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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

IMORTAIS (2011)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Immortals
Realização: Tarsem Singh
Principais Actores: Henry Cavill, Mickey Rourke, Stephen Dorff, Freida Pinto, Luke Evans, John Hurt, Joseph Morgan, Isabel Lucas

Crítica:


OS DEUSES E OS HOMENS

Fight! For immortality!


Para os admiradores maiores da mitologia clássica, Imortais soar-lhes-ia, logo à partida, como uma proposta irresistível e absolutamente irrecusável. Não morre, afinal, a esperança de encontrar no cinema uma adaptação à altura do nosso fascínio pela cultura grega. O trailer, contudo – e sejamos francos - já nos fazia temer um produto com pouco mais interesse do que o meramente comercial, apesar da promessa de prodígio visual. Na verdade, aquilo que temos em Imortais é um épico gorado, tremendamente eloquente na sua retórica inócua, profundamente ridículo para os puristas que esperariam o impossível da reconstituição histórica, com base num mito amplamente cultuado através dos séculos, mas aqui um tanto ou quanto desvirtuado em prol de um filme para adolescentes, assente no maniqueísmo das suas personagens e no facilitismo dos seus processos narrativos. Imortais é, sobre todas as coisas, espectáculo. Espectáculo que se quer rentável. Os deuses da indústria pouco se interessam, ao que parece, com a memória dos Homens.

Depois da obra-prima visual que é The Fall – Um Sonho Encantado, num circuito mais independente, Tarsem abraça finalmente o cinema de massas. Já em 2000 havia dado que falar com o seu filme de estreia, protagonizado por Jennifer Lopez, A Cela, onde cruzou, pela primeira vez, o thriller policial centrado num bizarro psicopata – muito ao género de Silêncio dos Inocentes e de Sete Pecados Mortais – com o seu universo perfeccionista, fantasioso e surreal, onde o esplendor visual atinge o mais elevado requinte. Imortais dá continuidade a essa estética, entregando-se finalmente às infinitas potencialidades do digital. Neste campo, Imortais é deslumbrante. Quem nos dera experienciar pessoalmente aquelas visões do Olimpo. O detalhado e assombroso trabalho de guarda-roupa, por fim, completa o raro vislumbre que o filme constitui e, por isso, merece todo o reconhecimento. Emanuel Levy diz que Tarsem Singh is a gifted, eccentric visual artist but he is certainly not a storyteller (Cf. http://www.emanuellevy.com/review/immortals/). Conclusão compreensível, se só tivermos visto este seu titânico filme.

Dos mesmos produtores de 300, o filme partilha várias características que aproximam ambos os filmes: a proeminência dos efeitos digitais na construção dos cenários e no acabamento da fotografia (contribuindo para uma maior similitude com os jogos de computador), a exploração da violência e da brutalidade como recurso estilístico, em sequências de acção plenas de sangue e testosterona, as impressionantes (e muitas vezes excelentes, inclusive) coreografias de lutas (onde o slow motion se impõe como um verdadeiro trunfo), a pouca profundidade e desenvoltura das personagens e a fraca articulação dos episódios, tendo como compensação um excesso de movimentos de câmara, a utilização abusiva dos efeitos sonoros (um pouco como nos filmes de terror, aos quais recorrem para prender desesperadamente o espectador) ou uma operática banda sonora (nada de novo, somente a cópia da cópia, da etc., do original). Henry Cavill e Freida Pinto, emanando sensualidade e erotismo, são, independentemente das suas qualidades como actores, criaturas por demais abençoadas pelos deuses, tão belos e perfeitinhos em cada uma das curvas dos seus corpos. Particularmente na cena do discurso para a multidão (lugar-comum incontornável, no qual Teseu (Cavill) incita os soldados para a guerra) é notável a inconsistência na construção da personagem: até ali jamais demonstrara possuir o dom da palavra e de, um momento para o outro, assume-se como um herói fluente. Somente Mickey Rourke, Stephen Dorff e Joseph Morgan (escusado será referir John Hurt) nos lembram, de tempos a tempos embora aprisionados nas limitações dos seus papéis, que existem actores nesta produção; sabem, daqueles que representam. Em ambos os filmes, o físico dos protagonistas é cuidado e determinante; todavia, com um look actual em demasia para um filme que, por mais fantástico que seja, almeja a viagem no tempo, de regresso a tempos idos. . Ecoam ainda as influências de megalomanias recentes, como Tróia, Alexandre, o Grande ou Confronto de Titãs, que Tarsem luta por superar em escala e grandeza. Para isso, nada como expandir exércitos e paisagens e edificar mais uns metros de muro.

Não partilhando de especial entusiasmo pelo 3D, há que salientar a notória evolução da tecnologia, cada vez mais funcional, alcançando o seu propósito original, muito embora a sua utilidade se resuma a isso: possibilitar que o espectador entre no mundo do filme, tela adentro.

No seu todo, eis uma embalagem por demais sugestiva e atractiva para o público jovem, que encontra nestes escapes lúdicos as mais memoráveis (ainda que por pouco tempo) experiências cinematográficas. Para o público que dispensa entretenimento espalhafatoso e que está mais habituado a obras sublimes – entre os quais também existem jovens, outros jovens - o filme tornar-se-á num bocejo tão encantador quanto entediante. A concretização de uma epopeia em filme, baseada na mitologia clássica, fica para outro dia. Quanto a Tarsem, esperemos que ganhe a credibilidade suficiente junto dos grandes estúdios (que sabemos ser fundamental, em Hollywood) para voltar às grandes obras de arte, daquelas verdadeiramente imortais; talento e visão não lhe faltam e isso já deixou mais do que comprovado. Não sei é se será para já. Que é como quem diz, com Mirror, Mirror… O trailer já circula por aí – e sejamos francos – não nos incentiva por aí além.


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Originalmente publicada na edição 28 da revista Take.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

UM SONHO ENCANTADO (2006)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Fall
Realização: Tarsem Singh
Principais Actores: Lee Pace, Catinca Untaru, Justine Waddell, Robin Smith, Kim Uylenbroek, Aiden Lithgow, Sean Gilder, Ronald France, Andrew Roussouw, Michael Huff, Marcus Wesley, Ketut Rina

Crítica:

A QUEDA

Why are you making everyone die?
Because... everything dies.

A perfeição existe. Visualmente espectacular e delírio orgíaco de cores e sensações, Um Sonho Encantado é a obra-prima perfeita. E a perfeição está lá, no todo e em cada uma das partes, em cada frame: em cada palavra, em cada som e em cada imagem. Os planos são ousados, meticulosos, de uma beleza deslumbrante e invulgar, assombrosa e sedutora. A encenação é detalhada e polida. Um Sonho Encantado brilha em toda a sua magnificência, fascinante, ao ponto de a perfeição parecer a coisa mais simples de todas. Não há onde apontar o dedo; é irrepreensível. Tarsem é um génio, um génio maior, pois a sua arte é feita não só pelo seu profundo sentido estético e criativo como pelo maior agente de todos: o tempo. Um Sonho Encantado é mais do que um marco na história do cinema. É um marco na história da arte. Desde que há Homem. É Dalí em movimento; a influência é logo declarada pelo poster, Mae West. É um dos melhores filmes de sempre, no mais imperioso sentido da expressão, a constar obrigatoriamente nos tops mundiais dos melhores filmes de todos os tempos. Isto é a minha convicta profecia; perante uma obra destas ou nos rendemos ou...

O argumento condensa em si e na mistificada simbologia da imagem toda a História da Humanidade. Mascara-se de inocência, mas revela-se nos meandros, como acontece em todas as grandes obras. Na inocência encontramos o prazer único de contar uma história, o deleite infantil de a ouvirmos e de a imaginarmos com base na nossa memória e na nossa experiência. Nos meandros, fantásticos e profundamente poéticos, encontramos a verdade sobre nós próprios. Pois Um Sonho Encantado é, também, um filme alegórico. Muitas são as cenas-chave que abrem para outros campos de significação. Eis, em vislumbres oníricos, a mais bela viagem pelo mundo e pelo tempo. Eis, sublime, a Odisseia do Homem, a Evolução do Homem, a Evolução da Sua Sociedade, no caminho para a derradeira Queda, a que estamos todos sujeitos: a Morte. É a ordem natural das coisas (...) Todas as coisas têm que morrer, diz Roy, quando Darwin e Wallace falecem.

São as ideias de Darwin que libertam os homens do isolamento da ilha. Que metáfora encantadora. Otta Benga não é senão a sinédoque de toda a escravatura e símbolo da sua abolição e permanente luta pela liberdade. Mystic não é senão sinédoque das civilizações indígenas destruídas pelos descobridores (arda a árvore como símbolo dessa destruição, à chegada à nova terra) ou mapa que os aventurará para o Novo Mundo. O explosive expert, sinédoque da guerra. O governador Odious não terá esse nome por acaso. Nem por acaso os seus guardas ladrarão que nem cães e morrerão que nem bestas. Heróis e antagonistas são as sinédoques dos mais variados sentimentos humanos e seres humanos no tempo. É nesta leitura escondida e difícil que Um Sonho Encantado revela a sua essência genuína e perfumada.

Na cinematografia de Colin Watkinson é impossível encontrar um defeito. Seja no deserto das dunas-laranja, na cidade azul, nas infindáveis paisagens ou na exuberância arquitectónica que ornamenta o filme, a fotografia é de uma excelência que julgava inalcançável. Um autêntico oásis de pureza. O guarda-roupa, os cenários ou a decoração estão no mesmo patamar: o da sublimidade. A montagem é magnífica e a banda sonora o coração impulsionador de toda a emoção, tanto nas etéreas melodias de Krishna Levy como nas sonantes e omnipotentes composições de Beethoven. A pequena Catinca Untaru, com ou sem dentes, é das belezas maiores da obra, tão bem dirigida que foi pelo realizador. Lidera, com olhos de anjo, um elenco todo ele formidável. Lee Pace, talentoso, dá corpo e alma ao eterno duplo que conseguiu, desta vez por fim, ser protagonista. E a imaginativa viagem acaba numa das maiores homenagens ao cinema: o cinema como representação e como espelho de si próprio. Nos últimos instantes, a voz doce de Alexandria personifica o cinema e dirige-se, de entre múltiplas possibilidades, ao espectador: Muito, muito obrigada.

Até à última queda, havemos - sempre - de continuar a erguer-nos e a continuar com a nossa história. E durante esta nossa viagem, uma certeza: a perfeição existe.

It was the natural order of things...
all things must die.


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Nota especial para a infeliz escolha do título português.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A CELA (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Cell
Realização: Tarsem Singh
Principais Actores: Jennifer Lopez, Vince Vaughn, Vincent D'Onofrio, Jake Weber, Marianne-Jean Baptiste, Dylan Baker

Crítica:

O LABIRINTO DOS MEDOS

Mais do que um mergulho vertiginoso na mente de um psicopata assassino, A Cela é um tenebroso e bizarro policial sci-fi, capaz de desafiar todas as fronteiras entre o real e o imaginário e de sonhar os mais recônditos mistérios da psique humana, onde confluem memórias e medos. O visionário e genial Tarsem Singh, realizador da obra-prima Um Sonho Encantado, assina aqui o seu primeiro banquete visual, colossal e estonteante, de uma exuberância poética e espectacular. Um exótico, magnetizante e prodigioso pedaço de arte.

Howard Shore compôs também - e não será por acaso - a banda sonora de O Silêncio dos Inocentes e de Sete Pecados Mortais. O filme de Fincher foi beber inegável inspiração ao de Demme. E A Cela foi bebê-la aos dois. Quem gostou de qualquer um desses clássicos dos anos 90, gostará certamente muito deste também. Aqui não temos um canibal, qual Hannibal Lecter, nem um ferveroso da religião, qual John Doe. Temos, sim, um assustador esquizofrénico, de fortes e pervertidas taras sexuais, mas igualmente assassino em série, perturbado pelos traumas do passado e intensamente procurado pelas autoridades. Esse demente é Carl Stargher; Vincent D'Onofrio, num desempenho intenso e assustador.

A acção do filme não é datada, mas decorre num tempo onde foi desenvolvido um processo de psicoterapia inovador e revolucionário, por meio do qual uma profissional como Catherine Deane (Jennifer Lopez, sensual e cativante) pode entrar na mente dos pacientes.

Do you believe there is a part of yourself, deep inside in your mind, with things you don't want other people to see? During a session when I'm inside, I get to see those things.
Catherine Deane

O universo onírico, ao qual temos acesso priveligiado, é uma dimensão absolutamente surreal e impressionante, de uma beleza indescritível e assombrosa. Nesse mundo, o guarda-roupa é faustoso (Eiko Ishioka e April Napier), os cenários extraordinários e cheios de cor (Tom Foden, Geoff Hubbard e Michael Manson), ainda que mórbidos na combinação, e a caracterização (Michèle Burke e Edouard F. Henriques) é deveras exigente, de um detalhe e pormenor notáveis.

Quando Stargher é localizado e capturado, há uma vítima cujo cadáver ainda não foi encontrado. Pode, por isso, ainda estar vida. Todavia, o demente caíra em coma profundo e, segundo o diagnóstico dos médicos, jamais acordaria... Peter Novak (Vince Vaughn) é quem lidera as operações e jamais se perdoará se não tentar tudo por tudo para encontrar a jovem. É na tentativa de descobrir o seu paradeiro que decide submeter o monstro ao método terapêutico, desbravando o seu inconsciente e seguindo todas as pistas: Catherine, contudo, envolve-se muito mais no caso do que o esperado. O risco dá lugar a uma experiência verdadeiramente perigosa e abismal e a terapêuta acaba perdida e aprisionada em território desconhecido, em plena mente do crimonoso e sob o seu total controlo. Enfrentará os seus piores medos, na tentativa de matar a besta e de salvar a essência corrompida daquele ser hediondo. O pesadelo... torna-se real.

Imerso em psicanálise, repleto de suspense e abrilhantado por um trabalho fotográfico assaz arrojado, criativo e hipnotizante (Paul Laufer), A Cela impõe-se com um triunfo ímpar, justificando assim toda a aura de culto que, com o tempo, floresceu - merecidamente - à sua volta. Imperdível.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões