domingo, 20 de junho de 2010

DR. ESTRANHO AMOR (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb
Realização: Stanley Kubrick
Principais Actores: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, James Earl Jones

Crítica:


A IRONIA DA GUERRA


One of our base commanders, he had a sort of... well, he went a little funny in the head... you know... just a little... funny.

Dr. Estranho Amor
é ambíguo no título e no subtítulo (Ou: Como Aprender A Deixar De Me Preocupar E A Amar A Bomba) e é ambíguo no retrato que faz da condição humana. Explora, por um lado, o absurdo e ridículo da guerra, da política e da diplomacia inócuas e as consequências inesperadas mas sempre possíveis da loucura, da paranóia e do medo de um mundo à beira do desastre e por demais perdido no caos da ameaça nuclear. Por outro lado, o filme metaforiza - e é nesse estilo que ganha contornos globais e intemporais.

A obra exemplifica como a guerra pode servir e alimentar os propósitos individuais dos poderosos. Aqueles políticos da Grande Sala são os estrategas dos destinos do mundo, ocupados com o jogo da Guerra, como se este não passasse de uma competitiva corrida de testosterona, onde a "bomba no alvo" é algo bem explícito e desprovido de metáforas; como se a Guerra fosse um mal pelo qual se acaba por desenvolver um autêntico Estranho Amor, do qual se extrai múltiplas vantagens pessoais. Note-se a personagem de George C. Scott (aqui num desempenho de overacting formidável) que tanto se empenha em evitar o conflito e que, por fim, se sente seduzido pela bomba e pelos seus hipotéticos proveitos sexuais. A personagem Dr. Estranho Amor é, das três versáteis e extraordinárias interpretações do genial Peter Sellers, a que simboliza melhor, muito provavelmente, toda a ambiguidade do filme: faz parte do conselho de guerra, aparentemente inofensivo, e, no entanto, trata-se de um lunático e reprimido nazi, sinistro e maquiavélico, mestre de bombas, com as ideias mais avassaladoras, monstruosas e perigosas, ainda que fisicamente impotente e aprisionado numa cadeira de rodas.

De um humor negro e corrosivo, Dr. Estranho Amor impõe-se politicamente satírico e provocador e implicitamente tão sexual: desde os unusuais créditos iniciais até ao seu desfecho apocalíptico. E se pelo título e subtítulo já é sugestivo que baste, por meio do seu perpicaz, audacioso e muito bem escrito argumento (já para não falar da genialidade do art concept dos cenários ou da sublime e paradoxal utilização da banda sonora), Stanley Kubrick concebe aquela que é, para mim e indiscutivelmente, uma das melhores comédias de sempre.

BANDO À PARTE (1964)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Bande à part
Realização: Jean-Luc Godard

Principais Actores: Anna Karina, Danièle Girard, Louisa Colpeyn, Chantal Darget, Sami Frey, Claude Brasseur, Georges Staquet, Ernest Menzer, Jean-Claude Rémoleux

Crítica:

OS REBELDES

Pour les spectateurs qui rentrent en ce moment dans la salle tout ce qu'on peut dire ce sont quelques mots pris au hasard: il y a trois semaines, pas mal d'argent, un cours d'anglais, une maison près de la rivière, une jeune fille romantique.
Narrador

É simples, mas virtuoso como poucos. É espontâneo, intimista, carismático. Tem uma narrativa linear, plena de homenagens ao cinema de Hollywood (ao western, ao musical e sobretudo ao cinema policial: Je vais faire de Bande à part un petit film de série Z comme certains films américains que j'aime bien. Jean-Luc Godard), mas nem por isso deixa de quebrar convenções: o narrador/autor conduz a história com várias interrupções, manipulando-a quando bem pretende: Ici on pourrait ouvrir une parenthèse et parler des sentiments d'Odile, de Franz et d'Arthur, mais, après tout, tout est déjà assez clair, mieux vaut donc laisser parler les images et fermer la parenthèse. É, por isso mesmo, moderno, ainda que, segundo Elliot, tout ce qui est nouveau est de ce fait automatiquement traditionnel.

Há sensibilidade na arte de filmar - extrema sensibilidade, extrema delicadeza. O preto e branco é belíssimo e luminoso. O talento do director de fotografia Raoul Coutard e do realizador Jean-Luc Godard aliam-se magistralmente - penso que isso é claro - numa experiência descomprometida e artisticamente prazerosa. A forma como são filmados os actores, por exemplo, emana uma graciosidade extraordinária.
Cenas memoráveis são inúmeras. O final então é surpreendente. Mas destaco especialmente três: une vraie minute de silence peut durer une éternité (a verdade é assumida em absoluto, para além do plano ficcional e quebrando a construção da mimesis), a dança do trio no bar (mais um momento inesperado e de uma inspiração tremenda) e a icónica corrida pelo Louvre:


Arthur déclara qu'il fallait attendre la nuit pour faire le coup et respecter ainsi a tradition des mauvais policiers de série B. Que faire alors pour tuer le temps qui s'éternise demanda Odile Frantz avait lu dans France-Soir qu'un américain avait mis 9 minutes 45 secondes pour visiter le musée du Louvre, ils décidèrent de faire mieux...
En 9 minutes 43 secondes Arthur, Odile et Frantz avaient battu le record établi par Jimmy Johnson de San Francisco.


Eis, pois, um feito singular e pessoal. Irreverente e jovial, de tamanho bom gosto e assumidamente consciente de si próprio. Grande filme.

Mon histoire finit là, comme dans un roman bon marché, à cet instant superbe de l'existence où rien ne décline, rien ne dégrade, rien ne déçois. Et c'est dans un prochain film que l'on vous racontera, en CinémaScope et Technicolor cette fois les aventures d'Odile et de Frantz dans les pays chauds.
Narrador

quinta-feira, 17 de junho de 2010

LADRÕES DE BICICLETAS (1948)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Ladri di Biciclette
Realização: Vittorio de Sica


Principais Actores: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Vittorio Antonucci, Gino Saltamerenda, Giulio Chiari, Elena Altieri, Carlo Jachino, Michele Sakara

Crítica:

A OCASIÃO FAZ O LADRÃO

Profundamente tocante e humano, Ladrões de Bicicletas é a prova irrefutável de como se podem criar obras de arte genuinamente brilhantes e inspiradoras a partir de escassos recursos. O neo-realismo italiano, aliás, foi o responsável por vários desses casos.

Magnificamente fotografado (Carlo Montuori) e musicalmente orquestrado (Alessandro Cicognini), é com a maior compaixão que seguimos o difícil percurso de Antonio Ricci (de corpo e alma interpretado por Lamberto Maggiorani), que faz de tudo para superar a miséria: em busca de sustento, estabilidade e felicidade para uma humilde e modesta vida em família. Porém, o roubo fatídico da sua bicicleta porá todas essas aspirações em causa. É com o intuito de reaver a bibicleta que encabeça uma perseguição desesperada pelas ruas de uma Roma assolada pela guerra. A bicicleta significa tudo. E essas mesmas ruas enchem-se de bicicletas a cada plano... que nem chuva num Domingo... mas não estão ao alcance de todos. Por isso, o retrato social intensifica-se, fiel a uma realidade por demais dura e implacável, injusta e desigual. A demanda pela bicicleta dá-nos também a conhecer o evoluir da relação entre pai e filho, sujeita a uma educação muito franca e cuidada. Mais próximos do final, todavia, deparamo-nos, tal como o próprio Antonio, com a expansão do conflito moral a uma maior dimensão: no plano humano, aquilo que nos faz muitas vezes optar um caminho em detrimento de um outro é algo de muito ténue. E, no entanto, basta para marcar a diferença e definir quem somos. E é tão-pouco aquilo que separa ladrões e roubados. Quando Antonio confronta o ladrão, dá-se um twist significativo na sua ordem de valores; provavelmente precipitado, mas absolutamente compreensível, à luz das circunstâncias. O acontecimento levá-lo-á ao dilema. E o dilema à inversão da sua identidade e imagem social; algo danoso para o exemplo deixado a Bruno.

De forma simples, mas absolutamente poderoso e essencial na sua mensagem, Ladrões de Bicicletas assume-se facilmente como um conto intemporal e um filme de valor inestimável, um inesquecível e incontornável marco na História do Cinema.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

3 Grandes Obras Subvalorizadas (2)

Continua a nova rubrica.
3 Convidados Especiais dão a conhecer aquelas que são para eles 3 Grandes Obras Subvalorizadas da Década 2000.

| João Palhares, Cine ResortCigarette Burns (2005), de John Carpenter
Sílení (2005), de Jan Svankmajer
Ne Touchez pas la Hache (2007), de Jacques Rivette

| Jorge Teixeira, ComentadorPearl Harbor (2001), de Michael Bay
Lady in the Water (2006), de M. Night Shyamalan
Cinderella Man (2005), de Ron Howard

| Rui Francisco Pereira, CinemajbKingdom of Heaven Director's Cut (2005), de Ridley Scott
The Village (2004), de M. Night Shyamalan
The Butterfly Effect (2004), de Eric Bress e J. Mackye Gruber

terça-feira, 15 de junho de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (8)

A iniciativa aproxima-se do fim.
Ricardo Vieira, autor do blogue 35mm, aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos:

David Fincher
M. Night Shyamalan
Steven Spielberg
Darren Aronofsky
Hayao Miyazaki
Quentin Tarantino
Mel Gibson
Clint Eastwood
Christopher Nolan
Charles Chaplin

Um muito obrigado, Ricardo Vieira!

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

CHICAGO (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: Chicago
Realização: Rob Marshall

Principais Actores: Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones, Richard Gere, John C. Reilly, Queen Latifah, Chita Rivera, Taye Diggs, Lucy Liu


Crítica:

ALL THAT JAZZ !

Five, six, seven, eight! Crime, fama, espectáculo. Luz, som, acção! Ladies and gentlemen... the Onyx Club is proud to present... um autêntico e prodigioso êxtase de charme: um musical contagiante e vibrante, pleno de sensualidade, brilho e delírio, um pedaço de entretenimento faustoso, exuberante e extremamente divertido: Chicago! Da Broadway para o cinema, flui o jazz, o tango e uma sensacional miscelânea de estilos e ritmos, coreografados com toda a emoção e a lembrar o melhor de Bob Fosse, naquele que já se tornou um dos mais recentes clássicos do musical hollywoodiano.

Rob Marshall é o artista maior por detrás desta adaptação: o universo feminino de ambição, inveja, corrupção e farsa, partilhado por Roxie Hart, Velma Kelly e pelas criminosas do estabelecimento prisional de Chicago, sobe à ribalta, de novo e com todo o vigor. O protagonismo recai sobre Roxie (Renée Zellweger, num grande desempenho), a loira sem escrúpulos que sonhava tornar-se uma estrela. Para consegui-lo, vai para a cama com o influente Fred Casely. Os fins justificavam os meios. Contudo, quando se apercebe de que Fred a usava apenas para efeitos sexuais - You're a two-bit talent with skinny legs -, mata-o por impulso e sem pensar duas vezes: It was a murder, but not a crime! Coitado, coitado só mesmo o marido: humilde, bondoso e, acima de tudo, ingénuo, Amos Hart ainda mente à polícia, manipulado por ela e com fim a protegê-la. Interpretado por John C. Reilly, Amos virá ainda a progonizar mais tarde - na perfeição e absolutamente arrebatador - um dos mais intensos e dramáticos números musicais de toda a obra - pessoalmente, o meu preferido: Mr. Cellophane:

Cellophane, Mister Cellophane
Should have been my name
Mister Cellophane
Cause you can look right through me

Walk right by me
And never know I'm there.

Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones, numa entrega total ao papel) não é senão o ídolo de muitas rapariguinhas - Roxie Hart incluída, pois claro. Porém, Velma Kelly é uma estrela decadente. A traição e a sede de protagonismo levaram-na a matar a irmã, pondo fim à dupla de sucesso The Kelly Sisters. Quis o destino que se encontrassem, ela e Roxie, na prisão... sob o olhar da matrona Mama Morton - uma espécie de arranja-tudo capaz de subverter as leis do internato ao sabor do lucro próprio. Queen Latifah assume o papel dessa poderosíssima e engraçadíssima mulher, abonada pelo luxo e pela excelência do guarda-roupa de Colleen Atwood na sua intervenção musical:

There's a lot of favors
I'm prepared to do
You do one for Mama
She'll do one for you

(...) So what's the one conclusion
I can bring this number to?
When you're good to Mama...
Mama's good to you!

Pop! As gotas. Six! Os passos. Squish! O soar dos dedos. Uh-uh... o fósforo... Cicero! A música... Lipschitz! Os sons começam - quase sem que os notemos - e passam a repetir-se, a intensificar-se... a imaginação desperta e o musical começa. O encanto e sedução de uma cena como Cell Block Tango, ou O Tango das Assassinas, como gosto de chamar-lhe, são completamente inesgotáveis: Pop! Six! Squish! Uh-uh... Cicero! Lipschitz! A sequência, circular na sua estrutura, é um confessionário aberto, derradeiramente criativo. E se há coisa que não falta até ao fim da obra é criatividade: a apresentação do advogado Billy Flynn (corrupto, egoísta e sorridente, que nunca perdeu um caso e que não aceita nenhum caso por menos de 5000 dólares), por Richard Gere, a cena das marionetas, o enforcamento da inocente de leste ou o número final no show de estreia da mais recente e mediática dupla de artistas em Chicago.

Antes do sucesso e da concretização dos sonhos, o argumento de Bill Condon desemboca na barra dos tribunais - Flynn joga com a mentira e com os media a favor da absolvição das culpadas. As sessões do julgamento são hilariantes. As interpretações ficam ao rubro. Só a convencionalidade da história condiciona, a meu ver, a potencialidade do projecto para atingir a sublimidade.

Apesar disso, tudo o resto resulta triunfalmente. O arrojo de toda a produção, então, é surpreendente: os destaques vão para a direcção artística (John
Myhre e Gordon Sim) e para a fotografia (Dion Beebe). O trabalho de iluminação é absolutamente espantoso e notável, assim como a enérgica e imparável montagem de Martin Walsh ou a encenação teatral retumbante.

Dá gosto ver musicais assim. Espectacular!


Oh, I love my life...
And all... that... Jazz!

domingo, 13 de junho de 2010

PROMESSAS PERIGOSAS (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Eastern Promises
Realização: David Cronenberg

Principais Actores: Viggo Mortensen, Naomi Watts, Vincent Cassel, Armin Mueller-Stahl, Sinead Cusack


Crítica:

OS SENHORES DO CRIME

Será a violência justificada? Valerá a pena sucumbir à subversão dos valores morais? Quão longe está a fronteira dessa transgressão, perante a ameaça da morte?

Promessas Perigosas é como uma descida - visceral, mas a sangue frio - aos mais negros, violentos e ambíguos recônditos da natureza humana. David Cronenberg é exímio na sensibilidade com que retrata as feridas da alma e a importância da família e da tradição, numa era atormentada pela crise de valores. E derradeiramente subtil na crueza com que, paradoxalmente e sob o fio da navalha, expõe a brutalidade do corpo e o perigoso submundo da máfia russa numa Londres assombrada pelo crime, perversão e medo. O próprio Semyon, patriarca da família Vory v Zakone e ancestral do crime, aponta a cidade como a culpada para a perdição do filho: it never snows in this city. It’s never hot. London is a city of whores and queers. I think London is to blame for what he is.Com uma extraordinária direcção de actores, Promessas Perigosas arrecada interpretações verdadeiramente arrebatadoras: Viggo Mortensen, no melhor desempenho da sua carreira. Armin Mueller-Stahl, num papel memorável e assaz genuíno. Vincent Cassel, simplesmente magnífico. O argumento de Steven Knight, já por si extremamente bem concebido, desenvolve uma intriga crescente e ansiosa por catarse e atinge toda a sua plenitude com as prestações dos actores. O trabalho de encenação, esse, é igualmente sublime: a cena da sauna, para não falar de tantas outras, é magistralmente filmada e manifestamente... perfeita. E o resto da atmosfera cronenberguiana, tão psicologicamente estimulante, emerge gritante... nos dedos, nos pescoços, nas tatuagens... sob os ritmos da leitura do diário e da descoberta, da revelação... da reflexão...

Grande filme? Absolutamente. Sem sombra de toda e qualquer dúvida.

O SENHOR DOS ANÉIS - O REGRESSO DO REI (2003)

sábado, 12 de junho de 2010

FALA COM ELA (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Hable Con Ella
Realização: Pedro Almodóvar
Principais Actores: Javier Cámara, Dario Grandinetti, Rosario Flores, Leonor Watling, Geraldine Chaplin

Crítica:


O BAILADO


Da morte emerge a vida. Do masculino emerge o feminino. Do terreno emerge (...)
o etéreo. O impálpável. O fantasmagórico.

Fala com Ela é, provavelmente, a mais lírica das obras de Almodóvar: uma dança vibrante, imersa em sentimento, com sede de infinito. Na verdade, consiste num bailado: o primeiro passo é dado ao som de The Fairy Queen, de Purcell, pela consagrada Pina Baush. Os restantes passos ressoam em movimentos inesperados com os avanços imprevisíveis do argumento. Os pares são formados por Marco, Lydia, Benigno e Alicia. Não importa que os elementos femininos se percam no abismo do sono profundo: o estado de coma. Mesmo de corpo imóvel, a dança far-se-á. Afinal, o cérebro das mulheres é um mistério, ainda mais neste estado, garante o dedicado Benigno.

É tão curiosa como interessante a representação da mulher nesta obra do realizador. Em Fala com Ela, a mulher prescinde da sua imagem sensual e sexual: Lydia é toureira engravatada e enfrenta destemidamente a besta, que nem um homem. Alicia, embora pratique ballet, não passa de um corpo despido que aguarda, no desconhecido, o desconhecido. Aqui, as mulheres ou se encontram desesperadas ou corroídas pelo destino. Transfiguradas pela dança.

Já a imagem do homem, como habitual em Almodóvar, carece de todo e qualquer machismo. Benigno é introvertido na sua sexualidade (latentes estão as suas preferências sexuais) e vive assumida e intensamente apaixonado pela paciente. Marco é de lágrima fácil, revelando uma exacerbada sensibilidade. São homens de sentimentos e, tal como as mulheres para a sua convencional representação, rejeitam qualquer estereótipo da figura masculina - o que nos leva a destacar a ausência clara de diferenciadores sexuais: são puras figuras humanas que amam e querem ser amadas e que tentam evitar a solidão. São, afinal, bailarinos deste grande espectáculo que é a vida, e para o qual é imprescindível um par.

O par é, note-se, um tópico fundamental nesta obra. São sucessivas as referências, a jeito de legenda, aos pares: Marco y Lydia, Alicia y Benigno, Marco y Alicia. Os pares mudam consoante as reviravoltas da vida, proporcionadas pela dança existencial do caos. Só entre pares é possível o diálogo. Habla con ella, recomenda o enfermeiro.

Outro elemento importante na análise do argumento, magnífico em toda a sua densidade criativa, é o papel do tempo: há avanços consecutivos e por meio das elipses a narrativa avança. Outras vezes recua, por meio de analepses, para uma maior compreensão da história. Há espaço, ainda, para uma breve incursão pelo cinema mudo, magistralmente orquestrado por Alberto Iglesias, onde sobressai a fulgurante obsessão pelo corpo e o erotismo inerente. Quando Benigno possui Alicia e a desperta do coma, a ética humana é posta em causa e, ao mesmo tempo, o caos como agente positivo é tomado em forte consideração. Enfim, reflexões extremamente pertinentes. Dotado de uma palete reduzida, onde abundam o vermelho, o laranja e o azul, há que destacar ainda a simples mas eficiente mise-en-scène.

Hipnótico, comovedor e encantador, Fala Com Ela é cinema em grande, onde o profundamente íntimo ascende, por identificação, ao plano universal.

AUSTRÁLIA (2008)

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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões