sábado, 25 de janeiro de 2014

O MÁGICO (2010)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: L'Illusionniste
Realização: Sylvain Chomet

Filme de Animação

Crítica:

ADEUS, ILUSIONISTA

Decorre o ano de 1959, o tempo dos ilusionistas acabou. «Os mágicos não existem», acaba o velho por revelar no final do filme, expondo o segredo que alimentou o fascínio, o imaginário e naturalmente a ingenuidade da graciosa Alice, a pobre jovem que
apadrinhou e conquistou (conquistou sem qualquer conotação amorosa; O Mágico não é filme para conotações desse tipo) numa das suas crepusculares viagens pela província escocesa.

Alice é mais uma solitária, como que abandonada no mundo, como o artista do espetáculo Tatischeff, ou o palhaço ou o ventríloquo, seus colegas de palco. Contudo, são solidões diferentes. A solidão de Tati - chamemo-lo Tati, pois não é se não Tati a ganhar vida novamente, magistralmente em todos os seus maneirismos de outrora, agora na forma de desenho animado -, a solidão de Tati não é tão-somente a solidão da velhice, é a solidão que adveio da chegada da modernidade - tema aliás central na filmografia de Tati. Chegaram os artistas pop que enchem os teatros e as salas de espetáculo, chegou a televisão e os automóveis onde tudo é automático. O fascínio do público pelos truques de magia, que se repetiram vezes sem conta de artista em artista, desapareceu com o vento, a chuva e o tempo. Note-se que o mágico só arrebata um caloroso aplauso num pub da província, a mesma onde conhece a jovem Alice. O palhaço tenta o suicídio, com a corda ao pescoço, e entrega-se ao álcool qual ventríloquo, que vende o seu boneco - companheiro de uma vida - e acaba na miséria. Chega inclusivé o tempo de Tati abandonar o seu coelho branco, gordo e malvado mas também companheiro, que antes temeu provar num prato de sopa quente, à natureza. O idade de ouro destes artistas, o tempo dos aplausos, está no passado, agora somente na memória ou na falta dela. A situação é cómica, por isso, quando Tati entra num teatro chamado Cameo e assiste a uma breve sequência do brilhante O Meu Tio, do próprio Jacques Tati, que satiriza, como sabemos, a chegada da modernidade e troça do automatismos quanto baste (aquela fonte em forma de peixe, no jardim, é por demais icónica).
Mise en abyme.

Sylvain Chomet volta à técnica e ao esplendor da animação do seu aclamado Belleville Rendez-Vous e concretiza o argumento original que o próprio Tati escreveu e nunca chegou a filmar. Enquanto espetadores, sentimo-nos muitas vezes a assistir a um filme do autor de Playtime - Vida Moderna: pelo protagonista e pela sua pantomima, pela ausência de diálogos simplesmente porque não são necessários, pela simplicidade das cenas e da mensagem. A visão de Chomet é enternecedora e, se não for trágica, transporta no seu olhar ondas de pura tristeza. A música do próprio perpetua essa melancolia, ao mesmo compasso com que a encenação nos encanta, com que cada luz se acende ou se apaga.

Alice é solitária porque desconhecemos se tem família, mas também porque é uma eterna descontente com a sua condição. Primeiro sonha com uns sapatos vermelhos, depois com um sobretudo chique e um vestido da moda. Por ser jovem, tem tempo para se adaptar à geração do consumo, só não tem dinheiro. Tati desenvolve especial afeição para com a rapariga, uma espécie de paternalismo, talvez como resposta ao maravilhamento da miúda perante cada ilusão. Ela acredita na magia, ao ponto do velho lhe oferecer os sapatos, juntar dinheiro para o sobretudo ou fazer um biscate para lhe pagar o vestido azul ou uns novos sapatos de salto alto. Por pura bondade. Ela, na sua ingenuidade, acredita que os presentes lhe aparecem por magia, mas desconhece o esforço do velho para lhe satisfazer os desejos. A magia do dinheiro é truque que o homem, na sua honestidade, não conhece. Ficando na moda, Alice sente-se integrada, arranja um namorado que a beija na esquina de uma Edimburgo belíssima e põe fim à solidão. Sem magia, perceberá que os sonhos se conseguem pelo trabalho e pela dedicação.

Com uma aura de outros tempos, O Mágico é um filme absolutamente encantador que encontra, na sua singularidade, uma saudosa e cinéfila homenagem, que as presentes gerações deverão sempre prezar e admirar. Sendo um filme de animação, é ainda curiosa a facilidade com que nos esquecemos disso, até que ponto interiorizamos a sua sentida representação da realidade. Há uma qualquer verdade que emana das suas imagens, compreendidas entre o paradoxo que se estabelece entre o título e a desilusão que a história, efetivamente, trata.

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