terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O HOBBIT - UMA VIAGEM INESPERADA (2012)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Hobbit: An Unexpected Journey
Realização: Peter Jackson
Principais Atores: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, James Nesbitt, Stephen Hunter, Dean O`Gorman, Aidan Turner, Billy Connolly, Cate Blanchett, Elijah Wood, Hugo Weaving, Christopher Lee, Andy Serkis, Sylvester McCoy 

Crítica:

A AVENTURA COMEÇA

In a hole in a ground, there lived a hobbit.

O Hobbit - Uma Viagem Inesperada marca o regresso à alta fantasia e ao maravilhoso universo da Terra Média, criado por Tolkien e recriado e imortalizado no cinema por Peter Jackson. É a tão aguardada prequela à magnífica trilogia O Senhor dos Anéis, dividida igualmente em três partes embora desta feita a partir de um livro apenas. Afinal, o imaginário de Tolkien constitui uma mina de ouro somente equiparável às galerias de tesouros de Erebor. Este primeiro tomo, na sua estrutura narrativa, assemelha-se muito à Irmandade do Anel. Abre no Shire verdejante - Howard Shore apronta-se a convocar a nostalgia, pelo arranjo melódico - no preciso dia em que abre O Senhor dos Anéis. Bilbo Baggins inicia os escritos e a narração no Fundo do Saco, no dia do seu aniversário. Frodo parte para a floresta, onde esperará por Gandalf. Estabelece-se pois, perfeitamente, a ponte com a saga já existente, ainda antes do prólogo sobre o Reino dos Anões e as aventuras de Bilbo (contratado como assaltante e herói improvável), do feiticeiro cinzento e de uma companhia de treze inusitados mas guerreiros anões - Thorin, Balin, Dwalin, Fili, Kili, Dori, Nori, Ori, Óin, Glóin, Bifur, Bofur e Bombur - que se seguem sessenta anos antes, de local em local como num road movie - e também com direito a paragem, pelo meio, em Rivendell -, rumo à Montanha Solitária, onde encontrarão o temível dragão Smaug, senhor das infindáveis riquezas de Thrór.

O primor, o detalhe e a sofisticação da Direção Artística (Dan Hennah, Ra Vincent & Simon Bright) é notável, em todos os cenários, aliando-se à beleza hipnótica da fotografia de Andrew Lesnie e aos efeitos digitais de ponta da Weta Digital (Joe Letteri, Eric Saindon, David Clayton & R. Christopher White). Mais uma vez, o deslumbramento a cada fotograma passa também - e tanto - pela beleza natural da Nova Zelândia, onde decorreram as filmagens. A caracterização (Peter King, Rick Findlater & Tami Lane) assume-se como um trabalho absolutamente portentoso; vejam-se por exemplo os looks que diferenciam cada um dos anões. O tom do filme, até pelo carácter infantil do conto, é muito mais cómico e desafogado e o grupo de anões que entra porta adentro e se instala em casa de Bilbo não deixa margem para dúvidas. Note-se a sequência do jantar, entre cânticos alegres e pratos voadores, que é simplesmente hilariante. Martin Freeman compõe um hobbit memorável, em todos os seus trejeitos e riqueza de carácter, numa junventude credível para o Bilbo de Ian Holm. Ian McKellen torna ao seu carismático e eloquente Gandalf, intenso em cada olhar e com a voz sempre tão bem colocada. Richard Armitage e o seu Thorin Escudo-de-Carvalho recupera, de certa forma, o halo do Aragorn de Viggo Mortensen. Herdeiro do trono, espera-se igualmente o regresso do rei, embora Thorin mostre sempre algum desprezo para com Bilbo ou, encoberto ou descoberto pela sua liderança, alguma sede de poder. Ostenta, claramente, uma dualidade na personalidade que Aragorn, mais sábio, jamais ostentou (ou ostentará, diegeticamente falando). Por fim, a destacar Radagast (Sylvester McCoy), o castanho, mago da natureza, personagem caricata quanto baste.

Após a introdução, necessariamente mais demorada, a história mantém-se fluída. O maravilhamento é contínuo e o sentido de Jackson para o espetáculo, para as imparáveis ação e diversão a grande escala, jamais param de nos surpreender. O confronto com os trolls ou a luta entre os Gigantes de Pedra resultam em cenas de puro entretenimento, assim como a montanha russa de emoções que nos está reservada para os confins das Montanhas Sombrias, repletas de goblins. Os nossos heróis escapam aos perigos, uma e outra vez; talvez os sintamos demasiado invencíveis. O culminar da perseguição de orcs sobre o desfiladeiro, liderada pelo assustador Azog - entre chamas, altas árvores e redentores vôos de águias - resulta num final fabuloso para este primeiro capítulo da trilogia. Os wargs serão, porventura, o calcanhar de Aquiles da equipa de efeitos especiais, pela pouca autenticidade alcançada, mas a sua presença nunca chega a ser dominante o suficiente para pôr o filme em causa. Os últimos instantes do tordo a esvoaçar de encontro ao antigo vulcão, onde um olho envolto em ouro desperta de um sono soberbo augura a mais entusiasmante e promissora continuação para a saga. A melhor cena do filme é a do encontro entre Bilbo e Gollum e a troca de adivinhas na escuridão. A encenação e a contracena entre Freeman e a criação digital tão humanamente interpretada por Andy Serkis é tremenda. Eis então a primeira aparição do Anel, que mudará o destino da missão e o destino de Bilbo - note-se como o hobbit pleno de dúvidas, receios e fraquezas do início dá lugar, progressivamente, a um ser cada vez mais engenhoso e corajoso. O Anel que despoletará anos mais tarde a destrutiva demanda de Frodo rumo ao coração de Mordor e a guerra dos Homens, que descobrimos em O Senhor dos Anéis.

Por tudo isto, O Hobbit - Uma Viagem Inesperada sobressai como um triunfante regresso à Terra Média. Puro deleite, um grande e emocionante filme de aventuras.

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