sábado, 21 de fevereiro de 2009

THE FALL, segundo Carlos Duarte

O CINEROAD - A Estrada do Cinema inicia aqui uma parceria com vários críticos convidados, que de boa vontade aceitaram o convite de publicação das suas críticas sobre o filme...


THE FALL

Crítico Convidado: Carlos Duarte, autor do blog O Alto da Peúga
(http://oaltodapeuga.blogspot.com/)

Classificação: ***** - A não perder

Sinopse/Crítica: Às vezes pergunto-me como é possível que certos filmes não chegam a estrear-se nos cinemas. Num mundo vidrado e girado à volta da economia (o problema dos últimos tempos), como é que as distribuidoras portuguesas passaram ao lado de um título como The Fall, um excelente filme para ver numa sala de cinema? E a pergunta que se põe a seguir é porquê numa sala de cinema. Porquê? Porque concordo com aquela ideia de que um filme visto numa grande tela tem um maior impacto junto do espectador. E este teria, com toda a certeza.

Seis anos depois do seu filme de estreia A Cela (2000), com Jennifer Lopez, o realizador indiano Tarsem Singh presenteia-nos a sua grande obra até ao momento, The Fall, um projecto que levou quatro anos a ser concebido.

Inicio dos anos 20 do século XX. Alexandria e Roy são dois pacientes num hospital de Los Angeles que se encontram enfermos pela mesma razão: uma queda. Ela partiu um braço a apanhar laranjas e ele está paralisado da cintura para baixo por causa duma queda de cavalo. Um acidente de trabalho, já que Roy é duplo de cinema. Um simples acaso cruza estes dois seres e depressa se desenvolve uma empatia e uma amizade entre eles, graças a Roy, que começa a contar uma aventura épica a Alexandria. A imaginação da menina é tão intensa que rapidamente a realidade começa a ser confundida com a ficção.

Estamos perante um interessante exemplo cinematográfico de como é importante contar histórias. Mais interessante ainda é contar histórias dentro da história principal. Através da narração de Roy e da imaginação da pequena menina Alexandria vemos a narrativa avançar e a tomar formas, imagens, tal como nós quando lemos um livro e a nossa imaginação faz aparecer as imagens logo á nossa frente. Um pormenor curioso: Roy faz imensos intervalos, o que deixa Alexandria muito aborrecida, já que ele pára sempre na melhor parte. Existem duas significações possíveis, a meu ver, para tal acontecimento. Primeiro, para criar suspense, não desvendando logo muito, para tornar a história ainda mais cativante. Segundo, deixar o mundo da fantasia para voltar à realidade, à narrativa principal.

A aventura épica que está a ser narrada pelo duplo define desde logo a sua relação com a pequena menina. Uma amizade iniciada por culpa das suas enfermidades, que com o tempo e com o decorrer da história, se transforma num grande amor fraterno. A menina vê nele a figura paterna que já não tem e ele, que perdeu o grande amor da sua vida para outra pessoa devido ao seu estado de saúde, começa a perceber que tem ali alguém que gosta dele, que lhe quer bem e isso dá-lhe um novo sentido para vida. O espectador sente esta relação e consegue conectar-se com ela.

Para além da história, o filme destaca-se pela exuberância da sua fotografia e montagem.

Uma autêntica viagem pelo mundo. Diversos e diferentes locais duma enorme beleza paisagística e arquitectónica, ao qual não ficamos indiferentes. Parece que nos encontramos em locais mágicos, só possíveis nos nossos mais grandiosos sonhos. Planos deslumbrantes, quais telas pintadas, obras de arte duma rara beleza, criando atmosferas de fantasia e até uma estética própria. Um visual arrojado, cheio de cor e vida. Sublime é a palavra certa.

Existe também uma bela sequência de animação stop-motion (como em A Noiva Cadáver, de Tim Burton), que engrandece a diversidade estilística e artística do filme.

O filme é passado nos primórdios do cinema de Hollywood, anos 20. Cinema que ainda era mudo, mas que de mudo não tinha nada. Havia uma panóplia de sons que acompanhavam as imagens, como comprova a projecção cinematográfica final. Filme mudo com acompanhamento musical a violino. Percebe-se o fascínio vincado no rosto de Alexandria por aquelas imagens e em especial pelas acrobacias especiais do seu amigo Roy. Fascínio equiparável ao do pequeno Salvatore "Toto" Di Vita, em Cinema Paraíso (1988). Existem outras referências cinematográficas alusivas à história do cinema relativas às suas primeiras máquinas de projecção, os cinematógrafos. Por exemplo, numa das cenas iniciais, vemos um raio de luz solar que atravessa o buraco da fechadura duma porta e projecta uma imagem exterior na parede da sala. Um cavalo, ainda que invertido.

Contextualizado ainda mais, por essa altura, a Califórnia era já uma região de muito imigrantes, vindos de todos os cantos do planeta, especialmente para trabalharem nas vinhas e nos pomares de laranjeiras, duas das grandes produções agrícolas da zona.

The Fall é um filme que mostra a grande possibilidade fazer grandes trabalhos artísticos com uma bela e simples história. Porque o cinema ainda é fantasia, imaginação e é, sobretudo, magia. E é magia que faz falta nos filmes de hoje em dia. Magia.

Título: The Fall

Ano: 2006 (só estreou nos cinemas em 2008)

Realização: Tarsem Singh

Elenco: Lee Pace, Catinca Untaru, Justine Waddell, Daniel Caltagirone, Robin Smith, Jeetu Verma, Leo Bill e Marcus Wesley

Género: Fantasia, Aventura e Drama

País: Índia, Reino Unido e E.U.A.

Produção: Tarsem Singh, Ajit Singh e Tommy Turtle

Argumento: Dan Gilroy, Nico Soultanakis e Tarsem Singh, baseado no argumento de Valeri Petrov, do filme de 1981, Yo ho ho, de Zako Heskija

Música: Krishna Levy

Fotografia: Colin Watkinson

Montagem: Robert Duff

_____________________________________

Agradecimentos especiais a

Carlos Duarte

4 comentários:

  1. De nada, foi um prazer, ter algo publicado num outro blogue. Espero que tenhas gostado.

    ResponderEliminar
  2. Adorava ver o filme, a sério. Já tinha visto o trailer e fiquei com a ideia. E o DVD, onde está ele? Enfim :P

    Abraço

    ResponderEliminar
  3. Tenho de obter este filme! Já tinha adorado o aspecto visual de A Cela.

    ResponderEliminar
  4. Carlos,

    Com certeza que sim.
    O prazer foi todo meu, escreves muito bem.

    Cumps.



    Flávio Gonçalves,

    ...Enfim =D

    Cumps.



    Filipe Machado,

    Bom filme então!

    Cumps.


    Roberto F. A. Simões
    CINEROAD

    ResponderEliminar

Comente e participe. O seu testemunho enriquece este encontro de opiniões.

Volte sempre e confira as respostas dadas aos seus comentários.

Obrigado.

CINEROAD ©2017 de Roberto Simões