terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O TERCEIRO PASSO (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Prestige
Realização: Christopher Nolan

Principais Actores: Hugh Jackman, Christian Bale, Michael Caine, Scarlett Johansson, Rebecca Hall, Andy Serkis, Piper Perabo, David Bowie

Crítica:

A GRANDE ILUSÃO

Are you watching closely?

É tudo uma questão de encenação e de manipulação, no ilusionismo.

Every great magic trick consists of three parts or acts. The first part is called The Pledge. The magician shows you something ordinary: a deck of cards, a bird or a man. He shows you this object. Perhaps he asks you to inspect it to see if it is indeed real, unaltered, normal. But of course... it probably isn't. The second act is called The Turn. The magician takes the ordinary something and makes it do something extraordinary. Now you're looking for the secret... but you won't find it, because of course you're not really looking. You don't really want to know. You want to be fooled. But you wouldn't clap yet. Because making something disappear isn't enough; you have to bring it back. That's why every magic trick has a third act, the hardest part, the part we call The Prestige.
Cutter

Com base nestas três fases do truque mágico, chega-nos esta magnífica e assombrosa construção: O Terceiro Passo. Dos mesmos autores de um dos maiores quebra-cabeças da História do Cinema - refiro-me, claro está, ao aclamado Memento -, surge-nos mais um sofisticado, engenhoso e intricado puzzle, uma experiência intensamente lúcida, fria e cerebral e, ao fim e ao cabo, um exercício mental tremendamente complexo, intrigante e imprevisível, capaz de rivalizar prontamente com o filme do virar do século. Christopher e Jonathan Nolan edificam uma narrativa criteriosamente fragmentada e elíptica, verdadeiramente exigente para com o espectador, onde tempo, espaço e verdade, as coordenadas essenciais da história, são, qual truque, hábil e criteriosamente baralhadas, diante dos nossos próprios olhos. Impõe-se o mistério, o enigma, o segredo. As pistas, no entanto, estão todas lá. Are you watching closely? Prepare-se, pois, para ser iludido.

I. THE PLEDGE

Londres, finais do século XIX. São-nos apresentados dois colegas e assistentes de um mágico, aspirantes à profissão. Hugh Jackman e Christian Bale - duas ilustres cabeças de cartaz, diga-se de passagem - assumem, respectivamente, os papéis de Robert Angier e de Alfred Borden. Após a morte da jovem esposa de Angier, partner no arriscadíssimo número do tanque, ficam as suspeitas da envolvência de Borden em tão trágico desfecho: afinal, com que nó terá ele atado a belíssima e radiosa female, antes desta ter entrado na água? Resta a dúvida e, perante a incerteza, nasce a mágoa, o ódio e a rivalidade. A sede de vingança e, em nome dela, o sacrifício. Com plateias distintas daí em diante, tantas vezes disputando o protagonismo nas duas faces da mesma rua, Angier e Borden tornam-se mestres da ilusão, sempre um passo à frente, um do outro. A ambição e a inveja dos dois não conhecerá limites.

You're familiar with the phrase man's reach exceeds his grasp?It's a lie: man's grasp exceeds his nerve.

Angier revela-se um prodigioso showman, conquista a multidão com a sua grandiloquente oratória e esforça-se por trazer ao palco o número mais original. Many of you may be familiar with this technique, but for those of you who aren't, do not be alarmed. What you're about to see is considered safe. Borden, por sua vez, tem pouco jeito para lidar com o público. As ovações sucedem-se; contudo, a sua audácia ecoa no perigo, em técnicas e métodos inovadores e em atracções nunca dantes vistas, de difícil descodificação e, por isso mesmo, de improvável imitação. Secrets are my life.

The secret impresses no one. The trick you use it for is everything. (...) Never show anyone. They'll beg you and they'll flatter you for the secret, but as soon as you give it up... you'll be nothing to them.

II. THE TURN

Como que por magia, o espectador fica refém da narrativa, totalmente imobilizado e aprisionado. A atmosfera continua, tensa e pesada, sinistra e macabra. De cortar a respiração e de fazer gelar os nervos, verdadeiramente. O realizador põe à prova a disposição da sua audiência; testa, pelo brilhante mind game, as fronteiras psicológicas da sua arte. Are you watching closely? Por um lado, os elevados valores de produção mostram-se determinantes para a criação dessa atmosfera. Tanto o primor estético da iluminação e da fotografia (por irrepreensível talento do já conceituado Wally Pfister), como o refinado e irretocável arrojo da direcção artística (Nathan Crowley, Kevin Kavanaugh, Julie Ochipinti) e do guarda-roupa (Joan Bergin) autentificam a viagem no tempo. Por outro lado, igualmente decisivas e absorventes, as exímias composições musicais de David Julyan; um trabalho inteiramente notável. Depois, é claro, a montagem. Haverá revelação mais extraordinária, em todo o filme, do que a da destreza inconfundível de Lee Smith? Em flashback ou em flash-foward, ou até mesmo no presente diegético... que acutilantes e extasiantes manobras narrativas, que corte! Espantoso. Tão trabalhosa quão deliciosa seria, certamente, a prática da découpage num filme como este. Não determina a montagem senão a cadência e o ritmo da obra, pactuando e tanto para esse sombrio mistério que se complexifica em todas as voltas e reviravoltas com as quais somos, inevitavel e surpreendentemente, confrontados.

Os actores e as personagens. Imediatamente e à primeira vista, diria que se há falha neste O Terceiro Passo é a ausência de personagens amplamente dimensionadas. Reflectindo, porém, sobre a matéria, concluo que essa crítica seria não só inapropriada como injusta. Se pensarmos bem, é precisamente naquilo que se esconde sobre as personagens e naquilo que as personagens escondem sobre si próprias que assenta o enigma. Revelar para além do mínimo indispensável, no que às personagens diz respeito, iria contra a natureza do próprio filme. Os actores estão muito bem nos seus papéis (tanto os principais, Jackman e Bale, como os secundários Michael Caine, Rebecca Hall, Andy Serkis e David Bowie; apenas Scarlett Johansson parece perdida no seu jogo duplo) e só uma reflexão posterior ao próprio filme (porventura, após várias visualizações) restituirá uma dimensão maior e legítima a cada uma das personagens.

Após uma sangrenta e cruel sucessão de sabotagens, eis que O Homem Transportado - a última, grandiosa e indecifrável ilusão de Borden - vem elevar as hostilidades entre os dois artistas a um patamar obsessivo e fatal. A real magician tries to invent something new, that other magicians are gonna scratch their heads over. Em que consiste o número? Borden atira uma bola ao chão, numa das extremidades do palco, e desaparece por uma porta, reaparecendo, em seguida, numa outra porta, precisamente na outra extremidade do palco e apanhando a bola numa delirante salva de palmas. Como se faz? Não se sabe. Cutter, a perspicaz personagem de Caine, diz que o truque reside no recurso a um duplo. It was the greatest magic trick I've ever seen. Angier arranja rapidamente um duplo e imita o inimigo, numa apresentação bem mais elaborada e aparatosa, contudo não se convence de que a solução seja assim tão simples: deste modo, terminaria sempre o espectáculo sob o palco e o duplo, ainda que a tresandar de bêbedo, é que saborearia, uma e outra vez, o reconhecimento do anfiteatro. No one cares about the man in the box, the man who disappears. Consistiria a magia de Borden, então, em verdadeira magia? Que conhecimentos adquiriu Borden, afinal, ao ponto de ter ultrapassado Angier, quiçá definitivamente?

Na ânsia de desvendar o segredo, Angier viaja até Colorado Springs, onde conhece o histórico cientista Nikola Tesla, rival de Thomas Edison e um dos pioneiros da energia eléctrica. É no laboratório do visionário que O Terceiro Passo desenvolve uma ideia mais rebuscada e principia um rumo inesperado no campo do fantástico, distanciando-se do registo até então cultuado mas jamais caindo no ridículo. Pelo contrário, o mistério adensa-se ainda mais e as hipóteses para quebrar o enigma, no jogo que se estabelece com o espectador, expandem-se para além daquilo que é humanamente possível. Aquilo que Tesla promete a Angier é a construção de uma máquina de teleportação, por meio da qual o ilusionismo tocaria o divino.

The truly extraordinary is not permitted in science and industry. Perhaps you'll find more luck in your field, where people are happy to be mystified. You will find what you are looking for in this box. Alley has written you a thorough set of instructions. I add only one suggestion on using the machine: destroy it. Drop it to the bottom of the deepest ocean. Such a thing will bring you only misery.
Nikola Tesla

III. THE PRESTIGE

As aparências iludem. Are you watching closely? Nada é como parece. Nada é como nos foi apresentado ou como nos foi dado a entender. You're looking for the secret... but you won't find it, because of course you're not really looking. As pistas estavam todas lá e é com os derradeiros twists que nos apercebemos da eficácia dos artifícios narrativos. Fomos enganados, iludidos. Cedemos ao truque. O cinema, como grande caixa de teleportação, é a verdadeira magia... e O Homem Transportado é cada um de nós, espectadores. Para além da história das rivalidades entre os dois excelentes mágicos, para além do puzzle que somos activamente convidados a montar, O Terceiro Passo é a metáfora do próprio cinema, a arte da ilusão, e, por meio dele, surge-nos este magistral ilusionista do cinema contemporâneo: Christopher Nolan.

You never understood, why we did this. The audience knows the truth: the world is simple. It's miserable, solid all the way through. But if you could fool them, even for a second, then you can make them wonder, and then you... then you got to see something really special... you really don't know?... it was... it was the look on their faces...

É tudo uma questão de encenação e de manipulação, no cinema.

Grande, grande filme. Um aplauso.

9 comentários:

  1. Um dos filmes mais bem conseguidos sobre a busca do artista pela perfeição.

    Espero a crítica (e pontuação) com ansiedade.

    Abraço!

    ResponderEliminar
  2. Genial esse filme. Estou até lendo o livro. Aguardo a crítica.

    ResponderEliminar
  3. SAM: É sobre muito mais do que isso, felizmente. Aí está a crítica e a pontuação. É um estimulante e refinado pedaço de cinema.

    WALLY: Aí está, a crítica. Penso que fala por si.

    RICARDO VIEIRA: Ainda não vi A ORIGEM, é já um dos próximos filmes que verei e publicarei a crítica em breve, mas até à data é O TERCEIRO PASSO aquele que considero o melhor filme do realizador.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

    ResponderEliminar
  4. Um grande filme sem dúvida, em acordo absoluto. E grande crítica, cada vez mais depuras as obras, atingindo análises, reflexões ou descrições surpreendentes e muito bem feitas.

    Aqui tem-se uma história de rivalidade, de procura pela perfeição, de dedicação e sacrifício, e de magia claro. Magia que no meu entender se perde um pouco com uma segunda e terceira visualizações. Felizmente que o filme tem mais para oferecer, sendo que se percebe a opção dos twists e das revelações, aliás será mesmo onde atinge o expoente máximo de coerência e excelência narrativa e artística.

    Para além do enorme argumento, e de uma realização fantástica, equilibrada e coesa, ainda se tem uma fotografia e um ambiente detalhado e envolvente (para o espectador), e uma montagem incisiva e acutilante. Muito boa mesmo. A banda sonora sendo interessante, não me cativou e me parece que talvez pudesse ter estado mais presente, enaltecendo e intemporalizando algumas cenas. No entanto, percebo a opção, e tal como numa sessão de magia, o silêncio e a contenção resultará. E aqui indubitavelmente, com música a mais ou não, funciona.

    Não é o meu preferido de Nolan, já o foi, actualmente talvez num top 3 ou 4. Mas vê o Inception, não sei se vais gostar tanto como este, mas estou ansioso pela crítica.

    abraço

    ResponderEliminar
  5. E esta é uma estimulante e refinada dissecação de um grande filme que representa um exemplo perfeito do poder ilusório (tal como referiste) do Cinema.

    Cumps cinéfilos.

    ResponderEliminar
  6. JORGE: Muito obrigado. Não resiste a perguntar-te: qual é o teu top Nolan?

    SOFIA SANTOS: Provavelmente. Tendo a partilhar da mesma opinião. MEMENTO é também muito bom.

    SAM: Muito obrigado. Representa, efectivamente, tudo isso.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

    ResponderEliminar
  7. O meu top Nolan:

    1 - Inception
    2 - Memento ou The Dark Knight
    3 - The Prestige
    4 - Batman Begins
    5 - Insomnia

    De dizer que os três (ou quatro) primeiros estão muito muito próximos, e Insomnia uns furos abaixo de todos, num patamar diferente. Ainda assim é um bom filme.

    Do sua filmografia falta-me o Following apenas.

    abraço

    ResponderEliminar

Comente e participe. O seu testemunho enriquece este encontro de opiniões.

Volte sempre e confira as respostas dadas aos seus comentários.

Obrigado.

CINEROAD ©2016 de Roberto Simões