domingo, 6 de novembro de 2011

O VISITANTE (2007)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Visitor
Realização: Thomas McCarthy
Principais Actores: Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Jekesai Gurira, Hiam Abbass, Marian Seldes, Maggie Moore, Michael Cumpsty, Bill McHenry, Richard Kind, Tzahi Moskovitz, Amir Arison, Neal Lerner

Crítica:

AO RITMO DO DJEMBÉ

Walter vive uma inexistência. A mulher faleceu, o filho vive em Londres e tem-se a si mesmo numa solidão inerte. É professor universitário, mas não encontra significado nas suas acções. Não tem sonhos e a sua realidade é um puro bocejo. Crise da meia idade? Aparentemente, tão mais do que isso. A performance de Richard Jenkins é simplesmente fenomenal: e a sublinhar está tanto o adjectivo quanto o provérbio. Na verdade, a serenidade, a autenticidade e diria mesmo naturalidade com que o actor interioriza e exterioriza a sua personagem são notáveis. É uma interpretação inteira, desde o olhar à expressão facial, aos ombros... o mínimo movimento corporal ganha uma importância incrível, no meio de tanta calma e passividade. A intensidade do drama vem muito do extraordinário trabalho de contenção de McCarthy (e de todo o minimalismo potenciado pelos enquadramentos, pela fotografia e pela banda sonora, que nos foca no essencial, sendo o essencial a dimensão humana das personagens e do argumento), mas vem sobremaneira deste acting tocante, arrebatador e impossivelmente sincero.

O título é... um excelente título. Creio que o mais difícil seria conseguir com que fizesse sentido; acaba não só por fazer todo o sentido como por ser um dos maiores trunfos do filme. Afinal, e se nos ficarmos apenas pelas breves linhas da sinopse, como é que alguém que vê, de um dia para o outro, o seu apartamento em Nova Iorque ocupado por um casal de imigrantes ilegais pode ser o visitante? Percebemos, a priori, que é Walter o protagonista e acabaremos por concluir que o visitante aqui não vem de fora, mas de dentro. Inesperadamente envolvido em toda a história de Tarek e Zainab, é ele quem toma de assalto uma existência (só ela poderia justificar uma trama) e se vê a desenvolver afectos, que crescem à medida da redescoberta de si próprio: de que está vivo, de que sente e de que estará sempre a tempo para quebrar a rotina, caminhando para a realização e para a felicidade. Quando muito não seja, caminhando para o sentido.

Com a prisão de Tarek e a ameaça da deportação para a Síria (país de onde é original), dá-se o twist nada previsto no seu percurso. De repente, Walter tem alguém com quem se importar, algo por que lutar. A causa de Tarek torna-se a sua causa, levando-o a cessar todas as suas obrigações profissionais, toda a sua vida - qual vida?, perguntar-me-ia ele, muito provavelmente - para ajudar Tarek. Com a chegada de Mouna (luminosa Hiam Abbass), a mãe do estrangeiro, Walter ganhará inclusivé um brilho no olhar, há muito perdido. Há ocasiões que podem mudar uma vida ou, neste caso, acordar uma vida, há muito adormecida. O djembé será sempre um símbolo: a linguagem universal da música, capaz de unir os mais distintos seres humanos pelo sentimento, sem preconceito - coisa que a política norte-americana e o sistema social não faz, sobretudo no pós 11 de Setembro -, e a batida que lhe despertará o coração para uma nova vida. Ou, pelo menos, assim esperamos nós.

O Visitante numa só palavra? Humanidade.

You can't just take people away like that. Do you hear me? He was a good man, a good person. It's not fair! We are not just helpless children! He had a life! Do you hear me? I mean, do you hear me? What's the matter with you?

12 comentários:

  1. Um filme fantástico, brutal e que nos toca. Humanidade é a palavra certa. Bela crítica, Roberto. Brevemente escreverei uma sobre este filme e depois trocaremos impressões.
    Grande Abraço.

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  2. CARLOS: Há quanto tempo ;) Não será fantástico ou brutal, digo eu, mas lá que nos toca é garantido. Quando publicares alguma coisa sobre o filme falaremos mais então.

    Roberto Simões
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  3. Sim não diria que se trata de um filme fantástico ou muito bom em qualquer departamento (exceptuando talvez a interpretação de Jenkins), mas que é de uma sensibilidade e contenção deliciosas lá isso é inegável. Destaco ainda a inserção da musicalidade no filme, de um sentido assaz inteligente e rítmico.

    abraço

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  4. Gostei muito deste filme. Como o Jorge disse, pode não ser um filme fantástico mas está mesmo à (minha) medida. Adoro o Richard Jenkins e sem dúvida que tem aqui uma excelente interpretação, mas o filme não se apoia apenas nisso.
    Gostei muito desta crítica, fiquei com a sensação que o Roberto sentiu qualquer coisa de muito parecido com o que eu senti quando vi o filme. Teria escolhido a mesma citação, não só pelas palavras mas por toda a cena.

    Cumprimentos

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  5. JORGE: Queres desenvolver esse aspecto da "inserção" da musicalidade no filme?

    FILIPA LEITE ROSA: Bem-vinda ao CINEROAD.
    Porventura, terei sentido, quem sabe. Se tivesse que escolher uma citação, não poderia escolher outra. Concretiza, pela voz de Jenkins, a cena crucial e mais emotiva do filme. Interessante perceber como a simples subida do volume da voz do actor, com um misto de agressividade, possibilita o momento mais alto do filme. Penso que diz muito sobre o filme.
    Volta sempre!

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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  6. O filme tem uma banda-sonora pouco presente, digamos, que só se nota de vez em quando muito subtilmente, se não contarmos com o djembé, claro. Daí que a musicalidade do filme seja nos dada através da narrativa, do desenvolvimento psicológico e de mudança do protagonista, o que é interessante se pensarmos nas potencialidades que esse conceito possui, aqui exploradas mas talvez não tanto como gostaria.

    abraço

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  7. Ainda não vi o filme mas fiquei bastante curioso quanto ao mesmo depois de ler a crítica.

    Cumprimentos,
    Aníbal Santiago

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  8. JORGE: "Daí que a musicalidade do filme seja nos dada através da narrativa, do desenvolvimento psicológico e de mudança do protagonista" - a musicalidade é-nos dada através da narrativa como assim?

    ANÍBAL SANTIAGO: Vale a pena, é um bom filme que recomendo.

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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  9. Não é a música que fornece e contribui, de forma evidente e autónoma, para o desenrolar da acção, mas sim ao contrário, é a narrativa que dá música, que estabelece condições e meios para oferecer a componente sonora ao espectador. Normalmente fala-e muito do papel influenciador da banda-sonora num filme, da capacidade que tem para emocionar, guiar sensações, por vezes sensibilizar mesmo. No entanto aqui parece-me que não será tão óbvio dado que a música surge naturalmente por meio dos acontecimentos, do djembé, e nem nos apercebemos do seu potencial. Enfim só um apontamento, não é o único caso em que a banda sonora essencialmente corresponde a próprias sonoridades do argumento.

    abraço

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  10. JORGE: Quando dizes "a narrativa que dá música" referes-te a música diegética (e aí estarás a falar exclusivamente das performances do djembé) ou a música não-diegética (e aí estarás a falar das composições de Jan A. P. Kaczmarek)? O que me causa maior estranheza no teu comentário é quando dizes que a "música surge naturalmente por meio dos acontecimentos". Naturalmente? Referes-te novamente à música diegética, é isso?

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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  11. Sim é isso, mas dou-te razão não fui totalmente esclarecedor, confundido os dois tipos de música. Mas sim refiro-me à música diegética (djembé) e não à composição de Kaczmarek, mais subtil, daí dizer que a narrativa nos dá música, ou o protagonista nos dá música literalmente, e por meio dela, dessa, os acontecimentos e as emoções surgem naturalmente como se de um vídeo real estivéssemos a assistir. Digamos que nesses tipos de situação se nota menos a influência dos intervenientes que fizeram o filme, e mais os intervenientes que "vemos", emocionando-nos simultaneamente ao mesmo tempo.

    Existem outros casos no cinema, por exemplo estou-me a lembrar no Rear Window do Hitchcock em que a banda sonora corresponde sempre ao piano do vizinho, que toca de vez em quando. Aqui a música diegética quase que se pode considerar praticamente a banda sonora, a composição arquitectada para o filme. Continua a ser propositada e planeada pelo realizador é verdade, mas o realismo é maior.

    abraço

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  12. JORGE: Estamos então totalmente de acordo, juro que não te estava a perceber. Penso que aqui mais banda sonora só prejudicaria. O filme tem uma forte carga emocional e não precisa da tanta música (Kaczmarek aliás é um grande compositor). Os silêncios falam mais alto e o minimalismo fica-lhe bem.
    Quanto a JANELA INDISCRETA de Hitchcock, conto falar dessa obra em breve ;)

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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