sexta-feira, 28 de outubro de 2011

FÚRIA DE VIVER (1955)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Rebel Without a Cause
Realização: Nicholas Ray
Principais Actores: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo, Jim Backus, Ann Doran, Corey Allen, William Hopper, Rochelle Hudson, Dennis Hopper, Edward Platt, Steffi Sidney, Marietta Canty, Virginia Brissac, Beverly Long

Crítica:

JUVENTUDE REBELDE

If I had one day when I didn't have to be all confused and I didn't have to feel that I was ashamed of everything. If I felt that I belonged someplace. You know?
Jim

Haverá sempre um conflito geracional, que se acentua na adolescência. Insatisfeitos, inconformados, problemáticos e explosivos, os jovens sentem-se deslocados do mundo na procura de um lugar só seu, na procura da sua identidade. Discutem com os pais, discordam deles e da sua educação, sentem-se incompreendidos e revoltam-se. Sem paciência para hipocrisias, testam os seus limites como se fossem imortais - assim são os jovens em Fúria de Viver e assim é o retrato dos jovens de hoje e sempre.

James Dean imortalizou-se como ícone da juventude, em toda a sua ambiguidade: ternura e violência, que combinação mais improvável e provocante, não? No entanto, e por isso mesmo, tão real. Em parceria com o realizador Nicholas Ray concebeu aquela que é, provavelmente, a sua interpretação mais visceral. Dean é Jim: em colisão com a educação que recebe da família, arrisca a vida com irresponsabilidade, em nome da honra, só se envolvendo em confusões e em problemas sucessivos. No seu caso, as contradições entre o pai e a mãe funcionam mesmo como agente de disfuncionalidade:

You're tearing me apart!
You say one thing, he says another, and everybody changes back again.
Jim

Na acção, é por acaso que se entrecruzam na prisão, pela primeira vez, as três personagens centrais do filme - Jim, Judy e Platão -, mas não é por acaso que isso narrativamente acontece, claro. Não é por acaso que o filme abre na prisão. A prisão é local para onde vão todos aqueles que não respeitam a lei e a ordem. A prisão simboliza o futuro e a condenação da delinquência. Eis, pois, um prenúncio da acção que se seguirá. Três jovens, todos de boas famílias, cuja aparência ditaria, à partida, a felicidade, mas cuja a amizade servirá para sarar as demais feridas da alma. A amizade como construção de uma nova família, com novos ideais, como suporte fundamental.

O introvertido Platão (Sal Mineo) apaixonar-se-á por Jim, encontrando finalmente um amigo e um escape para os seus traumas e frustrações de infância, nomeadamente o abandono por parte dos pais. Marcará contraponto com o protagonista, cujas causas da rebeldia nascem no seio familiar. E Jim apaixonar-se-á por Judy (Natalie Wood), a menina bonita cujos beijos carinhosos o pai não aceita mais (temendo pela sua imagem pública ou quem sabe pelos seus desejos) e cujos amigos são meros idiotas para se divertir e sentir integrada. Um deles, Buzz, parece mesmo ser seu namorado, pelo que a aproximação de Jim não é, de todo, bem-vinda. I don't want any trouble, previne Jim, mas sem efeito. Terá lugar entre eles um perigoso duelo de facas, às portas do planetário. Mais tarde, a desafiante corrida para o precipício, que culminará de forma irreversivelmente trágica.

Buzz: You know something? I like you.
Jim: Why do we do this?
Buzz: You've gotta do something. Don't you?

Perante os contornos do crime, sobressai a incoerência da educação dos pais de Jim: o rapaz quer entregar-se à polícia, fazer o que está correcto e em nome da sua protecção a mãe é a primeira a dizer para não o fazer. O choque e sequente rebeldia parecem, pois, inevitáveis e inerentes à condição adolescente. Contudo, mostra-se tão ténue a fronteira entre a irreverência e a comum indisciplina e criminalidade fortuita. O desvio, o início do mau caminho... Fúria de Viver será, em última instância, sobre a violência em potência dentro de cada um de nós. Todo o ser o humano pode ser bom ou mau ou bom e mau ao mesmo tempo, consoante as circunstâncias da vida nos levem a revelar o melhor ou pior de nós. Sobretudo na juventude, em que o papel social dos indivíduos é indefinido. O filme apela à reflexão dos pais, mas estou certo de que também à dos filhos.

Socialmente crítico, consciente e depois influente, desde a coincidência do retrato com os espectadores ao culto e imitação do visual de James Dean (t-shirt branca, jeans e blusão vermelho), Nicholas Ray filmou um drama real com inegável elegância e apuro (note-se como isso ecoa nas cores e na iluminação - o filme estava inicialmente previsto para ser filmado a preto e branco - ou até, a nível narrativo, na própria cadência da montagem). Enfim, mais um clássico intemporal, estrelado por James Dean.

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Nota especial para infeliz escolha do título português.

2 comentários:

  1. Óptima crítica. :-) Um filme extraordinário que, entre os três com James Dean, é o meu preferido.

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  2. RUI GONÇALVES: Obrigado :) Dos três de James Dean não é o meu preferido, mas lá que é um filme e pêras, lá isso é ;) É, dos três, aquele que "menos" aprecio. Obrigado pela participação e volte sempre!

    Roberto Simões
    » CINEROAD «

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