segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

OS FILHOS DO HOMEM (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Children of Men
Realização: Alfonso Cuarón
Principais Actores: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine, Chiwetel Ejiofor, Claire-Hope Ashitey, Pam Ferris, Danny Huston, Peter Mullan, Charlie Hunnam

Crítica:

A DISTOPIA
E A ESPERANÇA DO AMANHÃ


As the sound of the playgrounds faded, the despair set in.
Very odd, what happens in a world without children's voices.

Eis, visceral e redentora, uma obra verdadeiramente assombrosa. Uma experiência esteticamente ímpar, social e sociologicamente pertinente, politicamente provocadora, religiosamente reveladora. De um realismo impressionante, Os Filhos do Homem é, por certo, uma das mais credíveis e mais bem conseguidas incursões futurísticas da história do cinema.

A realização de Alfonso Cuarón é magistral e o seu método de filmar, ainda que aparentemente deambulatório, é preciso. E perfeito: câmera na mão, longos (e às vezes frenéticos) planos-sequência sem cortes e um trabalho de encenação ao pormenor. Cenas como a do cerco inesperado dos rebeldes ao carro em movimento, a da fuga difícil aos traidores terroristas ou mesmo aqueloutra em que o choro de criança silencia o horror da batalha são absolutamente magníficas e revelam um refinado sentido de orquestração e de subtileza.

I can't really remember when I last had any hope, and I certainly can't remember when anyone else did either. Because really, since women stopped being able to have babies, what's left to hope for?

Mais do que uma mera história de fuga e de acção, Cuarón propõe, num segundo plano*, um riquíssimo universo de reflexão e de confluência estética. A deslumbrante cinematografia de Emmanuel Lubezki, assim como o excelente e detalhado trabalho de cenografia, revela-se um dos trunfos maiores da obra para a criação de todo aquele cenário apocalíptico, caótico e sujo. A banda sonora, quando por breves instantes do silêncio ecoa ou do tormento das armas se desprende, evoca, com grande espiritualidade, a acalmia impossível de todo aquele mundo de descrença, de guerra e de inevitável extinção. O trabalho de montagem é notável. Destacam-se também as acertadas escolhas de casting, em especial o extraordinário desempenho de Michael Caine. O argumento, esse, imerso em símbolos, analogias, profecias e sátira, revela-se um exercício de muito boa escrita que, mais do que visitar o futuro, anseia reconhecer o presente.

And now one for all the nostalgics out there. A blast from the past all the way back from 2003, that beautiful time when people refused to accept that the future was just around the corner.

Enfim... uma obra de arte e um grande pedaço de cinema. Brilhante.


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*A respeito, diz mesmo Slavoj Zizek, nos extras do DVD: The true focus of the film is there: in the background.

14 comentários:

  1. Confesso que tive uma pequena desilusão com este filme... Não sei explicar porquê.

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  2. Ainda não consegui ver este filme !

    Abraços .

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  3. Olá

    Este foi um dos melhores filmes de 2006. A Julianne Moore está ótima, apesar da participação pequena, mas quem se destaca mesmo é o Clive Owen. Os pontos positivos do filme são os cenários, a fotografia e as jogadas de câmeras. Tem uma cena que podemos ver que foi sem corte: tem explosão, fuga, tiroteio, tudo...
    PERFEITO. Mas por que você se desiludiu?

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  4. [Filipe Machado, suponho que o Altieres se dirigiu a ti.]

    [Altieres, agradecia que nas próximas intervenções te dirijas directamente aos intervenientes do debate. Obrigado.]

    Cumps.
    Filipe Assis
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  5. Gostei bastante do filme. A cena que o Altieres refere é muito boa mesmo. POr vezes quase que parece real, estilo documentário... Excelente.

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  6. Filmaço! Definitivamente, o marco na carreira do Alfonso Cuarón. A fotografia é simplesmente arrebatadora...

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  7. No aguarde de um comentário positivo.
    Uma das obras-primas da década.

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  8. Nada de especial, filme que pretende ser um drama apocalíptico e de ficção científica mas que acaba por se tornar num filme recheado de tiros e fugas, inconclusivo e sobretudo cheio de clichés. Não digo que seja mau filme, reflecte no amor, no racismo, nesse futuro apocalíptico, enfim na humanidade, mas perde-se nessa acção desnecessária e vale essencialmente pela interpretação do Clive Owen.
    Ideal para ver num sábado ou domingo à tarde num dos nossos canais nacionais.

    Abraços

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  9. FILIPE MACHADO: Também não sei. A primeira vez que o vi também a tive, mas decerto teve a ver com a má qualidade da cópia. Há muito que me deixei de edições não-originais.

    GABRIEL VON BORELL: Vê! É muito bom, a crítica fala por si no que à minha opinião diz respeito.

    ALTIERES BRUNO MACHADO JUNIOR: Sem dúvida, um dos melhores de 2006. Eu acho que quem se destaca mesmo é Michael Caine. Mas Clive Owen está também muito bem, de facto. Tecnicamente, o filme é irrepreensível.

    THESUBSIDAL: Sim, o filme é muito realístico. A filmagem, à documentário, é espectacular.

    ROBERTO QUEIROZ: Subscrevo inteiramente. :)

    GUSTAVO H.R.: Aí tens a crítica já disponível. A não ser uma obra-prima, andará lá muito muito perto, sem dúvida!

    ÁLVARO MARTINS: Tem os seus clichès e convoca as mais variadas referências, mas não se cola a nenhuma obra, é muito autónomo e singular, este filme. Não creio que se perca em acção desnecessária e em fugas. Isso é o que se passa em primeiro plano. Mas o filme de Cuarón tem todo um segundo plano que, não tão directamente, mas evidentemente convida a reflexões profundas e cede ao filme um conteúdo profundamente notável, tanto a nível artístico como a nível não-artístico. Sugiro-te uma revisão da obra, porventura mais atenta. Talvez a tua opinião mude senão substancialmente, pelo menos um pouco.

    Cumps.
    Filipe Assis
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  10. É um dos filmes que farão parte da minha coleção de DVD. A edição e a câmera solta são pontos que valem ser ressaltados nesta produção.

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  11. Confesso que ainda não o vi, embora tenha a Edição Especial na minha colecção. Depois da crítica, certamente que me despacharei a vê-lo :p

    abraço

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  12. ANDERSON SIQUEIRA: Sem dúvida. É um grande filme para qualquer DVDteca. ;)

    JACKSON: É um filme que vale a pena ser visto, um grande pedaço do melhor cinema.

    Cumps.
    Filipe Assis
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  13. Lady in the Radiator26 de junho de 2009 às 23:51

    talvez este comentário chegue atrasado, mas deixa ver seu eu percebi: o seven leva Bom e o Children of Men Muito Bom. Neste caso concordo integralmente com o que o Álvaro Martins referiu: o filme é demasiado óbvio, cheio de clichés, com um fio narrativo ao soluços que necessita da acção e impacto visual para avançar. Do Cuaron conheço alguma coisa (a incursão no universo Harry Potter, o Y tu mamá tambien e este) e devo dizer-te que não me surpreende e duvido que num futuro próximo o faça

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  14. LADY IN THE RADIATOR: Primeiro que tudo, são filmes completamente distintos e a comparação fará apenas sentido mediante alguns gostos de cinéfilos ou admiradores das obras. Pessoalmente, por exemplo, prefiro este OS FILHOS DO HOMEM a SETE PECADOS MORTAIS. São gostos. E não concordo com o teu ponto de vista sobre esta assombrosa obra de Cuarón.

    Cumps.
    Roberto Simões
    » CINEROAD - A Estrada do Cinema «

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