sexta-feira, 13 de outubro de 2017

HARRY POTTER E OS TALISMÃS DA MORTE: PARTE 2 (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM

Título Original: Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2
Realização: David Yates
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Michael Gambon, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Jason Isaacs, John Hurt, Kelly Mcdonald, Helen McCrory, Matthew Lewis, Bonnie Wright, Julie Walters, Robbie Coltrane

Crítica:

A BATALHA FINAL

Words are (...) our most inexhaustible source of magic.

E tudo culmina aqui: Hogwarts é, como não podia deixar de ser, o derradeiro refúgio de Harry Potter, o palco do confronto final - e decisivo - entre as forças do Bem e do Mal. Os Talismãs da Morte: Parte 2 não desilude: é um espectáculo visual sem antecedentes na série, verdadeiramente épico e colossal, e um clímax de emoções operático, onde as personagens se superam e dão o tudo por tudo em nome da amizade e da bondade. Afinal, it is the quality of ones convictions that determines success, not the number of followers, como diz às tantas o professor Lupin. E não deixa de ser uma moral comovedora e, no fim de contas, encorajadora: a união de poucos, quando genuína e bem-intencionada, pode derrotar exércitos de egos. Se o mundo compensasse sempre aqueles que amam, viveríamos certamente num mundo melhor, num mundo ideal. Esta é a mensagem, a potência e a beleza da fantasia.

Os cenários de Stuart Craig, designer de produção, e da restante equipa de decoração revelam-se, uma última vez, ao mais alto nível: das profundezas do banco Gringotts à fartura de adereços da Sala das Necessidades, dos destroços do velho castelo, ainda em chamas, à plataforma 9 3/4 da Estação de King's Cross. Sempre aliados às infindas possibilidades dos efeitos digitais, que tanto mais do que raios reluzentes e pirotecnia criaram. Possibilitaram aranhas, trolls, dragões, cidades e um mundo.

Alexander Desplat entrega toda a sua sensibilidade na concretização de partituras e arranjos notáveis, que catapultam a saga para uma seriedade bem-vinda. Assistimos a um filme sério - sentimo-lo desde o primeiro frame, como aliás já nos tinha prevenido a parte primeira, igualmente bela e deslumbrante pela arte visual de Eduardo Serra. Com a melhor equipa, David Yates só poderia, uma vez mais, ter todas as condições para brilhar. E tudo brilha, tudo está certo. O tom e o peso da despedida está lá, nos sons e nos silêncios, em cada quadro. Como se tudo estivesse condenado e prestes a desaparecer para sempre. Essa sensação, sendo omnipresente e esmagadora, tende a vergar-nos e obter a nossa reverência. E a nossa admiração. Que bom, que uma tão apaixonante saga acaba em crescendo e, tecnica e qualitativamente, tão bem.

Cada golpe contra a fortaleza, cada pedra que cai e se quebra é um duro golpe no nosso próprio coração. Hogwarts é a casa de Harry e é a nossa casa, que lutamos por defender a todo o custo. Destruir Hogwarts é atentar contra a memória dos que a defenderam ao longo de séculos, é pôr em risco a formação do futuro, é destruir um símbolo. Ali, de varinhas ao alto, ferem-se o corpo e a alma. Morre, definitivamente, a inocência. O universo de J. K. Rowling, que começou num conto infanto-juvenil, assume-se, enfim e inequívocamente, dotado de um espírito ambicioso, complexo e por demais adulto.

Em busca da destruição dos últimos horcruxes, desvendam-se mais segredos. Cada pedaço de alma de Tom Riddle, aprisionado num objecto mágico, encerra uma história mal-contada, atraindo o espectador para mais detalhes. Detalhes que parecem nunca mais acabar. Basta estar com atenção. Depois, os talismãs, outros que tais, amuletos que se ramificam com o passado, com nomes, com outras tantas histórias interligadas. Ficamos a saber mais sobre Dumbledore e as suas motivações, ficamos a saber mais sobre Harry e Voldemort e as suas conexões, ficamos a saber mais sobre Snape e a sua riqueza enquanto personagem, plena de carácter, camuflada por aparências e julgamentos. Apaixonamo-nos, definitivamente, por Snape. Que twist, não há como não ficar a adorar a criação de Rowling e, talvez ainda mais, a memorável e eterna interpretação de Alan Rickman. Do saudoso Alan Rickman. Vibramos, mais do que nunca, com a lealdade e o íntimo protector da professora McGonagall (Maggie Smith), assim como acontece com a Sra. Weasley (Julie Walters). Emocionamo-nos e aplaudimos a coragem de Neville Longbottom (Matthew Lewis), desde os primeiros filmes gozado ou dado como cobarde ou sem valor. Até que absolvemos Draco Malfoy (Tom Felton), clara que está a sua fraqueza de espírito.

Nos últimos momentos, lembramo-nos das alegrias que Hogwarts nos proporcionou e temos pena... pena que a saga esteja a instantes de acabar, ainda que possa, mereça e deva ser revisitada sempre, tantas vezes quantas desejarmos. Quando o tema principal irrompe e o ecrã desvanece a negro, suspiramos de tranquilidade. Saimos do filme com o coração cheio. Refletimos sobre as palavras de Dumbledore e encontramos nelas a voz de J. K Rowling. As palavras fizeram magia - é esse o poder da literatura. No cinema, a magia faz-se pelas palavras, pelas imagens em movimento, pelos sons, pela música. É uma combinação de artes. Daí ser uma arte tão completa, porque resulta da fusão de tantas. A magia aconteceu diante dos nossos olhos, no ecrã. Acompanha-nos agora nas nossas melhores recordações. Mas não é por isso, parafraseando Dumbledore, que a magia não existe, que a magia não é real. E esta certeza, um tanto ou quanto poética, serve-me de consolação. Ainda assim, pondo a poesia de parte, vejo magia a acontecer todos os dias. Basta-me abrir os olhos.


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