quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

AMOR (2012)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Amour
Realização: Michael Haneke
Principais Actores: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Rita Blanco, William Shimell, Laurent Capelluto

Crítica:

A PROVA DE AMOR

Les choses vont aller de plus en plus mal, et ensuite, ce sera fini.

Amor é, do ponto de vista visual, pura e assombrosa arte em movimento: a mise-en-scène de Haneke e a fotografia de Darius Khondji configuram autênticos e portentosos quadros, quase todos meticulosamente enquadrados e sem maior movimento de câmera, onde se descortinam luzes, sombras e os grandes vultos de expressividade e subtileza, os extraordinários atores Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Assistir à obra é, verdadeiramente, como contemplar e apreciar as enigmáticas pinturas de um museu (há inclusivé, a dado momento, uma sequência de pinturas que reclamam a liberdade pelas paisagens), onde se revelam segredos em olhares ou na sagrada disposição dos objetos - o apartamento é, também ele, personagem na companhia ou na solidão deste unido casal de velhos, até na morte. Se se tratasse de um filme mudo, Amor seria igualmente um filme belíssimo.

Quando os bombeiros arrombam com a porta e com o silêncio dos créditos iniciais, entramos, pela primeira vez, casa adentro. Sobre a cama jaz o corpo daquela mulher, idosa, falecida, entregue - para não dizer abandonada - ao dia e à noite do íntimo mausoléu, outrora lar de uma vida. Quando o plano se faz sobre uma plateia que aguarda em murmúrio pelo início de um concerto, procuramos, no tempo que nos é concedido, algum rosto familiar que, talvez não facilmente, encontraremos. Lá está o casal, expectante, pelo que está para vir. E quando regressam a casa, somos, tal como eles, feitos reféns, como que aprisionados. As futuras visitas não serão desejadas, mesmo que plenas de boa-vontade, como as dos vizinhos ou as da filha (Isabelle Huppert). As pessoas exteriores serão como que invasoras de privacidade ou de um refúgio muito deles, só deles, onde se fortalece um último isolamento, como que ensaiando ou preparando o fim. Quando Anne congela na mesa da cozinha, sofrendo o acidente vascular cerebral e assustando o marido Georges -  que cena absolutamente notável, a propósito - inicia-se o derradeiro estágio: a dignidade de Anne degradar-se-á de dia para dia e, com ela, o seu interesse e vontade de viver. Não importa mais que o marido a apoie em tudo (a dependência, os favores e os pedidos de desculpa multiplicam-se, aliás, a um nível constrangedor). Há como que uma força maior que lhe diz... chegou a hora.

Amor poderia chamar-se A Dor, sentimo-los ambos, em doses iguais. A história de Haneke e as profundas performances dos seus atores vêm expor, afinal, a aceitação da morte como um acto de amor. Como o acto inquestionavelmente maior de amor. Lá nos imaginamos a aceitar a morte da pessoa que mais amamos e estimamos, que nos fez companhia durante uma vida, que é - em primeira ou última instância - uma parte de nós próprios? É claro que tratar da mulher se afigura como uma certa forma de aprisionamento e Anne não aceita tornar-se um fardo. Mas não é essa a questão aqui: tratar Anne é mais do que uma obrigação social ou moral, é uma necessidade vital para Georges. O fim de Anne será o seu fim e Georges sabe e sente isso. O filme é, pois, o seu demorado e difícil processo de aceitação, à medida que a mulher vai perdendo a lucidez de encontro à demência e passa de uma meio-paralítica ciente de si e senhora da sua personalidade a um ser inútil e sem qualquer autonomia, quase criança, incapaz de tratar da sua própria higiene, impossibilitada de conseguir vingar a sua própria vontade.

Três momentos memoráveis: a curta embora aflitiva sequência do pesadelo, a bofetada capaz de suscitar as mais ambíguas e controversas reações e a decisão da almofada, ipsis verbis, que julgo, no entanto, acabamos por compreender e perdoar. A questão da culpa é tremendamente - e duplamente - devastadora para a personagem de Jean-Louis Trintignant: há a culpa por alimentar a vida da mulher, contrariando-a e de certo modo prolongando o seu sofrimento, de forma egoísta, e há a culpa final, por facilitar a libertação pelo ação que a ética ou o seu coração, em parte, condenam. O protagonista atravessa, pois, um dilema brutal e que o consumirá até ao último delírio.

De entre o retrato e a austeridade formal de Haneke, brota - uma vez mais - a crueldade. Desta vez, contudo, oriunda na ternura e na humanidade do amor. Talvez por isso, Amor seja uma das suas mais impiedosas obras; e tão bem que Schubert se lhe combina.

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