Mostrar mensagens com a etiqueta Vincent Gallo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vincent Gallo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

BUFFALO 66 (1998)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Buffalo '66
Realização: Vincent Gallo
Principais Actores: Vincent Gallo, Christina Ricci, Ben Gazzara, Mickey Rourke, Rosanna Arquette, Jan-Michael Vincent, Anjelica Huston, Kevin Pollakdlund

Crítica:

O ALIENADO

We are a couple that doesn't touch.

Buffalo 66, a primeira incursão do ator Vincent Gallo pela realização, é uma comédia absolutamente alucinada e improvável, a partir de uma representação realista, em parte autobiográfica, na qual se exageram e criticam propositadamente personagens (com base nas suas peculiaridades) e se explora a própria linguagem cinematográfica e as suas potencialidades no ecrã, para além do usual. É notório o intuito do realizador em conceber um objeto artístico tão original quanto possível na sua abordagem, despido de maneirismos e de lugares comuns. Qual Billy Brown, sabemo-lo, também Gallo é um alien, porque faz questão de o ser e não só porque o meio o determinou.

Saído da prisão e em liberdade após cumprir a sua pena, o narcísico Billy Brown (poderosa performance de Gallo) inicia uma insólita odisseia, de tentativa em tentativa frustrada para urinar. Primeiro tenta regressar à cadeia, mas negam-lhe o acesso ao wc. Depois, entra num restaurante; porém o proprietário frisa em alto e bom som que estão fechados. Entra, com a maior naturalidade, pela escola de dança do lado e procura um urinol, mas o descarado voyeurismo de um sedento gay impossibilita-lhe mais uma vez o alívio. É então que o seu mau génio se evidencia, mais claramente, e os seus olhos se esbugalham sobre as suas olheiras marcadas. Mostra-se um homem de irritabilidade fácil. E, aflitinho por urinar, acaba por ameaçar uma loira de proeminentes seios a conduzi-los sobre pressão num automóvel, até se afigurar possível parar para finalmente tranquilizar a bexiga e os humores.

Tudo se torna mais estranho quando a loira e desmiolada jovem Layla (encantadora Christina Ricci), de sapatos prateados e cintilantes, aparenta estar cada vez mais fascinada pelo bruto desconhecido, tornando-se capaz de satisfazer todos os seus pedidos. Participará numa farsa perante os pais deste, fingindo-se passar por sua mulher - conheceremos dois pais completamente desligados do filho e da realidade; formidáveis, os excêntricos desempenhos de Anjelica Huston, a mãe loucamente viciada em futebol, e de Ben Gazzara, o pai tarado e adepto do playback. Gallo filmou aliás na casa dos seus próprios pais, em Buffalo, e não é o filme senão um hilariante ajuste de contas com as suas origens. Do sapateado da pista de bowling à persistência do photomaton, do café do chocolate quente ao quarto de motel onde nada acontece e ao final surpreendente, Billy e Layla desenvolvem uma química conturbada e nem sempre recíproca. Aos poucos, Layla vai fazendo as suas pequenas conquistas - o que é evidente, por exemplo, quando Billy volta atrás após a discussão do café e lhe pede desculpa. Aos poucos, vamos torcendo para que a relação dos dois dê certo, para que preencham a colossal solidão um do outro, mas desconfiamos que o carácter impetuoso do protagonista vai desencadear, a qualquer instante, acontecimento trágico e irreversível. Quem sabe se não? Buffalo 66 é tudo menos previsível, a cada esquina se desenha uma nova possibilidade, sempre numa atmosfera de abismo, bizarria e inevitabilidade.

Enquanto realizador, Gallo é virtuoso no momento de câmera, especialmente inspirado nos enquadramentos e na encenação. Os jogos da montagem de Curtiss Clayton são fabulosos. A par da banda sonora de Gallo ouvem-se Yes ou King Crimson. E o uso dos flashbacks é efetivamente extraordinário, ou não permitisse ele aquele apaixonante e inesquecível twist final. Enfim, brilhante filme independente; Buffalo 66 destila, a cada cena, pujante criatividade cinematográfica.

sábado, 17 de julho de 2010

THE BROWN BUNNY (2003)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Brown Bunny
Realização: Vincent Gallo
Principais Actores: Vincent Gallo, Chloë Sevigny, Cheryl Tiegs

Crítica:

A DOR E A VIAGEM


The Brown Bunny é um sensível, delicado e virtuosíssimo pedaço de cinema sobre o vazio, o silêncio e o sofrimento de um homem, acabado de presenciar um chocante e devastador acontecimento que lhe arruinou - para sempre - a memória de um grande amor e, por consequência, a vida.

O homem é Bud Clay. É corredor de motos, mas há corridas perdidas logo à partida. Daisy (Chloë Sevigny) abandonou-o e ninguém parece conhecer o seu paradeiro. As memórias de Bud recuperam-na, a todo o instante. Mas a sua dor existencial, perfeitamente transmitida tanto pela performance do actor como pela melancolia da arte de filmar (as perspectivas intensificam a solidão do protagonista para com o mundo, o focar e desfocar contrabalança o fluxo de mágoas e recordações, a proximidade física da câmera com o actor reflecte-lhe o estado de alma), leva-nos a crer que Bud não a quer encontrar. Bud é, portanto, um homem completamente dividido entre a vontade de encontrá-la e a vontade de nunca mais a encontrar. Entre o poder ou não aceitá-la novamente. Porque terá partido Daisy, afinal? Ninguém, excepto Bud, sabe ao certo. O mistério adensa-se, lentamente, ao longo de todo o filme, ao longo de toda a estrada, ao longo de toda a viagem. Bud procura-a noutras mulheres, mas nunca a encontra... Nunca encontra nada, nem sequer uma única esperança, nem sequer ele próprio. A paisagem é fria, nada acolhedora ou reconfortante. As cadências da montagem inebriam-nos, juntamente com as canções, o jogo de sons e com essa arte de filmar extremamente subtil. O final, fálica e sexualmente tão explícito, é absolutamente intenso, dilacerante e desolador... Deixou-me sem palavras.

Vincent Gallo é o actor, o realizador, o argumentista, o editor, o director de fotografia, o produtor... Vincent Gallo é o filme. É a prova de que tanto se pode fazer com tão pouco. Há quem mate um filme pelo preconceito... Quanto a mim, e sem sombra de qualquer dúvida, estamos perante um filme belíssimo e absolutamente magistral, pessoal e intimista, cujos principais recursos são o talento e a autenticidade.


<br>


CINEROAD ©2020 de Roberto Simões