quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

PROMETHEUS (2012)

PONTUAÇÃO: BOM 
★★★★ 
Título Original: Prometheus
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Idris Alba, Patrick Wilson, Robin Atkin Downes, Sean Harris, Rafe Spall, Emun Elliott, Benedict Wong, Kate Dickie, Ian Whyte 

Crítica:

A ORIGEM DE ALIEN

Big things have small beginnings.

Prometheus é a metáfora e a invocação do mito grego - significa: desafiar os deuses. É o nome dado à nave especial que, entre estrelas e galáxias, explora os mistérios do espaço cósmico, procurando respostas sobre a criação na Terra e sobre as origens da humanidade. E é também a promessa cumprida de Ridley Scott no regresso ao universo da ficção científica - género que, aliás, ajudou a cimentar -, tantos anos depois de Alien ou de Blade RunnerPrometheus é mesmo a prequela - nunca totalmente assumida - da saga Alien: tem um ponto de partida distinto, é certo, mas os desenvolvimentos da acção acabarão por justificar os acontecimentos decorridos na franquia e o nascimento do célebre monstro. Inclusivé, a nível narrativo, Prometheus e Alien partilham o mesmo ADN e alavancam toda uma mitologia própria.

Tanto mais do que em Alien, a carga filosófica é soberana em Prometheus: quem foi o nosso deus criador e porque nos abandonou? O filme avança a tese alienígena. Diferentes culturas da antiguidade, separadas pela distância, partilharam, misteriosamente, as mesmas referências, esculpidas na pedra. Os mesmos símbolos, a mesma indicação, o mesmo chamamento. Feitas as descobertas e identificado o seu significado, uma equipa de cientistas - convocada e financiada pela Weyland Corporation - parte para o infinito. Estamos no ano de 2093. David (brilhante desempenho de Michael Fassbender) é um replicante, enigmático mordomo da nave enquanto todos os outros tripulantes hibernam, há anos, mergulhados nas cápsulas de hipersono. O seu penteado replica, ao pormenor, o de Peter O'Toole em Lawrence da Arábia - filme que assiste durante a viagem e que citará mais tarde, pelo que depreendemos que o admire e que o tenha visto mais vezes: there is nothing in the desert and no man needs nothing. Mas não só a filmes assiste o robot humanóide: encontramo-lo, curioso, a invadir os sonhos e a privacidade dos colegas, graças à tecnologia de que a nave dispõe. Assiste nomeadamente ao sonho de Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), em que esta recebe do pai um colar com a cruz cristã. Quando a equipa é acordada, nas imediações do seu destino, passamos a conhecer a diretora da missão a bordo, a loira, deslumbrante embora absolutamente gélida Meredith Vickers (Charlize Theron), o bem-disposto capitão Janek (Idris Elba) e mais uma mão-cheia de camaradas que não tardarão a ser eliminados um a um, ao sabor do suspense e do aterrador desconhecido. Num holograma incrivelmente real é desfeita a confidencialidade da missão pelo próprio Peter Wayland (Guy Pearce, carregado de próteses e maquilagem como ancião fundador da empresa) e, finda a projecção, aterram finalmente no planeta sombrio, aparentemente estéril e irrespirável, onde se acredita que habitem os denominados Engenheiros, os nossos criadores.

Charlie (Logan Marshall-Green), namorado de Elizabeth: What we hoped to achieve was to meet our makers. To get answers. Why they even made us in the first place.
David: Why do you think your people made me?
Charlie: We made you because we could.
David: Can you imagine how disappointing it would be for you to hear the same thing from your creator?
Charlie: I guess it's good you can't be disappointed.

Entre ruínas e artefactos, acabarão por encontrar uma tripulação de cadáveres alienígenas, brutalmente extintos pelos seus próprios planos criativos e os indícios de que estes se preparavam para voltar à Terra, com fim a exterminar a sua criação. Quem disse que o nosso deus era bom e gostava de nós? Quem disse que se tratava de um mágico e não de um geneticista? Lá se vai o criacionismo conforme Elizabeth o entende, pensamos, ao que ela se apressa por contrapor: and who made them? A cruz que traz ao pescoço simboliza não só o criador do Homem como o seu próprio criador, dado que foi o próprio pai que lha deu. Não admira, por isso, que o colar lhe seja precioso, independentemente das revelações que se avizinhem no horizonte.

Podemos fazer por extrair mais teor filosófico do filme, mas, às tantas, na análise, deveremos focar-nos, parece-me, mais no que o filme efectivamente nos dá e não no que poderia dar-nos. É certo que o filme muito sugere e propõe, todavia jamais aprofunda por aí além as suas questões. Prometheus não é, definitivamente e apesar do seu interesse, um ensaio. A partir de dado momento, David continuará a desvendar segredos e a pôr o seu plano secreto em marcha, motivado sabe-se lá por que desígnios, e tenderemos a não confiar nele. Todavia, somos claramente reposicionados na narrativa - e o que mais importa agora é o silencioso despertar que a exploração humana provocou, inadvertidamente, na atmosfera das ruínas visitadas e a esguia, viscosa e emergente criatura que daí resultou e que, não tardará, começará a sufocar, sangrar e matar, ganhando alento, força e formas. É o acordar de um pesadelo adormecido. De set em set (magnífico design de produção do já lendário Arthur Max), alastra uma vertiginosa luta pela sobrevivência e contra o tempo, que dizimará, sem misericórdia, qualquer vertebrado arquejante. Como em Alien. Acelera-se o suspense e precipita-se a acção e a montagem de Pietro Scalia. A atmosfera densifica-se e agudiza-se radicalmente. A composição musical de Marc Streitenfeld, outrora épica e sonante que nem as criações de Vangelis, dá agora lugar a uma sonoridade obscura e arrepiante. Alia-se a fotografia e a iluminação de Dariusz Wolski, que primeiramente nos maravilhara e enchera de mistério, tanto na grande escala dos exteriores como na clausura dos interiores. Cada imagem espelha agora o medo e o pavor das personagens - e o dos espectadores. Até ao final, a sofisticação dos efeitos especiais será mais gritante do que nunca, conferindo credibilidade - e fascínio - à proposta. E até ao final, também, ficará a ambiguidade implícita relativamente à natureza andróide da personagem de Theron (dúvida não inédita e fórmula a que o cineasta, claramente, não resistiu. Não faz mal, nós gostamos destas coisas).

Alien: Covenant fará a ponte necessária entre Prometheus e a saga original. Duvido que sejam respondidas todas as questões - e que interesse teria se não ficasse uma réstia de mistério? É do mistério que estes filmes viveram, vivem e certamente viverão. Como na grande parte dos filmes de Scott, Prometheus resulta numa experiência prazerosa, visualmente impecável, e à qual não cansa voltar. Não concretiza, no entanto, todo o seu potencial - falta, no mínimo, mais espaço para os actores e para as suas personagens (que provavelmente a realização não permitiu) e cenas propriamente memoráveis, em que se alie o inspirado trabalho de câmera com a encenação; traduzir-se-ia isto numa maior maturação da narrativa e do objecto fílmico em si - equilíbrio em que Scott, infelizmente, falha mais vezes do que gostaria e do que os seus projectos certamente mereciam.

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