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quarta-feira, 22 de março de 2017

AMADEUS (1984)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Amadeus
Realização: Milos Forman
Principais Actores: F. Murray Abraham, Tom Hulce, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Roy Dotrice, Christine Ebersold, Jeffrey Jones, Lisabeth Bartlett, Kenny Baker, Charles Kay, Barbara Bryne

Versão do Realizador

Crítica:


A VOZ DE DEUS

I am a vulgar man! But I assure you, my music is not.

Jamais me lembraria de imaginar Mozart - Wolfgang Amadeus Mozart, o génio da música - a envergar uma desconcertante peruca cor-de-rosa, a rir-se que nem uma hiena e a peidar-se que nem uma criança, despudoradamente. Mais difícil seria imaginar-me, seguramente, a adorar uma efabulação biográfica que ousasse retratá-lo dessa forma, sem que a considerasse profundamente ridícula ou demérita. Pois bem, Amadeus executa-a insolitamente, para meu espanto. Para meu espanto e para espanto de meio mundo, a partir de peça original de Peter Shaffer (que também assegurou o argumento e a adaptação). E como adoro o devaneio! A proposta narrativa é de tal modo alucinada, carismática e triunfal que, hoje em dia, fica difícil pensar em Mozart sem ser transportado, imediatamente, para o imaginário criado pelo filme. I am a vulgar man! - admite o músico, a dada cena - But I assure you, my music is not. E, efectivamente, sempre que ouvimos as suas inspiradas e prodigiosas composições, ascendemos ao olimpo dos deuses. E rapidamente perdoamos o seu carácter mais frívolo ou obsceno. Chegamos, inclusive, a apaixonarmo-nos por este delirante Mozart.

O filme, assinado por Milos Forman - que anos antes realizara o inspirador Voando Sobre Um Ninho de Cucos - abre e fecha na ala de um hospício. Mas não tardará a tornar-se faustoso e por demais requintado, frequentando a corte e os seus palácios, os teatros nacionais e festivos bailes de máscaras. A maior parte dos exteriores - e dos interiores - é filmada em Praga, na aura ainda setecentista das suas ruas e dos seus edifícios. Na verdade, muito poucos foram os cenários construídos propositadamente para o filme (precisamente: o apartamento de Mozart e a escadaria adjacente, o teatro do vaudeville, a sala do asilo e não mais do que isso). O certo é que, em todos eles, a direcção artística (Patrizia von Brandenstein e Karel Cerný) mostra-se de um arrojo e de uma exuberância absolutamente invulgares, tão elevados. Desfilam, a todo o instante, grandiosos figurinos (Theodor Pistek), sempre aprimorados por múltiplos folhos e rendas, pelas perucas da moda (todas, claro, à excepção da de Mozart) e por muito pó-de-arroz. Iluminado a luz natural (Miroslav Ondrícek), a viagem no tempo concretiza-se com assaz verosimilhança, fora uma ou outra liberdade fora-de-tempo (como a já referida irreverência e excentricidade do compositor na arte de se apresentar em público), mas que ganha sentido na medida em que aqui se procura retratar que os génios vivem sempre à frente do seu tempo, destacados ou alienados dos demais.

No caso dos génios, aliás, é comum a arte fluir-lhes do espírito, com aparente facilidade, como se fossem possuídos por Deus, como se o talento tudo explicasse, ao contrário dos restantes artistas, que se esforçam por sobressair da mediania. Esta é, no fim de contas, a história de Amadeus: não tanto focada no génio, mas sobretudo na sombra de Salieri (espantoso desempenho de F. Murray Abraham, no papel de uma vida) e na forma como este lida com a frustração de não conseguir, nem por uma vez, ser um criador ao nível de Mozart. A Salieri - o paladino dos medíocres ou, como o próprio diz, their champion (...) their patron saint -, custa-lhe a crer como pode Deus servir os Homems de tão desigual modo. Ainda para mais quando é um homem certinho, politicamente correcto e profundamente religioso e quando Mozart (inesquecível Tom Hulce) não passa de um bon vivant, espalhafatoso e infantil, mulherengo, entregue aos prazeres da carne, aos vícios do álcool e do rapé e que adora divertir-se, sem olhar a gastos - aliás, a sua situação financeira, mesmo depois de casado, pai de filhos e senhor de uma casa, com a fama alcançada na corte e entre os seus pares, é tão desregrada que sucumbe facilmente aos excessos. A dor maior de Salieri é, precisamente, ter consciência da sua limitada qualidade e do simplismo das suas composições, sentindo-se esmagado pelas pautas do rival. Consumido de tal forma pela inveja, não admira que tão atormentada alma acabe no manicómio, até aos seus derradeiros dias. A sua confissão ao padre - e ao espectador - é, provavelmente, o último resquício da sua vitalidade e da sua saúde mental: o assumir, finalmente e em bom tom, para o mundo e para si próprio, a sua paixão pela obra de Mozart: This was a music I'd never heard. Filled with such longing, such unfulfillable longing, it had me trembling. It seemed to me that I was hearing the voice of God.

Cenas memoráveis são mais do que muitas: desde Mozart ainda menino-prodígio a fazer sucesso na corte a Salieri envelhecido (excepcional, o trabalho de caracterização de Dick Smith), amarrado a recordações. Da encenação d'As Bodas de Fígaro a Don Giovanni, d'A Flauta Mágica e da estridente e arrepiante cena da Rainha da Noite à devastadora composição do fúnebre requiem e a cena em que Mozart, já enfermo, febril e debilitado, dita de cabeça a sua música a Salieri... Momentos genuinamente artísticos, alicerçados numa dramaturgia sóbria e que tão bem equilibra a comédia e a tragédia.

A juntar-se a todas estas qualidades, já referidas, a música do génio, omnipresente, que se torna uma verdadeira personagem e cuja alma tudo assombra e transcende. Que forma auspiciosa de levar ao grande público a beleza, a pureza e a magnificência da melhor música clássica. Com o passar dos anos, Amadeus não envelhece numa cena que seja. Se há filmes intemporais, Amadeus é sem dúvida um deles. Da mais disparatada gargalhada à mais lírica ópera que podemos conceber, Amadeus tornou-se, pois, por mérito próprio e cheio de graça, um clássico instantâneo e essencial.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

OS CORISTAS (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Les Choristes
Realização: Christophe Barratier

Principais Actores: Gérard Jugnot, François Berléand, Jean-Baptiste Maunier, Jacques Perrin, Kad Merad, Marie Bunel, Philippe Du Janerand, Jean-Paul Bonnaire

Crítica:

A VOZ DO CORAÇÃO

Os Coristas, primeira longa-metragem de Christophe Barratier, é um filme encantador e profundamente inspirador. A sua melodia sentimental, repleta de esperança, encontrará certamente ressonância nas nossas emoções.

Magistralmente fotografado (Jean-Jacques Bouhon, Dominique Gentil, Carlo Varini) e com uma competente direcção artística, a obra é um regresso à infância de Pierre Morhange e de Pépinot - a 1948, mais precisamente - quando a música, que tem o poder de transformar pessoas, atmosferas, tempos e lugares, irradia pelo Fond de l' Etang, um colégio interno algures na França ainda assombrada pelo trauma da guerra. Atrás do gradeamento do portão esperam dezenas e dezenas de rapazes, crianças, tão delinquentes quanto sós no mundo... A sua rebeldia é contrariada por uma educação pavloviana (acção - reacção), que os castiga, reprime, oprime e revolta. A escola funciona mais como uma prisão de correcção, liderada pelo director Rachin (François Berléand) - um homem extremamente frio, exigente e rigoroso. Tudo se altera quando o bondoso e sensível professor Clément Mathieu (Gérard Jugnot, perfeito no seu papel), o cabeça de ovo, entra em cena e traz consigo as partituras, o sorriso, a amizade, a capacidade de sonhar e a possibilidade de redenção. É a música que lhe permite ultrapassar as dificuldades de um confronto infecundo e, nessa linguagem vibrante e transcendente, tocar o íntimo daquelas crianças.

A fórmula cinematográfica já é conhecida, é certo, mas Barratier jamais nos cansa com o arrojo e, ao mesmo tempo, com a simplicidade com que trata o argumento. Para além disso, a banda sonora (Bruno Coulais, J.P. Rameau) é verdadeiramente arrepiante e comovedora! Jean-Baptiste Maunier, o cara de anjo, tem - mais do que uma beleza inequívoca - uma voz celestial, que nos enebria em absoluto.

Recordar é viver e aqui está um filme sem pretensões maiores, dotado de um carisma incrivelmente tocante, que merece ser recordado. Uma autêntica lição de humanidade.

quinta-feira, 3 de março de 2011

I'M NOT THERE - NÃO ESTOU AÍ (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: I'm Not There
Realização: Todd Haynes
Principais Actores: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger, Ben Whishaw, Charlotte Gainsbourg, David Cross, Bruce Greenwood, Julianne Moore, Michelle Williams

Crítica:
NO DIRECTION HOME

I accept chaos.

I don't know whether it accepts me.

I'm Not There - Não Estou Aí emana genialidade, estética e confluência estética. É um biopic nada convencional, irreverente e original, uma viagem singular e extasiante com uma assinatura muito própria: Todd Haynes.

Inspired by the music and many lives of Bob Dylan, a personalidade multifacetada e controversa do artista ganha vida com as interpretações várias de Cate Blanchett (Jude Quinn, a estrela de rock que se refugia no vazio das palavras), Christian Bale (Jack Rollins, intérprete tanto de folk como do evangelho), Heath Ledger (ou Robbie Clark, o emocionalmente instável bon-vivant, intérprete de Jack Rollins e responsável pelo mise en abyme), Ben Wishaw (o assertivo Arthur Rimbaud), Marcus Carl Franklin (Woody Guthrie, a quem se destina o conselho: Live your own time, child, sing about your own time) ou Richard Gere (Billy the Kid, o que representa tudo aquilo que todos os outros apenas aspiraram: aquele que, realmente, is not there, o ser que vive na paz do anonimato e que se recusará sempre a encarar-se a si próprio, para não questionar a sua identidade). E todo o elenco, todo sem excepção, está portentoso nos seus desempenhos: a destacar, também, Charlotte Gainsbourg.

Ora ficcionando sobre a vida real, ora ficcionando a própria ficção, chegando a simular o documentário ou aventurando-se no surreal, I'm Not There - Não Estou Aí vive de um conceito arriscado e por demais audacioso, mas que se revelou magistral, triunfante. É uma obra assaz exótica, atravessada do início ao fim por um fio de pura ironia e por um humor provocador. Detentora de um prodigioso trabalho de montagem (Jay Rabinowitz) e ganhando múltiplos sentidos e uma alma eterna ao som das canções de Bob Dylan, é moldada dentro de enquadramentos e planos meticulosos, filmada por uma câmera inspirada que sabe o que quer e como quer filmar. Ora a cores ora a preto e branco, é - sempre - magnificamente fotografada (Edward Lachman). No desfecho da homenagem, uma breve imagem do verdadeiro Dylan...

Eis, sublime em toda a sua amálgama de registos, uma das experiências mais insólitas e enigmáticas que o cinema já nos proporcionou. Grande, grande filme!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

VELVET GOLDMINE (1998)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Velvet Goldmine
Realização: Todd Haynes
Principais Actores: Christian Bale, Jonathan Rhys-Meyers, Ewan McGregor, Toni Collette, Eddie Izzard, Emily Woof, Michael Feast, Janet McTeer

Crítica:

UMA ESTRELA CADENTE

Elegance walking arm in arm with... a lie.

Velvet Goldmine é, em poucas palavras, como que uma espirituosa e melancólica ode à liberdade. Uma explosão de música electrizante, inebriante e que irradia fascínio. Uma construção ficcional de impressionante, irreverente e desconcertante transfiguração artística, com a única e inconfundível assinatura de Todd Haynes. É sobre a nostalgia dos anos 70, quando por oposição a um flower power de paz e amor emergiu em Inglaterra um movimento assumidamente andrógino, exibicionista e provocatório, de um corte e costura espampanante e extravagante, cheio - dos pés à cabeça - de cor e brilho. Foram os tempos do Glam Rock, aqui homenageados e idolatrados, revisitados e recriados, nesta verdadeira e delirante orgia de estética cinematográfica.

The world is changed because you are made of ivory and gold.
The curves of your lips rewrite history.

De geração em geração é passado o transcendental amuleto, com o intuito primeiro de inspirar e revolucionar a identidade sexual dos Homens. I want to be a pop idol. (...) There is suffering at the birth of a child just as there is suffering at the birth of a star. Ser uma estrela não é senão a forma de acelerar a libertação a uma grande escala. Veja-se como a incumbência de Oscar Wilde impulsionou o futuro para a Verdade, como dele se espelha o reflexo num Jack Fairy. Veja-se como Brian Slade (magnífico Jonathan Rhys-Meyers) admirou o despudor queer do dandy, assim como o seduziu a presença sensacional de Curt Wild. Veja-se, por fim, como Arthur Stuart descobriu a homossexualidade pela aura e magnetismo do seu ídolo... como hoje, interiorizada a liberdade natural das coisas, se extingue a vergonha e se silencia o preconceito, na afirmação conscienciosa de quem realmente somos. A música, como tudo o resto, é um meio para a libertação e o excesso marca presença assídua nas primeiras linhas de qualquer revolução: é uma ficção, uma mentira, um artifício...

Man is least himself when he talks in his own person...
Give him a mask and he'll tell you the truth.

Numa mescla de experimentalismo, maturidade e criatividade sem limites, Velvet Goldmine atinge a expressão máxima dos traços autorais de Todd Haynes. A realização conflui o drama com um biopic travestido, baseado em acontecimentos verídicos cuja génese é ficcionalmente recriada: film à clef. O título do filme, aliás, é o título de uma canção de David Bowie. Obra camaleónica, assume, por vezes, um formato de videoclip. Outras tantas, assemelha-se a um documentário, cuja diegese evolui que nem um puzzle, consoante as revelações dos entrevistados (é notória e deliberada a influência de O Mundo a Seus Pés). O argumento, também desnvolvido pelo realizador, estrutura-se numa confusão onírica que, aos poucos, se descodifica e se resolve. A lenda vive e a história de Velvet Goldmine centra-se na lenda. No final, pouco sabemos sobre o que realmente aconteceu a Brian Slade após a mediática encenação do seu homicídio. Quer dizer, temos conhecimento da alegada conclusão de Arthur, mas o filme em si não decreta fim à ambiguidade e ao mistério.

Mergulhado em canções enérgicas e envolventes, com um elenco portentoso (talentos igualmente notáveis de Ewan McGregor, Toni Collete e Christian Bale) e um trabalho de montagem prodigioso (James Lyons), assim como uma fotografia belíssima (Maryse Alberti) e um guarda-roupa à altura dos mais audazes devaneios estéticos (Sandy Powell), Velvet Goldmine impõe-se como uma obra singular, irrepreensível e obrigatória.

What is true about music is true about life:
that beauty reveals everything because it expresses nothing.


sábado, 24 de abril de 2010

24 HOUR PARTY PEOPLE (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: 24 Hour Party People
Realização: Michael Winterbottom


Principais Actores: Steve Coogan, Paddy Considine, Keith Allen, Rob Brydon, Enzo Cilenti, Ron Cook, Lennie James, Andy Serkis, Kevin Baker

Crítica:

SEX, DRUGS & ROCK 'N' ROLL

And tonight something equally epoch-making is taking place. See? They're applauding the DJ. Not the music, not the musician, not the creator, but the medium. This is it. The birth of rave culture. The beatification of the beat. The dance age. This is the moment when even the white man starts dancing. Welcome to Manchester.

Quando Dédalo concebeu as asas de cera, bem que avisou o filho para que não se aproximasse demasiado do sol ou as asas derreteriam e a queda seria fatal. A cena de abertura de 24 Hour Party People joga, afinal, com esse mito: Is it a bird? Is it a plane? No... Tony Wilson traça a metáfora com o falhado vôo de asa-delta, rematando: You're going to see a lot more of that sort of thing in the picture. I don't want to say too much, don't want to spoil it. I'll just say one word: 'Icarus'. If you get it, great. If you don't, that's fine too. But you should probably read more. Os créditos avançam e assim começa uma vibrante e alucinada viagem à cena de Manchester, entre os finais dos anos 70 e os inícios dos anos 90, quando bandas como Sex Pistols, Joy Division, New Order ou Happy Mondays fizeram furor e ascenderam da garagem ao estrelado e à idolatria de milhares de fãs. Contudo, tal como as asas de Ícaro, a música é um universo bastante susceptível e volátil. Tão depressa se está no auge como no abismo. A filosofia do mendigo denota assaz sabedoria:

It's my belief that history is a wheel. 'Inconsistency is my very essence' - says the wheel - 'Rise up on my spokes if you like, but don't complain when you are cast back down into the depths. Good times pass away, but then so do the bad. Mutability is our tragedy, but it is also our hope. The worst of times, like the best, are always passing away'.

Tony Wilson (fantástico Steve Coogan) assume o protagonismo e a narração. E é enquanto narrador que se revela mais interessante, pois interrompe a acção para falar directamente ao espectador, para antecipar informação (He will go on tosleep with my wife (...) Later on he will try to kill me) ou para simplesmente mentir e efabular sobre os factos históricos que o filme se esmera por reconstituir: I agree with John Ford: when you have to choose between the truth and the legend, print the legend.

O argumento (Frank Cottrell Boyce) confere ao filme uma energia e vitalidade fundamental para fazer com que o espectador reviva as emoções do rock, sentidas à flor da pele naquela musical explosão de ruptura e provocação, sexo e drogas. O filme é baseado na aparente espontaneidade e liberdade de regras, tal e qual a música que nascia sob tão jovial pulsão. A música é, também ela, um agente essencial para a energia e vitalidade da obra. Afinal, 24 Hour Party People é um filme sobre música mas um filme que é, também ele próprio, música. E aos grupos acima anunciados juntam-se temas dos The Clash, dos The Buzzcocks e um remix do tema que dá nome ao filme, por Jon Carter, numa delirante banda sonora.

Para os fãs deste estilo de música, a virtuosa obra de Michael Winterbottom será um puro deleite, certamente. Para os fãs de cinema, fica um irreverente achado de irreverente confluência estética, que se constrói na fusão da comédia com o drama e do biopic com o documentário, num brainstroming musical ímpar. Excepcionalmente montado e dirigido, com momentos de surpreendente criatividade (a cena dos pombos, a título de exemplo), 24 Hour Party People impõe-se como um alien da pop culture, mas ostenta as qualidades necessárias para alimentar um merecido fenómeno de culto.

domingo, 31 de janeiro de 2010

CONTROL (2007)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Control
Realização
: Anton Corbijn

Principais Actores: Sam Riley, Samantha Morton, Joe Anderson, James Anthony Pearson, Harry Treadaway, Alexandra Maria Lara, Craig Parkinson

Crítica:

Is it everything worthless in the end?

Em Control, o biopic de estrelas de rock encontra a dimensão humana e poética, talvez um pouco como em Last Days - Últimos Dias, de Gus van Sant, mas aqui com a sublimação do fotograma e com uma abordagem melodramática. Sem controlo da existência, da sua própria existência, o jovem Ian Curtis vê a luta entre o coração e a consciência, cada vez mais intensa e sufocante, levá-lo longe demais. E o inspirado filme de Anton Corbijn, ele próprio fotógrafo dos Joy Division (e que assina aqui a sua primeira longa metragem), dá-nos conta desse assustador marasmo - mais do que dramático, profundamente desencantado e melancólico. Love will tear us apart, já dizia a canção... e tinha razão.

Perdido entre a mulher, a amante e o desmoronar da sua vida pessoal, Ian encontra em si, afinal, o eco das palavras de Eliot, lidas por Marlon Brando em Apocalypse Now. Sam Riley interpreta o papel do mítico vocalista dos Joy Division, de tão conturbada passagem entre nós, com assaz competência e verossimilhança. A nível do elenco há ainda por destacar, inevitavelmente, Samantha Morton e Alexandra Maria Lara. Revelam-se, ambas, excelentes escolhas de casting. Tecnicamente, o trabalho de mise-en-scène é notável e contribui decisivamente para o prodígio e assombro da fotografia de Martin Ruhe. Afinal, não há frame que não capte todo o esplendor e beleza de tão magnífica e artística recriação a preto e branco. A realização, não sendo nunca extraordinária, jamais compromete a qualidade ambicionada e claramente alcançada pela obra. Aliás, não tem defeito que se lhe aponte.

Control constitui, por si só, um brilhante exemplo de como fugir à convencionalidade de um biopic... e fazer arte em movimento. E é esse o mérito maior de Anton Corbijn, independentemente de agradar ou não aos fãs da banda. Is it everything worthless in the end? Os próprios fãs, um pouco por todo o mundo e melhor do que ninguém, saberão por certo a resposta.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

AUGUST RUSH - O SOM DO CORAÇÃO (2007)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: August Rush
Realização: Kirsten Sheridan
Principais Actores: Freddie Highmore, Keri Russell, Jonathan Rhys Meyers, Robin Williams, Terrence Howard

Crítica: Belo e encantador. Kirten Sheridan herdou do pai, é evidente, a sensibilidade e a elegância de filmar e, sem dúvida, toda a magia que há nisso. Eis, com uma simplicidade comovente, um filme-fantasia sincero e de interpretações brilhantes e genuinas. Destaques maiores (e mais do que merecidos) para o prodigioso Freddie Highmore e para o aqui magnífico Jonathan Rhys Meyers. A fotografia tem a assinatura de John Mathieson e a tocante banda sonora, a de Mark Mancina. É mesmo caso para relembrar o que eu próprio disse noutras situações: que se calem os puristas que não percebem nada de delícias. E logo que delícia, esta.

sábado, 6 de junho de 2009

SHINE - SIMPLESMENTE GENIAL (1996)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Shine
Realização: Scott Hicks
Principais Actores: Geoffrey Rush, Armin Mueller-Stahl, John Gielgud, Noah Taylor, Lynn Redgrave

Crítica:

ENTRE O GÉNIO E A LOUCURA

You must play as if there's no tomorrow.

Foi extremamente prazeroso redescobrir uma obra como Shine - Simplesmente Genial, um biopic tocante, de uma subtileza admirável e deveras inspiradora. Imperam os excelentes desempenhos dos actores principais (Geoffrey Rush, Noah Taylor), mas também dos secundários (Armin Mueller-Stahl, John Gielgud ou Lynn Redgrave). Eis, num só filme, o poder da música, da mente... do pai... e as fragilidades e os mistérios da sobrevivência de um ser extremamente sensível e especial.

domingo, 26 de abril de 2009

LAST DAYS - ÚLTIMOS DIAS (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Last Days
Realização: Gus Van Sant

Principais Actores: Michael Pitt, Lukas Haas, Asia Argento, Scott Green, Nicole Vicius

Crítica: Belo e espontâneo poema de sons e de imagens, Last Days - Últimos Dias canta a alienação do indivíduo sobre o fundo imaculado da Natureza. Canta a solidão do ser humano, decorrente da sua perdição existencial. Num exercício de estilo impressionante e introspectivo, de grande contenção e de uma obsessiva contemplação, Gus Van Sant irradia sensibilidade e mestria, num ritmo muito peculiar. Com um excelente Michael Pitt no agoniado papel principal e sob um efeito hipnótico e imerso em metafísica, o filme dispensa diálogos maiores e empenha-se no retrato cru dessa solidão: as personagens não são senão fantasmas, à deriva num Jardim de Morte, onde impera um grande vazio existencial perfeitamente visível e audível. Eis, derradeiro, o Purgatório das Almas Perdidas.

Que obra de arte sublime.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões