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sábado, 17 de agosto de 2013

SHUTTER ISLAND (2010)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Shutter Island
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine, John Carroll Lynch, Elias Koteas, Robin Bartlett, Christopher Denham, Nellie Sciutto, Joseph Sikora

Crítica:

A ILHA MISTERIOSA

You'll never leave this island.

Dissertar - em cinema - sobre a loucura, faz-me invocar, instantaneamente, aquele clássico magistral de 75, protagonizado pelo genial Jack Nicholson, Voando Sobre Um Ninho de Cucos. Naquele hospício imoral, delineava-se uma linha bastante ténue entre a saúde e a demência mentais. Ser louco poderia significar coisas distintas, consoante o juiz, e a facilidade com que se sentenciava a loucura de alguém apresentava-se-nos como algo de verdadeiramente assustador. Pois bem, este inquietante objecto fílmico de Martin Scorsese segue a mesma premissa; transportando-a, porém, para um ambiente kafkiano, muito mais tenebroso e sinistro, e servindo-se do suspense como principal condutor da narrativa.

O argumento de Laeta Kalogridis, a partir do romance homónimo de Dennis Lehane, equilibra-se, labriríntico e intrincado, sobre a ambiguidade: terá reais fundamentos a investigação do U.S. marshal Teddy Daniels, sobre a conspiração secreta que submete os pacientes do remoto hospital a inovadoras, dolorosas e desumanas experiências científicas, ou será ele próprio um louco paranóico, como tantos outros dos edifícios A, B e C, vivendo num mundo inventado à sua medida? O condão maior tanto do argumento como da realização é o de confundir habilmente o espectador, dificultando-lhe o acesso à verdade e colocando-o na pele do protagonista, dividido entre a sua razão e a razão dos outros.

Os sonantes acordes da banda sonora (Mahler, Ligeti, Ingram Marshall, Penderecki, entre tantos outros) potenciam, de imediato, a atmosfera de terror, assim como o esplendor enigmático da fotografia (Robert Richardson). Os flashbacks, sejam eles sonhos, alucinações ou recordações, alimentam o mistério, adensam a complexidade da história nas suas múltiplas possibilidades. Às tantas, todavia, só dois caminhos se nos restam possíveis e a imprevisibilidade desvanece-se. A conclusão do enredo não é a mais surpreendente e original, mas o filme revela-se sólida e arrojadamente construído e muito bem escrito.

A interpretação de Leonardo DiCaprio é absolutamente magnetizante. O extraordinário talento do actor envolve-nos do princípio ao fim, em perfeita sintonia com as portentosas prestações de Ben Kingsley, Patricia Clarckson, Jackie Earle Haley, Max von Sydow ou Michelle Williams. Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo garantem a qualidade irretocável da direcção artística, Sandy Powell assina o figurino e Thelma Schoonmaker trabalha a montagem do filme, conferindo-lhe uma fluidez assinalável.

Shutter Island afirma-se, pois, como um exercício tecnicamente sofisticado, ao qual se lhe alia uma arte de filmar virtuosa e que transpira maturidade. Um pedaço de cinema brilhante e, no fim de contas, extremamente prazeroso de se assistir.

Which would be worse, to live as a monster,
or to die as a good man?

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

FOME (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Hunger
Realização: Steve McQueen
Principais Actores: Michael Fassbender, Stuart Graham, Helena Bereem, Brian Milligan, Larry Cowan, Liam Mcmahon

Crítica:


CONVICÇÃO E DESOLAÇÃO

Em Fome - primeira e sublime incursão de Steve McQueen na realização - não há esperança, não há palavra, apenas determinação por um ideal. Por isso, os prisioneiros republicanos da prisão de Maze sujeitam-se, em silêncio, à brutalidade, à humilhação e à violação dos direitos humanos. São vítimas dos mais hediondos e monstruosos actos.

There is no such thing as political murder, political bombing or political violence — there is only criminal murder, bombing and violence.

Tanto para os criminosos, como para os polícias munidos de espírito... o tratamento é de choque. A experiência revelar-se-á especialmente repugnante e de difícil digestão, porventura, para o espectador: o argumento foge ao carácter explicativo e é extremamente frontal. O realizador não se coibe de mostrar - com tanta frieza quanto sensibilidade - a violência extrema à qual os reclusos são submetidos. Sem compaixão, a tortura deteriora toda e qualquer possibilidade de dignidade. Animais, apetece chamar-lhes. Os últimos minutos da obra, quando o voluntário Bobby Sands assume a liderança do motim e avança com a greve de fome, são de absoluta deterioração física e moral. O que já era inquietante ganha contornos de horror e a entrega de Michael Fassbender é de corpo e alma. A renegação da vida por um ideal, ainda que por um actor, torna-se assustadora e arrepiante.

Magnificamente fotografado, montado e filmado (destaque para as subtilezas entre o focar e o desfocar e para aquele longo e conversado plano de 20 minutos), Fome revela-se um duro e desconcertante pedaço de arte, capaz de confluir, com rara mestria, realismo e poesia.

Muito bom filme.

domingo, 7 de setembro de 2008

OS CONDENADOS DE SHAWSHANK (1994)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Shawshank Redemption
Realização: Frank Darabont

Principais Actores: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sadler, Clancy Brown, Gil Bellows, Mark Rolston, James Whitmore


Crítica: Os Condenados de Shawshank é, simplesmente, uma obra magistral. Num exercício dramatúrgico inteligente e sem pressas, Frank Darabont serve-se do arrojo e da maior subtileza para nos contar esta comovente, surpreendente e inspiradora história de medo, liberdade e esperança. E sabe-nos... deliciosamente. Tim Robbins e Morgan Freeman trazem-nos uma das duplas mais inesquecíveis da história do cinema, em vibrantes desempenhos. O elenco, todo ele excepcional, conta ainda com o brilho eterno de James Whitmore. A banda sonora de Thomas Newman é magnífica, assim como a fotografia de Roger Deakins. Cenas absolutamente memoráveis? Muitas: o desfecho de Brooks, as Bodas de Fígaro, a analepse e fuga de Andy Dufresne... O final de Os Condenados de Shawshank, pela forma como é preparado, há-de surpreender as sucessivas gerações que se deslumbrarão com o arrojo e simplicidade deste tão tocante drama.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões