Mostrar mensagens com a etiqueta Romance Épico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Romance Épico. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

TRÓIA (2004)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Troy
Realização: Wolfgang Petersen
Principais Actores: Brad Pitt, Eric Bana, Orlando Bloom, Sean Bean, Rose Byrne, Diane Kruger, Brian Cox, Brendan Gleeson, Peter O`Toole, Julie Christie, Saffron Burrows, Garrett Hedlund

Versão do Realizador

Crítica:

A GUERRA PELA IMORTALIDADE

This war will never be forgotten, nor will the heroes who fight in it.
Odisseu

Na Director's Cut, Wolfgang Petersen intensifica o fulgor da batalha - o confronto torna-se muito mais violento e sangrento: há muito mais sangue a jorrar, mutilações, violações, enforcamentos, etc. - e há mais tempo para aprofundar a sua visão sobre a cultura e a cidade - os cenários são imponentes e impressionantes, Tróia resplandece mais bonita do que nunca. As alterações no emprego da banda sonora de James Horner conferem maior seriedade aos momentos dramáticos e àqueloutros em que a acção é por demais vibrante e empolgante - se há coisa em que o épico de Petersen brilha é nas sequências de acção -, ainda que deixe saudade a canção final Remember, pela voz de Josh Groban, aqui radicalmente eliminada do desfecho. Os trinta minutos adicionais sustentam melhor o retrato e a robustez da história e a sua construção, ainda que as cenas cruciais já lá estivessem desde a versão lançada nos cinemas em 2004. Tróia torna-se, assim e por tudo isto, um melhor filme do que a versão inicial. O que não quer dizer, necessariamente, que ascenda à qualidade de um bom filme. Aliás, apesar de lhe reconhecer as melhorias, acabo por atribuir a mesma classificação a ambas as versões. A ambição e megalomania do realizador são claras - há CGI a perder de vista, como se houvesse a necessidade de superação em relação a outros épicos, de fazer ainda maior - o que não deixa de ser constrangedor porque se há guerra que o filme não ganha é a da imortalidade.

Os valores seguros:
- a componente artística (cenários, adereços, figurinos, penteados, caracterização), a fotografia de Roger Pratt (embora preferisse enquadramentos e composições de planos mais ricos e interessantes, eventualmente uma melhor e mais intensa exploração da paleta de cores);
- a banda sonora de James Horner (bastante criticada, considerada exagerada ou inadequada a muitas situações e momentos narrativos, questão a que Petersen atendeu na Versão do Realizador, claramente em acordo. Há que salientar que a Warner Brothers recusou anteriormente a banda sonora de Gabriel Yared, que o compositor concebeu durante um ano, por considerá-la antiquada e fora de moda. Petersen usou excertos dessa banda sonora ao finalizar esta sua versão, assim como excertos de bandas sonoras de outros filmes como Planeta dos Macacos, Soldados do Universo ou O Conde de Monte Cristo);
- a destreza do cineasta para filmar cenas de luta (excepcionalmente coreografadas, note-se a título de exemplo esse notável duelo entre Aquiles e Heitor, pleno de suspense e sem recurso a duplos);
- a estrela Brad Pitt e alguns nomes sonantes entre o elenco secundário, célebres no género, como Peter O'Toole, Sean Bean, Brian Cox ou Brendan Gleeson.

Gostaríamos que o filme fosse abençoado pelos deuses, alheio a calcanhares de Aquiles, já para não pedirmos uma adaptação minimamente digna do poema sagrado da literatura que é a Ilíada de Homero. Apesar de tudo o que tem de bom, não é propriamente o que acontece em Tróia. Falemos, então, das falhas ou dos aspectos menos positivos.

Comecemos por um descuro técnico que, considerando os grandes estúdios em causa, o grande orçamento e o ano de produção do filme, me parece indesculpável: refiro-me aos escabrosos efeitos especiais, especificamente aqueles que, sobre o mar, comprometem a credibilidade exigida (ainda para mais quando a visão evita os eventos mitológicos a bem da autenticidade). Mas a algum espectador terá sido indiferente o facto de mil barcos sobre o Egeu parecerem tão falsos, tão artificiais e tão feitos a computador, comprometendo o arranque da história? Falemos pois da história, precisamente, porque o maior calcanhar desprotegido é esse. Nem vou falar da má adaptação à epopeia homérica, porque sabemos das liberdades criativas que determinaram que os deuses ficassem confinados ao Olimpo e se retratasse uma guerra de homens. E não de dez anos, porque as grandes massas que pagariam um blockbuster destas proporções nas bilheteiras de todo o mundo não o compreenderiam; afinal, passe a ironia, só teriam capacidade para atribuir a lógica ao acolhimento de um enorme cavalo de madeira portões adentro, no interior do qual se escondem gregos brutais, aguçados pelo engenho de Ulisses. Tróia não adapta, inspira-se livremente, portanto.

Já acima elogiei a construção narrativa, pelo que não cairei em contradição, ao criticar o argumento pelos diálogos, que limitarão os actores na modelação de personagens. Faltam mormente personagens, a Tróia. Personagens bem dimensionadas. Vejamos Menelau e Agamémnon, desempenhados por extraordinários actores (Gleeson e Fox), mas que se vêem confinados ao overacting, à grandiloquência bacoca das suas declamações, de personagens maniqueístas, sem especial complexidade dramática, que não existem nem poderiam existir, sem diálogos que as tornassem reais. Se o guião faz com que actores como estes falhem, imagine-se o que acontece com actores menores ou menos experientes como Orlando Bloom (por mais cobarde que seja o jovem príncipe troiano, o Páris de Bloom é de uma inexpressividade tal capaz de envergonhar todo o produto), Diane Kruger (reduzida à sua beleza, o que é imcompreensível dado o seu papel narrativo) ou Rose Byrne (irritante porque só geme, a coitadinha). Mesmo Eric Bana, já com outra maturidade e talento, só nalgumas cenas consegue escapar à retórica da sua personagem e ao boneco. Apenas Peter O'Toole, a lenda de Lawrence da Arábia, igualmente imerso em retórica (alguma dela teatral, que lhe é tão característica) consegue transmitir-nos alguma verdade; só o seu olhar, consumido pela tragédia, consegue espelhá-la realmente.

I've fought many wars in my time. Some I've fought for land, some for power, some for glory. I suppose fighting for love makes more sense than all the rest. 
Príamo

As motivações para a guerra são efectivamente muito diferentes: Menelau luta pela restituição da honra, o irmão por sede de poder, Páris (a medo) por amor, Príamo decididamente por amor (aos filhos e à pátria) e gregos e troianos lutam porque... pois, não sabemos, o povo aqui não tem perspectiva, mas depreendemos que por dever moral e pela defesa dos seus, como sempre acontece nestas circunstâncias. Os mirmidões lutam por Aquiles e Aquiles luta pela imortalidade. Crente no presságio da mãe Tétis, Aquiles supera-se a si próprio não por ouro, não por reis ou por amor, somente para que o seu nome seja lembrado depois da sua morte, para sempre, enquanto os Homens tiverem memória. Aquiles é o herói: bonito, influente e poderoso, mas não tanto o tradicional herói porque não luta em defesa de outrém. Na sua tempestuosa independência, luta pela fama, para proveito próprio. É, porventura, o mais individualista e egoísta dos heróis, longe dos ideais cristãos. Neste aspeto, Tróia de Petersen respeita os ideais da antiguidade clássica. Brad Pitt é sempre uma escolha acertada e tem um grande desempenho; tinha papel para isso. Curioso que Pitt tenha abandonado The Fountain para protagonizar este épico, cedendo o lugar a Hugh Jackman.

Tróia foi um colossal sucesso de bilheteiras, mas não é um épico tão memorável e sobretudo credível quanto isso. Chega a ser, a espaços, ridículo. Vale, no entanto, pela acção, pela estruturação dos actos narrativos e por variadíssimos méritos artísticos que compõem a totalidade dos quadros.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

OS MISERÁVEIS (2012)


PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Les Misérables
Realização: Tom Hooper
Principais Actores: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen, Samantha Barks, Aaron Tveit, Daniel Huttlestone

Crítica:

Do you hear the people sing?
Singing a song of angry men?
 
A REVOLUÇÃO DO POVO

It is the music of a people
Who will not be slaves again!


Um musical monumental, absolutamente majestoso - puro e duro na sua essência - como há muito tempo não se via. Assim é Os Miseráveis, de Tom Hooper, a partir do sucesso homónimo dos palcos, por sua vez a partir do célebre romance de Victor Hugo. Não é de espantar que a gente com menos tradição ou cultura do musical o menospreze, subvalorize ou injustice, nomeadamente entre a crítica cinematográfica. Basta aliás consultar o histórico de alguns críticos ou bloggers para, simplesmente, nos esbatermos com a ausência da opinião ou apreciação sobre musicais... Nenhum género é menor e ridicularizar a priori um filme porque os atores cantam em vez de falarem é, mais do que uma questão de gosto, uma questão de falta de cultura. Ponto assente, haverá naturalmente os bons e os maus musicais, como os há - os bons e os maus - em tudo.

Dos tons e cores de Eugéne Delacroix - vem-nos imediatamente à memória o simbólico e imortal La Liberté Guidant Le Peuple - a obra prima pelo arrojo visual. Os verdadeiros quadros vivos pintam-se e deslumbram-nos frame by frame. Proeza irretocável do extraordinário diretor de fotografia Danny Cohen, herança da anterior colaboração com Hooper no igualmente magistral O Discurso do Rei. Sobressaem a matemática ou liberdade de cada enquadramento, como que num ato de júbilo, a plena consonância da palete cromática entre o esmerado guarda-roupa e a pomposa e detalhada (re)criação artística dos cenários (há sets impressionantes!) e, até, entre os demais efeitos digitais, na maior parte das vezes invisíveis ou camuflados. A imagem é tratada, requintada, estilizada ao mais ínfimo detalhe, na expressão máxima da beleza - o que constitui quase uma regra poética, comum a tantos musicais.


Falemos dos atores, desse fabuloso elenco de luxo que, com a intensidade das suas performances, confere ao filme uma profundidade dramática tremenda, à altura da exigência narrativa. Comecemos pelo notável Jean Valjean de Hugh Jackman, já que o filme acompanha o seu sofrido percurso, desde escravo da lei ou prisioneiro 24601 - por ter roubado pão para alimentar a sua sobrinha numa Paris assolada pela miséria - a criminoso procurado e perseguido pelas autoridades, em especial e numa demanda pessoal pelo inspetor Javert, interpretado por Russell Crowe. A busca pelo homem intensifica-se durante todo o filme (por Javert, numa servidão moral inquestionável que se deixará consumir pela dúvida) e a procura pela absolvição aos olhos de Deus também (por Valjean, que esconde a sua identidade para tentar um recomeço, mas que não consegue escapar ao passado). Jackman - já perceberamos que era capaz de grandes interpretações desde o genial The Fountain, de Aronofsky - transfigura-se pelo olhar e pela voz; é evidente a sua expressividade física e vocal, como se arrancasse às entranhas toda a sua força e vitalidade. Já o olhar de Crowe é misterioso e dissimulado e o seu corpo é como que escravo e contradição da sua vontade. É como se a carne desejasse tombar das alturas enquanto a alma, atormentada, reclamasse a imensidão da estrelas. Na cena que encerra o primeiro ato e em que canta Stars, sobre o crepúsculo do dia e os edifícios de Paris, essa ameaça é declarada, cumprindo-se mais tarde. A sua voz não tem o lirismo de outras, mas é cerebral e controlada, bem projetada e afinada, o que o salva da crítica maldosa. Temos depois a singela e desgraçada Fantine de Anne Hathaway, que após vender os dentes, o cabelo e o ventre, no porto da repugnância, arrebata um aplauso unânime com a interpretação sentida e por demais intimista de I Dreamed a Dream. É um close-up estático e sem cortes, de minutos sôfregos e dolorosos, em que sentimos cada respiração, cada lágrima. É uma cena puramente arrepiante. Temos depois a dupla cómica do também miserável mas igualmente sublime Sweeney Todd de Tim Burton, Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen, aqui um hilariante casal de vigaristas, perfeitos nos seus papéis. Temos ainda as jovens Amanda Seyfried e Samantha Barks, seguras dos seus tons e dinâmicas, a segunda com maior expressividade física que a primeira, e o também jovem Eddie Redmayne, no topo do triângulo amoroso e dono de um timbre belíssimo, com uma entrega incrível... Não é por acaso que Empty Chairs at Empty Tables resulta numa cena completamente comovente, desoladora e memorável. O cast, até nos papéis menores ou figurantes, é portentoso e por demais extenso, destaquemos por fim o idealista de Aaron Tveit ou o genuíno e bem humorado savoir-faire do pequeno Daniel Huttlestone, como corajoso Gavroche.

Tom Hooper, dotado de inspirada gradiloquência épica (da mesma que se perpetua na assombrosa banda sonora), mostra-se mestre das mais variadas formas de filmar para extrair o melhor de cada ator, de cada cenário, em cada plano. Que era excelente diretor de atores, isso já sabiamos desde o seu filme anterior. Cada personagem tem o seu momento, tornando o filme um exemplo de abrangente pluralidade. Não há como não salientar a opção de gravar as performances musicais no exato momento em que as cenas são gravadas, evitando o perfecionismo das habituais dobragens da pós-produção e entregando o musical a um maior realismo e a um maior poder interpretativo, mesmo se com algumas imperfeições. Ou sobretudo por elas.

Da decadência social das ruas às barricadas e à rebelião do povo, não deixando esmorecer a memória da Revolução Francesa, a obra cresce da sátira para a imortalidade ao som do hino Do You Hear the People Sing? Os Miseráveis conquistou a generalidade do público e da crítica e impõe-se como um triunfo da ousadia, ou não fosse um musical operático - puro e duro como comecei por referir - com 158 minutos de duração, de ação imparável, a grande ritmo. Sem dúvida, um dos melhores filmes do ano e um dos melhores musicais de que há memória.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ÁFRICA MINHA (1985)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Out of Africa
Realização: Sydney Pollack

Principais Actores: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens, Joseph Thiaka, Stephen Kinyanjui, Michael Gough, Suzanna Hamilton, Rachel Kempson, Graham Crowden

Crítica

UMA CANÇÃO DE ÁFRICA

I had a farm in Africa.


África Minha é um magnífico e apaixonante romance, épico no fôlego e na escala  da paisagem, deslumbrantemente captada pela câmera de David Watkin. Pela luz - ou antes, pelas mais variadas luzes do Quénia, que tanto variam consoante o instante do dia, quase que sentimos as diferenças da temperatura, o cheiro da terra, as texturas do verde e do castanho-avermelhado, o poder reinante e pulsante de toda aquela natureza selvagem, em estado puro. Recordar África Minha será sempre imaginar a majestade do amanhecer ou do entardecer, um comboio que rasga as imensas planícies verdejantes, a savana repleta de búfalos, de girafas, elefantes ou perigosos leões, pontuada por altas acácias e bandos de aves que rasgam os céus. Sydney Pollack, dotado de hábil mestria, invoca e perpetua a África do nosso imaginário coletivo, enquanto escutamos a sonante, nostálgica e inesquecível banda sonora de John Barry, plena de sentimento, que tanto glorifica o horizonte como anuncia a tragédia no paraíso.  

If I know a song of Africa, of the giraffe and the African new moon lying on her back, of the plows in the fields and the sweaty faces of the coffee pickers, does Africa know a song of me? Will the air over the plain quiver with a color that I have had on, or the children invent a game in which my name is, or the full moon throw a shadow over the gravel of the drive that was like me, or will the eagles of the Ngong Hills look out for me? 

Talvez por isso uma personagem - verídica - tão persistente e contundente como a dinamarquesa Karen Blixen se encontre a si própria na aventura distante, excitante embora solitária, em que se torna África. Afinal, revela-se uma mulher dotada de inigualável força telúrica, consciente dos seus valores, finalmente liberta dos constrangimentos sociais que a ameaçavam e que quase lhe toldavam espírito e a essência do seu ser. Se há tema maior em todo o filme é o da propriedade ou o da ilusão da propriedade. Karen - só uma atriz como Meryl Streep poderia dar vida a uma personagem tão rica e complexa como esta - casa-se por conveniência e por vontade própria com o irmão do amado não correspondido, seu amigo, com vista a obter o título de baronesa e assim poder partir à aventura, para dar sentido à vida. Ai dos nativos que lhe toquem nos bens, que lhe são tão queridos, que logo os enxotará tão espontaneamente como enxotará, mais tarde, os temidos leões; o que deliciará o desprendido Denys (Robert Redford), tão livre de espírito como de todas as coisas, pelo qual se apaixonará.

O conflito não provém, pois, do adultério da mulher que vive uma paixão proibida. O argumento resolve a questão com uma clareza notável: cruza-se o marido com Denys e transmite-lhe: You could have asked. Denys responde-lhe: I did. She said yes. Não, o marido nunca representou muito mais do que um amigo e do que um pretexto consentido por ambos. Está sempre ausente, desligado do negócio das plantações de café, entre caçadas e mulheres, as mesmas que lhe passam a mortal sífilis que acaba por transmitir a Karen, justificando assim o regresso da protagonista à Dinamarca, para a cura, sensivelmente a meio da trama. O conflito maior não nasce sequer do machismo e ao conservadorismo dos colonialistas, tão insensível e atroz para com os nativos, com os quais se esbate Karen, mal chega ao país e a Nairobi (cidade que a direção artística de Stephen Grimes recriou com a dedicação e o engenho dos técnicos locais, que nada deviam à engenharia). O conflito nasce mesmo dessa relação apaixonada porém contrastante entre a Karen, contadora de histórias, e o misterioso e fascinante Denys. Denys é tudo aquilo que Karen sempre quis ser - absolutamente livre - no entanto é incapaz de se adaptar a alguém como ela, mesmo amando-a, em nome de um ideal, de uma forma de vida inconstante mas tão prazerosa, solitária mas de todos e do mundo.

 I'm with you because I choose to be with you. I don't want to live someone else's idea of how to live. Don't ask me to do that. I don't want to find out one day that I'm at the end of someone else's life. 

É nisto que Karen e Denys não se entendem, se incompatibilizam, preferindo afastar-se um do outro. Karen sonha casar-se; não obstante I won't be closer to you and I won't love you  because of a piece of paper, diz-lhe ele. Ela sonha tê-lo por perto, mais por perto, que ele passe mais tempo com ela, mas só de pensar na ideia de se sentir preso - ou de sentir que pertence a algum lado ou a alguém - Denys já desespera pelo escape. Pena que quando se reencontram e finalmente reconhecem que não têm alternativa senão mudar-se a si próprios a bem da relação dos dois, que o destino seja tão severo e cruel. Nunca mais voarão, juntos, de encontro ao nevado Kilimanjaru, superando todas as fronteiras.

À medida que Karen nos lê as suas memórias e nos relata fervorosamente o seu passado, África Minha assume um indelével tom poético e emocional, de despedida. Partilhamos com ela, a partir das suas palavras, uma mágoa inexplicável, pelas coisas que ficaram por dizer ou fazer, porque não foi possível. Antes dos créditos finais, somos informados que a baronesa nunca mais voltou a África e isso entristece-nos, porque não a imaginamos mais longe da savana, do seu casarão e dos criados que ajudou a escolarizar. A dor de ter pedido Denys ecoou por toda a sua vida.

It's an odd feeling, farewell. There is such envy in it. Men go off to be tested, for courage. And if we're tested at all, it's for patience, for doing without, for how well we can endure loneliness. 


A influência literária da adaptação espelha-se claramente e de forma totalmente intrínseca na criação de Pollack e restante equipa; sobretudo no ritmo demorado, que priveligia o detalhe e o correr dos acontecimentos. Certamente que para os amantes do filme se trata de uma mais-valia, nunca um defeito, que respeita e autentifica a aventura original de Karen Blixen.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

EXPIAÇÃO (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original:Atonement
Realização: Joe Wright
Principais Actores: Keira Knightley, James McAvoy, Romola Garai, Saoirse Ronan, Brenda Blethyn, Vanessa Redgrave, Juno Temple

Crítica:

A CULPA, O CASTIGO

Come back. Come back to me.

Sempre que se dactilografa ou se imagina, ficciona-se. Da mesma forma, afirmar a verdade perante a dúvida pode conduzir-nos a consequências inimagináveis, derradeiramente irreversíveis e irreparáveis. É essa a possível sentença da mentira. A mentira é ficção e a ficção é mentira; compreenda-se a pertinência do quiasmo sintático. Mimesis, já Platão a definira e condenara. Por isso, sempre que o romance começa, a mentira começa. Suportamo-la pelo incomensurável prazer da ilusão. Se estivermos conscientes e assumirmos essa nossa consciência, sabemos que estamos a ser enganados a cada imagem, com a mesma certeza de que, dessa forma, jamais desfrutaremos da tão reconfortante evasão que é apreciar uma grande história.

Expiação, esse delicado e subtil pedaço de cinema de Joe Wright - tão delicado e subtil quanto o próprio artista, que é poeta - joga com todos estes conceitos, em mise-en-abyme. A sua (tremenda) construção narrativa assume-se fundamental para o efeito. No início, a miniatura da mansão, a reprodução do real que é mentira por ser ficção. Esse brinquedo que convida à efabulação. A génese da criação artística começa precisamente na infância, na brincadeira. Brincar é imaginar, é fazer-de-conta, é fingir: é mentir. Briony com 13 anos (prodigiosa revelação de Saoirse Ronan) é, naturalmente, a evolução dessa menina, que se comporta como adulta e cuja brincadeira agora é inventar e escrever peças (interessante, talvez a adolescência se possa definir também como um ritual em que as brincadeiras passam a sérias possibilidades). Para alguém como Briony, um mero equívoco na vida real pode despertar a imaginação e uma série de males-entendidos pode tornar-se bastante perigoso. Não tardará, pois, a confundir a relativa leveza com que se manipulam bonecos ou se orquestram personagens com a justiça com que devem ser tratados os destinos de pessoas reais, sejam familiares ou amigos. Uma só mentira pode destruir vidas para sempre e, em consciência, levar a uma culpa incurável, incapaz de expiação.

A primeira parte do filme - ou, se quisermos, o seu primeiro acto - dá-nos a conhecer o romance improvável entre Cecilia e Robbie (Keira Knightley e James MacAvoy, respectivamente, num acting tão portentoso e apaixonante como a sua própria relação). Improvável, digo, não por duvidar do amor que nutrem um pelo outro mas pela incompatibilidade social, estabelecida a priori, pelos costumes da Inglaterra dos anos 30. A acção centra-se em três episódios, o primeiro deles passado junto à fonte do jardim, durante a tarde solarenga, e os dois seguintes decorridos à noite, um escaldante encontro sexual na biblioteca e, na sequência de um desaparecimento inesperado e de uma violação cujo tarado já fora denuciado antes, ainda que dissimuladamente, por uma dentada numa tablete de chocolate, a condenação que altera o rumo da história para sempre. Tanto para o episódio da fonte como para a flagrante cena da biblioteca, o tratamento da narrativa é o mesmo: primeiro, é-nos dado a conhecer o ponto de vista de Briony e o entendimento do ocorrido é um. Imediatamente depois, em analepse, somos confrontados com a versão real dos factos e o entendimento do ocorrido muda drasticamente, o que aponta para a importância do ponto de vista na arte de contar uma história. O olhar é preponderante e pode mudar tudo. A interpretação errónea de Briony soma e segue, de episódio em episódio, e, por cúmulo de equívocos, delibera uma terrível sentença, com a maior das convicções. Yes. I saw him. I saw him with my own eyes. Robbie é acusado e preso. A história de amor é, assim, tragicamente impedida. Mais tarde, perceber-se-á que outra razão justificou também o incidente. Briony amava Robbie. O seu testemunho às autoridades, motivado pelo ciúme e pela decepção, foi igualmente uma forma de vingança, de punição. O fim de qualquer inocência.

How old do you have to be before you know 
the difference between right and wrong?
Robbie

Quando o segundo acto começa estamos entregues a uma narração cujo narrador desconhecemos. Rapidamente percebemos que o ponto de vista é o de Robbie. I will return. Find you, love you, marry you and live without shame. Há um hiato, a acção recomeça em plena 2ª Guerra Mundial: o antigo criado é agora soldado entre as ruínas da destruição e Cecilia é enfermeira numa Londres transformada pelas necessidades do confronto. Numa cuidada recriação de época (dos cenários ao guarda-roupa e ao mais ínfimo detalhe), somos levados pela viagem no tempo. Apercebemo-nos dos fugazes encontros entre os dois e sabemos que a relação continua, mas desconhecemos o que se passou no intervalo. Se o tempo voltasse atrás... (Wright chega a ousar o rewind, para materializar a ideia). Sentimos que estão mudados, seja pelo sucedido e trágico mal-entendido, seja pela guerra que, inequivocamente, mudou o cenário da acção.

A extraordinária e original banda sonora de Dario Marianelli que, no primeiro acto, nos envolvia e prendia ao suspense, definindo, em crescendo, a montagem e a velocidade da narrativa, dá agora lugar a um instrumento só, melancólico e lúgubre, ou a uma suíte sentimentalista, intensa e dramática, que alteram completamente o tom da história. A narrativa flui misteriosa e envolvente, pelas mãos de Christopher Hampton, a partir do aclamado romance de Ian McEwan. A filmagem sensível, um olhar, um gesto, as mãos - sempre as mãos -, a arte do focar e desfocar, a iluminação... toda essa qualidade de Wright atinge o seu auge no surprendente e memorável plano-sequência sobre a praia de Dunquerque, de cortar a respiração, verdadeiramente. Magnificamente fotografada por Seamus McGarvey, a cena é de uma beleza indiscritível e desarmante, simultaneamente tão desoladora. Que precisão na encenação, que perfeição arrepiante. Quão horrível é a guerra, diz-nos essa cena, entre tantas outras coisas, pois tanto nos diz, tantas histórias nos conta, resume e condensa. Enfim, é daquelas cenas que valem um filme, não valesse o filme o tanto que vale, no seu todo.

Quando as teclas se tornam a ouvir, prenuncia-se a inquietação e instala-se novamente a dúvida sobre a veracidade daquilo a que assistimos. Briony. Cordas. Regressa o tema da primeira parte e mesclam-se sonoridades. Terceiro acto; outro ponto de vista - o de Briony. Também enfermeira, espera reencontrar o seu amado de infância entre os soldados feridos. Corroída pelo remorso, desvendado o mistério daquela fatídica noite, procura a irmã em busca do perdão e do alívio. Não obstante, quando surge no ecrã o rosto de uma Briony envelhecida (brilhante Vanessa Redgrave), dá-se o twist, a confissão e a revelação. Escritora, apresenta o seu último romance - Atonement - na televisão: It’s my last novel. Strangely enough, it would be just as accurate to call it my first novel (...). Quanto ao que se passou na infância, the absolute truth. No rhymes, no embellishments. Quanto ao que se passou depois, romanceou, tentando ser o mais verosimilhante possível, dando-lhes - a Robbie e Cecilia - a final act of kindness (...): their happiness, a mesma felicidade que lhes tirou. Por isso, nas últimas imagens, o postal ilustrado ganha vida. Percebemos então que tudo aquilo que vimos após a detenção de Robbie - tão-somente, passe a ironia, a segunda metade do filme - foi pura ficção. Tal como as restantes personagens, outrora, acreditámos na versão de Briony, tão longe da verdade. Sentimo-nos por fim profundamente indignados, pela ficção dentro da ficção. Fomos enganados.

Um clássico instantâneo e absoluto.

ADEUS, MINHA CONCUBINA (1993)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Ba Wang Bie Ji
Realização: Kaige Chen
Principais Actores: Leslie Cheung, Fengyi Zhang, Li Gong, Qi Lu, Da Ying, You Ge, Chun Li, Han Lei, Di Tong

Crítica:

A ÓPERA DE PEQUIM

Um sorriso desperta na Primavera, uma lágrima escurece o mundo inteiro. 
Como é que isto te beneficia, se apenas tu possuis tal qualidade?
Mestre Yuan

Assisti ao magistral Adeus, Minha Concubina. Poucos filmes terão aguardado tanto tempo, na minha prateleira, por serem vistos e descobertos. A razão por que me decidi a vê-lo foi a mesma que justificou a sua espera: nenhuma em particular. Vislumbrado o filme, o que dizer? Quando uma obra de arte se transcende e nos transcende, revela-se extremamente difícil escapar à poesia ou à crítica impressionista... O perfume ficou, as memórias estão intoxicadas pelo seu mistério e sedução.

Adeus, Minha Concubina será, justamente, uma das pérolas maiores do cinema chinês. Imortaliza a beleza, o candor e o profundo dramatismo da tradicional e popular Ópera de Pequim; por meio dessa representação faz-se a homenagem, tanto dessa espirituosa forma de teatro como da arte em geral. A exuberância visual - da caracterização ao guarda-roupa e aos cenários - pinta uma tela viva de cores quentes e de exotismo. É verdadeiramente assombrosa, pois, a fotografia de Changwei Gu. Nos seus contornos épicos, a obra concretiza também uma viagem no tempo durante mais de cinquenta anos, desde a China do Generalissimo, ainda nos anos 20, à ocupação japonesa durante a 2ª Guerra Mundial, à chegada do comunismo e à Revolução Cultural dos anos 60, que imporia transformações especialmente devastadoras na vida das personagens principais, actores da Ópera, outrora adorados e agora humilhados pelos tumultos da modernidade. Adeus, Minha Concubina é tudo isto. Mas não é tudo isto senão o pano de fundo para o essencial, que é o romance impossível, o percurso extraordinário e a tragédia íntima, pessoal e profissional de Cheng Dieyi (visceral e inesquecível desempenho de Leslie Cheung) e o triângulo amoroso que se edifica em torno dele, do amigo e colega de infância Duan Xiaolou (Fengyi Zhang) e de uma filha d'A Casa das Flores, Juxian (Li Gong). 

Filho de uma prostituta - por isso, desde cedo estigmatizado - Dieyi é entregue ainda criança à rígida, violenta e revoltante formação da Ópera de Pequim. Perde-se um dedo e qualquer outra possibilidade de destino. Dieyi apresenta o perfil ideal - pela sua fisionomia e sensibilidade - para vir um dia a desempenhar o papel principal de concubina, na peça que dá nome ao filme. É forçado a assumir-se como uma rapariga, numa espécie de ritual fundamental para personificar o papel. O certo é que todos estes factores se reflectirão mais tarde no desenvolvimento das suas personalidade e sexualidade (notar-se-á o fanatismo e o perfeccionismo estético ou a paixão incondicional por Xiaolou). Com o tempo e naturalmente, Deiyi acabará por assumir o papel de concubina também na vida real, em toda a sua intensidade e complexidade, unificando as duas dimensões (a real e a teatral) e entregando-se, desse modo, à traição e à fatalidade às quais a sua personagem está inevitavelmente condenada. O argumento (Pik Wah Li, Bik-Wa Lei e Wei Lu) é, em toda a sua construção, um empreendimento de notável inteligência, ostentando the lushness of Bertolucci - referência ao excelso e, em certos aspectos, equiparável O Último Imperador - and the sweeping narrative confidence of an old Hollywood epic*. Eis, provavelmente, uma das razões que justificam o êxito e o reconhecimento crítico do filme no ocidente. Na China, a honestidade e a ousadia do testemunho motivou a acção da censura, antes ainda de qualquer leitura artística; o que é compreensível, ou não tivesse o filme de Chen tamanho significado e impacto político. A Revolução Cultural traiu a própria China, a sua própria identidade e encarar o espelho nem sempre é fácil. 

Longe de terminar a reflexão, voltam-me à ideia a estranheza e o eco daquele canto, a graciosidade dos movimentos em palco, o encanto de tão estilizada e ao mesmo tempo de tão humana obra, o fulgor de tão genuína paixão. É isso que importa. Não se orquestram as palavras para exprimir o filme, mas não faltam as sensações, não se extinguem ou enfraquecem as memórias da experiência. Todos os filmes têm essa dimensão num espectador, todos eles são tanto mais do que palavras. Adeus, Minha Concubina é sublime. 

domingo, 30 de outubro de 2011

GIGANTE (1956)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★
Título Original: Giant
Realização: George Stevens
Principais Actores: Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean, Carroll Baker, Jane Withers, Chill Wills, Mercedes McCambridge, Dennis Hopper, Sal Mineo, Rod Taylor, Judith Evelyn, Earl Holliman, Robert Nichols, Paul Fix, Alexander Scourby
Crítica:

O SANGUE QUE SEMEOU A TERRA

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Alguns filmes parecem, incompreensivelmente, esquecidos no tempo. De uma escala épica e impressionante, bela e esfíngica, Gigante chega até nós como um legado máximo da era de ouro de Hollywood. Magnificamente filmado (desde os íntimos close-ups sobre as personagens às panorâmicas de cortar a respiração) e fotografado (arrebatam-nos a intensidade das cores e os contrastes captados, as nuances e subtilezas da iluminação e dos jogos de sombras), o filme tem o mérito de nos transportar, por inteiro, para outro tempo e para outro lugar. Justamente aclamado como uma das obras maiores de Stevens, agraciada por uma magnífica banda sonora de Dimitri Tiomkin, Gigante parte do romance homónimo de Edna Ferber e eterniza uma saga familiar ao longo de três gerações. Romance e humor garantem-nos, ao longo de mais de três horas, o melhor entretenimento, excitante e espectacular, mas é no drama satírico que o filme descobre as fissuras do sonho americano e da humanidade. Do microcosmos ao macrocosmos, a história toca a totalidade e a universalidade. Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean encabeçam o elenco, com excelentes interpretações.

I. OS HOMENS E AS MULHERES

O argumento de Gigante (Fred Guiol e Ivan Moffat, notáveis na consistência da adaptação) centra a sua discussão na contraposição de conceitos. A primeira oposição tem que ver com as diferentes representações sociais do homem e da mulher. Elizabeth Taylor é Leslie, uma jovem bonita e sedutora, mas sobretudo culta, respondona e emancipada. Desfila, por entre grandiosos cenários, graciosos vestidos, mas é uma mulher de calças, se for preciso, pois tem ideias próprias e jamais se inibirá de as exprimir. Apaixonar-se-á pelo charmoso fazendeiro Bick Benedict (Rock Hudson) e trocará os campos verdes e férteis de Maryland pelas planícies tórridas, estéreis e empoeiradas do Texas (mais uma oposição, que realça desde logo a dificuldade de adaptação a um novo meio, naturalmente mais hostil e socialmente mais conservador). O assombro visual da imensidão da paisagem expõe, a priori, as evidências da mudança: aquela mansão no meio do nada é, só por si, simbólica. A sua recta arquitectura impõe austeridade; fazendo em muito lembrar a casa entre as searas do posterior Dias do Paraíso, de Malick.

Leslie será imediatamente confrontada com o seu novo papel de esposa - com aquilo que o marido e os outros esperam dela - mas a jovem jamais se resignará à passividade ou, pior, à inutilidade. É uma mulher moderna, que arregaça as mangas e reclama a notoriedade. Como dirá mais tarde à amarga e solteirona governanta, não quero ser uma mera hóspede em casa do marido. Há uma cena, após o almoço, em que Leslie interrompe a conversa de Bick e dos companheiros de negócios e intervém activamente na conversa. É um escândalo e o marido repreende-a: isto são assuntos de homens! Mais tarde, o machismo de Bick vem ao de cima, novamente, quando chega a hora do primeiro filho - o primogénito que abraçará toda a herança da família e conduzirá Reata para o futuro. Quis o destino que tivessem um par de gémeos, um menino e uma menina... Bick dedicar-se-á sempre mais ao filho do que à filha - coisas de homens, entendem? - mas o destino é traiçoeiro. Se o não é, pelo menos é traiçoeira a ideia de esperar dos nossos filhos aquilo que nós, pais, queremos e não aquilos que eles, filhos, querem para eles próprios.

Emblemática, a cena em que Bick obriga o filho de quatro anos a montar um pónei e depois um cavalo, quando a criança chora atemorizada e só encontra aconchego no colo da mãe e nos brinquedos de médico. Será um médico, nem mais, a filha apaixonar-se-á pelo genro inesperado, sonhará com uma casa pequena na cidade... Moral da história? Os planos saem todos furados aos pais, de nada adiantam as excessivas imposições ou o fazer dos filhos meros projectos. Os filhos são igualmente indivíduos, que mais tarde serão - eles também - pais, perpetuando o ciclo. Nuclear, por isso, a cena em que Leslie e Bick conversam à luz dos candeeiros de cabeceira, fazendo as cedências necessárias para aceitarem os futuros trilhos da descendência. No curso da vida, por fim, evolui a mentalidade, a educação e com elas a cultura e a sociedade. A brilhante montagem da dupla William Hornbeck e Robert Lawrence joga habilmente com a passagem do tempo diegético e revela-se essencial para o triunfo narrativo. Afinal, aquilo que se poderia tornar, facilmente, uma longa-metragem interminável e enfadonha, torna-se numa experiência extremamente prazerosa.

II. O RACISMO
Com a questão da intolerância racial, Gigante põe o dedo na ferida, especificamente no que se refere à discriminação doentia mas cultural dos americanos sobre os mexicanos. Estamos perante um filme patriótico, disso não há quaisquer dúvidas, mas que talvez por isso mesmo veja a pátria na sua multiculturalidade, sem ignorar as origens e o passado mal resolvido; é Leslie quem, ainda em Maryland e antes do casório, confronta Bick com o caso da expropriação das terras aos mexicanos, no estado do Texas. Apesar da perspectiva unilateral da denúncia, o filme é não só claro como acerrimamente crítico na sua mensagem. O racismo prolifera pela educação que passa de pais para filhos, na ilusão da superioridade, da cultura dominante.

Quando Leslie e Jett Rink (James Dean) chegam à vila de Reata, a senhora fica horrorizada perante uma povoação doente e à qual os Benedict ou quaisquer americanos negam cuidados médicos. Leslie personifica, pois, o arauto da mudança: enviará o médico da família à vila e salvará da morte certa o pequeno Ángel. Ángel, mais tarde, integrará o exército e servirá o país na guerra, sendo um motivo de orgulho para a terra. Ironia do destino, o filho mais velho de Leslie e Bick casará com uma latina, desafiando todo o código de costumes e a aceitação de um futuro neto mestiço. É por demais revoltante, por exemplo, a cena em que a pobre Juana é humilhada no salão de beleza do hotel, potenciando toda a confusão no jantar de homenagem a Jett, self-made man, agora magnata do petróleo. O funeral de Ángel, que regressa a casa como defunto herói de guerra, prenunciava já uma mudança de mentalidade. Bick levava aos familiares da vítima as condolências e uma bandeira do Texas, em sinal de aceitação derradeira. No fim da cena, ambas as bandeiras, a americana e a texana, ondulavam ao sabor do vento, sobre o caixão do militar.

Já perto do desfecho da obra, o famoso banquete de pancadaria em pleno restaurante de hamburgueres, em que Bick se bate em defesa dos mexicanos, tomando-os por iguais. A cena é mais demorada do que seria de esperar; tem um significado romântico, como acabamos por concluir. É naquele instante que Leslie vê no marido um herói, tendo a certeza de que tudo o que viveram valeu a pena. Vence a tolerância, numa cena gratuitamente intolerante para o espectador. O racismo é, contudo e ainda hoje, uma das tendências de pensamento mais fracturantes na sociedade americana ou, pelo menos, uma das mais resistentes.

III. A TERRA E O DINHEIRO

Gigante é, também, sobre a prosperidade económica do Texas e da América, a partir do segundo quartel do século XX. É sobre a transição da produção pecuária para a produção petrolífera, sobre a alteração da paisagem: onde outrora pastavam hectares de gado passam a erguer-se repetidas e altas torres, extractoras de ouro negro, que ferem o solo mas reconfortam a carteira. É a concretização do sonho americano para o jovem Jett Rink, que desde sempre se imaginou longe do texas e a enriquecer. Nunca ninguém deu nada por ele, sobretudo Bick Benedict, que o detestava. Somente a governanta do rancho gostava dele, a mesma que sempre lhe ensinou que mais vale um punhado de terra do que um rio de dinheiro, a mesma que sempre o protegeu do infortúnio.

Quando ela morre e, em sua homenagem, decidem atribuir a Jett ou uns poucos hectares de terra ou o dobro do valor dessa mesmíssima terra, em dólares, não é por acaso que o desgraçado recusa o dinheiro e aceita a terra. Em breve, descubrirá nela petróleo, rios de petróleo, e passará de um coitado de Deus a um produtor de sucesso, de um produtor de sucesso a um empresário exportador, de exportador a milionário e magnata, a excêntrico, poderoso e famoso homem de negócios, dono - imagine-se - de uma companhia aérea; qual Howard Hughes. Quem diria. Jett tentará, por uma e outra vez, comprar o rancho de Bick, mas o Benedict jamais cederá a herança dos seus antecessores. Resistirá à mudança, mas com o tempo render-se-á à produção petrolífera, que o enriquecerá também, ainda mais. É a vitória do capitalismo imparável sobre os velhos costumes, é uma viragem crucial na identidade económica e nacional.

James Dean é simplesmente brilhante enquanto Jett Rink. Que performance assombrosa, que cresce à medida que os anos passam e os cabelos brancos chegam; o envelhecimento é por demais credível. No final, o balanço: um homem rico, muito rico, mas só, muito só. Alcoolizado, preconiza a sua queda, numa vida sem sentido para lá da ambição e do trabalho árduo. Tantos bens materiais para quê? Quando morremos, deixamos cá tudo e não levamos nada. A única coisa que podemos deixar é a saudade e a única coisa que podemos levar, espero, é a memória do amor que sentimos enquanto estivemos vivos. A quem deixará Jett Rink saudade? Que memória de amor levará consigo para a eternidade? Admite, finalmente, ter amado Leslie toda a vida, mas nunca consumou esse amor. Eis, pois, a mais importante lição de todas. Gigante acaba por constituir, dessa forma, uma clarividente elegia sobre a humanidade.

Sinceramente, admira-me como uma obra com a monumentalidade de Gigante possa algum dia ser esquecida. Mas porque será, então, tão poucas vezes mencionada? Que glorioso pedaço de cinema. Um daqueles filmes de uma vida.


______________________________________________
Crítica nomeada para Melhor Crítica nos TCN Blog Awards'11

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Man cheng jin dai huang jin jia
Realização: Zhang Yimou
Principais Actores: Li Gong, Yun-Fat Chow, Jay Chou, Ye Liu, Dahong Ni, Junjie Qin, Man Li, Jin Chen

Crítica:

A TRAGÉDIA IMPERIAL

Aquilo que eu não concedo,
não deves tirar à força.
Imperador Ping

Festival de exuberância, banquete de cores e emoções. A Maldição da Flor Dourada, de Zhang Yimou, vive sobremaneira da ostentação visual, barroca em todos os seus obssessivos excessos e detalhes, megalómana em toda a sua escala, como se no máximo requinte da direcção artística (Tingxiao Huo) e do guarda-roupa (Chung Man Yee) atingisse a transcendência. O feito e o efeito alcançado são, aos olhos de qualquer espectador, absolutamente impressionantes. A deslumbrante fotografia de Xiaoding Zhao cristaliza, se ainda alguma dúvida bastasse, esse glorificado ideal da beleza; marca tão proeminente na filmografia de Yimou (veja-se, a título de exemplo, os magistrais Herói e O Segredo dos Punhais Voadores).

Não obstante, A Maldição da Flor Dourada também alcança a sua epicidade característica na sinédoque da tragédia familiar, protagonizada pela figura central da Imperatriz (Li Gong, numa interpretação brilhante e assombrosa), pelo Imperador (Yun-Fat Chow) e pelos três príncipes descendentes (papéis de Jay Chou, Ye Liu e Junjie Qin). O restante elenco de luxo concretiza esta trama de segredos e de relações incestuosas, de poder e de submissão, de conspiração e de intriga palaciana. Uma história de família e uma batalha interior, encerrada nos confins da Cidade Proibida, mas simultaneamente o reflexo da cultura e de uma sociedade no tempo - o povo chinês durante a dinastia Tang, século X. Depreende-se facilmente a mise-en-abyme. Afinal, qualquer golpe familiar no seio daqueles corredores arco-íris constituirá sempre um derradeiro golpe de estado, tendo consequências imediatas no destino da nação. No final, ressalve-se a moral... Seguir o caminho certo, desafiando a razão e abraçando a coragem, mesmo que traindo a instituição que se representa e da qual se faz parte. Mesmo que conhecendo, de antemão, a impossibilidade da nossa missão.

A Maldição da Flor Dourada não é, de todo, o melhor filme de Zhang Yimou; falta-lhe a subtileza e o virtuosismo com que aprimorou outros pedaços de arte, no passado. Contudo, jamais se lhe poderemos negar as qualidades, que são tantas e tão evidentes - a nível da banda musical (Shogeru Umebayashi) e sonora (Jing Tao e Roger Savage), nomeadamente. Pela sua aura, candor e exotismo, ser-me-á sempre um filme irresistível.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO (1964)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Fall of the Roman Empire
Realização: Anthony Mann

Principais Actores: Sophia Loren, Christopher Plummer, Stephen Boyd, Alec Guinness, James Mason, Anthony Quayle, John Ireland, Omar Sharif, Mel Ferrer, Eric Porter, Finlay Currie, Andrew Keir

Crítica:

O ÚLTIMO IMPÉRIO

A great civilization is not conquered from without
until it has destroyed itself from within.
Will Durant*

Roma renasceu das cinzas - em todo o esplendor e máxima glória - pelas mãos dos artistas, arquitectos e estudiosos que, com esmerado entusiasmo, assumiram a direcção artística deste majestoso e opulento A Queda do Império Romano. Pelos grandiosos cenários, desfilam centenas de figurantes, todos criteriosamente trajados e caracterizados (todos os méritos vão para a dupla Veniero Colasanti e John Moore), movendo-se perante as cadências da sinfónica e genial composição musical de Dimitri Tiomkin. Do aspecto romântico da pintura apuram-se, entre tons e texturas, verdadeiros e impressionantes quadros vivos. Frame by frame. Absolutamente assombroso, o trabalho do director de fotografia Robert Krasker, em constante uníssono com as orientações e potencialidades da mise-en-scène. Anthony Mann capta toda a aura do tempo romano e da civilização antiga com assaz verosimilhança e com uma mestria profundamente conhecedora das técnicas cinematográficas. A câmera capta a imitação da realidade com uma fluidez precisa; notem-se os enquadramentos e os movimentos de câmera, sempre irrepreensíveis, elevando a nobreza da arte de contar uma história.

Quando falamos de elenco, a beleza inconfundível de Sophia Loren (Lucilla) tende a ofuscar-nos o verbo; contudo, não esqueçamos as extraordinárias interpretações de Alec Guiness (como Marcus Aurelius), Christopher Pulmmer (como Commodus), Stephen Boyd (como Livius) ou James Mason (como Timonides). Envolvente e extremamente bem construído, o storytelling, ao longo das três horas de duração; os créditos, atribuem-se ao trio de argumentistas Ben Barzman, Basilio Franchina e Philip Yordan que, sem fantasiar crassamente a História, conceberam um retrato e um ensaio sobre a ambição desmedida e a tremenda sede de poder que, algures no passado, cegaram um homem, condenando um sonho baseado na igualdade, na paz e na liberdade, em ideais gregos de cidadania que se perpetuaram pela filosofia e pela ética. Um sonho chamado Roma.

Oh, Livius. What a world... when its future rests in such as these.
Timonides

Igualmente notável e determinante para o triunfo narrativo, diga-se, é a montagem de Robert Lawrence. Das batalhas e sequências de acção aos bastidores da cena política, da retórica do senado à intriga palaciana e de volta ao espectáculo de larga escala, a montagem esculpe, perante as mais variadas necessidades narrativas, uma velocidade eximia e proporcionalmente doseada.

Poucos filmes do género poderão rivalizar com a magnificência deste A Queda do Império Romano. Sem envelhecer num só compasso que seja, a obra de Anthony Mann alcança o panteão da imortalidade. É, sem sombra de dúvida, um dos maiores e melhores épicos de todos os tempos.

______________________________________________
(*) O consagrado historiador Will Durant foi contratado para aconselhar os argumentistas e artistas da produção, zelando pela objectividade e pela acuidade histórica. É com esta sua frase que o épico encerra.

O SEGREDO DOS PUNHAIS VOADORES (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Shi mian mai fu
Realização: Zhang Yimou 
Principais Actores: Takeshi Kaneshiro, Andy Lau, Ziyi Zhang, Dandan Song

Crítica:

A DANÇA DO VENTO

Uma pérola de cores e encantos, sedutoramente belo. Um puro regalo para os sentidos, visualmente arrebatador, cristalino nos sons e nas melodias. De um sublime romantismo, O Segredo dos Punhais Voadores continua o percurso de excelência do cineasta Zhang Yimou.

A magnificência da obra estende-se, magistralmente, a todos os departamentos: tecnicamente, note-se a deslumbrante e mágica fotografia de Xiaoding Zhao, a exímia montagem de Long Cheng ou o sumptuoso guarda-roupa de Emi Wada. A paisagem e o primor estético da direcção artística (Tingxiao Huo, Zhong Han e Bin Zhao) perpetuam a arte do belo. No notável virtuosismo da arte de filmar, o slow motion e a graciosidade dos movimentos, que ecoam na excepcionalidade das coreografias. Extrema sensibilidade na perfeição dos enquadramentos, que absorve o espectador numa espiritualidade que o extasia e pacifica, continuamente. Subtil e extremamente eficaz, o recurso aos artifícios digitais.

No argumento, fluído como o vento, há poesia nas palavras. Ziyi Zhang e Takeshi Kaneshiro - quão talentosos se assumem os jovens actores - protagonizam a paixão central, inesperada e irresistível, tão intensa quanto proibida, ameaçada e condenada ao mais trágico dos destinos. Andy Lau compõe o terceiro vértice, no jogo de estratégias e aparências, máscaras e farsas partilhadas entre os guerreiros do governo e os rebeldes do clã - às tantas, sacrificando o seu próprio segredo, o seu próprio coração.

A cegueira da qual Mei padece é, ela própria, um elemento fundamental na construção da ilusão, tanto a um nível diegético como a um nível metadiegético, na percepção e compreensão que o espectador tem ou vai tendo, surpreendentemente, da história. As cenas memoráveis são incontáveis, os destaques vão para as fabulosas sequências de acção, com lutas de cortar a respiração, para as cavalgadas e perseguições nas florestas, ou para aquela dança inicial dos tambores.

Magnífica execução. Um clássico instantâneo e absolutamente apaixonante.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

CLEÓPATRA (1963)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Cleopatra
Realização: Joseph L. Mankiewicz, Rouben Mamoulian, Darryl F. Zanuck

Principais Actores: Elizabeth Taylor, Richard Burton, Rex Harrison, Pamela Brown, Martin Landau, Robert Stephens, Andrew Keir, Kenneth Haigh, George Cole, Cesare Danova, Martin Benson, Francesca Annis, Hume Cronyn, Roddy McDowall, Desmond Llewelyn

Crítica:

A ESFINGE

Queens. Queens. Strip them naked
as any other woman, they are no longer queens.

A megalomania no cinema encontra em Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, um dos seus expoentes máximos. Chegava ao fim a era de ouro dos épicos, plenos de esplendor e majestade, ou, pelo menos, uma das mais proeminentes eras do género. Na verdade, depois de Cleópatra, poucos mais épicos se fizeram assim, em Hollywood; a odisseia que foi produzir o filme, numa loucura para lá da ousadia, quase arruinou os estúdios da 20th Century Fox. Raramente encontraremos, de forma tão real, massiva e impressionante, tantos e tão grandiosos cenários, tantos e tão ornamentados figurinos, tantos e tão bem orquestrados figurantes. Da deslumbrante fotografia de Leon Shamroy, emana uma beleza quente, sensual e exótica, que cristaliza na memória a perfeição de tão exacerbado primor técnico. A escala alcançada - e longe de qualquer carácter hiperbólico - mais parece ultrapassar o humanamente possível e tocar o divino.

O filme imortalizou, para sempre, o talento e o encanto de Elizabeth Taylor. Ao lado de Rex Harrison e de Richard Burton (Júlio César e Marco António, respectivamente), montou-se o triângulo principal do elenco, com magníficas prestações. Memorável e absolutamente espectacular, a cena da chegada de Cleópatra, a Roma; sem dúvida, a melhor cena do filme, de uma encenação tremenda. Ela, a mulher, a governante e a divindade - para lá do poder, das ambições e das traições políticas, as ligações amorosas, o sonho de Alexandre e o trágico destino de todos os homens e mulheres que cobiçaram o divino: a ascensão e o declínio.

Ironia ou não, o filme teve a mesma ambição e o mesmo destino: ainda que não totalmente, acabou por fracassar e dele contam-se hoje as grandes façanhas. Diria que o seu maior erro foi o desequilíbrio narrativo - não a duração, propriamente, como tantos apontam. Afinal, a longa duração de um filme não dita, por si só, a sua qualidade. Importa que haja história para contar - e aqui há quanto baste - e um equilíbrio salutar entre a declamação e a acção. Às tantas, terá faltado mais acção à história. A partir da Batalha de Ácio, no último quarto do filme, é notório o equilíbrio entre ambas as componentes, acabando a narrativa por triunfar magistralmente; fosse todo o filme assim. Depois de todos problemas e contrariedades que a produção atravessou, o desequilíbrio foi certamente um reflexo disso mesmo.

Na pedra, resistente a qualquer erosão, fica a marca de um filme que, ainda que desproporcionado, se consagrou monumental.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

CLEÓPATRA (1934)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Cleopatra
Realização: Cecil B. DeMille

Principais Actores: Claudette Colbert, Warren William, Henry Wilcoxon, Joseph Schildkraut, Ian Keith, Gertrude Michael, C. Aubrey Smith, Irving Pichel, Arthur Hohl, Edwin Maxwell, Ian Maclaren, Eleanor Phelps, Leonard Mudie, Grace Durkin, Ferdinand Gottschalk, Claudia Dell, Harry Beresford, Jayne Regan, William Farnum

Crítica:
Together we could conquer the world.

Um guarda-roupa faustoso (Vicky Williams), desfilando por entre cenários grandiosos e imponentes (Roland Anderson, Hans Dreier), é sublimado pelo olhar ambicioso e perfeccionista de Cecil B. DeMille. Esta estética megalómana e refinada, de elevado esplendor visual (quão requintada é a fotografia de Victor Milner), é, aliás, uma das grandes marcas do realizador.

Claudette Colbert, a musa, por detrás de um olhar sedutor e enigmático, magnetiza o espectador numa performance verdadeiramente memorável. Henry Wilcoxon e Warren William destacam-se, no protagonismo dos seus papéis, da tragédia shakespeariana - a sombra de Shakespeare e do seu Júlio César foi inultrapassável, desde os tons do discurso e da proclamação à construção ou reconstrução episódica da narrativa, até certo ponto.

Entre intrigas e traições, o triunfo do amor. E, mais espectacular do que totalmente magistral, um épico absolutamente apaixonante.

domingo, 5 de dezembro de 2010

AUSTRÁLIA (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Australia
Realização: Baz Luhrmann
Principais Actores: Hugh Jackman, Nicole Kidman, Brandon Walters, David Gulpilil, David Wenham, Jack Thompson, Bruce Spence, Bryan Brown

Crítica:

DE VOLTA ÀS ORIGENS

There's no place like home...

Austrália é o regresso de Baz Luhrmann às suas origens e, sob o efeito de mise en abyme, o reencontro do presente histórico de um país com o seu passado original. A invasão dos estrangeiros europeus, que se verificou na Austrália sobretudo a partir da segunda metade do século XVIII, impôs uma cultura de racismo discriminatória e mortal. Do cruzamento de brancos e aborígenes, tantas vezes extraconjugal, nasceram milhares de crianças mulatas, condenadas à morte e à alienação. E à semelhança do que aconteceu noutros pontos do mundo, verificou-se um significativo decréscimo da população nativa australiana; o que acabou por transformar, de forma drástica, a identidade secular do país. Perdeu-se o misticismo, que Luhrmann recupera religiosamente:

Aboriginal and Torres Strait Islander viewers should exercise caution when watching this film as it may contain images and voices of deceased persons.

Assim adverte, ainda antes de se iniciarem os créditos. Não é por acaso, pois, que o argumento tem como narrador o pequeno Nullah (Brandon Walters, quão luminosa revelação).

My grandfather, King George, he tave me a walkabout. Teach me black fella way. Grandfather teach me most important lesson of all. Tell'em a story.

Mais do que uma vasta terra de cangurus e jacarés, barões de gado e chefes guerreiros, a Austrália de Luhrmann é um país de crianças mulatas cruelmente retiradas às famílias, como se não tivessem raízes ou como se não fossem gente. São as gerações roubadas, que só em 2008 receberam o formal pedido de desculpas por parte do governo (como o filme faz questão de frisar, no final).

See, i not black fella. I not white fella, either. Them white fellas call me mix blood. Half-caste. Creamy. I belong no one. (...) King George say them white fellas bad spirit. Must be taken from this land.

Com uma ambiciosa visão épica, Luhrmann concretiza um emocionante e arrebatador romance de aventuras, onde a comédia, o drama e a tragédia correm - sempre - lado a lado, num deslumbrante entretenimento familiar. Da história étnica e familiar de Nullah e do avô King George (David Gulpilil), à paixão primeiramente hilariante e desconcertante e depois vibrante e envolvente entre a aristocrata Sarah Ashley (Nicole Kidman) e o vaqueiro Drover (magnífico desempenho de Hugh Jackman), da travessia das intermináveis manadas pela paisagem (piscar de olhos às travessias d'O Rio Vermelho, de Hawks) às explosões japonesas no eclodir da 2ª Grande Guerra em Darwin, Austrália revela-se um produto claramente competente e acima da média; para um espectador mais exigente, contudo, a enorme manta de retalhos que o argumento constitui, entre as mais variadas influências, referências e lugares comuns e como não poderia deixar de ser, acaba por resultar numa experiência decepcionante. Crikey! (...) Welcome to Australia!

Digo como não poderia deixar de ser porque Austrália tinha tudo para ser um clássico à altura de um E Tudo o Vento Levou, ou seja: um acontecimento deveras marcante e impressionante: em primeiro lugar, porque tinha grandes nomes da indústria à frente do projecto. Em seguida, um orçamento assaz generoso. O que é que falha, em Austrália? Não falharão, certamente, um sem número de qualidades técnicas: banda sonora (David Hirschfelder), som (vasta equipa de talentosos técnicos), guarda-roupa (Catherine Martin) ou direcção artística (novamente Catherine Martin, Ian Gracie, Karen Murphy, Beverley Dunn)... o filme revela-se exímio em todos eles. À primeira vista, o que falha é a fotografia, ainda que não na sua plenitude. Mandy Walker faz um trabalho de excelência; porém, a enorme carga de CGI com que foi tratada grande parte dos planos captados, descredibiliza a paisagem, corrompe a autenticidade do filme e reclama uma artificialidade à beleza daquilo que vemos absolutamente desnecessária e indesejável.

Depois, é evidente, o argumento tem as suas falhas. Aparte a falta de originalidade da história - quantas vezes já não a vimos - o filme tem os seus devaneios criativos, os seus excessos e outra coisa não seria de esperar; afinal, estamos perante um filme de Luhrmann e as suas marcas autorais mantêm-se, por mais pop que sejam. Porém, impõe-se uma questão: até que ponto é que esses excessos ficam bem e se enquadram no registo específico deste género de filme? Bem conheço e admiro o traço autoral do realizador, mas tenho de reconhecer que nestes contornos épicos (por mais multifacetados que eles sejam, no campo do western nomeadamente) o traço não cai bem, não assenta como desejado. Há uma mescla de registos que, na intenção de formular uma identidade autoral, cai no mais puro autismo, destruindo qualquer hipótese de identidade. É por isso que Austrália falha as suas intenções de reinvenção, fazendo-as soar a colagens ridículas e desinteressantes, que se sucedem umas às outras sem que haja um fio condutor forte, sólido e coerente. O traço assenta na perfeição no ritmo frenético e tresloucado de Moulin Rouge, mas não aqui. Por exemplo: o final, com o bombardeamento de Darwin, como que nos decalca Pearl Harbor da memória, por sua vez decalcado de Tora! Tora! Tora!, numa construção e montagem caóticas e despachadas. Qual era, pois, a necessidade de incorporar este ataque na história do filme? Entendo a sua inclusão numa lógica dramática, porém surge-nos aqui forçada, não desenhando propriamente uma nova linguagem, um novo terreno criativo, antes denunciando o clichê. A travessia do gado já tinha sido feita. A história podia acabar ali. Não precisávamos de assistir a um filme já visto.

Apenas o espírito de sonhar e de acreditar de O Feiticeiro de Oz, ciclicamente motivado pelo tema Somewhere Over the Rainbow, me parece triunfar verdadeiramente nesta panóplia de homenagens. Afinal, There's no place like home e é a casa que Nullah regressa, simbolica e literalmente. Dentro do elenco principal, só o durão Hugh Jackman (e, à sua medida, o jovem Brandon Walters) superaram o teste da construção das personagens, sem cairem no ridículo das caricaturas habituais de Luhrmann; note-se Kidman, note-se David Wenham. Não imagino, aliás, nenhum outro actor no papel de Drover - nem sequer Crowe, cujo talento tanto aprecio e que durante tanto tempo esteve ligado ao projecto.

Concluindo, gostei do filme, mas Austrália não é tão momumental como se esperava, como se propunha a ser e como poderia ter sido, efectivamente. É somente um bom filme, que assegura o entretenimento com assaz eficácia e que tão-pouco envergonha o realizador e todos quantos estiveram envolvidos no projecto. No seu candor especial, enaltece uma homenagem maior a todos os nativos, dando-lhes voz e perspectiva na grande tela mágica e marcando a justiça sobre a imoralidade dos homens: just because it is, doesn't mean it should be.


<br>


CINEROAD ©2020 de Roberto Simões