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sexta-feira, 17 de março de 2017

REINO DOS CÉUS (2005)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★ 
Título Original: Kingdom of Heaven
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Orlando Bloom, Jeremy Irons, Eva Green, David Thewlis, Edward Norton, Ghassan Massoud, Marton Csokas, Liam Neeson, Brendan Gleeson, Michael Sheen, Alexander Siddig, Nathalie Cox, Eriq Ebouaney, Ulrich Thomsen, Iain Glen, Jon Finch, Nasser Memarzia, Nikolaj Coster-Waldau

Crítica:

O CAMINHO DA REDENÇÃO

 It is a kingdom of conscience, or nothing.

Uma breve introdução a Reino dos Céus: há duas versões do filme. A primeira, que nunca deveria ter existido, é de Maio de 2005, tem 144 minutos de duração e foi a versão lançada nos cinemas. Foi editada em DVD, é regularmente emitida nas televisões e é sobre ela que fala a esmagadora maioria das críticas que leu ou poderá ler, ainda, por estes dias. É uma desilusão de filme - soa a desperdício de dinheiro e de talento. Nela, a acção não matura nem respira, atropelando-se a todo o instante, vários arcos narrativos foram mutilados ou simplesmente eliminados e as personagens - algumas nem sobreviveram - ficaram sub-desenvolvidas. Esta versão foi o resultado insólito de cortes e mais cortes impostos pelo estúdio a três semanas do lançamento - um autêntico pesadelo para a editora Dody Dorn e para o realizador Ridley Scott, cuja visão foi, por força das circunstâncias, vandalizada e destruída. Felizmente, não irreversivelmente. 

What man is a man who does not make the world better. 

Sete meses depois, em Dezembro de 2005, uma nova versão, de 190 minutos, veria a luz do dia. Ridley Scott encontrava o caminho da redenção através do home cinema e da sua director's cut, provando ao mundo a sua resiliência, a sua profunda convicção artística e a sua tremenda coragem: edificar, no seio de uma Hollywood sedenta de blockbusters comerciais, um ambicioso e colossal épico sobre religião, sem se privar de tocar nas feridas, tão actuais, entre cristãos e muçulmanos. A nova versão, que recupera a magnitude e a densidade original do argumento de William Monahan - até então desconhecidas - revela, incrivelmente, surpreendentemente, todo um novo filme. A better world than has ever been seen. Não me recordo de alguma vez um novo corte ter alterado tão decisivamente a minha opinião - e o meu amor - por um filme. Reino dos Céus passa, imediatamente, de um dos maiores desastres da carreira de Scott para um dos seus melhores filmes.

How can you be in hell, when you are in my heart? 

Portanto: se ainda não assistiu a nenhuma das versões e se não está propriamente a escrever uma tese sobre como os interesses financeiros podem gorar a visão e a pertinência artística de um filme ignore inteiramente a primeira versão e fique com a segunda. Se apenas assistiu à primeira, não perca mais tempo e descubra a verdadeira. Asseguro: vai valer a pena.
OVERTURE

França, 1184. Reino dos Céus pode começar numa insignificante encruzilhada, nos arredores de uma remota e friorenta aldeia, com um coveiro a sepultar uma pálida pecadora ao lado de uma cruz, mas não tardará a crescer em densidade e a superar-se em escala, com milhares e milhares de muçulmanos às portas de Jerusalém, munidos de catapultas e torres de assalto, decididos a tomar um local sagrado que consideram seu por direito. As imponentes batalhas tornaram-se, nos épicos modernos, os momentos narrativos privilegiados e imprescindíveis para o clímax da acção, desenfreada e excitante, e para o exibicionismo técnico. No início do século XXI, a competição era feroz, entre os épicos lançados. O mais recente filme do género deveria superar os anteriores com a mais grandiosa, brutal e engenhosa batalha. A corrida começou, eu diria, poucos anos antes, inocentemente, com o já clássico Braveheart, de Mel Gibson. Quando em 2000 estreou Gladiador, na senda de filmes como Ben-Hur e A Queda do Império Romano, o próprio Scott não resistiu a abrir a obra com um visceral confronto entre romanos e bárbaros, nos bosques da Germânia. Mas depois do espetáculo e sucesso sem precedentes d'O Senhor dos Anéis de Peter Jackson, entre 2001 e 2003 - do assombroso assalto ao Abismo do Elmo ou da excelsa megalomania da peleja nos campos de Pelennor, às portas de Minas Tirith -, a fasquia ficou praticamente insuperável. Seguiram-se Tróia, de Wolfgang Petersen, e o malogrado Alexandre, o Grande, de Oliver Stone, ambos de 2004 e com impressionantes e esmeradas sequências de acção no calor do confronto. O choque de exércitos na batalha de Gaugamela, entre gregos e persas, é certamente um dos mais complexos e bem sucedidos exemplos do que estamos aqui a falar. Chegados a 2005, Reino dos Céus e, é claro, Ridley Scott e a sua equipa não se pouparam a esforços para brilhar na corrida, rivalizando com os títulos atrás mencionados. As avassaladoras proporções alcançadas servirão primeiramente estes interesses exteriores, acredito, mas jamais se poderá dizer que não servem os propósitos dramáticos ou a visão sonhada. Não servirão certamente a representação e a fidedignidade histórica - e qual dos títulos anteriores efectivamente a serve? - mas que Scott não faz documentários, sabemos, está ele farto de bradar aos sete ventos. Até a História provém da historiografia ou de uma ou mais interpretações dos factos e dos artefactos do passado. Baseado numa realidade histórica mas assumindo as necessárias liberdades criativas, Reino dos Céus poderá sempre ser acusado, aqui e ali, de revisionista; mas não mascara as suas pretensões. É um filme do século XXI sobre o tempo das cruzadas do século XII e será sempre a bandeira de uma determinada visão e reflexão dos acontecimentos e um símbolo do seu próprio tempo. Como aliás, qualquer obra de arte, por mais eternidade que, poeticamente, lhe atribuamos.

Balian (Orlando Bloom), o herói improvável, é um homem simples. É o ferreiro da aldeia, recentemente viúvo. A esposa, que tanto amava, deu à luz um nado-morto, suicidando-se em seguida. É dela o lívido corpo a enterrar, na abertura do filme. Por isso, Balian mostra-se um ser destroçado, entregue ao luto. Aos olhos da Igreja, o suicídio era um pecado, que assegurava a entrada directa no inferno; como faz questão de lhe lembrar, repetidamente e a jeito de provocação, o desprezível meio-irmão (Michael Sheen) - um padre mentiroso, corrupto e ávido de riqueza e que inveja, claramente, a capacidade do irmão dar sempre a outra face à adversidade, sem ripostar. Quando Balian se apercebe que o presbítero tem o fio de ouro da mulher ao pescoço, roubado ainda antes do enterro, desfere-lhe uma lâmina incandescente no ventre, entregando-o às chamas. Arcando com os seus pecados e os pecados da mulher, parte (mas de certa forma também foge) atrás do recém-conhecido pai, Godfrey (Liam Neeson), barão de Ibelin, um nobre cruzado que por aqueles dias voltara propositadamente a França em busca do perdão do filho, do bastardo que há muito abandonou mas não esqueceu. O destino dos dois e da horda de robustos soldados que os acompanha, é a santa Jerusalém, onde Balian poderá encontrar a (tão necessária) absolvição e o (tão desejado) recomeço: a man - diz-lhe o pai - who, in France, had not a house, is, in the Holy Land, the master of a city. He who was the master of a city begs in the gutter. There, at the end of the world, you are not what you were born, but what you have it in yourself to be.

Inicia-se então a viagem e o ritual da transformação interior. Balian é, contudo, procurado pelo crime cometido (matou um homem, familiar e, ainda por cima, representante de Deus na Terra) e, a meio-caminho, num bosque à beira rio, o grupo é brutalmente atacado. A sequência que se segue representa, exemplarmente, o virtuosismo e o estilo de Scott e aquela que deverá ser, no seu entendimento, a acção de um épico moderno. A câmera, sempre atenta ao enquadramento mais belo, move-se com exactidão. O slow-motion prepara o suspense. E a montagem de Dody Dorn, soberana, é como uma salva de setas, que rasgam a pele, ou como uma imponente espada, que quebra o osso: as motion pictures são bravamente esquartejadas, sem pingo de piedade, construindo engenhosamente a cena, numa linguagem claramente mais complexa e mais sofisticada. Há uma fluidez e osmose perfeitas entre a colagem dos takes, a música, os sons e os diálogos, o que se traduz num envolvimento emocional bastante intuitivo com aquilo que estamos a presenciar e a vivenciar. É um efeito derradeiramente poético, que impressiona e arrebata. Godfrey fica gravemente ferido e não tardará a falecer, mas não sem antes esbofetear o filho e armá-lo cavaleiro, deixando-lhe a espada, as terras de Ibelin e a promessa de honrar o rei, dizendo que se arrepende de todos os seus pecados em vida menos de um. Depreendemos que se refira a Balian:

Be without fear in the face of your enemies. Be brave and upright that God may love thee. Speak the truth always, even if it leads to your death. Safeguard the helpless and do no wrong. That is your oath. Arise a knight and Baron of Ibelin.
Balian embarca em Messina, consciente da sua missão, mas deflagra a tempestade, violenta, e o naufrágio acontece. Quis Deus, o destino ou a sorte que sobrevivesse, ele e o negro cavalo que lhe escapa da praia ao deserto e que por intermédio do sarraceno Imad o conduz, finalmente, aos portões e à graça da Cidade Santa. A partir daqui somos banqueteados com insignes desempenhos de um elenco, todo ele, de luxo: Jeremy Irons com o seu intrépido Tiberias (o real oficial de justiça, soberano da Ordem dos Hospitalários), Edward Norton com o seu trágico e mascarado rei Baldwin IV (um monarca diplomata e conciliador, condenado pela lepra), Marton Csokas e o seu odioso Guy de Lusignan (arrogante, manipulador e sequioso comandante dos Templários, ansioso por assumir o trono e controlo do reino), Brendan Gleeson e o seu tresloucado Reynald de Châtillon (lacaio de Guy, responsável por vis e desleais massacres e conspirações, nomeadamente a chacina dos peregrinos de Meca: I am what I am. Someone has to be.), Jon Finch e o seu hipócrita patriarca católico (o bispo capaz de trair a sua própria fé e o seu próprio Deus, por cobardia: convert to Islam... repent later!) ou Eva Green e a sua encantadora, sedutora e misteriosa Sibylla (princesa de Jerusalém, mãe do pequeno futuro rei, esposa de Guy e amante de Balian). Fora dos muros da cidade, os muçulmanos: a destacar Ghassan Massoud e o seu carismático Saladino (rei e chefe militar entre os árabes, aqui caracterizado como justo, temperado e respeitador: when I'm not King, I quake for Islam), acompanhado do sempre leal Imad de Alexander Siddig. Reino dos Céus é livre, portanto, da representação maniqueísta e facilitista de identificar os bons de um lado contra os mais, do outro. Há bons e maus de ambos os lados - curiosamente, se há personagem que pode assumir o papel de vilão é o templário Guy de Lusignan, com quem Balian tem um duelo final bem rematado. Recordemos, a propósito, aquela mítica e deslumbrante cena em que se opõem, frente a frente e perante a fortaleza de Kerak, de bandeiras ao vento, as forças de Saladino e o tropel de cristãos, de orgulhosa cruz a brilhar desde longe, liderado por Baldwin IV. Avizinha-se, a todo o instante, uma batalha estonteante e, no entanto, pelo diálogo, compreensão e compromisso, chega-se a um entendimento pacífico e as hostes desarmam e recuam. Quantas vezes, numa mega-produção deste género, podemos ter nós visto uma solução dramática de tamanha e tão extraordinária natureza? Pois é: raramente. Reino dos Céus não é preguiçoso e não foge à complexidade emocional.

INTERMISSION

Permitam debruçar-me, agora, sobre aquela que é, para mim, de todas, a mais enigmática e fascinante personagem da obra. Lembram-se de Blade Runner e daquele deleitoso debate se Deckard seria ou não um replicante? Pois bem, Reino dos Céus levanta uma questão poética deste tipo, embora acredite que, para os menos atentos, esta dúvida não tenha qualquer pertinência ou até nunca se tenha colocado. Refiro-me ao hospitalário de David Thewlis, o conselheiro de Godfrey e depois de Balian. A minha tese sustenta-se, essencialmente, com a cena do arbusto em chamas, que vale a pena relembrar:

Hospitalário: One may stare into the light, until one becomes the light. I've done it many times.
Balian atira uma pedra ao arbusto e este incendeia-se, com a faísca: There's your religion. One spark, a creosote bush. There's your Moses. I did not hear it speak.
Hospitalário: That does not mean that there is no God. Do you love her?
Balian: Yes.
Hospitalário: The heart will mend. Your duty is to the people of the city. I go to pray.
Balian: For what?
Hospitalário: For the strength to endure what is to come.
Balian: And what is to come?
Hospitalário: The reckoning is to come for what was done one hundred years before. The Muslims will never forget. Nor should they.

Na sequência desta conversa, o hospitalário afasta-se lentamente, enquanto um segundo arbusto, por contágio, se incendeia também, numa clara metáfora ao poder da fé e dos pensamentos, facilmente alastráveis. Uma ideia pode, dependendo da convicção daquele que a tem ou transmite, mudar, efectivamente, o mundo. Mas é o que acontece imediatamente a seguir que concretiza o grifo: magicamente, o hospitalário desaparece. O plano é afastado o suficiente para estudarmos o espaço envolvente e determinarmos, com certeza, que o homem não tinha onde se esconder nem, tão-pouco, tempo para se desvanecer no horizonte - o que vem, decididamente, pôr em causa a natureza desta personagem. Ou Balian alucinou e a cena a que assistimos foi produto da sua imaginação (o que, na minha opinião, parece destoar, claramente, do filme e da sua personagem) ou então este hospitalário é uma personagem mística, uma espécie de enviado divino ou anjo da guarda, do qual ainda não tínhamos duvidado (o que, dada a essência religiosa da trama, não seria um devaneio interpretativo tão ridículo quanto isso, antes uma liberdade poética bastante enriquecedora, que não seria inédita na filmografia do cineasta). A minha proposição ganha alento se pensarmos como o hospitalário é, ao contrário das demais, uma personagem tão plana e tão pouco humana. Narrativamente, funciona como a voz da consciência do protagonista, nunca abordando temas propriamente mundanos ou políticos. É ele que, às tantas, profere as frases-chave do filme, que resumem toda a moral da obra: I put no stock in religion. By the word religion I have seen the lunacy of fanatics of every denomination be called the will of god. I have seen too much religion in the eyes of too many murderers. Holiness is in right action, and courage on behalf of those who cannot defend themselves, and goodness. What god desires is here - aponta a cabeça de Balian - and here - e aponta-lhe para o coração - and what you decide to do every day, you will be a good man - or not. Com a mesma facilidade com que desaparece, também chegará a aparecer, mais adiante, para um despertar simbólico. Apesar do seu corpo físico - a sua cabeça chegará a aparecer numa pirâmide de cabeças, após a mortandade da batalha de Hattin -, o hospitalário denota e reclama uma dimensão transcendente.

ENTR'ACTE

O romance chega a ter espaço no acto central, com as regulares e adúlteras visitas de Sibylla a Ibelin, enquanto Balian, com base nas suas noções de engenharia, transforma as suas poeirentas e estéreis terras em campos regados, férteis e germinados. A banda sonora de Harry Gregson-Williams é então espirituosa, mais leve e descontraída. Mas a tragédia não tardaria a manifestar-se, entre os corredores e os palácios da grande cidade. Com a iminência da morte e temendo a ascensão de Guy de Lusignan ao trono, Baldwin IV desafia Balian a casar-se com a irmã, mas este recusa-se. Porquê? A questão é por demais sensível e nem todos entenderão as razões do cavaleiro: para que pudesse desposar Sibyla, Guy e os seus homens seriam considerados traidores e seriam assassinados. O próprio rei o assegura. Pois bem, Balian não pretendia, de todo, ser responsável por mais mortes, por mais pecados. Proclamarem-no um dia rei não estava, de todo e também, nos seus planos. Enquanto rei, por quantas mais mortes seria responsável? O seu caminho era o da redenção, por isso estava em Jerusalém e não estava disposto a vender a alma. Era essa a sua vontade, a sua consciência. Lembremos o seu juramento: Speak the truth always (...) do no wrong. E foi o próprio rei que um dia lhe ensinou: Remember that, even when those who move you be kings or men of power, your soul is in your keeping alone. When you stand before God you cannot say but I was told by others to do thus or that virtue was not convinient at the time. This will not suffice. Remember that. Entendemos, até certo ponto, o seu fundamentalismo. Todos os fundamentalismos se entendem, até certo ponto. Até ao ponto em que o egoísmo fala mais alto e é posta em causa a vida, a liberdade ou a felicidade de outra pessoa. Por isso, quando Sibylla lhe diz there will be a day when you will wish you had done a little evil to do a greater good, compreendemo-la perfeitamente e tendemos a concordar com ela.  Com a morte do rei, a descendência de Sibylla é coroada. Mas a maldição daquela família ainda não se tinha circunscrito... pondo à prova, violenta e implacavelmente, o amor de uma mãe por um filho. A morte da criança é, para os cristãos, a morte de Jerusalém. Com Guy como rei - o que se precipita de seguida -, a cena política altera-se completamente e o conflito entre cristãos e muçulmanos agudiza-se irreversivelmente, como se matar infiéis fosse o caminho para a glória e para o Paraíso.

No último acto, Guy foi derrotado e feito prisioneiro pelos sarracenos. Perante o desencanto, até Tiberias abandona a empresa: I have given Jerusalem my whole life. First, I thought we were fighting for God. Then I realized we were fighting for wealth and land. I was ashamed. Mas Balian não abandona o povo e a sua missão. O seu destino impõe-se, por fim: liderar a defesa da cidade.

It has fallen to us, to defend Jerusalem, and we have made our preparations as well as they can be made. None of us took this city from Muslims. No Muslim of the great army now coming against us was born when this city was lost. We fight over an offence we did not give, against those who were not alive to be offended. What is Jerusalem? Your holy places lie over the Jewish temple that the Romans pulled down. The Muslim places of worship lie over yours. Which is more holy? (...) We defend this city, not to protect these stones, but the people living within these walls.

O seu discurso é por demais motivador e mobilizador, armando rapazes em cavaleiros no fulgor do momento. Who do you think you are? - inquire o bispo, impulsivamente - Will you alter the world? Does making a man a knight make him a better fighter? Ao que o herói responde, com conhecimento de causa: Yes. A refrega seguinte é, pois, uma inevitabilidade. Será o tudo ou nada na guerra pela cidade e espelhará o discurso de Balian. O tudo ou nada daquela gente, naquele tempo, porque enquanto houver memória e sentimento de pertença haverá sempre guerra. O final, particularmente, estabelece um paralelismo gritante com a actualidade, com o sangrento diferendo entre Israel e a Palestina. Algumas guerras parecem eternas. Se restar vida no final de tudo, não admira que as personagens procurem o anonimato, a simplicidade e o recato. A mensagem pacifista não é um pretexto, é a substância - e a urgência - de Reino dos Céus.

Se, 
até ao momento, cada frame de encher o olho já prima por ser rico em detalhes (em primeiro ou segundo plano: o design de produção de Arthur Max é, como sempre, absolutamente extraordinário, assim como os figurinos de Janty Yates, assegurando a plausível viagem no tempo), o que dizer do espectáculo que se segue, a grande batalha, onde a componente visual se supera. Os sofisticadíssimos efeitos digitais (Tom Wood) nunca se excedem propriamente, multiplicando, com autenticidade, estruturas, soldados e flechas e o que for necessário para atingir as proporções ambicionadas. John Mathieson, graças ao seu excepcional trabalho de iluminação, contrasta o fogo na noite e reflecte o tórrido sol nas cores das armaduras e artefactos. Compõe, por todo o filme, quadros belíssimos. O recurso a azuis profundos para a generalidade dos exteriores, ainda que por meio de filtros, conferem à obra um esplendor etéreo, quase onírico. O trabalho de sonoplastia é igualmente formidável: assistir ao filme num bom ecrã com um bom sistema de som é uma experiência e tanto. Não se admire, por isso, se der por si a desviar-se de um som metálico, como se a espada tentasse a sua cabeça! A opus musical de Harry Gregson-Williams, entre os seus instigantes instrumentais e os seus corais arrepiantes, impulsiona a narrativa e prende-nos à tela com a mesma determinação com que um cavaleiro agarra o punho do seu gládio. O seu legado, omnipresente e de grande inspiração operática, é, em grande parte, a alma do filme. É, para já, uma das grandes bandas sonoras do início do século XXI. 

No meio de tão hercúleo desafio, 
Ridley Scott poderia facilmente desorientar-se: mas tal não acontece. O cineasta muniu-se dos melhores profissionais e revela-se magistral na gestão e orquestração dos vários departamentos. Reino dos Céus é, por tudo isto, um feito e um triunfo monumental - sobretudo artístico mas também político, teológico, filosófico, etc. -, capaz de rivalizar com os maiores épicos de que há memória. É, sim, um dos melhores épicos de todos os tempos - sobre perda, abdicação, transformação interior, respeito pela diferença, coexistência pacífica e, por fim, vitória espiritual.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

EXODUS - DEUSES E REIS (2014)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★ 
Título Original: Exodus - Gods and Kings
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Ben Kingsley, Aaron Paul, María Valverde, Sigourney Weaver, Golshifteh Farahani, Isaac Andrews, Dar Salim, Ben Mendelsohn, Ghassan Massoud, Indira Varma, Ewen Bremner, Andrew Tarbet

Crítica:

ATÉ QUE O MAR OS SEPARE 

 Follow me and you will be free.

Nada há de errado em rivalizar com Cecil B. DeMille. A derrota está, à partida, assegurada. A superação talvez. O tempo e as circunstâncias fizeram de DeMille um rei do género mas, sejamos francos, não um deus. E, afinal, Ridley Scott é o mestre por detrás de Gladiador ou Reino dos Céus. Tudo seria possível. Sabemos que a versão final de Exodus, antes do corte que definiu a versão de 150 minutos estreada nos cinemas, tinha aproximadamente 240 minutos. Lembra o caso insólito de Reino dos Céus, estreado com 144 minutos, a que se seguiu a versão do realizador com 190 minutos - e a diferença entre um filme e outro foi abismal. A edição de Exodus em blu-ray adianta 15 minutos de cenas eliminadas, que claramente não melhorariam muito o resultado final. Scott falou na eventualidade de uma versão estendida do filme, mas, até à data, não viu a luz do dia. Se essa nova montagem somaria ou não cenas fundamentais, capazes de regenerar e fortalecer a narrativa, fica por descobrir. Para já, em termos de duração, Exodus perde para os 220 minutos d'Os Dez Mandamentos - o que nada diz, obviamente, a respeito da qualidade da obra.

Todavia, perderá em todo o terreno. O problema é que Exodus - tal como nos chegou, na sua versão de 150 minutos - é um filme de falhas e excessos, o que resulta num desequilíbrio tremendo e tudo menos favorável. Se, por um lado, nada há a apontar à sofisticação técnica da produção - design de produção de Arthur Max e guarda-roupa de Janty Yates (parceiros habituais de Scott e dos melhores da indústria nos seus respectivos departamentos), assombrosa fotografia de Dariusz Wolski (outro que tal) e impressionantes efeitos digitais - temos depois um argumento que sabemos retalhado pela montagem e uma realização desinspirada, que cai no erro - crasso - de repetir fórmulas facilmente detectáveis e já usadas nos épicos anteriores. Soa a mais do mesmo. Sabem a parte em que Ramsés chega à cama do filho, que tão pacificamente dorme, e lhe diz: you sleep well because you know that you're loved. Pois bem, em Gladiador há uma mesmíssima cena em que Commodus (Joaquin Phoenix) chega à cama do filho e lhe diz: he sleeps so well because he is loved. Estão a perceber onde quero chegar? Já Robin Hood sofria do mesmo mal. Não queremos ver o mesmo filme várias vezes, mudando apenas o tempo e o espaço histórico. Nós queremos ver filmes diferente, singulares; o que me leva a pensar no que terá levado Scott a concretizar este filme. Sabemos da sua predilecção por fazer um filme de determinado tipo para provar a si próprio que consegue, para fazer a sua versão. Será isso? Queria fazer a sua versão d'Os Dez Mandamentos? Insisto: rivalizar com DeMille? O que é que Exodus tem para contar que já não saibamos, que já não tenhamos visto? Qual é a sua proposta artística? Em 1998, a Dreamworks produziu aquela que para mim é, à data, a melhor versão da história de Moisés: O Príncipe do Egipto e Scott nem dessa chegou aos calcanhares. E já não vou falar de imprecisões históricas como hebreus a construir pirâmides (quando estas foram edificadas muito antes), mortes por enforcamento em tempos de crucificação ou incêndios tão explosivos como que provocados por pólvora. Aí estou de acordo com Scott, ele não faz documentários e se fôssemos por esse critério rejeitaríamos e desprezaríamos uma significativa parte da História do cinema.

Ao encetar o argumento, o filme foge à entrega do bebé às águas do Nilo. No seu lugar, aposta numa épica batalha, visualmente apoteótica, mas sem qualquer carga emocional, uma vez que a história ainda não nos forneceu background suficiente para percebermos as motivações do confronto e das personagens, para além do facto de a batalha, claramente, não ter grandes consequências narrativas. Percebemos qualquer coisa da relação daqueles dois irmãos, mas nada que não venhamos a constatar depois. A batalha é um pretexto para exibir recursos e para dizer que se trata de um épico com uma batalha, não fossem dizer que nem uma batalha tinha. O mais grave é que o que se segue depois não confere tridimensionalidade às personagens. Os eventos sucedem-se e não nos envolvemos com elas, não torcemos por elas, e desligamo-nos do que estamos a assistir - por mais bonito que seja e por mais potencial que tenha. Sobram planos aéreos e, na maioria deles, a cidade parece tão imensa que nos custa a crer que fosse assim naquele tempo. E, de repente, Scott alheia-se da história e foca-se no romance - mais uma vez, porque parece que era necessário que o filme tivesse um pedaço de romance -, perdendo orientação e, sobretudo, economia narrativa. No elenco, nenhum actor brilha. Nem Bale, nem Edgerton, nem Kingsley... os restantes desfilam-se, marcam presença e às vezes quase não se nota que lá estão. Sabemo-los grandes actores, mas a culpa não é claramente deles. A ideia de representar Deus como uma criança, admito, não desgostei. A interpretação de Isaac Andrews chega a ser das melhores do filme.

Exodus ganha interesse quando já é demasiado tarde. Vêm os vorazes crocodilos e tornam o Nilo num rio de sangue e a água impotável, morrem os peixes que atraem os insectos e estes as rãs, apodrecem as colheitas e o ar, fétido, fica irrespirável. Propagam-se as doenças, instala-se o caos e amotinam-se, nas ruas, os mortos. A sequência das pragas é francamente boa e impressiona. Os efeitos jamais comprometem. A última meia hora então, desde que o povo abandona o Egipto até às margens do Mar Vermelho, está finalmente ao nível expectado. Aqui todos os elementos do filme colidem e se transcendem num pedaço de arte superior. A banda sonora, que por vezes pareceu visitar lugares comuns, sublima agora a proeza dos efeitos digitais, aliando-se à fotografia para pintar autênticos quadros em movimento. Diria que o final de Exodus consta entre as sequências mais audazes e visualmente estimulantes da carreira de Scott. Pena que o filme não a acompanhe.

Fica mais um retrato da salvação dos hebreus. Se o filme tem ou não salvação não sabemos, temo que não - mas já fui surpreendido. Se tiver e caso Scott procure redenção, é esperarmos pela versão alongada. O realizador acaba por dedicar o filme ao irmão falecido e percebe-se que homenageou a relação entre irmãos ao longo de todo filme. Pena que não num filme melhor e mais digno.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

PROMETHEUS (2012)

PONTUAÇÃO: BOM 
★★★★ 
Título Original: Prometheus
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Idris Alba, Patrick Wilson, Robin Atkin Downes, Sean Harris, Rafe Spall, Emun Elliott, Benedict Wong, Kate Dickie, Ian Whyte 

Crítica:

A ORIGEM DE ALIEN

Big things have small beginnings.

Prometheus é a metáfora e a invocação do mito grego - significa: desafiar os deuses. É o nome dado à nave especial que, entre estrelas e galáxias, explora os mistérios do espaço cósmico, procurando respostas sobre a criação na Terra e sobre as origens da humanidade. E é também a promessa cumprida de Ridley Scott no regresso ao universo da ficção científica - género que, aliás, ajudou a cimentar -, tantos anos depois de Alien ou de Blade Runner. Prometheus é mesmo a prequela - nunca totalmente assumida - da saga Alien: tem um ponto de partida distinto, é certo, mas os desenvolvimentos da acção acabarão por justificar os acontecimentos decorridos na franquia e o nascimento do célebre monstro. Inclusivé, a nível narrativo, Prometheus e Alien partilham o mesmo ADN e alavancam toda uma mitologia própria.

Tanto mais do que em Alien, a carga filosófica é soberana em Prometheus: quem foi o nosso deus criador e porque nos abandonou? O filme avança a tese alienígena. Diferentes culturas da antiguidade, separadas pela distância, partilharam, misteriosamente, as mesmas referências, esculpidas na pedra. Os mesmos símbolos, a mesma indicação, o mesmo chamamento. Feitas as descobertas e identificado o seu significado, uma equipa de cientistas - convocada e financiada pela Weyland Corporation - parte para o infinito. Estamos no ano de 2093. David (brilhante desempenho de Michael Fassbender) é um replicante, enigmático mordomo da nave enquanto todos os outros tripulantes hibernam, há anos, mergulhados nas cápsulas de hipersono. O seu penteado replica, ao pormenor, o de Peter O'Toole em Lawrence da Arábia - filme que assiste durante a viagem e que citará mais tarde, pelo que depreendemos que o admire e que o tenha visto mais vezes: there is nothing in the desert and no man needs nothing. Mas não só a filmes assiste o robot humanóide: encontramo-lo, curioso, a invadir os sonhos e a privacidade dos colegas, graças à tecnologia de que a nave dispõe. Assiste nomeadamente ao sonho de Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), em que esta recebe do pai um colar com a cruz cristã. Quando a equipa é acordada, nas imediações do seu destino, passamos a conhecer a diretora da missão a bordo, a loira, deslumbrante embora absolutamente gélida Meredith Vickers (Charlize Theron), o bem-disposto capitão Janek (Idris Elba) e mais uma mão-cheia de camaradas que não tardarão a ser eliminados um a um, ao sabor do suspense e do aterrador desconhecido. Num holograma incrivelmente real é desfeita a confidencialidade da missão pelo próprio Peter Wayland (Guy Pearce, carregado de próteses e maquilagem como ancião fundador da empresa) e, finda a projecção, aterram finalmente no planeta sombrio, aparentemente estéril e irrespirável, onde se acredita que habitem os denominados Engenheiros, os nossos criadores.

Charlie (Logan Marshall-Green), namorado de Elizabeth: What we hoped to achieve was to meet our makers. To get answers. Why they even made us in the first place.
David: Why do you think your people made me?
Charlie: We made you because we could.
David: Can you imagine how disappointing it would be for you to hear the same thing from your creator?
Charlie: I guess it's good you can't be disappointed.

Entre ruínas e artefactos, acabarão por encontrar uma tripulação de cadáveres alienígenas, brutalmente extintos pelos seus próprios planos criativos e os indícios de que estes se preparavam para voltar à Terra, com fim a exterminar a sua criação. Quem disse que o nosso deus era bom e gostava de nós? Quem disse que se tratava de um mágico e não de um geneticista? Lá se vai o criacionismo conforme Elizabeth o entende, pensamos, ao que ela se apressa por contrapor: and who made them? A cruz que traz ao pescoço simboliza não só o criador do Homem como o seu próprio criador, dado que foi o próprio pai que lha deu. Não admira, por isso, que o colar lhe seja precioso, independentemente das revelações que se avizinhem no horizonte.

Podemos fazer por extrair mais teor filosófico do filme, mas, às tantas, na análise, deveremos focar-nos, parece-me, mais no que o filme efectivamente nos dá e não no que poderia dar-nos. É certo que o filme muito sugere e propõe, todavia jamais aprofunda por aí além as suas questões. Prometheus não é, definitivamente e apesar do seu interesse, um ensaio. A partir de dado momento, David continuará a desvendar segredos e a pôr o seu plano secreto em marcha, motivado sabe-se lá por que desígnios, e tenderemos a não confiar nele. Todavia, somos claramente reposicionados na narrativa - e o que mais importa agora é o silencioso despertar que a exploração humana provocou, inadvertidamente, na atmosfera das ruínas visitadas e a esguia, viscosa e emergente criatura que daí resultou e que, não tardará, começará a sufocar, sangrar e matar, ganhando alento, força e formas. É o acordar de um pesadelo adormecido. De set em set (magnífico design de produção do já lendário Arthur Max), alastra uma vertiginosa luta pela sobrevivência e contra o tempo, que dizimará, sem misericórdia, qualquer vertebrado arquejante. Como em Alien. Acelera-se o suspense e precipita-se a acção e a montagem de Pietro Scalia. A atmosfera densifica-se e agudiza-se radicalmente. A composição musical de Marc Streitenfeld, outrora épica e sonante que nem as criações de Vangelis, dá agora lugar a uma sonoridade obscura e arrepiante. Alia-se a fotografia e a iluminação de Dariusz Wolski, que primeiramente nos maravilhara e enchera de mistério, tanto na grande escala dos exteriores como na clausura dos interiores. Cada imagem espelha agora o medo e o pavor das personagens - e o dos espectadores. Até ao final, a sofisticação dos efeitos especiais será mais gritante do que nunca, conferindo credibilidade - e fascínio - à proposta. E até ao final, também, ficará a ambiguidade implícita relativamente à natureza andróide da personagem de Theron (dúvida não inédita e fórmula a que o cineasta, claramente, não resistiu. Não faz mal, nós gostamos destas coisas).

Alien: Covenant fará a ponte necessária entre Prometheus e a saga original. Duvido que sejam respondidas todas as questões - e que interesse teria se não ficasse uma réstia de mistério? É do mistério que estes filmes viveram, vivem e certamente viverão. Como na grande parte dos filmes de Scott, Prometheus resulta numa experiência prazerosa, visualmente impecável, e à qual não cansa voltar. Não concretiza, no entanto, todo o seu potencial - falta, no mínimo, mais espaço para os actores e para as suas personagens (que provavelmente a realização não permitiu) e cenas propriamente memoráveis, em que se alie o inspirado trabalho de câmera com a encenação; traduzir-se-ia isto numa maior maturação da narrativa e do objecto fílmico em si - equilíbrio em que Scott, infelizmente, falha mais vezes do que gostaria e do que os seus projectos certamente mereciam.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

1492: CRISTÓVÃO COLOMBO (1992)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: 1492: Conquest of Paradise
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Gérard Depardieu, Armand Assante, Sigourney Weaver, Loren Dean, Ángela Molina, Fernando Rey, Michael Wincott, Tchéky Karyo, Kevin Dunn, Frank Langella, Mark Margolis, Kario Salem
Crítica:

A CONQUISTA DO PARAÍSO

Paradise and hell both can be earthly.

Em 1992, também Hollywood comemorou os 500 anos da descoberta da América. Num ambicioso e impressionante trabalho de reconstituição histórica, possibilitou-se a viagem no tempo e a homenagem. 1492: Cristóvão Colombo, contudo, passou ao largo das expectativas de meio mundo, que aguardava por mais um filme de acção e aventuras. Em vez disso, Ridley Scott concretizou uma epopeia: hipnotizante, espectacular e arrebatadoramente bela. E como nas clássicas epopeias, recai o protagonismo sobre a voz do poeta: chegando a atingir uma dimensão mística e espiritual, tanto por meio da deslumbrante poesia das imagens como por meio da gloriosa e arrepiante banda sonora de Vangelis, a arte da filmagem revela-se absolutamente magistral em toda a sua técnica, elegância e apurada sensibilidade, num tom marcadamente contemplativo e elegíaco. A realização e a visão únicas do cineasta, quais decisões de montagem, mostram-se imperiais para a essência narrativa do filme, muito mais do que o argumento em si ou do que as performances dos actores. É essa a verdadeira e incompreendida natureza do filme, que se prende, é certo, a fortes compromissos de ordem histórica, mas que pela arte imortaliza toda a humanidade, em todos os seus defeitos e virtudes.

Qualquer filme de Ridley Scott é sempre um assombro visual e 1492 não é excepção. Cada frame é minuciosamente planeado, desde a escolha dos exteriores à construção dos cenários, à riqueza da decoração e à pintura e iluminação do quadro. O perfeccionismo e a sofisticação alastram-se ao guarda-roupa, aos acessórios e aos demais valores de produção. Sobre o ceú vermelho do entardecer, içam-se as velas para ocidente. A partida da expedição do Porto de Palos, enaltecido por cânticos graves e sonantes, consititui um momento extraordinariamente poderoso. Após meses de viagem, desfaz-se a névoa e o mistério. Olhares de espanto e regozijo acolhem o mítico Éden das escrituras, de vegetação abundante... em solene slow motion, passo por passo, Colombo pisa o solo virgem das índias ocidentais e ajoelha-se perante o extenso e sonhado areal. Que cena memorável. A atmosfera do Novo Mundo, em toda a sua variedade de cores e sons, maravilha-nos e invade-nos o inconsciente. A influência de obras como Aguirre, O Aventureiro de Herzog ou A Missão de Joffé é, a meu ver, notória.

Perante a pureza da América selvagem, evidencia-se o contraste com a corte espanhola; plena de inveja e intriga, hipocrisia e sede de poder. Longe da civilização e de um Deus inquisidor, o divino em cada folha, em cada árvore, em cada pedra. O Deus na Natureza, a religião nativa. Corrompidos, esses sim, os exploradores da fé perdida condenam o paraíso à má-aventurança e à destruição. Nas poucas cenas de acção, suscitadas pelo motim de Adrián Moxica, a brutalidade e o pior do ser humano. Pelas acções do navegador Cristóvão (Gérard Depardieu, num underacting desarmante), o conhecimento, o respeito e a não-violência. O inconformismo, o empreendorismo, a necessidade de calar as teorias vãs e de comprovar que a terra é redonda e não plana como uma mesa. O desejo da evolução, do progresso das ideias e das mentalidades. Riches don't make a man rich, they only make him busier. Porque seriam impossíveis novas descobertas? Também a conquista de Granada aos mouros se dizia impossível, lembra Colombo à rainha, em vésperas da benção da missão.

Nothing that results from human progress is achieved with unanimous consent. And those who are enlightened before the others are condemned to persue that light in spite of others.

Um triunfo magnífico.

sábado, 11 de junho de 2011

CERCADOS (2001)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: Black Hawk Down
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Josh Hartnett, Ewan McGregor, Jason Isaacs, Tom Sizemore, William Fichtnerv, Eric Bana, Sam Shepard, Ewen Bremner, Tom Hardy, Ron Eldard, Charlie Hofheimer

Crítica:

ESTADO DE GUERRA

Apenas os mortos viram o fim da guerra.
Platão

Cercados não é propriamente um filme onde reine a subtileza. Não obstante, impera nele a elegância e a sofisticação que marcam, obra após obra, o estilo visual de Ridley Scott. Qual olhar de Deus, o cineasta desce sobre uma região particular do globo, que nem um satélite de análise: Somália, inícios dos anos 90 e o seu conflito civil. Mais particularmente, a demorada Batalha de Mogadíscio, com a intervenção americana no ar e no terreno. Quase milimetricamente, disseca a paisagem, a cultura e a atmosfera. Fornece-nos as coordenadas espácio-temporais, uma e outra vez, com uma preocupação obsessiva em simular o retrato histórico com detalhe e exactidão.

Resgatam-se as cores tórridas de Apocalypse Now (da obra-prima de Coppola resgatam-se também, com certeza, os gloriosos helicópteros) e capta-se a acção em movimento de um Spielberg em busca do seu Soldado Ryan. A fria mas implacável montagem de Pietro Scalia impõe um ritmo não só empolgante como absolutamente electrizante. E para a sublime captação da atmosfera, a direcção artística funde habilmente o real e o artificial (ou o propositadamente construído para o filme, entenda-se) na edificação de uma noção de realismo visceral. O filme - e a experiência em que consiste a sua visualização - vive ainda da exploração das infindáveis potencialidades do som e dos seus efeitos (Michael Minkler, Myron Nettinga e Chris Munron) e da carga emocional da banda sonora (Hans Zimmer, ao serviço do drama e da tensão crescente, a espaços aliviada por toda uma panóplia de canções cool que acompanham as overdoses de humor americano dos jovens soldados, sedentos de escape à seriedade do tema e das circunstâncias).

O elenco conta com uma constelação de estrelas em ascenção à data da estreia (Josh Harnett, Ewan McGregor, Eric Bana ou Orlando Bloom) que, com assaz competência, partilha o protagonismo colectivo que o argumento propõe. Não há heróis, no meio da pura, tremenda e impressionante acção. A guerra é cruel, profundamente devastadora e dilacerante e não reúne preferências. Nela, não há qualquer triunfo. Às tantas, o ódio perde o sentido e todas as mortes caem no vazio. Um soldado de intervenção, estrangeiro, ao qual se abriram as portas de um outro mundo, sucumbe perante os desígnios políticos, qual número ou peça de Xadrez. Não é nada, somente um instrumento que é tudo. O que vale uma vida humana? Cercados acaba por potenciar consideráveis discussão e reflexão.

Consideração final? Um soberbo e revigorante filme de guerra, que acaba por condensar e executar exemplarmente um pouco de toda a técnica e linguagem do género, até ao seu ano de produção.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

BLADE RUNNER - PERIGO IMINENTE (1982)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Blade Runner
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Harrison Ford, Sean Young, Edward James Olmos, Daryl Hannah, Joanna Cassidy, Rutger Hauer

Versão do Realizador

Crítica:

O CAÇADOR DE ANDRÓIDES

I think (...), therefore I am.

Blade Runner - Perigo Iminente é um poema invulgar, carregado de sensualidade e de significado humano. É futurístico, mas a influência que dele emanou e emana fê-lo profético. A idealização, a partir da obra de Philip K. Dick, de um mundo futuro (ruidoso, poluído, artificial e globalizado) resultou triunfalmente. Carros voadores, enormes anúncios publicitários (Coca-Cola, TDK, etc.), iluminados e falantes, mangueiras de cor, incandescentes, em cada prédio sujo, em cada rua repleta de gente e de aguaçeiros. Ridley Scott concebeu, com um perfeccionismo obstinado, uma única e visionária obra-prima, de um esplendor deslumbrante e enigmático, que conflui o thriller e o noir, perfeitamente, numa das maiores e mais espectaculares experiências da ficção científica.

Por meio da misteriosa e sedutora banda sonora de Vangelis e de uma excelência tremenda a nível visual - tanto nos efeitos especiais (Douglas Trumbull, Richard Yuricich, David Dryer), como na fotografia (Jordan Cronenweth), no guarda-roupa (Michael Kaplan, Charles Knode) ou nos cenários (Lawrence G. Paull, David L. Snyder, Linda DeScenna); excusado será lembrar a excepcionalidade de Ridley Scott como pintor - nasceu um pessimista e intrigante ensaio antropológico, imerso em símbolos e em princípios filosóficos, sobre uma era de exploração espacial, regida pelo medo, pelo preconceito e pela morte como inevitável condenação. Há clonagem e manipulação genética, há inteligência artificial. Os replicantes são robots nos quais são implantadas memórias - Implants. Those aren't your memories, they're somebody else's -, seres fisicamente concebidos à imagem do homem e psicologicamente sonhados à imagem de Deus.

Os humanos, completamente perdidos na evolução, procuram o seu lugar no universo. E os andróides, ameaçados pelo extermínio e intensamente procurados pelos caçadores, os blade runners, tentam fugir ao destino que lhes impuseram, lutando por identidade e por dignidade. Quite an experience to live in fear, isn't it? That's what it is to be a slave. Excelente Rutger Hauer, líder dos sobreviventes, frente ao competente Harrison Ford, num final emocionalmente redentor. Enfim, os segredos da vida e as evidências da morte, numa exuberante e fascinante distopia sobre o Homem. Mera fabulação futurística? Asas de génio, de uma cadência hipnótica. Um extraordinário pedaço de cinema.

All those moments will be lost in time...
like tears in rain... Time to die.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

ROBIN HOOD (2010)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: Robin Hood
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Russell Crowe, Cate Blanchett, Mark Strong, William Hurt, Eileen Atkins, Kevin Durand, Scott Grimes, Max von Sydow, Matthew Macfadyen, Oscar Isaac, Mark Addy, Danny Huston

Crítica:

ATÉ QUE OS CORDEIROS
SE TORNEM LEÕES


Ninguém faz um épico como Ridley Scott. Vibrante, poético, estrondoso, visualmente sofisticado e tecnicamente arrojado, visceral na sua acção, envolvente no seu romance e com uma sincronia meticulosa e singular entre som, imagem e música. Robin Hood é tudo isso. A glorificação de um herói lendário, na hora do seu nascimento, solidificada por elevadíssimos valores de produção, onde as visões clássica e moderna de concretizar o género se aliam vitalmente. Já antes acontecera o mesmo com Gladiador, ou ainda melhor com Reino dos Céus. Ninguém faz, pois, um épico como Ridley Scott.

Brian Helgeland formula as origens do eterno fora-da-lei que rouba aos ricos para dar aos pobres. Se Reino dos Céus nos deixara com a partida de Ricardo para as cruzadas de Jerusalém, Robin Hood principia com o seu retorno, num empreendedor e derradeiro confronto contra Filipe de França. Robin Longstride é um simples mas irreverente arqueiro inglês que, em pleno século XIII, integra as hordes do rei Coração de Leão, aquando da sua morte. Safa-se por um triz de um mortal embaraço a que entretanto se sujeitara e regressa a Inglaterra, como arauto do infortúnio da coroa, sob um disfarce de esperteza e uma identidade falsa e com uma espada que o conduzirá tanto ao seu passado como ao seu futuro. De volta a Nottingham, a sua terra natal, tantos anos depois da partida para a refrega, encontra uma realidade cheia de mulheres e de órfãos, fustigada pela pobreza e pelas terras bravas, envelhecida pelo adeus da esperança e corrompida pelos gananciosos interesses do poder. Que nem o filósofo, seu pai, Robin sonha com a igualdade e com a justiça para todos e entre todos. In England, every man's home is his castle. Se todos fossem reis do seu próprio castelo, que nem Coração de Leão fora, o mundo seria certamente mais justo e igual.

If you're building for the future, you need to keep your foundations strong, laws of the land enslave the people to a king who demands loyalty but offers nothing in return, I've been to the South of France, Palestine and back, you build a kingdom the same way you build a cathedral from the ground up!

Qual é a mensagem de Robin Hood, afinal? Nunca desistir. Rise, and rise again. Until lambs become lions. Uma e outra vez, sempre que a sombra dos poderosos escurecer o caminho da luz, a flecha soltar-se-á e reivindicará a liberdade, a igualdade e a justiça. É este o prenúncio da lenda e o prólogo da história do eterno fora-da-lei que rouba aos ricos para dar aos pobres.

Agora, uma breve sequência de perguntas e respostas que, na simplicidade e clareza com que se apresentam, marcam um legado de uma qualidade inquestionável e irrepreensível. Fotografia? John Mathieson. Montagem? Pietro Scalia. Cenografia? Arthur Max. Restante direcção artística? John Kingm, David Allday, Ray Chan, Karen Wakefield e Sonja Klaus. Guarda-roupa? Janty Yates. Banda sonora? Marc Streitenfeld, magnífico. Excelente som e efeitos sonoros, excepcionais efeitos especiais. O espantoso casting completa o filme: Russell Crowe, Cate Blanchett, Mark Strong, Max von Sydow, William Hurt, Danny Huston.

Concluindo, Robin Hood é um filme majestoso. Só não é um feito extraordinário, verdadeiramente extraordinário, porque a história não dá para mais e porque há, desse modo, lugares comuns absolutamente indesejados e resoluções dramatúrgicas pouco originais. Mas enfim, que não se pense que estes são factores decisivos para arruinar a obra. O filme em si mesmo é um projecto que se arquitectou sólido e suficientemente consistente, com rasgos de uma beleza inebriante.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

GLADIADOR (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Gladiator
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi, Djimon Hounsou, David Schofield, John Shrapnel, Tomas Arana, Ralf Moeller, Spencer Treat Clark, David Hemmings, Tommy Flanagan, Sven-Ole Thorsen, Omid Djalili

Crítica:

O LEGIONÁRIO, O ESCRAVO E O HOMEM

What we do in life echoes in eternity...

História, mito e imaginação. Sobre esse baluarte de génio e criação se fortalece, grandiosa e sofisticada, a visionária incursão de Ridley Scott à antiga Roma Imperial. Magistralmente arquitectada, musicalmente dimensionada e inesquecivelmente interpretada, certa será a sua conquista da eternidade... Gladiador é, pois, um feito monumental. Trata-se da arte do belo na sua forma suprema, em toda a sua majestade e elegância. Da primeira à última cena.

Um compêndio de influências:
Spartacus, mas sobretudo o clássico e genial A Queda do Império Romano são pontos de partida. A eloquência do Grande Coliseu relembra a impressionante corrida de quadrigas de Ben-Hur. Escrito a três mãos (David Franzoni, John Logan e William Nicholson), serve-se da inteligência e da maior subtileza para glorificar por meio da palavra a história de um homem que quer voltar a casa e aos seus e ao qual a tragédia ditará uma odisseia de vingança e sobrevivência. I live only to hold them again, for all else is dust and air. Gladiador é, por isso, muito mais do que espectáculo brihante irradiado por coreografias muito bem concebidas.

Da epicidade bélica da província à trama política de Roma, do espectáculo de gladiadores ao banquete de sangue e pão ou dos fôlegos de vida aos interlúdios poéticos da morte,
Russell Crowe lidera, num papel absolutamente memorável, um elenco de prestações viscerais: Richard Harris, Oliver Reed, Djimon Hounsou, Joaquin Phoenix ou Connie Nielsen. A riqueza e exuberância da obra alarga-se a todas as categorias técnicas, sem excepção. A cinematografia de John Mathieson, visualmente arrebatadora e deslumbrante, a cenografia de Arthur Max e Crispian Sallis, de um perfeccionismo e aprumo inexcedíveis (só comprometida, por vezes, pela falta de autenticidade do CGI), ou o guarda-roupa, pelas mãos inspiradas de Janty Yates, são cruciais para a recriação e concepção histórica e artística. A montagem de Pietro Scalia é de uma meticulosidade absoluta, revelando uma cadência rápida e inovadora; ao mesmo tempo que, por um lado, complexifica a compreensão da acção, confere-lhe, por outro, um fascínio absorvente e único. A banda sonora de Lisa Gerrard e Hans Zimmer inscreve a obra na transcendência, deixando a sensação de que ou à terra desceu o condão de Júpiter ou aos Céus ascendeu o esplendor de tão magnífica obra de arte.

De entre o espectáculo que ostenta e da profunda inspiração lírica que emana, uma coisa é certa:
um toque de génio incitou Gladiador à perfeição. Só Deus tem o poder de criar mundos; só Deus e o artista maior. E não é Ridley Scott, sabemos nós, um desses raros e extraordinários artistas? Depois de Braveheart - O Desafio do Guerreiro, de Mel gibson, também a sua triunfal façanha contribuiu de forma decisiva para a ressureição do épico enquanto género, às portas do novo milénio e qual fénix das cinzas, dando-lhe não só um fulgor revigorado como renovado. Cenas que ecoarão célebres no tempos do Amanhã? Muitas. Todas filmadas com sublime confluência estética. There was a dream that was Rome. You could only whisper it. Agora, podemos proferi-lo, convictos, aos sete ventos: o sonho foi... concretizado. Gladiador impõe-se pois, inabalável, como um clássico absoluto.
 

terça-feira, 4 de maio de 2010

THELMA & LOUISE (1991)

Um road-movie bem filmado e bem interpretado (Susan Sarandon, Geena Davis), de grande competência técnica e narrativa.

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões