domingo, 24 de novembro de 2013

A VIDA DE PI (2012)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Life of Pi
Realização: Ang Lee
Principais Actores: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Ayush Tandon, Gautam Belur, Adil Hussain, Tabu, Ayan Khan, Mohd Abbas Khaleeli, Vibish Sivakumar, Rafe Spall, Gérard Depardieu, James Saito, Jun Naito, Andrea Di Stefano, Shravanthi Sainath, Elie Alouf

Crítica:

A ARCA DE PI

In the end, the whole of life becomes an act of letting go, 
but what always hurts the most is not taking a moment to say goodbye.

A Vida de Pi é, em si mesmo, um milagre, um acto de fé. Mesmo numa era em que os efeitos digitais se superam todos os dias, atingindo tantas vezes o impossível, a dúvida perdurava à tona, sem ceder... seria viável a adaptação do consagrado romance de Yann Martel à grande tela mágica? E depois de vislumbrar o filme... e de voltar a assisti-lo, ganhando maior consciência daquilo a que realmente assisti - do  tremendo trabalho, esforço e mérito por detrás de cada cena e de cada frame -, as dúvidas dissipam-se, tornando a conclusão tão clara e transparente como o reflexo dourado dos céus sobre a paz e a imensidão do oceano. A arrojada experiência visual e artística (tantos há que se deixam cegar, a priori, pela experiência ou pelo preconceito) confunde-se com a profunda viagem emocional, num filme absolutamente mágico e inspirador.

Doubt is useful, it keeps faith a living thing. 
After all, you cannot know the strength of your faith until it is tested. 

Parábola sobre o fim da inocência, sobre a religião e o seu significado na existência humana, a fluída narrativa demora-se no prazer de contar uma pequena grande história: a história do jovem Pi, que desde cedo descobre, questiona e abraça o hinduísmo, o cristianismo, o islamismo... como se ao conhecer cada face de Deus se completasse o mistério da vida. Thank you Vishnu, for introducing me to Christ, profere a dado momento. O pai, amante da ciência, para quem a religião é obscuridade, chega a gracejar-lhe: You only need to convert to three more religions, Piscine, and you'll spend your life on holiday. E acrescenta: If you believe in everything, you will end up not believing in anything at all.

Quando se vê forçado a abandonar, na companhia dos pais e do irmão, a exuberante Índia que sempre conheceu, o zoo da família onde cresceu ou a sua primeira paixão da adolescência pela procura de uma vida melhor, percebe que a sua vida nunca mais será a mesma. Ao atravessar a Fossa das Marianas, lugar mais profundo da Terra, uma tempestade tremenda assola o navio onde seguiam e a tragédia precipita-se para o naufrágio, irreversivelmente. Espera-o uma odisseia de sobrevivência: assustadoramente traumática, fustigante, extenuante. Um verdadeiro teste à sua coragem, à sua fé, à sua força.

Sabemos da história pela voz do Pi adulto (Irrfan Khan), que desde o início no-la relata em tom de mistério, testando também a nossa capacidade para acreditar no seu testemunho. Em pleno flashback, a tragédia dá progressivamente lugar à fábula, à fascinante contracena de
Suraj Sharma com uma zebra de perna partida, uma hiena faminta, uma oragotango maternal e claro... um tigre feroz, perigoso e por demais selvagem e persistente. Animals have souls... I have seen it in their eyes. Permitam-me o parênteses: fenomenal revelação, a do agora ator; trata-se de uma daquelas escolhas de casting que não só marcaram como transformaram o destino de um talentoso mas mero rapaz dos confins da Índia numa estrela eternamente global. Mérito do próprio e de toda uma equipa que o encontrou e preparou intensamente para os desígnios que o papel exigia; Ang Lee chegou a considerar-se, inclusivé, o seu guru. Suraj Sharma transfigura-se, física e emocionalmente, a um daqueles raros papéis de uma vida. A sua entrega é total e determinante para o sucesso deste arriscado projeto. 

Das provações do deserto - que é o mar aberto - ao delirante e desejado oásis da Ilha da Abundância, repleta de suricatas, da fome, frio e solidão à difícil e exigente relação com o tigre de Bengala, de nome Richard Parker - sobre todas, a mais prodigiosa criação da equipa de efeitos digitais, tão real na textura, na robustez, na captação de movimentos... até que ponto distinguimos o tigre autêntico deste artificial? -, da caça ao cardume de peixes alados à encantatória e colorida bioluminiscência das águas e seus microorganismos, ao gigante e imponente cetáceo que, explodindo das profundezas e brilhando ao luar, vem transcender o espetáculo de puro esplendor... A Vida da Pi é um feito derradeiramente belo e maravilhoso. São 227 dias de sobrevivência e de absoluta dádiva. 

As demais virtudes técnicas, que procuram a perfeição da imagem, conferindo-lhe um determinado estilo, ecoam no assombro e na excelência da fotografia de Claudio Miranda. E a banda sonora (Mychael Danna), outra das maravilhas da obra, é como que o guia espiritual, que nos conduz pela demanda e nos faz suscitar os mais variados sentimentos. E se A Vida da Pi é obra de delicada sensibilidade ou de fortes sentimentos, ou não fosse Ang Lee o cineasta por detrás desta fantástica visão. O 3D é a ferramenta utilizada, precisamente, para intensificar ainda mais a carga emocional, muito para além dos estímulos sensoriais dos quais, sabemos, é capaz. Ang Lee é eficaz no recurso; creio, não obstante, que o filme resulta extraordinariamente bem no 2D, pelo que o 3D, não sendo fundamental, também não é acessório.

Assumindo o triunfo do filme e que, na sua maior parte, pouco mais é do que um ator, uma embarcação e um tanque de água que a pós-produção transforma mais tarde em oceano, define um horizonte e um céu glorioso e adiciona as personagens virtuais... isto faz-nos pensar muito, nomeadamente sobre a própria definição de cinema e a sua essência artística. O que importa transmitir. E, claro, na sua relação simbólica, o rumo que aquela embarcação, representando o cinema, toma...

O desfecho é chocante para todos quantos ousaram acreditar. Quantos, mesmo conhecendo a segunda versão - que, sejamos sinceros, deve mais ao realismo - não preferem acreditar na fantasia poética?  So which story do you prefer? É uma forma - mais fácil - de superar a dor. So it goes with God.  
 
Não deixa de ser curioso que certos filmes nos ofusquem pela estranheza, na primeira vez que os vemos e que, mal lhes seja dada uma outra oportunidade, nos conquistem tão seguramente. Aconteceu-me mais uma vez com A Vida de Pi, não só pela expectativa, também pelo 3D que teima em parte em distrair-me, em distanciar-me do âmago das coisas e até em causar-me algum desconforto. Ao revê-lo, finalmente concentrado e inteiramente absorvido... A Vida de Pi consegue rasgar-nos o coração, mas ao mesmo tempo reconfortar-nos o espírito. É pleno de alma, mesmo no artifício. E isso... faz toda a diferença. Que pérola de filme.

2 comentários:

  1. Considero-o um bom filme, ou até um pouco mais que isso, mas, penso, não o elevo tanto como tu. Apesar disso, concordo, é um belíssimo filme, tão recente e já tão incompreendido, diria. Um dos melhores do seu ano, sem dúvida.

    Cumprimentos,
    Jorge Teixeira
    Caminho Largo

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  2. Gostei muito mais na 2ª visualização. Sem dúvida, um dos melhores do ano.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD

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