraço

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  21. ANÓNIMO: Ainda que preferisse um comentário mais elucidativo, e assinado, não resisti a publicar o seu testemunho com o qual não me identifico minimamente.

    JORGE: A cena inicial invoca Leone, de facto, mas não a cena de abertura de ONCE UPON A TIME IN THE WEST. De resto, estamos absolutamente de acordo. Já passou algum tempo desde que o vi pela primeira vez e hoje posso afirmar também que é, dentro dos que vi dele, a melhor obra de Quentin Tarantino.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  22. Faz lembrar ONCE UPON A TIME IN THE WEST por ser uma cena "em silêncio" de grande suspense. Mas sim evoca Leone, não tanto o filme em questão, até porque um se baseia no diálogo também, e o outro apenas e só nos sons e na tensão existente. Tens razão :)

    Adoraria que o Tarantino fizesse um Western puro! à sua maneira claro...

    abraço

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  23. JORGE: Um western por Tarantino é uma grande grande ideia. Também eu gostaria imenso que ele fizesse um!

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  24. Estranho não ler nenhuma referência ao sr. Enzo Castellari e ao seu macarroni combat, de onde Tarantino sacou o título deste filme.

    O filme é obviamente excelente e tal como habitual no cinema de Tarantino uma profunda homenagem ao cinema série b, aqui com ênfase no macarroni combat (especialmente ao "5 per l'inferno" realizado em 1969 por Parolini) e no western-spaghetti.

    A banda sonora do filme é excelente e em grande parte retirada de westerns-spaghetti, parece-me que o tema mais forte e mais bem colocado terá sido o "Il mercenario", que recomendo vivamente na sua inclusão original (filme de Sergio Corbucci, o mesmo por detrás de "Django").

    Surpreendente foi também a roupagem dada ao tema de "Sette winchester per un massacro" aqui muito "afrancesado"!

    Os fãs de spghettis, giallos e afins devem ter ataques crónicos de riso no gag feito à volta do nome Antonio Margheriti - nome de baptismo do homem responsável por alguns dos mais impressionantes momentos do western mediterrâneo ("Joko invoca Dio... e muori", "E Dio disse a Caino", etc).

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  25. PEDRO PEREIRA: Referências importantíssimas. Obrigado por completares este espaço sobre o SACANAS. Eu não domino esse terreno.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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  26. o verdadeiro merecedor do oscar de melhor filme... melhor filme de 2009 e um dos melhores filmes que ja vi

    http://filme-do-dia.blogspot.com/

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CINEROAD ©2016 de Roberto Simões