quarta-feira, 25 de setembro de 2013

GANDHI (1982)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★
Título Original: Gandhi
Realização: Richard Attenborough
Principais Actores: Ben Kingsley, Candice Bergen, Edward Fox, John Gielgud, Trevor Howard, John Mills, Martin Sheen, Ian Charleson, Athol Fugard, Günther Maria Halmer, Saeed Jaffrey, Geraldine James, Alyque Padamsee, Amrish Puri

Crítica:

SATYAGRAHA:
O CAMINHO DA VERDADE

We must remove untouchability from our hearts and from our lives.

Gandhi
celebra, sobre todas as coisas, a humanidade. A partir da biografia de uma das mais inspiradoras e marcantes personalidades do século XX - diria mesmo de todos os tempos - a de Mahatma (do sânscrito A Grande Alma) Gandhi, concretiza-se a visão épica e a arrebatadora de um cineasta na homenagem maior ao pacifista. Raras são as vezes em que se dá - tão triunfalmente - o casamento entre arte e biopic ou entre arte e História. A escala (por vezes, romântica), combinada com o profundo humanismo, lembra-nos os absolutos de David Lean. Mas a preocupação com o retrato - às vezes cruelmente realista - jamais abandona os intuitos da produção.

Com vinte e poucos anos, recém-formado em direito mas idealista por convicção, Gandhi atravessa a África do Sul e sente na pele a discriminação racial. A humilhante expulsão de um comboio por ser indiano e circular em primeira classe é o ponto de partida do argumento para o despertar da sua consciência social... Cristãos, hindus ou muçulmanos, todos são iguais perante Deus, acredita. A sua luta pela igualdade começa aí, frontalmente, activamente, custe-lhe isso o que custar. A sua irreverência e impertinência começa a inquietar as autoridades, que desde cedo o castigam. Da sua atitude revolucionária, todavia, não advém a mera rebeldia, antes a coragem para fazer o que está certo. O seu nome invade a imprensa. Líder da palavra, pela palavra, pela paz e pela não-violência, a sua luta mostra-se um caminho longo e árduo, mas de plena consciência. Ben Kingsley desempenha o papel de uma vida, dando corpo e alma à personagem. O poder da sua performance reside num olhar, no humilde tom de um discurso ou na sua desarmante expressão corporal. Por mais espectacular que o filme seja, é na simplicidade da interpretação de Kingsley que o filme atinge a sua verdadeira grandeza e, qual Gandhi, conquista a universalidade e a intemporalidade.

Where there's injustice, I always believed in fighting. The question is, do you fight to change things or to punish? For myself, I've found we're all such sinners, we should leave punishment to God. And if we really want to change things, there are better things than derailing trains or slashing someone with a sword.

Regressado à Índia, na altura sobre domínio do Império Britânico, Gandhi abraça desígnios maiores. A missão: a luta de milhões de indianos pela independência. A sua arma, manter-se-á sempre a mesma: a fé e a palavra.

They may torture my body, break my bones, even kill me, then they will have my dead body. Not my obedience!
(...)
Because 100,000 Englishmen simply cannot control 350 million Indians, if those Indians refuse to cooperate.

O filme enche-se de grandes paisagens, de grandes cenários, de grandes multidões. A fotografia capta a pluralidade cultural, as particularidades e as diferenças, as simetrias e assimetrias de uma identidade. No extraordinário trabalho de fotografia, uma paleta de tons quentes, que pactuam com a densidade e intensidade dramática. A cena do massacre de Amristar é assustadoramente impressionante (para além de extremamente bem filmada). A exótica banda sonora de Ravi Shankar emana um indefinível esplendor místico. O vasto elenco, magistralmente dirigido por Attenborough (também ele actor) compõe um quadro de excelência. Depois há Kingsley e a aura eterna de Gandhi: do retiro espiritual à meditação, das palestras aos protestos e às marchas pelo país, das sucessivas prisões às greves de fome... custa a acreditar que tenha existido um homem assim, que tenha vivido a sua própria mensagem e filosofia, que tenha alcançado os feitos que alcançou da forma como os alcançou. Generations to come will scarce believe that such a one as this ever in flesh and blood walked upon this earth, disse Albert Einstein. Gandhi é um exemplo máximo, um ícone incontornável, com o qual temos todos muito a aprender. É, em toda a sua essência, absolutamente fascinante. Consegue a liberdade e a independência, por fim, mobilizando toda uma nação.

Vince Walker: You're an ambitious man, Mr. Gandhi.
Gandhi: I hope not.

A obra tem uma longa duração, mas nenhum minuto é em vão. Desde o deslumbrante plano de abertura ao mais trágico desfecho, são pouco mais de três horas de um filme verdadeiramente emocionante e derradeiramente inesquecível.

2 comentários:

  1. Grande crítica de um grande filme, sem dúvida. Ben Kingsley está enorme. E como é bom voltar a ler textos teus :)

    Cumprimentos,
    Jorge Teixeira
    Caminho Largo

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  2. Obrigado pelo comentário, Jorge.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD

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