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terça-feira, 14 de março de 2017

DEPOIS DA TERRA (2013)

PONTUAÇÃO: BOM
★★ 
Título Original: After Earth
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Will Smith, Jaden Smith, Sophie Okonedo, Zoë Kravitz, Glenn Morshower, David Denman, Lincoln Lewis, Jaden Martin, Jim Gunter, Monika Jolly, Kristofer Hivju

Crítica:

A URSA E O FANTASMA 

 Danger is very real, but fear is a choice. 

Os ódios de estimação conduzem, na generalidade dos casos, a uma cegueira triste. Plenos, tantas vezes, de inconsciência ou irreflectidos na urgente necessidade de pertença, condicionam visões próprias, silenciam vozes singulares e autónomas, entregando um julgamento fácil e por demais condenatório. M. Night Shyamalan tornou-se - ou tornaram-no -, por estes dias, um alvo fácil, um bode expiatório para uma legião de haters que, a cada filme, destila a sua frustração. Procuram, em cada obra sua, uma fórmula e um padrão, um twist que ditaram obrigatório, um traço autoral hegemónico. Compreendo, em certa medida, que o chamem vendido por abraçar a aventura fantástica de O Último Airbender. Compreendo e concordo, de igual forma, que um filme como O Acontecimento não tenha o fulgor e virtuosismo d'O Sexto Sentido ou d'A Vila. Mas negar as qualidades e méritos de tais obras, somente pela assinatura, é ridículo. O mesmo acontece, a meu ver, com Depois da Terra, um conto moral visualmente deslumbrante, disfarçado de blockbuster de ficção científica*.

No futuro, a Terra já não é a nossa casa. A acção e poluição humana levaram a alterações climáticas drásticas, que extinguiram todas as possibilidades de vida. Mais de mil anos após a última evacuação, a espécie habita e prospera em Nova Prime, uma colónia num outro planeta, assombrada agora pela existência das ursas - assustadores monstros alienígenas, predadores volumosos e de saliva corrosiva, uma mistura do xenomorfo de Alien e da Shelob d'O Senhor dos Anéis, cegos embora capazes de detectar as suas presas pelas feromonas do medo, presentes no ar. Quando a nave em que o general Cypher Raige (Will Smith), o filho Kitai (Jaden Smith) e a tripulação seguia se vê abalroada por uma tempestade de asteróides, arriscam um salto na dimensão cósmica e acabam por despenhar-se num planeta misterioso. Apenas pai e filho sobrevivem e, quem sabe, uma ursa que a nave transportava. Cypher está gravemente ferido e incapaz de andar, o emissor para pedir ajuda intergaláctica está irreversivelmente avariado e para chegar a outro emissor, provavelmente entre os destroços da nave espalhados pela selva, o jovem e cobarde Kitai terá que, sozinho, atravessar cerca de cem quilómetros de perigos e desconhecido: everything on this planet has evolved to kill humans - revela-lhe o pai - Do you know where we are? (...) This is Earth.

O sensível e emotivo rapaz - que sempre se esforçou para ser como o pai, quiçá procurando a sua aprovação e o seu amor - enfrentará uma dura e imprevisível prova de sobrevivência, lindando com uma atmosfera asfixiante e escassa em oxigénio, uma paisagem que congela em minutos com o cair da noite, uma selva densa, habitada por hienas e condores gigantes, ciosos das suas crias, macacos ferozes e vorazes tigres dentes-de-sabre, cobras planadoras e sanguessugas tóxicas e venenosas, capazes de o paralisar ou matar em instantes. Para alguém que, nos treinos militares, sempre foi melhor na teoria do que no terreno, o desafio avizinha-se hercúleo. Ainda para mais se pensarmos que é filho de um guerreiro estóico e lendário: Cypher consegue como que tornar-se invisível perante as ursas, alheando-se dos medos e atingindo um notável controlo e equilíbrio emocional: consegue, portanto, tornar-se um fantasma, capaz de desferir os mais fatais golpes na criatura atacante. A sombra do nome e da fama do pai é um fardo pesado. Mas mais. Um episódio trágico, revelado em flashbacks ao longo da narrativa, justificará o temor maior ao monstro, a fragilidade de Kitai, a frieza do pai e mesmo a desconexão emocional entre os dois.

Da criatividade e ousadia dos cenários futurísticos e dos artefactos humanos mostrados (notem-se as construções de Nova Prime ou o esquelético interior da nave espacial, qual raia num oceano de astros - feitos artísticos de Robert W. Joseph, Naaman Marshall, Dean Wolcott e Rosemary Brandenburg), passamos para o âmago da natureza, no seu verde imperioso. A fotografia de Peter Suschitzky maravilha-nos a cada plano, com paisagens de tirar o fôlego. Seguindo as orientações do pai, cuja voz e guarda está sempre presente por meio da mais avançada tecnologia, Kitai (que, em japonês, poderá significar esperança) avança na aventura e nós avançamos com ele, almejando que seja bem sucedido e que não desiluda o progenitor, salvando-os da morte. É claro que, às tantas, as coisas se complicam, a comunicação falha e Kitai fica por sua própria conta e risco. Não deixa de ser curioso que só então, livre da protecção do pai, consiga cumprir o seu potencial e fazer frente aos perigos, destemidamente. Finalmente, tem asas para voar.

Fear is not real. The only place that fear can exist is in our thoughts of the future. It is a product of our imagination, causing us to fear things that do not at present and may not ever exist. That is near insanity, Kitai. Do not misunderstand me, danger is very real, but fear is a choice.

Depois da Terra é, por tudo isto, uma história de superação, de superação dos medos: medos que são importantes como prevenção, mas que em demasia nos castram e nos incapacitam. É importante transformá-los numa arma, capaz de combater e vencer os obstáculos que se nos impõem. Mas o filme de Shyamalan é também uma história de amor: Kitai compreende, perante o sacrifício e profundo gesto de gratidão do condor, o poderosíssimo e incondicional amor de um progenitor pelas suas crias. O que o rapaz empreende, daí em diante, em resposta, não é senão um sacrifício de equiparáveis proporções. O duelo final com a ursa, entre a poeira e a lava daquele ameaçador vulcão, resulta num clímax de acção excitante e pura.

Que digam o que quiserem de Depois da Terra. Não é um filme perfeito - maior expressão e dimensão na interpretação de Will Smith só beneficiaria a obra e sabe quem anda por cá há algum tempo que alguns efeitos especiais não envelhecerão tão bem quanto se gostaria. Todavia, não é tão-pouco um filme que se perca na sua ambição desmedida. É simples, bonito e eficaz. E, no seu equilíbrio, não envergonha ninguém. Talvez alguns não vejam tudo isto e o considerem um fantasma. Que seja. As ursas, na sua cegueira, não vêm fantasmas. Mas eles existem e valem a pena.

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(*) Palavras de Matt Zoller Seitz na sua crítica ao filme. Cf. aqui

domingo, 17 de novembro de 2013

O ÚLTIMO AIRBENDER (2010)

PONTUAÇÃO: BOM
★★
Título Original: The Last Airbender
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Noah Ringer, Dev Patel, Jackson Rathbone, Nicola Peltz, Shaun Toub, Aasif Mandvi, Cliff Curtis, Seychelle Gabriel, Katharine Houghton, Francis Guinan, Summer Bishil, Randall Duk Kim, John Noble

Crítica:

AVATAR:
O MESTRE DOS QUATRO ELEMENTOS

I knew you were real. I always knew you'd return.

Com O Último Airbender, M. Night Shyamalan não só continua como intensifica o seu odiado percurso em Hollywood. Não só porque se afasta, aqui numa clara clivagem, da senda dos seus argumentos inquietantes, labirínticos ou plenos de suspense... que marcam o seu prisma autoral. Afinal, seria sempre uma tarefa tamanha, compreendemos, recriar em real motion um universo tão característico e querido da animé como o de Avatar. Porém, na minha opinião, que mais uma vez contraria grande parte da crítica, Shyamalan supera-se com paixão e talento. O Último Airbender não cai no ridículo, o mundo das quatro nações edifica-se solidamente sobre a verosimilhança, mérito maior da direção artística e dos tremendos efeitos digitais. A excelência dessas categorias técnicas e da aliança com a fotografia de Andrew Lesnie (o mesmo d'O Senhor dos Anéis) confere inegáveis credibilidade e autenticidade à fantasia. A magia acontece no ecrã. O espetáculo visual impõe-se, por isso, maravilhoso e esmagador.

Pena que o filme não tenha maior duração (já para não falar de sequelas), para aprofundar as personagens e a história, maturar as cenas e os momentos narrativos. O filme peca essencialmente por isso. A edição faz um autêntico milagre com o tempo que lhe foi concedido, livrando-o do desastre, contando da melhor forma possível - relativamente simples até, servindo perfeitamente o público infantil - esta complexa história de mitos e culturas, guerra e espiritualidade, destino e humanidade. A escolha do elenco revela-se acertada: destaques para Noah Ringer como Aang (o por cem anos desaparecido Avatar, mestre dos quatro elementos), Dev Patel (filho rejeitado e príncipe do Fogo, dúbio na sua ação) ou Shaun Toub (o tio Iroh, conselheiro e protetor). Duas das personagens mais bem conseguidas - até pela sua natureza secundária e artificial - são, a meu ver, as criaturas Appa e Momo. Há inspirados movimentos de câmera, que acompanham a energia da ação ou os momentos mais intimistas, que nos emocionam. Para esse efeito contribui também uma das mais sonantes e grandiosas bandas sonoras de James Newton Howard, aqui e ali com toques de John Williams.

Enfim, O Último Airbender é um daqueles filmes que ganharia tanto com uma versão alongada. Cerca de 30 minutos do filme foram eliminados porque o estúdio pretendia convertê-lo em 3D tão rapidamente quanto possível. Alguns desses minutos de cenas cortadas, já revelados no DVD, não acrescentariam muito ao filme, é certo. Quanto ao material inédito, não posso comentar, resta ter esperança. O todo revelado é tão apaixonante que queríamos mais; os admiradores estão é condenados a rever o filme as vezes que quiserem, ao invés de esperarem pela continuação.

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Não me refiro à versão 3D porque não a vi nem a preciso ver; neste caso, como noutros, não passou de estratégia comercial, como sabemos. O filme nem sequer foi concebido para ser em 3D.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O PROTEGIDO (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Unbreakable
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright Penn, Spencer Treat Clark

Crítica:

HERÓI VS. VILÃO

Nunca o universo dos super-heróis e da banda desenhada ganhou contornos tão humanos ou humanizados como nesta magnífica obra de M. Night Shyamalan. O Protegido revela-se como uma proeza de genuína subtileza, um trabalho de grande contenção e crescente tensão, suportado por um argumento assaz sensível e inspirado.

O que é um super-homem? Existe um super-herói? É interessante a forma como nos é apresentada a personagem de Samuel L. Jackson, Elijah Price, um homem atraiçoado pelos genes que o condicionarão às fragilidades da vida: nós aceitamo-lo como um ser real. Porque não aceitar também, com semelhante facilidade, o oposto do Sr. de Vidro, um homem forte e resistente a doenças e aos azares do destino? A questão é deveras pertinente. E o exercício dramatúrgico confrontar-nos-á tanto com a hipotética origem da mitologia de vilões e super-heróis (numa fronteira praticamente inexistente entre realidade e fantasia) como com a verdade sobre cada um dos protagonistas (essencial para saberem o seu lugar no mundo).

Eis, pois, um filme extremamente original, de construção inteligente e performances impressionantes e comovedoras, onde a mestria de Shyamalan emana especialmente em todas as cenas de maior duração, nos premeditados e vagarosos movimentos de câmera, nos planos meticulosos ou no constante jogo entre sons e silêncios. A banda sonora e o tratamento das cores e da cinematografia revelam-se cruciais para a criação do ambiente de suspense. Que assombro de filme.

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Nota especial para a infeliz escolha do título português.

sábado, 13 de novembro de 2010

A SENHORA DA ÁGUA (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Lady in the Water
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Bob Balaban, Jeffrey Wright, Sarita Choudhury, Freddy Rodriguez, Bill Irwin, Jared Harris, M. Night Shyamalan

Crítica:

A MAGIA DE ACREDITAR

Entrar no Reino Encantado de Shyamalan não é, seguramente, para todos. É preciso ser-se especial. É preciso acreditar... na intuição, na sensibilidade, na magia... e, para lá da fronteira do sonho, na possibilidade de redenção. É por isso que, para alguns, A Senhora da Água poderá revelar-se uma experiência poderosamente inspiradora e inesquecível.

À semelhança das anteriores obras do autor, o universo de A Senhora da Água existe numa barreira invisível entre o real e o imaginário. Porém - e talvez como nunca - a importância de acreditar é absolutamente essencial. Assim como a habilidade para compreender o subtexto da obra, tão rico e incrivelmente filosófico, camuflado em símbolos que nem scrunts na relva. Esta não é, apenas, uma simples história para adormecer, contada a crianças... É tão mais do que isso.

Em primeiro lugar, é uma alegoria. Os seres humanos não só optaram por ignorar os povos do Mundo Azul como, nos seus condomínios, se isolam em si mesmos como se tentassem encontrar na solidão a verdade sobre si próprios. E não encontram, longe disso. A comunicação entre os seres humanos, mesmo entre aqueles que dominam o mesmo idioma, é, cada vez mais, algo que se perde na nostalgia dos tempos idos. Dos tempos em que as pessoas se reuniam, conversavam e contavam histórias umas às outras. O acto de contar uma história é, pois, algo extremamente simbólico, de raízes ontológicas. É um ritual sagrado e primitivo, com cerne na palavra e que possibilita a união, que se tende a dissipar totalmente na imensidão do nosso cosmos ou caos existencial. O condomínio onde acontece a história de Shyamalan (The Cove pode significar, numa dada acepção, abóbada; elemento arquitectónico de fortes e por demais evidentes conotações simbólicas) funciona, pois, como um local religioso, de reunião e de grande interacção com o transcendente.

A Senhora da Água é, por tudo isto, o mais religioso dos filmes de Shyamalan. A religião é uma questão de crença: aqui, a magia e os desígnios da história só acontecerão caso as personagens acreditem nas profecias do fantástico, mesmo que lidas em caixas de cereais. Não é por acaso que a única personagem condenada à morte é o crítico de cinema. Ele simboliza o céptico, o frio; aquele que, inteiramente convicto da Verdade, acredita que a narrativa obedece sempre à mesma lógica, não percepcionando o imprevisível e as cadências próprias do imaginário. Note-se que quando Cleveland opta por seguir os conselhos do crítico e atribuir as funções da história a certas e determinadas personagens, nada acontece! Não há magia! Quando o responsável do condomínio, brilhantemente desempenhado por Paul Giamatti, consulta o miúdo, encontra finalmente o verdadeiro oráculo. A eterna magia das histórias é que, na verdade, nunca está tudo dito, há sempre mais qualquer coisa para aprender... Uma história é um organismo vivo, tem alma própria; não se limita, jamais, a ser um mero conjunto de processos narrativos.

A Senhora da Água aborda, também, o tema da identidade. Em O Sexto Sentido, recordemos, a questão batia-se entre vivos ou mortos. Em O Protegido, entre heróis ou vilões. Em Sinais, entre estarmos ou não sós no universo. E o mesmo re-poisicionamento existencial era exigido em A Vila, quando é descoberta a verdade. Em A Senhora da Água, por entre magistrais orquestrações musicais de James Newton Howard, a mesma questão se impõe: as personagens vivem na esperança de saber o seu lugar no mundo e, também, o seu lugar na própria história (uma vez que têm consciência do seu estatuto). O facto de ser M. Night Shyamalan, o actor, a desempenhar o papel de Vick, o escritor, é outro ponto por demais importante e que não podemos descurar. É uma questão de assumir a identidade, numa relação metadiegética; note-se a mise-en-abyme: argumentista - escritor. Um fala pelo outro. E o que é que Story (magnificamente interpretada por Bryce Dallas Howard) profetiza a Shyamalan através de Vick? Que, algures, um rapaz vai ler a sua história, que crescerá e que mais tarde liderará um país e aí ocorrerá uma grande mudança. Falamos aqui, claramente, na importância da moral (inerente à existência dos contos de fadas) na formação de cidadãos melhores e, pois, da importância da inspiração do escritor para mudar o mundo.

Desde o prólogo ao emocionante desfecho, A Senhora da Água assume-se como uma obra maior que simboliza, com assaz perfeição, a condição humana e a sua existência (Comunicação, religião, identidade) e a eterna relação entre entre o plano terreno e o etéreo, encarnada com a deslumbrante aparição final da águia. Magnificamente fotografada, encenada e filmada (a subtil arte de filmar entre o focar e desfocar é, por exemplo, de uma sensibilidade extrema) eis, pois, uma daquelas obras de mestre que o tempo não deixará esquecer... Acreditem, grande obra de arte; digam alguns críticos o que disserem.


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Nota especial para a beleza e requinte na concepção do poster do filme,
acima apresentado.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O ACONTECIMENTO (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Happening
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Mark Wahlberg, Zooey Deschanel, John Leguizamo, Ashlyn Sanchez, Betty Buckley, Frank Collison, Robert Lenzi, Spencer Breslin , Jeremy Strong

Crítica:

A AMEAÇA INVISÍVEL

Science will come up with some reason to put in the books, but in the end it'll be just a theory. I mean, we will fail to acknowledge that there are forces at work beyond our understanding. To be a scientist, you must have a respectful awe for the laws of nature.

M. Night Shyamalan concebe o engenhoso argumento d' O Acontecimento tendo por base dois dos maiores medos das civilizações actuais: o terrorismo levado a cabo por fundamentalistas radicais (os fantasmas do 11 de Setembro vieram despertar o mundo para uma assustadora realidade, traumatizando, em especial, a América) e a destruição implacável e imprevisível da Natureza (as consequências do aquecimento global traçam um novo perfil do Homem - o destruidor - e os alarmes dos especialistas tendem a consciencializar, ainda que lenta ou tardiamente, a opinião pública e a opinião de cada um de nós).

A primeira vez que vi O Acontecimento fiquei com a impressão de que nem sempre uma boa ideia era suficiente para fazer uma boa história. Agora que revi o filme, não tenho como negar a minha anterior afirmação; porém, asseguro que essa lógica não se apropria aqui. O Acontecimento tem, sim, uma boa história. Não é uma história com a beleza e profundidade da de um O Sexto Sentido, de um O Protegido ou de um A Vila, evidentemente, mas parte de uma excelente premissa, explora-a com assaz inteligência e subtileza dramatúrgica e constrói um mistério que se intensifica continuamente, ganhando uma essência cada vez mais sinistra e emocionalmente poderosa. Dos créditos iniciais ao desfecho nada apaziguador, entramos numa atmosfera de puro suspense, numa luta pela sobrevivência capaz de atormentar a psique até ao limite.

Elliot Moore é professor de ciências. Lecciona uma aula sobre o desaparecimento das abelhas, relembrando What are the rules for scientific investigation? Identify variables, design the experiment... careful observation and measurement... interpretation of pattern enquanto de Nova Iorque chegam as notícias de uma série de enigmáticas mortes. Já assistímos a algumas delas. Sabemos que são suicídios involuntários. Sim, suicídios involuntários. Causa? Não a conhecemos.

Central Park was just hit by what seems to be a terrorist attack. They're not clear on the scale yet. It's some kind of airborne chemical toxin that's been released in and around the park. They said to watch for warning signs. The first stage is confused speech. The second stage is physical disorientation, loss of direction. The third stage... is fatal.

Uma das piores e mais assustadoras ameaças das quais podemos ser alvos, enquanto seres humanos, é o invisível, ainda para mais quando desconhecido e impossível de interpretar. Shyamalan propõe-nos uma dessas ameaças e experienciamo-la com especial intensidade. Afinal, o perigo alastrar-se-á ao sabor do vento. A possibilidade ficcional de tamanha ideia poderia soar absolutamente ridícula, mas a construção do argumento é tão notável que a faz totalmente credível. A realização do mestre, contida e excepcional, concretiza as possibilidades do argumento.

Ficam lançados, uma vez mais, os avisos... aqui na forma de uma importante mensagem ecológica, de reconciliação com a Natureza, essecial para o equilíbrio da vida no planeta.
E ninguém conta uma história de suspense como Shyamalan, um dos mais brilhantes e incompreendidos autores da actualidade.


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Shyamalan simplesmente não faz maus filmes. O Acontecimento é, por isso, uma obra com qualidades e que vale a pena. No entanto, tal facto não invalida que lhe aponte aspectos menos positivos, porque os tem e são evidentes: o filme beneficiaria de um maior teor artístico caso o trabalho fotográfico de Tak Fujimoto fosse habilitado de uma maior sensibilidade estética, caso a banda sonora de James Newton Howard fosse mais envolvente. Ambos os contributos são competentes, mas nunca extraordinários. Apesar de tudo, se há erro crasso, é um erro de casting. Não me refiro nem a Zooey Deschanel, nem a John Leguizamo, nem sequer à pequena Ashlyn Sanchez. Nem sequer a Frank Collison ou a Betty Buckley, a brilhante Mrs. Jones. Estão todos formidáveis. Refiro-me ao protagonista, Mark Wahlberg, cujo desempenho se revela, na maior parte das vezes, superficial e lamentável.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

SINAIS (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Signs
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Cherry Jones, Rory Culkin, Abigail Breslin, Patricia Kalember, M. Night Shyamalan

Crítica:

O ACONTECIMENTO

It's happening.

Sinais é, todo ele, uma magnífica construção clautrofóbica sobre fé e família. Suspense sob a mais alta tensão, num storytelling excelso e arrebatador, aqui e ali com tiradas de um humor inesperado e genuíno.

A banda sonora de James Newton Howard mostra-se essencial para o crescendo nevrálgico. Depois, o filme de Shyamalan revela-se dedicado a homenagens e fortes invocações: o cinema de Hitchcock, o cinema dos anos 50, A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells. A sequência final, contudo, saiu prejudicada pela aparição manhosa daquele esverdeado ser; e, por isso, todo o filme, também.

Em suma: é uma boa obra, mas não tão inspirada como seria de esperar de um filme de Shyamalan.

People break down into two groups. When they experience something lucky, group number one sees it as more than luck, more than coincidence. They see it as a sign, evidence, that there is someone up there, watching out for them. Group number two sees it as just pure luck. Just a happy turn of chance. I'm sure the people in group number two are looking at those fourteen lights in a very suspicious way. For them, the situation is a fifty-fifty. Could be bad, could be good. But deep down, they feel that whatever happens, they're on their own. And that fills them with fear. Yeah, there are those people. But there's a whole lot of people in group number one. When they see those fourteen lights, they're looking at a miracle. And deep down, they feel that whatever's going to happen, there will be someone there to help them. And that fills them with hope. See what you have to ask yourself is what kind of person are you? Are you the kind that sees signs, that sees miracles? Or do you believe that people just get lucky? Or, look at the question this way: Is it possible that there are no coincidences?

domingo, 4 de outubro de 2009

A VILA (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Village
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, Adrien Brody, William Hurt, Sigourney Weaver, Brendan Gleeson, Judy Greer, Jayne Atkinson, Michael Pitt, Cherry Jones, Celia Weston, Fran Kranz

Crítica:

AS FRONTEIRAS DO MEDO

Um prodigioso conto sobre inocência, amor e impossibilidade. M. Night Shyamalan esvoaça, uma vez mais e com asas de génio, sobre as fragilidades da condição humana. Entre o cosmos e o caos, aquela vila no meio de nenhures representa a eterna e inatingível utopia do retorno à pureza original. Por meio dela, faz-se a reflexão: sociológica, filosófica, ontológica.

Magistralmente filmado e dotado de um memorável trabalho dramatúrgico, A Vila impõe-se, pois, como um clássico absoluto. Uma obra cheia de espírito, suspense e genuíno e enternecedor sentimento. Uma pérola negra; porém, plena de esperança. Magníficos desempenhos de Bryce Dallas Howard e de Joaquin Phoenix (protagonistas de uma das mais belas histórias de amor do cinema recente), de Adrien Brody e de William Hurt. No elenco constam ainda nomes sonantes como Sigourney Weaver, Brendan Gleeson e Michael Pitt. A perfeição da obra não se fica, todavia, pelas metáforas e brilhantes actuações: a direcção artística mostra-se excepcional, assim como o guarda-roupa (que imediatamente nos projecta no antigamente), Roger Deakins deslumbra na cinematografia e James Newton Howard compõe uma extraordinária banda sonora. Portanto, A Vila é, também, tecnicamente irrepreensível.

Um dos filmes mais marcantes da década, absolutamente imperdível. Subtil e perfeito.

domingo, 7 de junho de 2009

O SEXTO SENTIDO (1999)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Sixth Sense
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Collette

Crítica:

ESPÍRITOS INQUIETOS

I see dead people.

O Sexto Sentido constitui uma experiência genuinamente assombrosa e transcendente. Instala no espectador, num crescendo de suspense e com a maior sensibilidade, um poderoso sentimento de vertigem, de queda abismal e impossível de amparar, na solidão, na escuridão... e no invisível.

M. Night Shyamalan compõe um extraordinário trabalho de mestre; a sua câmara movimenta-se como um espírito perfeito. É impressionante, a sua arte de filmar. A direcção de actores é verdadeiramente excepcional: Haley Joel Osment está prodigioso, está genial! Toni Collette igualmente brilhante e comovente. E Bruce Willis eleva-se à altura. Do arrepio à lágrima, O Sexto Sentido conta ainda com uma banda sonora magnífica, uma das melhores composições de James Newton Howard. O argumento é de uma rara e altíssima qualidade dramatúrgica, profundamente inspirado e inspirador.

O Sexto Sentido é uma obra de referência obrigatória. Um clássico instantâneo, absolutamente essencial.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões