terça-feira, 17 de maio de 2011

O VALE ERA VERDE (1941)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: How Green Was My Valley
Realização: John Ford
Principais Actores: Walter Pidgeon, Maureen O'Hara, Anna Lee, Donald Crisp, Roddy McDowall, John Loder, Sara Allgood, Barry Fitzgerald, Patric Knowles

Crítica:

MEMÓRIA E NOSTALGIA

Memory... Strange that the mind will forget so much of what only this moment has passed, and yet hold clear and bright the memory of what happened years ago; of men and women long since dead.Huw Morgan

O Vale Era Verde vem reforçar a minha ideia a respeito (do trajecto) do cineasta John Ford: como é notável a façanha de, filme após filme, conseguir um inter-diálogo permanente entre cada uma das suas obras e, simultaneamente, concretizar pedaços de cinema tão distintos e versáteis, com tamanha mestria.

O filme, pelo argumento de Philip Dunne (e a partir do romance de Richard Llewellyn) confere um tom novelesco à trama: a sucessão de acontecimentos, de episódios e a colecção de memórias recapituladas pela analepse do narrador, que relembra os seus anos de infância e de juventude. Pelas alegrias e tristezas então experienciadas flui a narrativa, do drama à tragédia, da comédia ao romance.

Uma vez mais, neste filme, temos um leque de personagens sólidas, carinhosamente tratadas e brilhantemente tridimensionadas pelo elenco, numa apaixonante história de família. As relações pais-filhos, o pai e a mãe como alicerces da instituição e o complemento fundamental entre ambos (o patriarca que sustenta a casa e educa os filhos homens, a mãe dona-de-casa que educa as filhas e mima todos por igual), o papel das mulheres solteiras, os casamentos, nascimentos e funerais, o divórcio como vergonha e desgraça.

Por outro lado, as preocupações sociais: a comunidade mineira de trabalhadores, que tão sofridamente ganha o seu salário. As baixas de salários, a greve e a luta sindical, o socialismo. Tanto na família como na comunidade, as relações humanas, o cultivo da união. Inclusivé na capela, todos sentados ao Domingo; por mais hipocrisia que disfarcem. A fé, a devoção e a religião, também, como veículo de união entre as pessoas.

And by prayer, I don't mean shouting, mumbling, and wallowing like a hog in religious sentiment. Prayer is only another name for good, clean, direct thinking. When you pray, think. Think well what you're saying. Make your thoughts into things that are solid. In that way, your prayer will have strength, and that strength will become a part of you, body, mind, and spirit.
Sr. Gruffydd

Deus, pátria e família. Independentemente das conotações políticas, a conservadora tríade de ideais na qual reside o coração do filme. Eis, pois, a invocação dos tempos idos com saudade, perante um presente que se depreende tão menos rico em sentimentos e em humanidade.

Magnífica, a fotografia de Arthur C. Miller, desde o recorte dos montes aos contornos poluentes das chaminés da mina. Perfeita, a iluminação, cena a cena. Realce merecido para a direcção artística (Richard Day, Nathan Juran, Thomas Little). A banda sonora de Alfred Newman envolve-nos na viagem ao passado, acompanhando o emocionante crescimento do Huw, de benjamin a sonhador acamado, de erudito de banco de escola a rapaz do carvão, suado e tisnado. Nenhum médico ou advogado. Sem qualquer glória. Simplesmente, um filho de família ao peito - e quão valorosa é esta a sua opção.

Certamente, um dos melhores filmes de John Ford.

Men like my father cannot die. They are with me still, real in memory as they were in flesh, loving and beloved forever. How green was my valley then.
Huw Morgan

4 comentários:

  1. Um grande filme e uma grande crítica como já é hábito. Para mim é mesmo o meu Ford preferido, dos que vi claro. Adoro a estratégia de narração e de contemplação, Ford filma como ninguém, executa planos magníficos que contam e recontam cada cena, cada progressão, cada memória e cada personagem (magistralmente caracterizadas, de resto como referes no texto). Destaco ainda a belíssima fotografia, a deliciosa banda sonora e um argumento a todos os níveis intemporal. Se há memória no cinema este é um dos tais que a sustenta, pelo menos gostaria que assim fosse.

    O cineasta tem muitos títulos, daí que tenho ainda muito por explorar, mas do que vi gostaria de ver aqui a crítica ao The Man Who Shot Liberty Valance.

    abraço

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  2. Orson Welles disse: "I like the old masters, by which I mean John Ford, John Ford and John Ford."
    Não é só ele que pensa assim!
    Depois de ver muitos filmes, John Ford é o que fica na memória e no coração. Ele é a essência do cinema, simples, forte e desmedido como o seu (dele) Grand Canyon. Ainda bem que tive oportunidade de ver uma boa parte da filmografia de John Ford! Gosto do Vale era Verde, mas prefiro outros: A Desaparecida, A Caravana Perdida,O Homem Tranquilo, As Vinhas da Ira, O Sargento Negro... a descobrir por quem não conhece :)

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  3. JORGE: Merci. Subscrevo todos os teus apontamentos, é também um dos meus preferidos dele, mas até agora preferi AS VINHAS DA IRA. Mas enfim, ainda tenho muitos títulos por descobrir e outros tantos por redescobrir. Quanto a'O HOMEM QUE MATOU LIBERTY VALANCE está para breve, no CINEROAD.

    ELISABETE CARDOSO: A cada filme de Ford que vislumbro, uma enorme descoberto. Por isso, não poderia estar mais de acordo consigo. Ficam as recomendações ;)

    Roberto Simões
    CINEROAD

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  4. Finalmente viste ;) obra-prima, foi o meu primeiro Ford "a long time ago" eheh

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