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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

AS ASAS DO DESEJO (1987)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★
Título Original: Der Himmel über Berlin
Realização: Wim Wenders
Principais Actores: Bruno Ganz, Peter Falk, Solveig Dommartin, Otto Sander, Curt Bois, Hans Martin Stier, Elmar Wilms, Sigurd Rachman, Beatrice Manowski, Lajos Kovács,

Crítica:

A CIDADE DOS ANJOS


Als das Kind Kind war,
wußte es nicht, daß es Kind war...

As Asas do Desejo, obra-prima de Wim Wenders, imortaliza o encontro entre o humano e o divino, entre a dimensão terrena, efémera e material, e a eternidade jamais palpável. Entre o físico e o metafísico, entre a vida e a morte, o espectro romântico e esotérico de uma narrativa profundamente melancólica, depressiva, reflexiva e metafórica; Peter Handke, juntamente com o realizador, concebeu um argumento assaz poético e eloquente, fantasioso, mas absolutamente lúcido, mergulhado em existencialismo. De uma beleza transcendente, a fotografia de Henri Alekan pinta rasgos de genialidade, desde o preto e branco imaculado ao mais apurado sentido estético da cor e da composição dos planos. A religiosidade da banda sonora de Jürgen Knieper convoca, a cada compasso, uma experiência mística, derradeiramente perturbante e desoladora. No seu todo, As Asas do Desejo constitui uma autêntica celebração da arte, do cinema e da vida - a vida como privilégio.

Sobre os céus da Berlim ferida pela guerra, sobre os prédios e os monumentos, vagueiam anjos, intocáveis e invisíveis aos mortais, quais almas perdidas - somente algumas crianças os reconhecem e identificam, tomadas pela inocência. Desvanecem-se as asas, inicialmente, para que identifiquemos na transparência a simultaneidade deste mundo paralelo. Têm forma humana e vestem gabardinas, mas raramente comunicam entre si. Deambulam num silêncio lúgubre. Ouvem as angústias e os pensamentos mais secretos das pessoas e invejam a sua condição (conhecemos as personagens, essencialmente, através dos seus pensamentos). São seres condenados à solidão e ao infinito do tempo. Não sentem calor nem frio nem dor, não sentem o peso pois são mais leves do que uma pena, é-lhes impossível o toque. São voyeurs em eterna contemplação da humanidade.

Als das Kind Kind war,
war es die Zeit der folgenden Fragen:
Warum bin ich ich und warum nicht du?
Warum bin ich hier und warum nicht dort?
Wann begann die Zeit und wo endet der Raum?
Ist das Leben unter der Sonne nicht bloß ein Traum?
Ist was ich sehe und höre und rieche
nicht bloß der Schein einer Welt vor der Welt?
Gibt es tatsächlich das Böse und Leute,
die wirklich die Bösen sind?
Wie kann es sein, daß ich, der ich bin,
bevor ich wurde, nicht war,
und daß einmal ich, der ich bin,
nicht mehr der ich bin, sein werde?

Sob a influência dos poemas de Rilke, o argumento recupera os anjos Damiel e Cassiel. Certa vez, contudo, Damiel (Bruno Ganz, num papel memorável) apaixona-se por uma trapezista circense e o seu destino altera-se para sempre. O storytelling desenvolve-se envolvente, intrigante, num lirismo sensível e hipnotizante. A cadência da montagem (ou da ausência dela, por vezes) contribui decisivamente para o ritmo irregular, tendencialmente lento e moroso, assim como alguns diálogos. A elegância da filmagem impera. Wenders domina as mais variadas técnicas: planos-sequência, travellings e os mais virtuosos movimentos de câmera; nós, espectadores, somos como que embalados neste ritual encantatório. Qual Muro de Berlim, que na cor dos seus graffitis separa duas dimensões de um só mundo, também As Asas do Desejo é sobre uma barreira entre a realidade que conhecemos e o além etéreo. O Muro, para lá das conotações políticas, simboliza o obstáculo a transpor. Não é por acaso, pois, que a metamorfose de Damiel (e do próprio filme) se dá em frente ao Muro. A mudança acontece, Damiel ganha a vida e o filme ganha, definitivamente, cor. Dos céus traz uma armadura, como na mitologia, para o princípio da existência mundana.

Na cidade, a vida moderna, a publicidade e o product placement a cada esquina (abundam as marcas de tabaco e de automóveis), mas especialmente a beleza na arte: no circo, no concerto de Nick Cave, no cinema. Por meio da mise en abyme - o cinema dentro do cinema - a contextualização e a representação de um passado histórico, o fantasma do holocausto. Peter Falk, o actor, magnetiza-nos a atenção na interacção aparentemente alucinada com o vazio. Revela-se, por fim, também ele, um anjo caído.

E logo depois do Fortsetzung folgt, a dedicatória da obra a todos os anjos antigos, mas sobretudo a Yasujiro, François e Andrej. Não são eles senão Ozu, Truffaut e Tarkovsky, respectivamente. Segundo James Kendrick, we can see [nesta assombrosa obra de Wenders] traces of Ozu’s quiet elegance and humanism, Truffaut’s romanticism, and Tarkovsky’s obsession with the interrelations of time and space and history (Cf. aqui). Revejo-me inteiramente na sua afirmação.

Por tudo isto e tanto, tanto mais, As Asas do Desejo é uma obra que parece vislumbrar, a cada instante, a perfeição. Um sublime e incontornável pedaço de cinema, tão ousado na estética como prodigioso em memória.

Als das Kind Kind war,
wußte es nicht, daß es Kind war
alles war ihm beseelt,
und alle Seelen waren eins.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

TERRA DA ABUNDÂNCIA (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Land of Plenty
Realização: Wim Wenders

Principais Actores: John Diehl, Michelle Williams, Burt Young, Shaun Toub, Wendell Pierce, Richard Edson, Jeris Poindexter

Crítica:

UM RETRATO DA AMÉRICA
PÓS-11 DE SETEMBRO


A América sabe bem, talvez como nenhuma outra nação desde há décadas, vender a sua imagem. É o país da liberdade, da riqueza, onde é possível a concretização de todos os sonhos. Porém, sabemo-lo, é um país que, internamente, lida com imensos fantasmas e assimetrias: a pobreza, o racismo, o preconceito, o complexo de superioridade. United we stand, afirmam. Ironicamente. Hipocritamente.

As feridas da Guerra do Vietname e a vergonha da derrota mantiveram-se, até aos dias que correm, bem acesas
no seu quotidiano. Com o 11 de Setembro de 2001, a ameaça do terrorismo tornou a realidade americana num autêntico cenário de medo e de pavor. Generalizaram-se obsessões, com a segurança pública ou com a segurança individual. Aterrar de avião, por exemplo, pode agora revelar-se uma experiência agonizante. Passear pela rua sem conferir, de quando em vez, as alturas e o topo dos arranha-céus é quase inevitável. Encontrar sacos, caixas ou pacotes abandonados faz temer - imediatamente - a pior explosão. O cruzamento com um árabe, mesmo que apenas árabe em aspecto, faz temer - imediatamente - um estrondoso homem-bomba. O simples facto de receber, pelo correio, um envelope anónimo faz temer - imediatamente - um atentado bio-químico. É claro que muitos destes procedimentos tenderão a atenuar-se com o tempo; é normal que assim seja. Mas o certo é que o ataque da Al-Qaeda acertou em cheio no coração e na alma dos norte-americanos. Manchou uma cultura de sangue, precipitando - a grande escala - o impulso de guerra, dificultando a diplomacia e as tentativas de coexistência pacífica.

Terra da Abundância não é um hino nacional ou uma propaganda de bandeira; depreenda-se a ironia do título. Também não é, propriamente, uma tentativa de exorcismo ou de catarse. É mais como um retrato, frontal e realista, dessa perturbada e ansiosa existência americana deste início de século. Não é totalmente pretensioso ou moralista, funciona mais como um exame de consciência.

John Diehl é Paul, um ex-combatente do Vietname, traumatizado pelo confronto e pela solidão. Vive o seu dia-a-dia numa carrinha equipada, armado em detective por conta própria e achando-se capaz de desmantelar conspirações internacionais, que lhe permitirão evitar assim futuros atentados. They're trying to destroy our country. They're trying to infect us. I'm not going to let them. A base das suas investigações passa por suspeitas infundadas, preconceitos e congeminações ultra-criativas. Michelle Williams é Lana, a sua sobrinha. Regressada do Médio Oriente, procura o tio, mas o reencontro mostra-se difícil. Integra uma missão de ajuda aos pobres quando um tiroteio às portas do centro aniquila Hassan, um sem-abrigo para quem home is not a place, it is people. É nessa altura e por causa dessa morte que tio e sobrinha se unem (mais por ela, que vê no trágico acontecimento uma forma de se aproximar do familiar). Juntam-se numa investigação para descobrir as ligações de Hassan ao mundo do terrorismo, mas Lana tem o espírito e a visão livres de ideias pré-concebidas. Há-de desvendar o mistério com a maior das simplicidades, longe dos secretismos e procedimentos estratégicos do tio, confrontando-o com a verdade e com a necessidade fundamental da desconstrução dos estereótipos.

Wim Wenders, ladeado por excepcionais operadores de câmera e por brilhantes profissionais da arte de fotografar (Franz Lustig) e de montar (Moritz Laube), concretiza um filme profundamente humanista e excepcionalmente bem feito, com o dúbio condão de parecer tão genuinamente americano como estrangeiro, tal é o olhar tanto intimista e próximo como distante com que trata, simultaneamente, o tema e a questão. Talvez o facto se deva ao próprio Wim Wenders: cineasta alemão que, no entanto, conhece tão de perto a realidade americana. John Diehl e Michelle Williams lideram o elenco, com performances seguras e sólidas. As canções, de sonoridades distintas mas fabulosas, embebem a obra com os seus ritmos e cadências, num todo fluído e pleno de harmonia.

No fim, fica-nos mesmo a canção... e a esperança...

May the lights in The Land of Plenty shine on the thruth some day...


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões