Mostrar mensagens com a etiqueta Akira Kurosawa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Akira Kurosawa. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

KAGEMUSHA - A SOMBRA DO GUERREIRO (1980)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Kagemusha
Realização
: Akira Kurosawa

Principais Actores: Tatsuya Nakadai, Tsutomu Yamazaki, Kenichi Hagiwara, Jinpachi Nezu, Hideji Otaki, Daisuke Ryu, Masayuki Yui, Kaori Momoi, Mitsuko Baisho, Hideo Murota, Takayuki Shiho, Koji Shimizu, Noburo Shimizu, Sen Yamamoto, Shuhei Sugimori, Kota Yui, Yasuhito Yamanaka, Kumeko Otowa

Crítica:

A SOMBRA E O ARCO-ÍRIS

Poucos foram os cineastas que, até hoje, se revelaram magistrais pintores da tela mágica. Akira Kurosawa foi, porventura, um dos melhores. Autor de portentosos clássicos a preto e branco como Rashômon - Às Portas do Inferno ou Os Sete Samurais, o mestre japonês criaria toda uma nova e impressionante linguagem visual baseada na poética conjugação de luzes e cores: Kagemusha - A Sombra do Guerreiro é, muito provavelmente, um dos mais deslumbrantes exemplos dessa audaz visão artística. Do fulgor das bandeiras e estandartes ao suor das cavalgadas e tiroteios, das épicas marchas sobre a terra às sangrentas cargas sobre os homens, da paisagem natural à dimensão onírica dos sonhos... as cenas de Kagemusha assumem-se como autênticas aguarelas vivas, imersas em tons vermelhos e amarelos, verdes ou azuis. É a arte de criar o belo na recriação de universos extraordinários, ricos em detalhe e visualmente arrebatadores.

Kagemusha - A Sombra do Guerreiro conta a história do clã Takeda, uma das mais afamadas e poderosas famílias do Japão do século XVI. O seu líder é Shingen, conhecido por ser veloz como o vento, silencioso como a floresta, feroz como o fogo e inalterável como a montanha, a quem é apresentado um sósia que lhe poderia ser muito útil em tempos futuros. Na verdade, esse kagemusha (= sósia) não é senão um ladrão condenado à cruz, que vê na proposta uma oportunidade de ouro para escapar à morte. Quando Shingen é ferido mortalmente em combate, o sósia é levado a substituí-lo, enganando grande parte do clã e, sobretudo, o inimigo. A ilusão sustentará, portanto, a guerra.

A farsa, enquanto resistir, atribuirá ao filme um registo fortemente irónico que, por sua vez, lhe conferirá também um humor inesperado e bem-vindo. Ao mesmo tempo que é glorificada a imagem do samurai e há uma representação ambiciosa das estratégias bélicas, das armaduras e artefactos que vestiam e equipavam aquelas gentes e dos cenários que reclamam a autenticidade da reconstituição histórica, esboça-se sobre essa ironia a tragédia do ser humano, pois há - sempre subjacente - uma crítica à ambígua natureza do Homem: muitas são as vezes em que preferimos a mentira à verdade para manter a aparência e os nossos interesses e, às tantas, acreditamos mais na mentira e preferimo-la sobre qualquer verdade. Ao fim e ao cabo, o filme dá conta dessa relativa facilidade com que o ser humano transforma a mentira numa verdade e como esta aparente aleatoriedade define o nosso sistema de crenças.

Marcando o contraponto com toda esta escala grandiosa e massiva, o filme assume também um cunho intimista e profundamente emocional. À tragédia do clã (metáfora e sinédoque da tragédia da espécie) sobrepõe-se por vezes a tragédia pessoal do kagemusha, brilhantemente interpretada por Tatsuya Nakadai e acentuada pela transfiguração facial que a maquilhagem possibilita. Afinal, ele terá que prescindir da sua própria identidade e tornar-se num convincente actor. A problemática filosófica instala-se: um sósia só significa algo quando há um original. Quando o original desaparece, o que acontece ao sósia? Kurosawa explora as potencialidades dramáticas do argumento por meio de uma siderada direcção de actores e de uma inspirada e determinada encenação.

Destaques especiais para a fotografia de Takao Saitô e de Shôji Ueda, que se coadunou harmoniosamente com a visão do mestre (em muito, graças à adaptação dos storyboards) e para a banda sonora de Shinichirô Ikebe, ao serviço das mais variadas exigências dramatúrgicas. Excusado será mencionar a excelência do design e o raro aprumo na concretização da direcção artística, do figurino aos décors. Há cenas absolutamente memoráveis: tanto aquelas em que silhuetas escurecidas se imortalizam sobre fumos e fundos vermelhos, como aquelas em que o entardecer luminoso ofusca as hostes da refrega, como aquele arco-íris que se esboça sobre o horizonte da praia, como aqueles cavalos moribundos que, na derradeira agonia, falecem sob a cadência poética.

Akira Kurosawa assina, aqui, uma arte que conflui perfeitamente a herança clássica da forma oriental de contar histórias com uma inovadora explosão de criatividade pictórica. Kagemusha - A Sombra do Guerreiro é, em si mesma, uma obra que irradia inspiração e que viria a exercer uma sombra imensa sobre o futuro do cinema. Quando muito não seja sobre a magnífica obra que se seguiria na filmografia do realizador: Ran - Os Senhores da Guerra.

sábado, 4 de setembro de 2010

RAN - OS SENHORES DA GUERRA (1985)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Ran
Realização: Akira Kurosawa


Principais Actores: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryu, Mieko Harada, Yoshiko Miyazaki, Hisashi Igawa
Crítica:

A FAMÍLIA,
O REINO E A GUERRA

O Homem nasce a chorar. Morre, quando já chorou tudo.

Podemos não ter paciência de oriental para seguir como gostaríamos a lenta narrativa de Kurosawa... mas é certo que, ultrapassando uma certa barreira inicial, as oponentes desvanecem-se que nem nuvens na imensidão dos céus. Quero com isto dizer que não é difícil ficarmos rendidos às qualidades artísticas de tão magnífica obra, que nos entra pelo subconsciente por meio de poderosíssimas imagens... que jamais esqueceremos.

Visualmente espectacular e arrebatador, Ran - Os Senhores da Guerra pinta belíssimos frescos em cada frame. A cinematografia (em muito graças aos constantes jogos de luzes e cores, que se estabelecem entre guarda-roupa e cenários) é um autêntico primor, impressionante. Depois, a espectacularidade do épico de Kurosawa abraça uma carga dramática singular, quando parece emanar teatro a cada cena, a cada investida de representação... Isso nota-se tanto pela presença shakespeariana nas entrelinhas da narrativa como pelas técnicas teatrais (Kabuki) habilmente utilizadas e manifestamente interiorizadas nas sublimes prestações dos actores. Refira-se, a propósito, o memorável desempenho de Tatsuya Nakadai e a excelente direcção de actores (graças à qual todos os actores têm espaço que baste para intensificar os seus papéis). O argumento, escrito a três mãos, enche-se de frases memoráveis, nesta viagem de grande envergadura aos confins de um Japão feudal com alma poética, repleta de confrontos morais e acção bélica. E na decadência daquela família vemos espelhadas tantas outras famílias...

Ran - Os Senhores da Guerra é, por tudo isto, um grande filme, tematicamente universal porque nos toca a todos, pai e senhor de uma herança artística intemporal, legada às gerações seguintes e sublimemente continuada, por exemplo, por um Yimou Zhang.

terça-feira, 8 de junho de 2010

RASHÔMON - ÀS PORTAS DO INFERNO (1950)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Rashômon
Realização
: Akira Kurosawa

Principais Actores: Toshirô Mifune, Machiko Kyô, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijiro Ueda, Fumiko Honma, Daisuke Katô

Crítica:

QUEM CONTA UM CONTO...

Há obras puramente sublimes e Rashômon - Às Portas do Inferno é um desses feitos memoráveis: uma obra-prima de uma genialidade ímpar, esculpida como se fosse um diamante. Akira Kurosawa assina aqui uma parábola eloquentemente enaltecida por interpretações viscerais, por uma narrativa complexa e poderosíssima, e pela sua visão magistral de fazer cinema.

No início, chuva. Uma portaria em ruínas. Dois homens atormentados: um lenhador e um bonzo, ambos réus de um processo em tribunal relacionado com o misterioso assassinato de um homem. Nada... não percebo nada... nada de nada... Não percebo nada de nada. De nada mesmo - desabafa em voz alta o lenhador. Eis que chega um plebeu desconhecido e que aborda as intrigadas e introspectivas criaturas. O sacerdote adianta, a medo: mataram um homem. (...) As guerras... os sismos... os tufões... as fomes... as epidemias... cada ano traz as suas catástrofes. Além disso, todas as noites os bandidos cometem vários crimes. Com os meus próprios olhos vi homens, não sei quantos, serem abatidos como animais. No entanto, nunca vi nada tão terrível como isto! Sim... nada tão terrível como isto. A minha fé na humanidade ficou abalada. É mais terrível que os bandidos, que as epidemias, que a fome, o fogo ou a guerra. Note-se a retórica densa, lenta e hesitante, num crescendo de suspense notável. É então que o padre e o lenhador se prontificam a contar ao forasteiro o que aconteceu. Inicia-se, desta forma, uma série de flashbacks e de flashbacks dentro de flashbacks; uma construção narrativa assaz ambiciosa, intrincada e ao mesmo tempo tremendamente estimulante.

Primeiro, o lenhador assume a narração: atravessava o bosque - a fabulosa banda sonora faz aumentar a expectativa - quando se deparou com os primeiros indícios do crime. O chapéu de mulher preso a um galho. Um boné de samurai no chão. Um saco em brocado em cima de umas folhas mortas. Uma corda cortada ao pé do cadáver. Foi esta, também, a sequência dos acontecimentos revelados na audiência judicial. Depois, contou do depoimento do bonzo, falou do homem que apanhou o assassino Tajomaru e este, por sua vez, falou das circunstâncias em que o prendeu. Falou do assassino que, por sua vez, assumiu o crime, se pronunciou a propósito da mulher do falecido (pela qual se perdera imediatamente de amores) e que acabou por contar a sua versão da história.

Discordando da figura da mulher traçada por Tajomaru e que o lenhador deu a conhecer até aqui, o bonzo vem contrapô-lo, lembrando que a mesma se deslocou mais tarde ao tribunal para contar a sua versão. Versão, essa, de flagrante distinção. Ao tribunal foi convocada ainda uma médium, para dar parecer da versão do morto. Outra versão completamente diferente.

No meio de tanta versão contraditória, ninguém se entende a respeito do que terá realmente acontecido. Nós, inclusivé, pois claro. A sucessão de versões, cada uma mais verosímil do que a outra, vem mergulhar-nos num mar de dúvidas... em vez de nos encaminhar para o apuramento da verdade. Já não se sabe quem fez o quê, quem matou afinal aquele homem que passeava pela mata, acompanhado da esposa. A dificuldade em resolver o caso é extrema. No meio de tanta versão, contudo, jamais nos perdemos. A narrativa tem um encadeamento tão bem concebido que rapidamente entramos na lógica da divisão diegética e dos múltiplos pontos de vista. Nós somos colocados no local dos juízes, ocupamos a posição da câmera para a qual os intervenientes discursam e chegará a altura em que nos aperceberemos da forma como cada um subverte a história a seu favor e/ou a seu gosto. Afinal, quem conta um conto... acrescenta um ponto e a natureza do facto, já por si irreversível, ficcionaliza-se por meio da palavra. Não é essa senão a origem das histórias. Afinal, a história é, ela própria, essa farsa tão humana. É mimesis, diria Platão. Uma mentira, que existe desde que o Homem existe.

Kurosawa filma com uma inspiração extraordinária, movendo a câmera tão subtilmente, com tamanha perfeição... A banda sonora de Fumio Hayasaka desempenha um papel fundamental na criação da atmosfera e na condução do suspense. Os enquadramentos da fotografia de Kazuo Miyagawa são verdadeiramente excepcionais. A montagem, a cargo do realizador, é feita com a maior fluidez. E o filme em si é, da abertura ao desfecho, absolutamente assombroso e impressionante. Toshirô Mifune, Machiko Kyô, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijiro Ueda, Fumiko Honma... que performances incríveis, que elenco excepcional.

A sua fraqueza [dos Homens] força-os a mentir. (...) Se não podemos acreditar em ninguém, este mundo é um inferno - conclui o bonzo, temendo pelo futuro da humanidade. E, por meio dele, conclui Kurosawa a moral da história, na forma de uma mordaz crítica à sociedade. Eis, pois, a metáfora do estado do mundo: a mentira é intemporal e é tão intrínseca ao Homem como a necessidade de contar histórias, como a necessidade de comer, beber ou respirar. A mentira corrói a moralidade, faz-nos cair na desconfiança e no egoísmo. Se não queremos viver como cães, hoje em dia, só podemos ser egoístas - remata o plebeu que, tal como nós, ouviu aquela insólita história nas paragens chuvosas de Rashômon.

Quando o choro de um bebé abandonado irrompe pela precipitação, finalmente, cada uma das três personagens é posta à prova. O plebeu rouba os pertences da criança e sai de cena. Terá o sacerdote motivos para perder a fé no Homem? Estaremos condenados à perdição? Eis, na derradeira hora, dois homens com o futuro nos braços, conscientes da sua humanidade. Uma portaria em ruínas. A chuva pára.

Por tudo isto e tanto mais, Rashômon - Às Portas do Inferno, de Akira Kurosawa, constitui um filme essencial e obrigatório. Um dos expoentes máximos da Sétima Arte e, com certeza, um dos melhores filmes de sempre.


<br>


CINEROAD ©2020 de Roberto Simões