terça-feira, 19 de novembro de 2013

MEIA-NOITE EM PARIS (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Midnight in Paris
Realização: Woody Allen
Principais Actores: Owen Wilson, Rachel McAdams, Marion Cotillard, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Nina Arianda, Carla Bruni, Corey Stoll, Kathy Bates, Léa Seydoux

Crítica:

A IDADE DE OURO

I wanted to escape my present just like you wanted to escape yours. 
To a golden age.

A noite, a rua semi-iluminada de Paris, as badaladas. Num instante, o sonho invade a realidade e um insólito convite abre as portas para a impossível viagem no tempo. Que delicioso escape surrealista, o de poder visitar outras épocas, de poder pisar os locais de antes, de sentir o cheio e a aura de outrora, de conviver com as pessoas e os ídolos de antigamente... com personalidades como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald ou a mulher Zelda, Salvador Dalí, Luis Buñuel, Gertrude Stein ou Cole Porter que, no caso de Gil Pender (inesquecível personagem de Owen Wilson, alter-ego de Allen), povoam o imaginário mítico e adorado da Paris dos anos 20. Tornar o passado presente - Past is also present, diz o alucinado Dalí no filme, entre rinocerontes - é um desejo humano secular, mas tão mais um devaneio romântico, de artistas. Woody Allen concretiza essa visão onírica de forma absolutamente magistral, neste que é, por tantos motivos, um dos seus mais virtuosos filmes.

Nostalgia is denial - denial of the painful present... the name for this denial is golden age thinking - the erroneous notion that a different time period is better than the one ones living in - its a flaw in the romantic imagination of those people who find it difficult to cope with the present.  
Frase do pedante (Michael Sheen), que afirma conhecer o passado como se o tivesse vivido.

Há a sensação - comum a todas as gerações - de que a Idade de Ouro sempre foi, nunca será. Para Allen e Pender da atualidade, os boémios anos 20. Para Zelda dos anos 20, a Belle Epoque. Para Gauguin da Belle Epoque, La Renaissance. E assim sucessivamente. No passado é que era! Ó tempo, volta para trás! The present - Yes, the present always seems worse than the past but it can't be - to always think this generation is stupider and coarser than the last. Há sempre uma imensa sede de passado, pois the past is not dead. Actually, it’s not even past, já dizia Faulkner, como bem lembra Gil.

Tal como nós, espetadores, o protagonista ainda estranha o que lhe está a acontecer, inicialmente, mas depressa se rende ao fascínio e à fantasia:

I'm Gil Pender - I was with Hemingway and Picasso - Pablo Picasso - Ernest Hemingway - I'm Gil Pender from Pasadena - the Cub Scouts - I failed freshman English - I'm Gil Pender and my novel is with Gertrude Stein - I once worked at The House of Pies. I'm little Gil Pender. And that girl was so lovely. 

Que interessante seria, ficciona, delira, brinca. É tão engraçado assistir à conversa entre Gil e Buñuel, em que o americano lhe dá a ideia para fazer O Anjo Exterminador, subvertendo a lógica temporal das coisas. É tão engraçado ler, no presente, o diário de Adriana Dupree: I am in love with an American writer I just met named Gil Pender. É tão cómico que o detetive contratado para investigar os misteriosos passeios noturnos de Gil vá parar a uma luxuosa corte real, algures no passado histórico. É no passado que Gil se sente integrado, nunca no presente, incompreendido e mal-amado pela noiva Inez (Rachel McAdams). Na viagem, comparamos ainda cultura, arte e sociedade ao som de Porter, Offenbach, Parisi ou do para sempre associado Bistro Fada de Wrembel.

Não admira que, daqui a décadas, muitos sonhem com a Paris dos inícios do século XXI, cidade-luz que acolheu lendas do cinema como Woody Allen, notáveis atores como Owen Wilson ou Marion Cotillard, na rodagem de Meia-Noite em Paris; cidade que o cineasta tão bem retratou nos minutos iniciais da obra, como num postal ilustrado em movimento.

Que maravilhoso pedaço de cinema: ligeiro, despretensioso, embora pleno de criatividade e de vitalidade. Allen é primoroso na sua mise-en-scène, embora simples como sempre. Escasseiam as dúvidas de que se trata de mais um clássico instantâneo na sua filmografia. Nostálgica e absolutamente mágica, esta brilhante e bem-humurada ode à eterna Paris da arte e do amor.

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Nota especial para o belíssimo poster, que se funde com a arte de Van Gogh.

6 comentários:

  1. BRUNO CUNHA: Vale muito a pena. Admito que se possa tornar num clássico. O habitual desdém pelo "presente" recebe aqui um tratamento fantasioso e irresistível, com uma grande moral. O filme é todo ele excepcionalmente construído. Adorei, grande elenco, grande história, grande filme.
    Obrigado pelo comentário ;)

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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  2. Provavelmente também um dos meus preferidos do realizador (talvez a par com o Match Point), muito devido à graciosidade, inteligência, comicidade e leveza que o argumento e os diálogos primam, muitas vezes com excelência. No entanto continuo a achar que Allen não é genial (nem tão pouco mais ou menos) com a câmara, ainda que considere que neste caso consegue filmar belos planos (como fez com Manhattan), alguns com profundidade e substância assinaláveis. De realce ainda a bela fotografia e o retrato feito a Paris.

    abraço

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  3. JORGE: Partilho também da tua opinião no que se refere ao cineasta. O filme será um clássico instantâneo, aposto. É bom de mais. A vontade que eu tinha de apanhar a boleia para o passado!; não por nostalgia do desconhecido, quando muito não fosse pela oportunidade de conviver com os meus ídolos do passado. Incrível, a destreza com que Allen põe o conceito em filme.

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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  4. Gostei do filme, gostei da ideia e do argumento, mas no geral não considero que seja tamanha obra prima. Falta-lhe qualquer coisa de eterno que o Woody Allen conseguiu captar noutros filmes que não neste.

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  5. HOLLY: Também não considero o filme uma "obra-prima". Não obstante, considero-o um dos melhores de Woody Allen.

    Obrigado pelo seu comentário.

    Roberto Simões
    CINEROAD

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