quinta-feira, 3 de setembro de 2009

MÁ EDUCAÇÃO (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: La Mala Educación
Realização: Pedro Almodóvar
Principais Actores: Gael García Bernal, Daniel Gímenez Cacho, Fele Martínez, Lluís Homar, Francisco Boira, Nacho Pérez

Crítica:

A MISE EN ABYME
ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE DA FICÇÃO

Má Educação é um extraordinário exercício narrativo que, num inesgotável jogo de espelhos, viaja não só entre diferentes níveis diegéticos como estica as relações narrativas para além-diegese.

O primeiro indício desse processo de construção narrativa surge logo na passagem do genérico inicial para o filme em si. O genérico inicial finaliza, pois, com: guión y dirección Pedro Almodóvar. E o primeiro plano do filme, como que dando continuidade ao genérico, espelha-o com: guión y dirección Enrique Goded.

Vamos à análise das unidades narrativas, que são três (U1, U2 e U3):
U1 - Enrique lê o conto de Ignacio A Visita, que lhe foi entregue por Juan (o falso Ignacio)
U2 - Acção do conto da U1 (A Visita): o Padre Manolo lê o conto de Ignacio, que lhe foi entregue por Zahara, interpretada por Juan (o falso Ignacio)
U3 - Acção do conto da U2: a infância de Ignacio

As três unidades de acção encontram-se, pois, umas dentro das outras, criando o efeito das famosas caixas chinesas ou das tradicionais bonecas russas, as marioskas. Simplificam-se, nesta primeira parte do filme, pelo esquema:

Má Educação =

O argumento do filme trata o ajuste de contas com o passado. Por isso, quando Enrique Goded visita a mãe de Ignacio e descobre que este está morto, sendo que Juan se faz passar pelo falecido irmão, dá-se o grande twist. A partir deste momento, extingue-se a organização que acima esquematizei e a narrativa é unificada numa só acção. A U2 revela-se como sendo o filme de Enrique Goded, que é realizado na U1. A U3 é não existe mais. E quando o verdadeiro Padre Manolo aparece, inicia-se uma nova unidade intradiegética (a U4), na qual o agora Sr. Berenguer narra a Enrique a morte de Ignacio e desmistifica a verdade sobre Juan.

Depois, o filme termina e ficamos a saber que, tal como Almodóvar, Enrique continua até hoje a fazer filmes. A comparação entre os dois é absolutamente legítima e enriquecedora. Aliás, é com esta comparação que aquela passagem do genérico inicial para o filme em si ganha todo um renovado fôlego semântico. E não falo em autobiografia (o próprio Almodóvar nunca assumiu influências autobiográficas na história do filme; e mesmo que assumisse isso seria algo não só difícil de comprovar como desinteressante do ponto de vista literário). Refiro-me, pois, a uma clara sinédoque justificada por essa similitude entre Enrique e Almodóvar e que, de modo evidente, amplifica o jogo de espelhos numa relação meta-diegética.

Para além do argumento, Má Educação conta com uma interpretação assombrosa, versátil e transfiguradora de Gael García Bernal. Ainda com excelentes escolhas de casting (note-se o restante elenco), magnificamente encenado e com uma mise-en-scène que é um primor, o filme de Almodóvar é uma concepção magistral de sedução: nos enquadramentos, nas cores da fotografia, na arte de filmar, na montagem criativa (sobretudo entre níveis diegéticos) ou na sensível e arrepiante banda sonora de Alberto Iglesias.

Em suma: um triunfo corajoso e absoluto.

14 comentários:

  1. tenho de confessar que nao gosto nada de Almodovar... parece que é daqueles que teve um problema de complexo de édipo qualquer.. mas isto sou eu... eheh

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  2. Mesmo que Pedro Almodóvar não fale em referências auto-biográficas, a verdade é que nos filmes que tenho visto nota-se que o cineasta usa sempre temáticas relativas às suas vivências...

    Uma crítica profundíssima! Parabéns! Só quando vir o filme é que a vou perceber totalmente. xD

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  3. JOÃO BASTOS: Não sei se terá directamente a ver com o complexo de édipo, mas que - independentemente da sua sexualidade - Pedro Almodóvar tem qualquer coisa de promíscuo na sua forma artística, isso é indesmentível.
    A minha posição em relação à obra de Almodóvar é contraditória, uma vez que reconheço altas qualidades a algumas das suas obras e a outras nem por isso, muito pelo contrário.
    Apesar de tudo, viste este MÁ EDUCAÇÃO? O que achaste do filme?

    TIAGO RAMOS: Eu não conheço a biografia do autor, nem preciso conhecê-la, mas isso acontece sempre. Umas vezes é mais evidente do que outras.
    Obrigado pelos parabéns. A crítica é clara, mas profundamente analítica, pelo que se torna de difícil leitura. Assim como o filme de Almodóvar, cuja estrutura narrativa é claramente de leitura difícil.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  4. A crítica deixou-me ainda mais curiosa e com vontade de ver o filme :)

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  5. Gostei muito desse filme, gosto dos filmes do Almofovar apesar de as vezes nos deixarem meio contrangifos heheh. abraço!!!!

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  6. YIRIEN: Ainda bem! O filme é tremendamente bom. Aconselho-te vivamente.

    YGOR MORETTI FIORANTE: Creio compreendê-lo. Não há muito tabú nem prudência na abordagem de certos temas em Almodóvar, os quais não estamos habituados a encarar frontalmente.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  7. Parabéns pelo texto! Ainda bem que lhe reconheces o valor... este é, para mim, o melhor de Almodóvar e, curiosamente, é o que se afasta da figura da mulher. Ainda assim, o argumento, as interpretações e realização memoráveis tornam este MÁ EDUCAÇÃO um filme muito, muito bom.

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  8. Coincidentemente, ao escolher os filmes que assistiria nesse feriado de carnaval, me deparei com Má Educação. Não aluguei. Mas espero vê-lo, em breve.

    Em relação à obra de Almodóvar, não sou um grande fã. Acho alguns do seus filmes bem acima da média, mas o seu ritmo arrastado de contar uma história me incomoda, muitas vezes.

    Cinema para Desocupados

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  9. Reconheço-lhe a criatividade e o mérito, mas não faz de todo o meu género de filme.

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  10. FLÁVIO GONÇALVES: Muito obrigado! Também é o meu filme favorito do Almodóvar. O que por si só diz tudo ;D

    DIEGO RODRIGUES: Mesmo!

    MATEUS, O INDOLENTE: Pois. A minha opinião pessoal em relação à obra de Almodóvar é de contrastes. Há obras de que gosto muito e outras de que nem tanto. Esta é a minha favorita, assim como FALA COM ELA ou EM CARNE VIVA; obras que recomendo vivamente.

    CLÁUDIA GAMEIRO: Também não é o meu género favorito, mas adoro o filme! ;)

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD - A Estrada do Cinema

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  11. Olá! Sou fã de Almodóvar e considero "Má Educação" um de seus melhores trabalhos. A emoção explode na tela com esse filme, seja na forma de cores, transas ou diálogos extremamente bem elaborados.

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  12. Talvez o meu preferido do Almodóvar.

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  13. Fiquei "atordoada" com o Má Educação...Grande filme de Almodóvar, um filme complexo, difícil, tanto na temática como na execução, mas deveras belo e extraordinário! E Gael García Bernal é de facto prodigioso na sua interpretação!
    Excelente crítica!

    Cumprimentos

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