sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Last Temptation of Christ
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Willem Dafoe, Harvey Keitel, Paul Greco, Steve Shill, Verna Bloom, Barbara Hershey, Roberts Blossom, Barry Miller, Gary Basaraba, Irvin Kershner, Victor Argo, Michael Been, Paul Herman, John Lurie, Leo Burmester

Crítica:

O CRISTO PROIBIDO

I am the saint of blasphemy.

Depois de dezenas de representações de Cristo no cinema, todas mais ou menos consensuais (se não tivermos em conta, sobretudo, a versão superstar), eis que nos deparamos com aquela que será, porventura, uma das mais chocantes, ousadas e irreverentes. A partir do romance Nikos Kazantzakis, livremente baseado nas segradas escrituras, A Última Tentação de Cristo propõe-nos um retrato polémico e controverso, onde Jesus, mais do que o messias divinizado que os textos eternizaram, nos surge finalmente como um homem - um homem agoniado pelos seus conflitos interiores, duvidando da sua fé e da sua missão, sentindo o medo, o ódio e a culpa e desejando o pecado da carne como qualquer outro homem. Um homem dotado de livre arbítrio que, em última instância, se eternizou por vontade própria.

Father, will you listen to me? Are you still there? Will you listen to a selfish, unfaithful son? I fought you when you called, I resisted! I thought of no more. I didn't want to be your son! Can you forgive me?

A representação, pouco ortodoxa, atentará facilmente contra os mais devotos, mas é somente mais uma representação (que responde, claro está, a uma necessidade contemporânea de humanizar e desmistificar a figura histórica de Cristo). A questão é pertinente: se lembrarmos a alucionação de Cristo às portas da morte (que por si só justifica o título da obra), recordar-nos-emos daquela emblemática cena em que Jesus reencontra o cego-alvo-de-milagre a espalhar a palavra e a retratar o Filho de Deus, sendo que o próprio Filho de Deus não se revê nas suas palavras. Até que ponto não terão romanceado, os evangelhos, a vida e a palavra de Cristo, atendendo aos mais variados propósitos?

I'm a liar. A hypocrite. I'm afraid of everything. I never tell the truth. I don't have the courage. When I see a woman, I blush and look away. But inside I have lust. For God, I smother the lust, and that satisfies my pride. But my pride destroys Magdalene. I never steal or fight, or kill... not because I don't want to but because I'm afraid. I want to rebel against everything, everybody... against God!... but I'm afraid. If you look inside me you see fear, that's all. Fear is my mother, my father, my God.

O argumento Paul Schrader suscita um questionamento contínuo e uma reflexão profunda sobre a natureza das crenças instaladas, particularmente sobre as religiões cristãs. O twist final eleva, num cúmulo criativo, toda esta mensagem do filme. Enfim, grande exercício dramatúrgico, magistralmente filmado por Scorsese. Willem Dafoe compõe um Cristo memorável, em toda a complexidade que o papel exigia.
Peter Gabriel experimenta-nos as emoções, pela inspiração da música. A produção artística, dos cenários ao guarda-roupa, confere autenticidade à viagem no tempo e a fotografia de Michael Ballhaus perpetua a aridez do deserto na solidão da alma.
Mais um exemplo da versatilidade e da qualidade do cinema de Scorsese.

5 comentários:

  1. acrescento: Mais um exemplo da versatilidade e da qualidade da música de Peter Gabriel.

    Dafoe é demasiado branco e loiro para personificar Jesus, mas de resto está impecável ;)

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  2. LOOT: Concordo inteiramente com a primeira frase e tendo a concordar também com a segunda, ainda que tal evidência não tenha implicações maiores para a avaliação geral da obra, não é? :)

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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  3. Um dos melhores filmes de Scorsese, um projecto que dá que falar e que pensar. Muito melhor que o snuff-film do Mel Gibson. Cumprimentos

    http://onarradorsubjectivo.blogspot.com/

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  4. O NARRADOR SUBJECTIVO: Um grande filme de Scorsese, sem dúvida. Pessoalmente, contudo, prefiro o snuff-film do Gibson. Independentemente dos objectivos comerciais, vejo muita arte ali.

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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