quinta-feira, 2 de março de 2017

CAVALO DE GUERRA (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★ 
Título Original: War Horse
Realização: Steven Spielberg
Principais Actores: Jeremy Irvine, Peter Mullan, Emily Watson, Niels Arestrup, David Thewlis, Tom Hiddleston, Benedict Cumberbatch, Celine Buckens, Toby Kebbell, Patrick Kennedy, Leonhard Carow, David Kross, Matt Milne, Robert Emms, Eddie Marsan

Crítica:

O SOLDADO INQUEBRÁVEL 

 What a strange beast you've become.

A Terra de Ninguém não foi também, certamente, lugar para indefesos cavalos, tornados fiéis e inseparáveis companheiros de batalha, pela cruel e humana necessidade da guerra. Vítimas sem palavra, quantos não foram os milhões de animais em cujos golpes desferidos se revelaram fatais? Eram criados e seleccionados para se transformarem, quais tanques, em autênticas máquinas de guerra, capazes de ajudar o homem nas mais possantes e surpreendentes investidas que, na maior parte das vezes, eram decisivas e ditavam a vitória. O poder da cavalaria seria crescentemente substituído pela força aérea, mas em guerras como a Primeira, que o filme retrata, a marcha dos equídeos ainda tinha uma importância vital, tanto no ataque como na tracção de armamento, mercadoria ou carroças de socorro e auxílio médico.

Cavalo de Guerra, magistral triunfo de Steven Spielberg, toca vários géneros: começa pelo melodrama familiar - algures entre as mais belas e bucólicas paisagens de Devon, Inglaterra - não raras vezes pontuado pelo cómico e pelas virtuosas e bem-humoradas notas de John Williams. Aí conhecemos o jovem Albert Narracott (Jeremy Irvine), o seu pai alcoólatra (Peter Mulan), a sua combativa mãe (Emily Watson) e as dificuldades económicas da sua família. Certo dia, encorajado pela bebida, o pai chega-lhe a casa com Joey, o cavalo que vira nascer no campo vizinho e que desde logo o fascinara: um forte animal embora sem aparente utilidade agrícola. Sob a ameaça iminente de ficar sem ele, Albert dedicar-se-á a treiná-lo, incansavelmente, provando a todos que a besta é capaz de lavrar a terra e de safar a família do sufoco financeiro. Mas o destino estava escrito e Albert destinado a ficar sem o amigo. Pela força das circunstâncias, o pai vende-o na aldeia a militares de partida para o confronto e a separação é inevitável. Daí em diante, Joey tornar-se-á o cavalo do título, ora do lado das tropas aliadas ora do lado dos impérios centrais, ao sabor dos eventos, da acção, mudando a vida daqueles com os quais interage. Albert, depreende-se a dada cena, alistar-se-á no exército, sempre na esperança de reencontrar o cavalo. Cavalo de Guerra transita, pois, do drama para o filme de guerra. O filme sobre animais, que commumente vemos direccionados para o público mais jovem ou infantil, torna-se mais sério, assim como se torna mais séria a realidade histórica. O protagonista - o cavalo - abandona o núcleo familiar e percorre outros núcleos, sempre acompanhado de grandes actores: primeiramente Tom Hiddleston e Benedict Cumberbatch, passando pelo promissor David Kross e chegando a instalar-se no moinho e quinta de Niels Arestrup. Nós acompanhamos a sua demanda e a sua viagem emocional. E esperamos o reencontro com o dono original que, sabemos e tememos, é improvável.

Concretizando a história e o filme, se há coisa de que Spielberg jamais prescinde é do sentimentalismo da abordagem - sendo este o seu principal trunfo, é simultaneamente este o alvo maior das críticas negativas que o filme recebeu. A este respeito direi duas coisas: (1) acontece que Cavalo de Guerra é um filme de coração - um projecto que sublima, sobre todas as coisas, as emoções e os sentimentos. Cantá-los e suscitá-los no espectador nada tem de mal e nada tem de errado. Atacar um filme, tão-somente, por este apelar ao sentimento é tão ridículo e absurdo, parece-me, como rejeitar Laranja Mecânica ou Clube de Combate por serem niilistas. Há os bons e os mais filmes, sirvam-se eles de que formas, meios ou linguagens. É importante e bonito falar de emoções e ainda é mais importante e bonito senti-las. Por outro lado, há que dizer o seguinte: (2) podemos não gostar de todos os animais e ter especial afeição por esta ou aquela espécie, mas gostar de animais torna-nos seres com coração e mostra o coração que há em nós - torna-nos, definitivamente, seres humanos mais sensíveis e, por isso, melhores. Duvidarei sempre daquele que disser categoricamente não gostar de animais. Se gostarmos de animais - e sobretudo se tivermos ou já tivermos tido um animal como companheiro, nem que seja um gato ou cão - entenderemos a linguagem do filme, compreenderemos perfeitamente a dor de nos separarmos de um animal de estimação e o desnorte do animal cada vez que fica órfão ou muda de dono e, creio, entregar-nos-emos mais facilmente e de braços abertos ao sentimentalismo do qual a obra se serve. É que partilhar o dia-a-dia com um animal é partilhar um sem fim de sentimentos e energias - que não se vêem nem se traduzem por palavras -, tantas vezes pelo olhar, pela temperatura, pelo toque ou vibração. Spielberg resiste a humanizar o cavalo e tão-pouco roça a fábula; não obstante, Cavalo de Guerra tem o encanto de ambas as intenções. Os animais sentem, mas não falam. Por isso também se distinguem dos seres humanos, sendo mais puros. Eles sentem e é por meio dos sentimentos que comunicam connosco. Por isso mesmo julgo fazer todo o sentido que o cineasta recorra ao sentimentalismo como forma privilegiada para contar esta história e para extrair dela toda a sua beleza, potencial e nobreza. Apraz-nos lembrar Spielberg, a propósito, como um dos mais eficazes herdeiros da arte do cinema familiar e de conduzir o espectador à comoção. É uma arte, senhores, é uma arte. 

Aquela icónica cena em que Joey, assustado, galopa pelo confronto adentro, indiferente a frentes ou lados, caindo nas trincheiras artilhadas, erguendo-se e saltando barreiras como nunca e acabando por arrancar vedações de arame farpado que o ferem, prendem e, às tantas, imobilizam é... de partir o coração; tanto que possibilita a inter-ajuda e solidariedade de inimigos na sua própria salvação. Em tempos de guerra, a inesperada união... possibilitada por um cavalo. A cena lembra o cigarro da união de A Grande Parada (1925), de King Vidor ou a noite da consoada de Feliz Natal (2005), de Christian Carion, em que em prol de um bem comum se fizeram cedências à violência e um gesto de fraternidade foi possível. Uma cena memorável e decisiva para o final que se aproxima.

Se há filme em que a tela transborda de beleza a cada instante é este Cavalo de Guerra. Janusz Kaminski (lendário colaborador de Spielberg desde A Lista de Schindler) maravilha-nos com visões campestres, magnânimos céus e a luz do entardecer. A silhueta no horizonte alaranjado daquele final resulta belíssima, profundamente poética. Vêm-nos à memória, não raras as vezes, os planos e enquadramentos de John Ford e Kurosawa. A direcção artística é notável (Rick Carter, Lee Sandales). John Williams está quase omnipresente, ao serviço da sensibilidade dramatúrgica e o trabalho de sonoplastia mostra-se igualmente cooperante e preponderante para esses efeitos. No inferno da peleja, Spielberg opta por não mostrar o sangue e a visceralidade de O Resgate do Soldado Ryan - tratam-se de propostas distintas e singulares. Cavalo de Guerra destina-se claramente a um público mais transversal. No entanto, tomadas como aquela, à entrada da floresta e após uma salva de metralhadoras, em que nos é mostrado um plano de dezenas e dezenas da cavalos mortos entre soldados - num filme como este - acaba por ser bastante impactante à sua maneira. O filme tece-lhes, a essas corajosas vítimas de quatro patas, uma declarada e merecida homenagem.

Poucos serão os filmes sobre animais, à data, tão sérios quanto Cavalo de Guerra. Sem dúvida, um dos melhores filmes de 2011 - e com tudo para se tornar um clássico.

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