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sábado, 17 de agosto de 2013

INDOMÁVEL (2010)

 PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: True Gift
Realização: Ethan Coen e Joel Coen
Principais Actores: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Ed Corbin, Paul Rae

Crítica:

A VINGANÇA

You must pay for everything in this world, one way and another.
There is nothing free except the grace of God.

True Grit convoca e perpetua, na sua forma, todo o cânone do grande western. Em si, tem presente a memória e as referências históricas e míticas que o cinema americano imortalizou durante décadas. Os Coen fazem-no de forma absolutamente honrosa e irrepreensível. A fotografia de Roger Deakins - deslumbrante a cada frame, embora longe da ousadia estética de outros filmes - marca, quanto a mim, o culminar da sofisticação técnica da obra. Proporciona-nos, de um modo perfeitamente verosímil e sedutor, a viagem no tempo.

Suportada pela elevada qualidade técnica da reconstituição, dos cenários ao guarda-roupa, a narrativa avança com uma consistência e fluidez notáveis. A vingança, quase religiosa, motiva toda a trama e a parábola. São brilhantes, os desempenhos das cabeças de cartaz: Jeff Bridges, num overacting arrebatador, Hailee Steinfeld, numa revelação surpreendente, Matt Damon e Josh Brolin. Eles dão corpo e alma às suas personagens, dimensionam-nas e tornam-nas completamente apaixonantes. São de igual forma os actores que dão voz aos diálogos e ao humor que, de forma tão negra quanto inteligente, pontuam o argumento, assinalando as particularidades da obra. A singularidade de True Grit é também marcada - tanto por influência da paisagem como por imperativo do estilo autoral - pela frieza da abordagem, pelo carácter cerebral com que se tratam e sucedem os acontecimentos, distanciando o espectador de qualquer carga emocional maior.

Não estando propriamente repleto de cenas memoráveis, True Grit é um testemunho de solidez, de bom gosto e bom cinema. Mais um, dentro do género, reclamando a sua vitalidade, após a equivocada certidão de óbito.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

DESTRUIR DEPOIS DE LER (2008)


PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Burn After Reading
Realização: Ethan Coen e Joel Coen
Principais Actores: George Clooney, Frances McDormand, John Malkovich, Tilda Swinton, Brad Pitt, Richard Jenkins, Elizabeth Marvel, David Rasche, J.K. Simmons, Olek Krupa, Michael Countryman

Breves Considerações: Mosaico de idiotas, de equívocos e de conspirações absurdas. Coen. Traições em série por solitários paranóicos, maníacos pelo corpo e pela espionagem. O elenco é fabuloso: Clooney, Malkovich, Pitt, McDormand, Swinton, Jenkins. Grandes personagens, alucinadas ou improváveis, nas situações mais sórdidas ou hilariantes. Os méritos da paródia são sobretudo esses: o argumento e as representações, baseados por uma realização tremendamente eficaz. Grande comédia.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

IRMÃO, ONDE ESTÁS? (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: O Brother, Where Art Thou?
Realização: Ethan Coen e Joel Coen
Principais Actores: George Clooney, John Turturro, Tim Blake Nelson, John Goodman, Holly Hunter, Charles Durning, Stephen Root

Crítica:

UMA ODISSEIA AMERICANA

Irmão, Onde Estás?, dos irmãos Coen, é uma comédia absolutamente excêntrica e insólita, tecnicamente sofisticada, visualmente estonteante e dotada de uma dramaturgia refinada e muito bem-humorada. É, em poucas palavras, uma obra brilhante e sublime, com um iluminado rasgo de profundo génio.

Tendo a Odisseia de Homero como inspiração, o devaneio criativo dos Coen propõe uma versão alucinada da história de Ulisses, passada no interior americano, durante os anos da Grande Depressão. Confluem-se, com assaz mestria, referências da mitologia clássica com elementos do próprio folclore americano, convocando-se costumes, figuras e personagens do imaginário colectivo daquela cultura ocidental.

Primeiro que tudo, a invocação:

O muse!
Sing in me, and through me tell the story
Of that man skilled in all the ways of contending...
A wanderer, harried for years on end...

Depois, os cânticos. Que nem marinheiros fustigados pelo suor dos remos, os condenados de uma prisão do Mississipi são forçados a partir pedra, empunhando ao sol as picaretas. George Clooney é Everett Ulysses McGill, um desses desgraçados, condenados à Circe da justiça: que nem o herói homérico, sonha voltar a casa, para junto da sua amada Penélope, mas o derradeiro regresso far-se-á somente após uma série de aventuras e desventuras, de acasos e infortúnios. Ao Ulisses dos Coen não falta a eloquência do discurso. A eloquência do discurso e as latas de brilhantina (afinal, uma das principais preocupações de Everett é o estado imaculado do seu penteado). Contudo, falta-lhe o engenho e o plano ardiloso para escapar ao malfadado destino. É certo que tem a graça de conseguir manipular os seus comparsas do crime, a ele acorrentados, como forma de conseguir fugir primeiramente aos guardas. Porém, o plano de fuga resume-se à evasão. O que acontecerá depois nem eles sabem nem adivinham: um cego profeta dos carris que nem Tirésias, o sábio antigo, um burlão gigante e de um só olho que nem Polifemo, o ciclope devorador de homens, um grupo de esbeltas e sedutoras lavadeiras cantadeiras que nem as matreiras e encantatórias sereias dos mares revoltos. E mais: um negro pactuante com o Diabo num cruzamento da meia-noite que nem o lendário Robert Johnson, um ladrão completamente insano que nem o Nelson Babyface, religiosos protestantes, políticos promíscuos, cruzes em chamas e encontros secretos do Ku Klux Klan, sapos saltitantes, telhados com vacas, inundações inesperadas e caixões que servem de bóias. Um universo mirabolante, que faz de Irmão, Onde Estás? uma comédia deveras excepcional.

Para além disto, estamos perante uma obra com uma vertente musical muito vincada. Do gospel à country, passando pela aclamação da banda dos Rabos Molhados e pelas constantes personagens cantantes, temos uma natureza melódica e quase erudita que se impõe na sublimação do poema. Por outro lado, chega até nós um elenco de interpretações sólidas (Clooney, Turturro, Goodman) e um trabalho de fotografia de uma excelência digna das maiores referências, a cargo de Roger Deakins: pela primeira vez na História do Cinema se procedeu à manipulação integral da imagem de um filme, neste caso por saturação cromática através de um processo designado impressão digital de resposta - uma técnica ambiciosa e inovadora, que abriria as portas do Cinema a todo um novo horizonte de possibilidades. O feito de Deakins contribuiu, de forma determinante e inequívoca, para a beleza e para o estatuto superiores de Irmão, Onde Estás? enquanto objecto de sobrevalorização estética.

Enfim, um filme, sob todos os primas, memorável. Divertidíssimo. Extremamente bem filmado. Um clássico instantâneo.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: No Country For Old Men
Realização: Ethan Coen e Joel Coen
Principais Actores: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, Kelly Macdonald

Crítica: Raras são as vezes em que, com tamanha mestria e perfeição, fotografia, montagem e realização se elevam em uníssono harmonioso na concepção de um filme tão bom. Dotado de um argumento brilhante, tão metafórico quanto perspicaz, e perante a ausência plena de banda sonora, Este País Não É Para Velhos é atravessado por uma linha crescente de suspense que prende atenções do início intrigante ao desfecho elíptico. Western dos tempos modernos e policial repleto de acção, a obra dos Coen actualiza o género: se a ganância é a mesma de sempre, já o carácter do vilão mergulha agora nos meandros da psicopatia. Excelente Javier Bardem. E o filme acaba ainda por filosofar a evolução geracional: a inadaptação dos velhos (todos eles alvo de caricatura ao longo do filme), a sua nostalgia dos tempos idos, e a sua falta de esperança no futuro. Magnífico.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões