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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TRAINSPOTTING (1996)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Trainspotting
Realização: Danny Boyle
Principais Actores: Ewan McGregor, Ewan Bremner, Jonny Lee Miller, Kevin McKidd, Robert Carlyle, Kelly McDonald, Peter Mullan, James Cosmo, Irvine Welsh, Dale Winton

Crítica:

A VIDA NÃO É UM SONHO

People think it's all about misery and desperation and death and all that shit which is not to be ignored, but what they forget is the pleasure of it. Otherwise we wouldn't do it. After all, we're not fucking stupid. At least, we're not that fucking stupid.

Pedaços de narração corrosiva, plena de sarcarsmo e ironia, não faltam neste alucinante - ou alucinado - Trainspotting. O argumento é de John Hodge, a partir do romance de Irvine Welsh. Num registo irreverente e relativamente cool, funde-se humor, sátira, choque, nojo e uma dose ilimitada de palavrões. Danny Boyle - num estilo que se lhe tornaria característico - combina as mais variadas e distintas técnicas de filmagem, estimulando e potenciando uma verdadeira experiência sensorial para o espectador, com uma energia inesgotável e a um ritmo psicadélico e electrizante. Indissociável a tão vertiginoso impacto é a banda sonora: a sonoridade electrónica insiste, persiste e é como que omnipresente do início ao fim do filme.

Do eco de Laranja Mecânica ao advento de Clube de Combate ou de A Vida Não É Um Sonho, a obra revelou-se não só marcante como manifestamente influente no cinema do fim de século. O sentimento de solidão e de alheamento da juventude perante uma sociedade mascarada, o niilismo, a necessidade de escape e de evasão da realidade, o refúgio nas drogas, na vivência sem limites nem responsabilidades... é sobre tudo isto, este surpreendente Trainspotting. Ewan McGregor ascende ao estrelato, por meio de uma interpretação genuína e cheia de vida, à frente de um elenco de caricaturas diversificadas e bem conseguidas.

Excepcional, o acuro visual da fotografia de Brian Tufano, das cores à iluminação, em perfeita sintonia com toda a arte da mise en scène e com a demais direcção artística. Mas a riqueza visual da obra nasce também das ideias surrealistas, por sua vez provenientes dos efeitos secundários do uso e abuso dos químicos. O mergulho na sanita será, muito provavelmente, a cena mais memorável de todo filme; pelo menos, é a minha preferida.

Sem jamais atingir uma mestria suprema, Trainspotting transborda emoções fortes e um sentido estético inegavelmente ousado e ecleticamente eficaz. Tem apenas uma contra-indicação: pode tornar-se viciante. A primeira vez que assistir ao filme, não será certamente a última.

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suit on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that? I chose not to choose life. I chose somethin' else. And the reasons? There are no reasons. Who needs reasons when you've got heroin?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A PRAIA (2000)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Beach
Realização: Danny Boyle
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Virginie Ledoyen, Tilda Swinton, Robert Carlyle, Guillaume Canet

Crítica:

O PARAÍSO PERDIDO

A imperfeição das sociedades humanas suscitou, ao longo da nossa existência, as mais variadas e aprofundadas reflexões e efabulações, sejam elas de ordem política, filosófica, religiosa, antropológica ou poética. Já a mitologia clássica alimentava o impossível retorno à Idade do Ouro e ao estado primordial das coisas. Constate-se, a título de exemplo, a poética de Ovídio, nas Metamorfoses, inspirada no conceito de Hesíodo. Mais tarde, as tradições islâmica e judaico-cristã profetizaram um Reino dos Céus, a eterna renovação e a plenitude da alma. Thomas More arquitectou a Utopia, cujas conotações modernas elevaram o conceito da sociedade pura e perfeita ao idealismo e à fantasia. Milton, em resposta às sagradas escrituras, anunciou o Paradise Lost. E esta introdução só para referir os nomes mais sonantes na edificação do mito e as suas mais conhecidas variantes que, ciclicamente, o revigoraram e revitalizaram.

A obra de Alex Garland, na qual John Hodge se baseia para a adaptação do argumento deste A Praia, não é de modo algum alheia a este fenómeno marcadamente literário (aceite que está a própria evolução do conceito do que é ou não literário, ao longo dos séculos). Assim sendo, A Praia não é senão mais uma variação do mito, desta vez impregnado nos meandros da pop culture.

Richard (Leonardo DiCaprio, a irradiar talento e carisma) é um jovem turista americano recém-chegado à Tailândia. Como todos os jovens, sonha com a evasão, com o mundo ideal e perfeito, com o escape ao cancro e aos vírus de uma sociedade consumista, capitalista e individualista.

My name is Richard. So what else do you need to know? Stuff about my family, or where I'm from? None of that matters. Not once you cross the ocean and cut yourself loose, looking for something more beautiful, something more exciting and yes, I admit, something more dangerous. So after eighteen hours in the back of an airplane, three dumb movies, two plastic meals, six beers and absolutely no sleep, I finally touch down; in Bangkok.

Beleza, excitação, perigo. O jovem procura, afinal, uma experiência marcante e irrepetível, totalmente nova. I just feel like everyone tries to do something different, but you always wind up doing the same damn thing.

Banguecoque funciona, pois, como sinédoque da vida moderna e Danny Boyle filma-a de forma electrificante e ultra-dinâmica, a um ritmo pulsante e vertiginoso e com uma banda sonora absolutamente contagiante. Até que, num hotel da cidade, Richard conhece Daffy, o maluco e drogado do quarto do lado, e toma conhecimento da praia: um local puro, belo, fascinante... um lugar escondido do mundo, absolutamente secreto, totalmente proibido. Quando Richard encontra o maníaco morto, no dia seguinte, depara-se com um mapa, que aponta o destino com precisão e que reclama autenticidade para a história que julgara apenas uma lenda ou uma alucinação.

Lança o convite a dois desconhecidos do mesmo corredor do hotel, um casal de namorados franceses cuja beleza da rapariga já o intrigara, e faz-se à aventura. You hope, and you dream. But you never believe that something's gonna happen for you. Not like it does in the movies. And when it actually does, you want it to feel different, more visceral, more real. E, a cada passo do paraíso, o sonho ganha contornos cada vez mais reais. A ideia da existência de um mundo perfeito é, simplesmente, magnetizante e não se medem os perigos do desconhecido. Por aí se vê também a ingenuidade e a imaturidade da juventude perante as fáceis e por demais atractivas e ilusórias propostas da vida:

Trust me, it's paradise. This is where the hungry come to feed. For mine is a generation that circles the globe and searches for something we haven't tried before. So never refuse an invitation, never resist the unfamiliar, never fail to be polite and never outstay the welcome. Just keep your mind open and suck in the experience. And if it hurts, you know what? It's probably worth it.

Quando chegam à ilha, nem querem acreditar: praia de areia branca, vegetação exuberante, água cristalina, cascata e céu estrelado, canabis para o resto da vida, restante natureza abastada e graciosa e um silêncio apaziguador e purificante. Mal sabiam os jovens que, no entanto, o paraíso e a perfeição existem, mas a um preço muito alto e por muito pouco tempo. Rapidamente serão confrontados com a impossibilidade do recomeço e com a verdade para lá da aparência: uma sociedade ameaçada por agricultores e traficantes de droga, hipócrita e fundamentalista, tão contaminada como qualquer outra à face da terra, capaz de sacrificar valores e vidas humanas em nome de um ideal e de uma visão do mundo. In the perfect beach resort, nothing is allowed to interrupt the pursuit of pleasure, not even dying. O sonho depressa se converterá no pior dos pesadelos... e no fim da inocência.

A fotografia de Darius Khondji é belíssima, o trabalho de montagem portentoso (Masahiro Hirakubo) e a banda sonora, ainda que bastante eclética, alia-se harmoniosamente na exaltação soberana das sensações. Destaque para o tema Porcelain, de Moby, para sempre associado ao filme. O elenco revela-se à altura do desafio, nomeadamente DiCaprio, Paterson Joseph e a rígida líder da aldeia, excepcionalmente interpretada por Tilda Swinton. Há cenas icónicas e inesquecíveis, como a assustadora apresentação de Daffy, a chegada à ilha, o salto na cascata, o confronto com o tubarão, o mágico e romântico mergulho por entre o plâncton resplandecente ou uma frenética sequência de loucura na selva, com influências de videogame. Cá para mim houve um certo desiquilíbrio dramatúrgico e formal neste acto - passámos do feel-good movie para o drama e para o thriller psicológico num ápice - mas nada que prejudique crassamente o todo. A Praia pode não ser o filme perfeito, mas concretiza um irresistível compêndio de fascínio e de inspiração.

I still believe in paradise. But now at least I know it's not some place you can look for, 'cause it's not where you go. It's how you feel for a moment in your life when you're a part of something, and if you find that moment... it lasts forever...

Game over.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

QUEM QUER SER BILIONÁRIO? (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Slumdog Millionaire
Realização: Danny Boyle, Loveleen Tandan

Principais Actores: Dev Patel, Anil Kapoor, Saurabh Shukla, Rajendranath Zutshi, Freida Pinto, Irrfan Khan, Azharuddin Mohammed Ismail, Ayush Mahesh Khedekar, Rubiana Ali, Madhur Mittal, Sunil Kumar Agrawal

Crítica:

O DESTINO
DE UM MOSQUETEIRO

When somebody asks me a question,
I tell them the answer.

Slumdog Millionaire é um filme sensacional, de uma energia pujante, contagiante e mágica. É sobre a Índia em transformação. De entre os lamacentos bairros de lata erguem-se, hoje, imponentes prédios que arranham os ceús e acentuam os contrastes de um país multifacetado em todas as suas cores e culturas. Da miséria profunda à potência emergente, há todo um reflexo de um país que se espelha - claramente - no percurso pessoal de Jamal Malik. Afinal, quem diria que o menino que consegue o autógrafo de Amitabh Bachchan, imundo dos pés à cabeça, conseguiria vencer 20 milhões de rupias, tornar-se multi-milionário e cair nas bençãos da fama? D) It is written. O verdadeiro tema de Slumdog Millionaire - mais do que qualquer leitura sobre a Índia ou Bollywood - é, pois, o destino. A sorte.

Danny Boyle (com o apoio de Loveleen Tandan) filma aquilo que podemos chamar uma autêntica explosão de alegria e de energias positivas. A obra aborda temas sérios, é certo, mas fá-lo sempre com uma ligeireza muito particular, cheia de esperança e romantismo. Não é difícil, por isso, evadirmo-nos da nossa própria realidade e escaparmo-nos nesta aventura de sonho, onde nos sentimos confortáveis nas mãos do destino, antevendo um happy ending, bigger than life. Eis o que explica, em grande parte, o sucesso à escala global de um filme como Slumdog Millionaire e, da mesma forma, um concurso como Quem Quer Ser Milionário? - It's the chance to escape, isn't it? Walk into another life. Doesn't everyone want that? Na verdade, poder-se-á dizer que Slumdog Millionaire é tão sensacional quanto sensacionalista. E não há nenhum mal nisso. Fá-lo deliberadamente e é essa a sua voz de afirmação. Afinal, explora a mesma fórmula que os programas televisivos, na conquista pelas audiências... Envolve o espectador, possibilita-lhe infindáveis momentos de boa disposição e apela ao derradeiro poder das emoções. Não importa que a proposta do argumento seja absolutamente idílica. Porque não deixarmo-nos levar?

Aparte uma ou outra performance menos bem conseguida (refiro-me, inevitavelmente, a Freida Pinto, Rubina Ali ou Tanvi Ganesh Lonkar) ou, a meu ver, a ausência total de química na relação amorosa entre Jamal e Latika, é certo que estamos perante um filme irrepreensivelmente bem feito, aceite que está a sua natureza. O argumento desenvolve-se em três linhas narrativas (1. O interrogatório policial; 2. O programa de televisão; 3. Os flashbacks.) e constrói-se na alternância entre todas elas. A fotografia de Anthony Dod Mantle é visualmente arrebatadora, com enquadramentos radicalmente inesperados, a montagem de Chris Dickens é verdadeiramente prodigiosa e a banda sonora de A. R. Rahman extraordinariamente vibrante e extasiante. Que nem as suas várias canções. No elenco destacam-se Dev Patel, Anil Kapoor, Irrfan Khan ou o pequeno e encantador Ayush Mahesh Khedekar.

A cena dos créditos finais, que tantos repudiam e consideram ridícula, não é senão o espelho de todo o espírito do filme: descontraído, divertido e cheio de vida. Populista, à la Bollywood. Por tudo isto, Slumdog Millionaire tem o candor de nos fazer sonhar a vida como uma celebração. Basta deixarmo-nos levar. E como sabe bem, de vez em quando, não levarmos as coisas demasiado a sério.

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Nota especial para a infeliz escolha do título português.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões