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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ZODIAC (2007)

PONTUAÇÃO: BOM 
★★★★ 
Título Original: Zodiac
Realização: David Fincher
Principais Actores: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch, Chloë Sevigny, Ed Setrakian, John Terry, Elias Koteas, Dermot Mulroney, Donal Logue, Philip Baker Hall

Versão do Realizador

Crítica:

ENTRE AS PISTAS DE UM MONSTRO

I need to know who he is. I... I need to stand there,
I need to look him in the eye and I need to know that it's him.

Zodiac não é seguramente um filme esquecível para todos os que o tenham assistido até ao final. Como em Se7en - Sete Pecados Mortais, crimes em série desencadeiam uma aguerrida investigação policial na tentativa de descobrir a identidade do assassino, o seu paradeiro e depois, em nome da justiça, o seu desfecho. Todavia, à imagem e semelhança de David Fincher, Zodiac chega-nos como um retrato obsessivamente realista e perfeccionista - meticuloso e detalhista - de uma história real. Assim sendo, dado que na altura do lançamento do filme o mediático e enigmático caso continuava por resolver, Zodiac jamais nos apresentará senão uma trama inconclusiva ou inconcluída. Não nos depararemos com o mau morto ou atrás das grades, antes nos depararemos com uma investigação igualmente obsessiva e, apesar disso, completamente gorada e frustrada perante os resultados (in)alcançados.

Por opção do argumentista (James Vanderbilt), só nos são mostrados os crimes que se conseguiram praticamente provados como tendo sido praticados pelo mesmo homem e os quais deixaram sobreviventes ou testemunhas. A perspectiva que nos é dada a conhecer é mesmo essa, a das testemunhas. Califórnia, finais dos anos 60, princípios dos anos 70. Dois casos de jovens casais, atacados ora aos tiros no negrume da noite ora à facada em plena luz do dia. Um caso insólito de uma falsa e intimidante ajuda a um pneu, na estrada. E um golpe fatal num táxi, em plena cidade. Zodiac, como se subscrevia, enviava depois cartas à polícia e aos jornais, assumindo os crimes praticados, assumindo outros tantos provavelmente não praticados e brincando e baralhando os investigadores com criptogramas e ameaças, lançando a confusão por puro prazer. O filme é sobre os bastidores da investigação, nas redacções dos jornais ou nas esquadras locais - e é claramente sobre o percurso da investigação, não sobre a sua resolução: um empolgante embora tortuoso caminho de estudo, entrevistas, dúvidas e muitas horas sem dormir. As provas - difíceis de reunir entre tantos falsos depoimentos e contradições - deverão apontar o suspeito e não o contrário, por mais favoritismo que determinado indivíduo ou teoria mereça.

Com o passar do tempo, sejam meses ou anos, Zodiac silencia-se e, do lado de quem investiga, vence o cansaço e impõe-se o desânimo. O jornalista Paul Avery (brilhante Robert Downey Jr., embora num curto papel) deixa-se consumir pelo álcool e demite-se do San Francisco Chronicle, abandonando o caso e, de certo modo, a vida. O inspector William Armstrong (Anthony Edwards), visivelmente saturado, confessa abandonar o caso e mudar de departamento. Até o inspector David Toschi (Mark Ruffalo), apesar da viciante dedicação de outros tempos, acaba, às tantas, por arquivar o caso na sua cabeça e rumar em frente na sua vida profissional. Só o cartoonista do San Francisco Chronicle, Robert Graysmith, tomado por um fascínio quase infantil e caricato e desde o início do caso entretido a quebrar as cifras do assassino, mantém viva a esperança e o desejo - e sobretudo a curiosidade - em reunir as peças e em montar o puzzle, eliminando as falsas pistas e descodificando, finalmente, a identidade do monstro. David Fincher transforma essa curiosidade de Graysmith na curiosidade do espectador e é ela que suporta 162 minutos de um denso e intrincado quebra-cabeças. E fá-lo magistralmente, impecável e implacavelmente, ou não fosse Fincher o mestre dos quebra-cabeças, autor do dito Se7en, de O Jogo ou de Clube de Combate.

Desde o momento em que a obra abre que nos apercebemos da importância do visual para o storytelling. Os efeitos especiais são discretos mas cruciais para a recriação da cidade e da época. Aliados à fotografia de Harris Savides e à sua inconfundível paleta de cores, ajudam na criação do imaginário e a impôr Zodiac como um filme predominantemente atmosférico, tocando não raras vezes o noir. Aquele take inicial em que o carro passeia pelo bairro sobre carris, apresentando o bairro em plena noite do 4 de Julho é absolutamente memorável: somos lentamente introduzidos à história, ao palco em que os acontecimentos terão lugar e ao seu contexto histórico-social. E há um time lapse notável, com a edificação da Transamerica Pyramid, marcando a passagem do tempo. Não sendo um filme onde a acção pujante nos faça saltar e vibrar a todo o instante, Zodiac faz-se valer de uma construção do suspense em tudo admirável e irrepreensível, onde cada investida do psicopata (na primeira parte do filme) nos aprisiona e nos deixa numa tensão silenciosa mas crescente. Nos actos seguintes, já sem a acção do assassino, o suspense continua e o filme torna-se, curiosamente, tanto ou mais perturbante e... asfixiante, sobretudo em sequências como a entrevista ao suspeito Arthur Leigh Allen no seu local de trabalho, a rusga ao seu abrigo entregue aos esquilos, a visita de Graysmith à cave do projeccionista ou, simplesmente, a cada telefonema ofegante e tenebroso.

Enquanto filme, Zodiac é uma assombrosa reprodução, datando e localizando constantemente a acção, e, nessa medida, quase um documentário, sobriamente bem filmado. Enquanto filme, também e no entanto, não abre espaço para um maior trabalho de actores e talvez beneficiasse com uma dedada de economia narrativa, que lhe encurtasse o tempo e não o demorasse tanto nos confusos meandros da investigação. Não é, por isso e certamente, um filme para todos nem um filme para todos os dias, mas não tinha que sê-lo. A sua ambição fá-lo um projecto arriscado, complexo e inteiramente singular. Assisti-lo até ao fim resultará numa experiência por demais compensatória - trata-se de um must see obrigatório no género.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

PROMETHEUS (2012)

PONTUAÇÃO: BOM 
★★★★ 
Título Original: Prometheus
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Idris Alba, Patrick Wilson, Robin Atkin Downes, Sean Harris, Rafe Spall, Emun Elliott, Benedict Wong, Kate Dickie, Ian Whyte 

Crítica:

A ORIGEM DE ALIEN

Big things have small beginnings.

Prometheus é a metáfora e a invocação do mito grego - significa: desafiar os deuses. É o nome dado à nave especial que, entre estrelas e galáxias, explora os mistérios do espaço cósmico, procurando respostas sobre a criação na Terra e sobre as origens da humanidade. E é também a promessa cumprida de Ridley Scott no regresso ao universo da ficção científica - género que, aliás, ajudou a cimentar -, tantos anos depois de Alien ou de Blade Runner. Prometheus é mesmo a prequela - nunca totalmente assumida - da saga Alien: tem um ponto de partida distinto, é certo, mas os desenvolvimentos da acção acabarão por justificar os acontecimentos decorridos na franquia e o nascimento do célebre monstro. Inclusivé, a nível narrativo, Prometheus e Alien partilham o mesmo ADN e alavancam toda uma mitologia própria.

Tanto mais do que em Alien, a carga filosófica é soberana em Prometheus: quem foi o nosso deus criador e porque nos abandonou? O filme avança a tese alienígena. Diferentes culturas da antiguidade, separadas pela distância, partilharam, misteriosamente, as mesmas referências, esculpidas na pedra. Os mesmos símbolos, a mesma indicação, o mesmo chamamento. Feitas as descobertas e identificado o seu significado, uma equipa de cientistas - convocada e financiada pela Weyland Corporation - parte para o infinito. Estamos no ano de 2093. David (brilhante desempenho de Michael Fassbender) é um replicante, enigmático mordomo da nave enquanto todos os outros tripulantes hibernam, há anos, mergulhados nas cápsulas de hipersono. O seu penteado replica, ao pormenor, o de Peter O'Toole em Lawrence da Arábia - filme que assiste durante a viagem e que citará mais tarde, pelo que depreendemos que o admire e que o tenha visto mais vezes: there is nothing in the desert and no man needs nothing. Mas não só a filmes assiste o robot humanóide: encontramo-lo, curioso, a invadir os sonhos e a privacidade dos colegas, graças à tecnologia de que a nave dispõe. Assiste nomeadamente ao sonho de Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), em que esta recebe do pai um colar com a cruz cristã. Quando a equipa é acordada, nas imediações do seu destino, passamos a conhecer a diretora da missão a bordo, a loira, deslumbrante embora absolutamente gélida Meredith Vickers (Charlize Theron), o bem-disposto capitão Janek (Idris Elba) e mais uma mão-cheia de camaradas que não tardarão a ser eliminados um a um, ao sabor do suspense e do aterrador desconhecido. Num holograma incrivelmente real é desfeita a confidencialidade da missão pelo próprio Peter Wayland (Guy Pearce, carregado de próteses e maquilagem como ancião fundador da empresa) e, finda a projecção, aterram finalmente no planeta sombrio, aparentemente estéril e irrespirável, onde se acredita que habitem os denominados Engenheiros, os nossos criadores.

Charlie (Logan Marshall-Green), namorado de Elizabeth: What we hoped to achieve was to meet our makers. To get answers. Why they even made us in the first place.
David: Why do you think your people made me?
Charlie: We made you because we could.
David: Can you imagine how disappointing it would be for you to hear the same thing from your creator?
Charlie: I guess it's good you can't be disappointed.

Entre ruínas e artefactos, acabarão por encontrar uma tripulação de cadáveres alienígenas, brutalmente extintos pelos seus próprios planos criativos e os indícios de que estes se preparavam para voltar à Terra, com fim a exterminar a sua criação. Quem disse que o nosso deus era bom e gostava de nós? Quem disse que se tratava de um mágico e não de um geneticista? Lá se vai o criacionismo conforme Elizabeth o entende, pensamos, ao que ela se apressa por contrapor: and who made them? A cruz que traz ao pescoço simboliza não só o criador do Homem como o seu próprio criador, dado que foi o próprio pai que lha deu. Não admira, por isso, que o colar lhe seja precioso, independentemente das revelações que se avizinhem no horizonte.

Podemos fazer por extrair mais teor filosófico do filme, mas, às tantas, na análise, deveremos focar-nos, parece-me, mais no que o filme efectivamente nos dá e não no que poderia dar-nos. É certo que o filme muito sugere e propõe, todavia jamais aprofunda por aí além as suas questões. Prometheus não é, definitivamente e apesar do seu interesse, um ensaio. A partir de dado momento, David continuará a desvendar segredos e a pôr o seu plano secreto em marcha, motivado sabe-se lá por que desígnios, e tenderemos a não confiar nele. Todavia, somos claramente reposicionados na narrativa - e o que mais importa agora é o silencioso despertar que a exploração humana provocou, inadvertidamente, na atmosfera das ruínas visitadas e a esguia, viscosa e emergente criatura que daí resultou e que, não tardará, começará a sufocar, sangrar e matar, ganhando alento, força e formas. É o acordar de um pesadelo adormecido. De set em set (magnífico design de produção do já lendário Arthur Max), alastra uma vertiginosa luta pela sobrevivência e contra o tempo, que dizimará, sem misericórdia, qualquer vertebrado arquejante. Como em Alien. Acelera-se o suspense e precipita-se a acção e a montagem de Pietro Scalia. A atmosfera densifica-se e agudiza-se radicalmente. A composição musical de Marc Streitenfeld, outrora épica e sonante que nem as criações de Vangelis, dá agora lugar a uma sonoridade obscura e arrepiante. Alia-se a fotografia e a iluminação de Dariusz Wolski, que primeiramente nos maravilhara e enchera de mistério, tanto na grande escala dos exteriores como na clausura dos interiores. Cada imagem espelha agora o medo e o pavor das personagens - e o dos espectadores. Até ao final, a sofisticação dos efeitos especiais será mais gritante do que nunca, conferindo credibilidade - e fascínio - à proposta. E até ao final, também, ficará a ambiguidade implícita relativamente à natureza andróide da personagem de Theron (dúvida não inédita e fórmula a que o cineasta, claramente, não resistiu. Não faz mal, nós gostamos destas coisas).

Alien: Covenant fará a ponte necessária entre Prometheus e a saga original. Duvido que sejam respondidas todas as questões - e que interesse teria se não ficasse uma réstia de mistério? É do mistério que estes filmes viveram, vivem e certamente viverão. Como na grande parte dos filmes de Scott, Prometheus resulta numa experiência prazerosa, visualmente impecável, e à qual não cansa voltar. Não concretiza, no entanto, todo o seu potencial - falta, no mínimo, mais espaço para os actores e para as suas personagens (que provavelmente a realização não permitiu) e cenas propriamente memoráveis, em que se alie o inspirado trabalho de câmera com a encenação; traduzir-se-ia isto numa maior maturação da narrativa e do objecto fílmico em si - equilíbrio em que Scott, infelizmente, falha mais vezes do que gostaria e do que os seus projectos certamente mereciam.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

OS OITO ODIADOS (2015)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Hateful Eight
Realização: Quentin Tarantino
Principais Actores: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Tim Roth, Michael Madsen, Demián Bichir, Bruce Dern, James Parks, Channing Tatum
 
Crítica:

No one said this job was supposed to be easy. 

A BOA CONVERSA

Nobody said it's supposed to be that hard, neither!

É um western. Toda a plateia aguarda por tiros, sangue e mortes. Ainda para mais, bem que temos presente aquele 
desenfreado e barulhento final de Django Libertado. Que a acção comece! Mas... é um western by Quentin Tarantino. Nunca mais acção e menos conversa. Antes a palavra, muitas palavras, a boa conversa fiada - essa quase interminável verborreia de estilo que demora e atrasa a acção, que nos habituámos, paciente e prazerosamente, a saborear - e a adorar. A acção faz-se, então e sobretudo, podemos dizer, pelas palavras - as palavras como armas. Ao seu oitavo filme, Tarantino - o argumentista - não se repete, antes se matura, apurando a construção dos seus diálogos - dos seus monumentais diálogos - e a forma como, através deles, estuda as personagens e as personagens mascaram ou revelam as suas verdadeiras identidades, egos e intenções. A arrojada trama deste magistral Os Oito Odiados, eu diria, é como um ensopado quentinho, servido com todo o gosto - a cada colherada, cena ou capítulo, degustamos cada pormenor intensamente. E como em qualquer boa refeição, há que saboreá-la sem pressas, lentamente. O nevão não cessa e o inverno é rigoroso. Os oito ali se encontram, na retrosaria da Minnie, e não poderão ir a mais lado nenhum. Ninguém é quem diz ser ou, pelo menos, é o que nos aparenta. Ninguém confia em ninguém. Todos estão armados. E... temos tempo - 167 minutos de puro cinema. Céus, em gloriosos 70mm Ultra Pannavision! Sentem-se confortavelmente e disfrutem da refeição. Não tardarão os tiros, o sangue e as mortes. Ou melhor, talvez demorem um pouco, mas vai valer a pena. Pelo sim pelo não, aqueçam também um café. Café? Hum, melhor, esqueçam lá o café. Concentrem-se na comida - que é como quem diz, no filme. Bom filme!

Todos são, de uma forma ou de outra, caçadores de recompensas, carrascos, prisioneiros, xerifes e foras-da-lei. Uns procuram dinheiro, outros liberdade, outros justiça... todos procuram escapar com vida àquele encontro do diabo, àquela ameaçadora partida do destino - ou de outro autor por assumir - que tão friamente se proporciona e se descortina. Sobre o que falam eles? O que teriam oito estranhos para tanto conversar? Bem, alguns talvez não sejam tão estranhos assim, talvez se conheçam de outras paragens, talvez conheçam pessoas próximas, talvez... o mistério crescente acalora-nos o estômago, mas adensa-se nos interiores da estalagem como a tempestade lá fora, sempre omnipresente. Às tantas, o inevitável e sangrento confronto é-nos servido - como a vingança, é um prato que se serve frio. Pelo meio inflamam-se as feridas e memórias da guerra civil (Bruce Dern é o velho e solitário confederado), o racismo e tanto o racismo (sobretudo para com os negros - sempre brilhante Samuel L. Jackson, dotado de um humor assaz corrosivo - e para com os mexicanos - papel que caiu que nem uma luva a Demián Bichir) e o resto é conversa de cowboys e bandidos, que se degladiam pela língua num torneio de esperteza. No final, Tarantino fará a sua justiça: sobreviverão os mais autênticos. Até lá, por mais que eles falem, nunca saberemos em quem confiar. Saberemos coisas sobre eles, verdades e mentiras, todas mais ou menos questionáveis, moralmente falando, mas até ao twist e ao desfecho nada mais conheceremos tão bem como a paranóia em que fomos lançados.

Desempenhos do mais alto nível num elenco de nomes e talentos sonantes, que o argumento tão criativamente potencia: Kurt Russell, Walton Goggins e a prata da casa - Tim Roth, a fazer de Christoph Waltz, e Michael Madsen. Destaque especial - por ser a única mulher entre o bando de homens e por nos oferecer uma performance totalmente fora-de-série - para Jennifer Jason Leigh. A sua Daisy Domergue é uma admirável e apaixonante mais-valia - pelo aspeto físico (nojento e repulsivo), pela graça (grotesca e inusitada) e pelo seu charme (doentio e inegável). O já habitual e irresistível cameo de Tarantino resume-se, desta vez e face ao reduzido cast, à voz, à breve narração na abertura do capítulo quatro e pouco mais adiante.

O prolífico e lendário Ennio Morricone, compositor dos emblemáticos westerns de Leone que Tarantino tanto idolatra como O Bom, O Mau e o Vilão e Aconteceu no Oeste (e de muitos dos mais emblemáticos filmes da História do Cinema tais como As Mil e Uma Noites de Pasolini, 1900 de Bertolucci, Dias do Paraíso de Malick, Os Intocáveis de De Palma ou Cinema Paraíso de Tornatore) assina a composição musical d'Os Oito Odiados, como o mesmo carisma imortal das suas obras de outrora. A Última Diligência para Red Rock é, em tudo, um tema absolutamente distinto e memorável. E na arte de Tarantino, esse nerd da pop culture, há sempre espaço para canções não originais, coladas com especial sentido de ocasião. Nunca Silent Night, por exemplo, tocada ao piano de forma tão amadora e persistente pelo barbudo mexicano, teve tamanho impacto na preparação das emoções, numa cena. A música, que se sobrepõe ao vento e à queda de neve - e até, se necessário, àquela maldita e inesquecível, estrondosa e tão pregada porta - cria tensão, aumenta o suspense e prende-nos aos acontecimentos. Dá gozo ao tempo.

O igualmente lendário Robert Richardson (d'O Aviador ou A Invenção de Hugo do não menos lendário Scorsese) alinha no devaneio nostálgico e desafiante de Tarantino e recupera as lentes das câmeras Ultra Pannavision de 70mm, que conheceram os seus tempos áureos - embora curtos - no final dos anos 50 e na década de 60. Saudemos, a propósito e de caminho, o ilustre e bem-aventurado Ben-Hur (1959), de William Wyler. Pois bem, desde essa época até ao seu ano de lançamento, Os Oito Odiados foi o único filme filmado e exibido no formato. No ano seguinte seguir-se-ia a continuação da saga Star Wars, no seu capítulo VII. E o mérito do revivalismo é todo deste filme, ainda que, na grande parte do seu tempo, não nos maravilhe com as amplas paisagens a céu aberto, antes com os ínfimos detalhes de interiores ou de planos mais aproximados. Os Oito Odiados é, pois, na relativa escala das coisas que nos é proposta, um surpreendente banquete, quando a narrativa ou os cenários, à partida, não pediriam tanta informação por frame. O resultado é deveras espetacular e enriquecedor, sobretudo num grande ecrã. Os nossos olhos sondam cada imagem, na busca incessante de uma pista que ajude a decifrar a trama. Neste sentido, o seu contributo para o efeito da narrativa no espectador é determinante. Para além de, naturalmente, valorizar o trabalho da direcção artística.

A violência gráfica tarda, mas não falta ao compromisso. Rasga, a dado ponto e plena de irreverência, quaisquer formalismos. Afinal, quantos realizadores conhecemos tão zelosos do seu estilo e tão fiéis a si próprios como Tarantino? Mais do que um realizador e realizador-argumentista (o que é decisivo), Tarantino é um autor, um artista. Nós que, tal como ele, alimentamos e vivemos do culto, nem precisamos de assistir a um trailer para querer ver um dos seus filmes. Basta um nome, o seu nome. Tarantino é sinónimo de arte, de excelência, de lenda viva. Tal como Leone, Morricone, Richardson ou Scorsese, ele pertence ao panteão. Os Oito Odiados é, por tudo isto, um proveitoso pedaço de cinema, um western singular e um dos seus melhores filmes. Não admira que o filme termine e apeteça repetir a dose.

Pensar que Tarantino chegou a desistir de concretizá-lo, quando viu o argumento exposto, inadvertidamente, na internet. Estamos perante um clássico instantâneo, senhores! Absolutamente magistral.

domingo, 29 de janeiro de 2017

ENCONTROS IMEDIATOS DO 3º GRAU (1977)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: Close Encounters of the Third Kind
Realização: Steven Spielberg
Principais Actores: Richard Dreyfuss, François Truffaut, Teri Garr, Melinda Dillon, Bob Balaban, Cary Guffey 

Versão do Realizador

Crítica:

OS SINAIS E O CONTACTO 

Major Walsh, it is an event sociologique.
Claude Lacombe 

Encontros Imediatos do 3º Grau é, por variadíssimos motivos, um dos mais icónicos e extraordinários filmes de Spielberg. Desde cedo fascinado pela cultura popular dos OVNI's, a obra concretiza o abraço duvidoso dos grandes estúdios de Hollywood à temática, numa altura em que a Columbia Pictures encarava sérios problemas financeiros. O devaneio de Spielberg era considerado um risco, mesmo estreando-se na sequência do estrondoso sucesso de Tubarão, considerado o primeiro blockbuster de todos os tempos. Por isso mesmo se estreou em apenas 2 salas, a medo, antes do êxito se propagar pelo país e, depois, por todo o mundo. Alimentaria e ajudaria a expandir o fenómeno dos extraterrestres como poucos, na verdade e de forma incontornável, seguindo-se o acarinhado E.T. - O Extraterrestre em 1982 e só em 2005 o tão subvalorizado Guerra dos Mundos, numa altura em que a sua fé se rendera ao cepticismo - ou não tivessem os avistamentos tão misteriosamente abrandado, em inícios do século XXI, numa era tão marcadamente tecnológica e em que as câmeras de filmar proliferaram. 

A história é sobre pessoas banais (traço comum nas obras do cineasta) que, em circunstâncias extraordinárias, são alvo do extraordinário e concretizam o extraordinário. O Roy de Dreyfuss é exatamente uma dessas pessoas, que se vê alienado do seu dia-a-dia e da sua família por força de um chamamento superior, que o impele e desafia numa busca existencial, em busca de significado, de revelação, de respostas às suas muitas perguntas. O argumento mergulha o fascínio extraterrestre com um complô à escala internacional, que tenta esconder, no maior dos secretismos, os sinais e os contactos entre os humanos e as criaturas desconhecidas. A narrativa avança num impressionante crescendo de suspense, entre cenas em que discos luminosos e voadores rasgam os céus nocturnos, navios aparecem misteriosamente no meio de desertos ou adoráveis crianças são, na sua desarmante inocência, atraídas pelo desconhecido e sequestradas pelos invasores. Nem por um momento, no entanto, Spielberg deixa antever se os extraterrestres nos querem bem ou mal. O segredo adensa-se como o mais forte dos nevoeiros e nós, que presos ao filme nos encontramos, embrenhamo-nos sem resistência. 

Nota para a presença de François Truffaut como Claude Lacombe - Spielberg sempre pensou nele como ideal para o papel, por se tratar de uma criança grande ou de um adulto que vê o mundo com os olhos e a natureza de uma criança. Segundo Spielberg, Encontros é para adultos capazes de se entregarem ao desconhecido com a mesma fé - incondicional - de uma criança. Da mesma forma, espontânea, com que o pequeno Barry (brilhante Cary Guffey) abre a porta de sua casa ao mistério. Destaque ainda para o cuidado inspirado no fecho de determinadas cenas: são como demonstrações de amor à arte, numa arquitetura da cena ao mais ínfimo pormenor, do primeiro ao último instante.

Encontros estreou no mesmo ano de Guerra das Estrelas - o contributo de ambos os filmes para a ficção científica é evidente; não obstante Spielberg preferisse chamar-lhe, no seu caso, especulação científica. Contudo, o poder imagético daquele grandioso final não só ecoa na memória do espectador que adora o género como na própria História do Cinema. Spielberg arquitectou um fascinante espetáculo de luz e som no cume da Torre do Diabo (Wyoming) - para sempre associada ao filme - como se pela matemática da música enquanto linguagem universal fosse possível o contacto e a comunicação. O grande mistério culmina ali, na audaciosa orquestração de John Williams a partir das cinco notas, na extravagância visual da Direção Artística de Joe Alves e Daniel A. Lomino e no portento de fotografia de Vilmos Zsigmond - a experiência transcende-se num momento absolutamente mágico, belo e inebriante.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

GUERRA DOS MUNDOS (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: War of the Worlds
Realização: Steven Spielberg

Principais Actores: Tom Cruise, Dakota Fanning, Tim Robbins, Justin Chatwin, Miranda Otto, Rick Gonzalez, David Alan Basche, Yul Vazquez, Ann Robinson, Gene Barry, Channing Tatum, Morgan Freeman 

Crítica: 

A INVASÃO ALIENÍGENA

This is not a war any more than there's a war 
between men and maggots... This is an extermination.

Admitamos que é arriscado conceber e estrear - mesmo para Steven Spielberg e em plena temporada de verão, na qual se sucedem os demais formatados blockbusters de Hollywood - um remake apocalítico sobre um ataque alienígena global, sem cair nos lugares comuns de um Michael Bay ou de um Roland Emmerich: refiro-me ao fogo-de-artifício pegado, regado a humor de algibeira, com desprimor para a narrativa e para as personagens, no qual se assistem comummente aos bastidores das investidas militares, plenos de ecrãs e de visões de satélite, ou a copiosos discursos de presidentes e líderes mundiais, ou nos quais damos a volta ao mundo, numa montagem de segundos, e nos apercebermos dos efeitos da catástrofe pelas variadíssimas culturas humanas. Esse cinema de consumo, de massas, tem o seu público, os seus lucros e raras as vezes alguns méritos artísticos dignos de nota, com exceção do som e dos efeitos digitais que são, por regra, tremendos. Guerra dos Mundos não cai nesses lugares comuns, não é um desses filmes, embora seja também sofisticadíssimo no que ao som e aos efeitos especiais diz respeito. Alguns preconceituosos, certamente, já haviam julgado a obra, mesmo antes de a terem vislumbrado. Outros tantos, ter-se-ão frustrado com as expectativas erradas que os acompanharam à sala de cinema e viram o que não queriam ver, ou seja, viram o que Guerra dos Mundos, efetivamente, é. Outros, sem expetativas, detestaram, outros com ou sem expetativas adoraram. Esta receção é comum a qualquer filme, mas esta introdução não é em vão: se há obra que dividiu opiniões foi este assombro de filme. Guerra dos Mundos é, ainda hoje e incompreensivelmente, uma das mais mal-amadas obras de Spielberg. 

Porquê? Creio porque Guerra dos Mundos se diferencia no seu foco, na sua perspetiva. Spielberg aposta em abordar o cosmos pelo microcosmos, todo a complexidade do evento pelos olhos de uma só família (um pai e dois filhos). Qual é o resultado? A parte pelo todo. Um filme intimista, sobre as relações familiares em conflito e sobre o conflito potenciado pelo extremismo das circunstâncias, sobre os efeitos do terror, do medo e do pânico nas relações humanas, abismadas pela destruição das suas referências, pela insegurança, pelo desconhecido, por essa necessidade de esperança e de fuga perante um destino aparentemente condenado. Ao acompanhar a família Ferrier, Spielberg espelha toda a humanidade. A ausência de explicações sobre os acontecimentos, intensificam o mistério, o suspense, o medo. O espetador, tal como aquela família, está desprovido da verdade. O consequente desalento é tão desconfortável que muitos espetadores criticam o filme exatamente por essa ausência de explicação. Criticam a lógica, as possibilidades científicas... quando não é isso que está em causa. Aliás, nem poderão chegar a conclusão nenhuma, minimamente representativa da verdade absoluta, já que o filme não se descortina em fundamentos. Temos a solene voz de Morgan Freeman, no prólogo e no epílogo, a apontar para uma interpretação codificada: as moléculas, quimicamente alteradas pelo tempo, como antivirús capazes de destruir as forças extraterrestres. E é só. Spielberg e os argumentistas (David Koepp e Josh Friedman, a partir dos escritos originais de H. G. Wells) servem-se desse fator a favor da narrativa, da ação. As barreiras invisíveis, contra as quais lutam as personagens, despoletam o desespero, a claustrofobia e todas as outras fobias a uma escala inimaginável.

From the moment the invaders arrived, breathed our air, ate and drank, they were doomed. They were undone, destroyed, after all of man's weapons and devices had failed, by the tiniest creatures that God in his wisdom put upon this earth. By the toll of a billion deaths, man had earned his immunity, his right to survive among this planet's infinite organisms. And that right is ours against all challenges. For neither do men live nor die in vain.  
Narrador

Guerra dos Mundos abre como o mais comum dos filmes, sem especiais cuidados cénicos ou de fotografia. Tom Cruise é Ray Ferrier - um homem como qualquer outro - trabalha nas docas, entre gruas e contentores. Quando chega a casa, apercebemo-nos das suas particularidades: é um pai imaturo, com dificuldades de relacionamento com o filho adolescente, Robbie (Justin Chatwin). Tem ainda uma filha de dez anos, Rachel (prodigiosa e arrepiante Dakota Fanning), com maior sentido de responsabilidade do que ele - What are you? Your mother or mine? -, mas que não passa, afinal de contas, de uma criança. É divorciado de Mary Ann, mãe dos filhos (Miranda Otto), que vem deixá-los para passarem o fim-de-semana consigo, no meio de uma casa desarrumada e sem um pacote de leite no frigorífico que seja. What are we supposed to eat?, pergunta-lhe a filha. You know, order!, responde-lhe o pai. Exusado será dizer que passar um fim-de-semana com o pai não é propriamente, para eles, um fim-de-semana de sonho. You're an asshole. I hate coming here, diz-lhe Robbie.

Algures pelo zapping da tv - tal é o tédio em casa do pai - antevemos que alguma coisa está a acontecer pelo mundo; os noticiários dão-nos conta de qualquer acontecimento trágico. Mas é quando o céu fica negro e uma chuva de incontáveis e estrondosos relâmpagos rebenta sobre eles que o filme começa. Os carros e quase todos os aparelhos elétricos deixam de funcionar, metade da multidão, apavorada, fica em casa, a outra metade sai à rua curiosa. Ray deixa os filhos em casa e vai averiguar o que se passou. Dezenas de raios cairam todos no mesmo lugar, perfuraram o solo e agora o chão abre-se e racha edifícios. Inicia-se a destruição. Do interior da terra ergue-se uma máquina gigante, como que despertada de um longo sono. Maybe it came down in the lightning storm. Tripods, chamam-lhe mais tarde. They come down in capsules, riding the lighting into the ground into the machines. Os tripods lançam raios que reduzem os humanos a pó, parecem ter um plano: aniquilar toda a humanidade. A ação é frenética, os efeitos digitais (Dennis Muren, Pablo Helman, Randy Dutra, Daniel Sudick) não parecem efeitos digitais. Tudo parece real. Ray escapa ao ataque, regressa a casa e arranja maneira de colocar os filhos numa viatura que funcione para fugir dali o quanto antes. Nova Jersey não tardará a ficar em escombros. Os Tripods revirarão a enorme ponte da cidade, os carros cairão como formigas. O espetáculo impôr-se-á tão vibrante quanto assustador. Is it the terrorists?, pergunta Rachel. É o trauma do 11 de Setembro a influenciar, claramente, esta renovada visão.

A partir daqui, Guerra dos Mundos - até então drama, ficção científica, filme de ação e suspense - torna-se também um imprevisível e inquietante road movie. Os gritos de Dakota Fanning espelharão o quão traumática está a ser a experiência para milhões de pessoas, por todo o globo. Ray ver-se-á obrigado a crescer e a assumir finalmente as suas responsabilidades como pai; veja-se o seu desespero e desorientação naquela fatia de pão atirada à janela, barrada a manteiga de amendoim. De episódio em episódio, Ray, Robbie e Rachel farão por estar unidos, por se protegerem, por sobreviverem, tentando pôr as suas diferenças de parte; diferenças que, ao fim e ao cabo, já não importam. São agora os laços de sangue que os unem, mais do que alguma vez imaginariam. Cenas memoráveis? Mais do que muitas: enquanto se escondem e refugiam na vivenda de Mary Ann, despenham-se aviões que tudo estremecem sobre a casa. Quando tornam ao experior, o cenário de devastação é impressionante e inacreditável. Mais tarde, quando param no meio do campo, parece que mais ninguém habita a região. Where is everybody?, questiona Rachel. I don't know, admite o pai. Running, hiding, hiding in their basements. De seguida, Rachel depara-se com dezenas de mortos a flutuar no rio, visão por demais chocante para uma criança. Há um comboio em chamas, que tudo silencia, instala-se o pânico e a confusão para ficar com um carro ou entrar num ferry. Chovem roupas na escuridão da noite (foram-se os corpos). Robbie separa-se da família e sobe a colina de encontro ao fogo, na inconsciência do seu ímpeto juvenil, julgando-se capaz de batalhar ao lado do exército. Mas não vemos mais Robbie até ao fim. Guerra dos Mundos não faz cedências e não há espaço para heroísmos. A Ray e Rachel resta-lhes somente tentar fugir, tentar sobreviver, tentar.

A cena que se segue, na cave e na companhia do perturbado e alucinado Harlan Ogilvy (inspiradíssimo Tim Robbins, a fazer lembrar o seu Dave Boyle de Mystic River) evoca, plena de tensão, a encenação de Jurassic Park, no assalto à cozinha. É um momento notável e nucluar na ação da última parte. Tom Cruise apercebe-se, então, que tem que cometer o mais impraticável e hediondo dos actos em nome da sua sanidade mental e para proteção da filha e dele próprio: matar. Apercebe-se que nem canções de embalar conhece para tranquilizar a filha. Acaba por cantar-lhe Little Deuce Coupe, dos Beach Boys, em lágrimas. Se sobreviverem, apercebe-se também, não mais será o mesmo pai: tão pouco presente e envolvido na vida dos filhos. Para além do mais, é nesta cave que nos confrontamos pela primeira vez, cara-a-cara, com os alienígenas. Lembramos Encontros Imediatos do 3º Grau, lembramos E.T. - O Extraterrestre, mas não sabemos o que esperar destes, agora inimigos e tão malévolos. E não ficamos desiludidos com o seu aspeto físico: o digital resulta magnificamente em todo o filme, impregnado de realismo a cada frame. Quando Ray e Rachel sobem à superfície, são apanhados pelo Tripod. A paisagem mudou. Raízes vermelho-sangue estendem-se pelos campos, por todo lado. O cenário, mais do que nunca, transpira a ficção científica. A iluminação e as cores do portentoso trabalho de fotografia de Janusz Kaminski transcendem-se, sempre com aquele grão na imagem que vem desde O Resgate do Soldado Ryan. A banda sonora de John Williams joga magistralmente com o medo, a agonia e as demais emoções do espetador, num misto de dissonância e estranheza. Perturba-nos e inquieta-nos. É absolutamente determinante para o exotismo da experiência.

Guerra dos Mundos não é Steven Spielberg longe do seu melhor, pelo contrário. É um filme intenso e sublime, que escreve na pedra: fazer um remake é um acto de imaginação e de pura recriação. Guerra dos Mundos convoca todos os nossos sentidos e é memorável para com todos eles.

sábado, 17 de agosto de 2013

SHUTTER ISLAND (2010)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Shutter Island
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine, John Carroll Lynch, Elias Koteas, Robin Bartlett, Christopher Denham, Nellie Sciutto, Joseph Sikora

Crítica:

A ILHA MISTERIOSA

You'll never leave this island.

Dissertar - em cinema - sobre a loucura, faz-me invocar, instantaneamente, aquele clássico magistral de 75, protagonizado pelo genial Jack Nicholson, Voando Sobre Um Ninho de Cucos. Naquele hospício imoral, delineava-se uma linha bastante ténue entre a saúde e a demência mentais. Ser louco poderia significar coisas distintas, consoante o juiz, e a facilidade com que se sentenciava a loucura de alguém apresentava-se-nos como algo de verdadeiramente assustador. Pois bem, este inquietante objecto fílmico de Martin Scorsese segue a mesma premissa; transportando-a, porém, para um ambiente kafkiano, muito mais tenebroso e sinistro, e servindo-se do suspense como principal condutor da narrativa.

O argumento de Laeta Kalogridis, a partir do romance homónimo de Dennis Lehane, equilibra-se, labriríntico e intrincado, sobre a ambiguidade: terá reais fundamentos a investigação do U.S. marshal Teddy Daniels, sobre a conspiração secreta que submete os pacientes do remoto hospital a inovadoras, dolorosas e desumanas experiências científicas, ou será ele próprio um louco paranóico, como tantos outros dos edifícios A, B e C, vivendo num mundo inventado à sua medida? O condão maior tanto do argumento como da realização é o de confundir habilmente o espectador, dificultando-lhe o acesso à verdade e colocando-o na pele do protagonista, dividido entre a sua razão e a razão dos outros.

Os sonantes acordes da banda sonora (Mahler, Ligeti, Ingram Marshall, Penderecki, entre tantos outros) potenciam, de imediato, a atmosfera de terror, assim como o esplendor enigmático da fotografia (Robert Richardson). Os flashbacks, sejam eles sonhos, alucinações ou recordações, alimentam o mistério, adensam a complexidade da história nas suas múltiplas possibilidades. Às tantas, todavia, só dois caminhos se nos restam possíveis e a imprevisibilidade desvanece-se. A conclusão do enredo não é a mais surpreendente e original, mas o filme revela-se sólida e arrojadamente construído e muito bem escrito.

A interpretação de Leonardo DiCaprio é absolutamente magnetizante. O extraordinário talento do actor envolve-nos do princípio ao fim, em perfeita sintonia com as portentosas prestações de Ben Kingsley, Patricia Clarckson, Jackie Earle Haley, Max von Sydow ou Michelle Williams. Dante Ferretti e Francesca Lo Schiavo garantem a qualidade irretocável da direcção artística, Sandy Powell assina o figurino e Thelma Schoonmaker trabalha a montagem do filme, conferindo-lhe uma fluidez assinalável.

Shutter Island afirma-se, pois, como um exercício tecnicamente sofisticado, ao qual se lhe alia uma arte de filmar virtuosa e que transpira maturidade. Um pedaço de cinema brilhante e, no fim de contas, extremamente prazeroso de se assistir.

Which would be worse, to live as a monster,
or to die as a good man?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ANTICRISTO (2009)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Antichrist
Realização: Lars von Trier
Principais Actores: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg

Crítica:

A RAPOSA, O CORVO E O VEADO


Nature is Satan's church.


O momento em que a mestria ascende à mais pura genialidade: um prólogo imaculado, a preto e branco, apresenta-nos Ele, Ela e Nic, o filho de ambos, condenado pelos misteriosos desígnios do sobrenatural. Ouve-se Lascia ch'io pianga, de Händel. A perfeição da fotografia e da arte de filmar sublima a tragédia, enquanto o slow motion nos enebria e arrepia. Que abertura lírica e transcendente - e, ao mesmo tempo, estranhamente apaziguadora e reconfortante. Espera-nos, contudo, o choque, o nojo e a provocação... Capítulos de Luto, Dor e Desespero e um profundo e repugnante mergulho na essência e nas origens do Mal, muito para além das fronteiras do terror psicológico. Magnífico trabalho de Lars von Trier.

I. Luto.
A morte do filho assume-se como algo absolutamente traumatizante. A queda fatal, enquanto fornicavam, assombra e consome-Lhes o pensamento, os sonhos e a existência. O sentimento de culpa existe e provém das raízes da alma. Especialmente a Ela que, após desmaiar no funeral da criança e acordar um mês depois numa cama de hospital, encontra uma assustadora e abominável depressão, cujas possibilidades de catarse são mínimas.

Ele é psiquiatra e decide, contra a ética, tratar o luto da mulher e do casal. What the mind can conceive and believe it can achieve. Primeiro, há que tentar tranquilizar-Lhe a tão intensa ansiedade: A main part of anxiety is physical: dizzy spells, dry mouth, distorted hearing, trembling, heavy breathing, fast pulse, nausea... (...) Do the breathing. Hold... Exhale. A sensibilidade na captação das imagens torna-se extrema e a câmera, bruxuleante. Intensificam-se a subtileza da montagem (Anders Refn, Åsa Mossberg), a virtuosa arte entre o focar e o desfocar e o esplendor sombrio e enigmático da fotografia (Anthony Dod Mantle). Depois, o processo terapêutico avança para o desbravar dos medos:

Ela: Do you love me?
Ele: Yes, I do.
Ela: Then help me.
Ele: It's what I'm doing. Exposure - that's the only thing that really works. Everything else is... just talk. You have to have the courage to stay in the situation that frightens you. And then you'll learn that fear isn't dangerous. Let's make a list of things you're afraid of. At the top, you put the situation you fear the most. (...) Maybe it would be easier for you to tell me where you're afraid? Where would you feel most exposed? What would be the worst place? An apartment? The street? A store? The park? Visiting someone, maybe. The woods. The woods?
Ela: The woods, yes.
Ele: It's funny because you were the one that always wanted to go to the woods. What scares you about the woods? What frightens you... there?
Ela: Everything.
Ele: Tell me what you think is supposed to happen in the woods. Eh? Is it any woods in particular?
Ela: Eden.

Fecham-se os olhos, cai-se em hipnose. Insinua-se um slow-motion cândido e tremendo. I'm at the bridge. It's evening. Almost no birds can be heard. The water is running without a sound. Darkness comes out anytime here. I walk into it. A atmosfera adensa-se. Um calafrio atravessa-nos a espinha. Lie down on the green - sugere-lhe o marido. - Lie down on the grass. (...) Lie down on the plants. (...) I want you... to melt into the green. Don't fight it. Just - turn - green.

No sono, Ela confunde-se com o arredor da cabana, a cabana do Éden onde passara o Verão com o filho, supostamente a preparar a Sua tese. Ela estudara a bruxaria e a misoginia que ao longo dos séculos irradicara da face da Terra milhares e milhares de mulheres, nomeadamente após a publicação do Malleus maleficarum.

Por mais que se tenha afastado da mulher e do filho, em tempos idos, Ele não consegue compreender o porquê de tanto medo em relação à Natureza daquele bosque negro... E isso instiga-o a continuar a expiação. Deslocam-se, pois, ao Éden.

II. Dor.
Reina o caos. Não prolifera mais o cosmos, no Jardim do Éden. Crescem o suspense, a agonia daquela mulher e os seus descontrolados impulsos sexuais. As mais improváveis situações começam a acontecer na hostilidade daquele meio. As bolotas, por exemplo, começam a cair sobre o telhado, que nem uma forte e amaldiçoada chuvada:

Oak trees grow to be hundreds of years old - conta-lhe Ela. - They only have to produce one single tree every hundred years in order to propagate. May sound benign to you, but it was a big thing for me to realize that when I was out here with Nic. The acorns fell on the roof then, too... kept falling, and falling, and dying, and dying. And I understood that... everything that used to be beautiful about Eden, was perhaps hideous. Now I could hear what I couldn't hear before. The cry of all the things that are to die.

Mais tarde, Ele encontra as fotografias do Verão passado, partilhado a sós entre mãe e filho, abre a carta da autópsia que Ela desconhece existir e... as dúvidas insurgem-se. O luto, a dor e o mistério envolvente intensificam a ruína do casamento e da relação dos dois.

III. Desespero.
Ele encontra, no sótão, o material de pesquisa da tese da mulher e apercebe-se do subtexto sobrenatural dos acontecimentos... da ligação histórica e profana entre Satanás e as mulheres... das manifestações sexuais... Começa a ter sonhos estranhos. Fala-Lhe, à mulher, desses devaneios oníricos, mas Ela apela-Lhe, ironicamente, à lucidez e ao cepticismo deontológico que nunca partilhou: dreams are of no interest to modern psychology. Freud is dead.


Ele: I am nature, all the things you call nature - tenta.
Ela: If human nature is evil, then that goes as well... for the nature of... Of the women? Female nature? The nature of all the sisters.

Ela tenta a fornicação, mas Ele resiste. Ela está possuída pelo Mal: foge da cabana, embrenha-se na neblina e na escuridão da floresta e, tendo as raízes de uma árvore antiga como altar, pressiona os genitais na mais compulsiva masturbação. Ele encontra-A e possui-A. A força do feminino reclama o Gynocide e os maquiavélicos planos de Satanás. O fotograma que a fantasia proporciona, no seguimento do acto sexual, não é senão um dos mais memoráveis e deslumbrantes de toda a obra. Viscerais e assombrosos desempenhos de Willem Dafoe e de Charlotte Gainsbourg, no abismo e fascínio do enredo.

Regressados à cabana, Ela encontra o resultado da autópsia. Nic falecera com uma deformação nos pés e Ele confronta-A com o facto. As fotografias que encontrara, nomeadamente, ostentavam os pés do miúdo com os sapatos trocados. Relembrando o prólogo, encontraremos na memória a imagem dos sapatos do menino, premeditadamente trocados. Face à Verdade, a mulher é tomada pela violência e desfere-a sobre o marido: uma violência atroz, sádica e masoquista, plena de uma essência narcísica, despudoradamente explícita, fria e cruel. Completamente possuída, a mulher jamais dará oportunidade ao remorso.

IV. Os Três Pedintes.


Ele: Did you want to kill me?
Ela: Not yet. The three beggars aren't here yet. (...) When the three beggars arrive, someone must die.

Terá sido provocada, a morte do pequeno Nic, por mera negligência? Ilumina-se o complexo argumento e as dúvidas dissipam-se. Um revelador flashback dá-nos a resposta; a nós e a Ela. Há muito que o Mal germinara no coração daquela mulher, afinal. Com a auto-mutilação, é desencadeado o insuportável e doloroso clímax. Os gritos pungentes servem o chamamento d'Os Três Pedintes. There is no such constellation, profere Ele, mas o cepticismo é tardio. Resolvem-se as simbologias e a morte chega, implacável.

Fique o Éden livre de todo o Mal. E, com ele, todas as almas para sempre perdidas.

Epílogo: preto e branco, Lascia ch'io pianga, fecho circular.

Anticristo é, por tudo isto, uma das mais inquietantes, perturbantes e destroçantes experiências cinematográficas deste virar de década. Uma absoluta obra-prima.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O CABO DO MEDO (1991)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Cape Fear
Realização: Martin Scorsese
Principais Actores: Robert De Niro, Nick Nolte, Jessica Lange, Juliette Lewis, Joe Don Baker, Robert Mitchum, Gregory Peck, Martin Balsam, Illeana Douglas, Fred Dalton Thompson

Crítica:

O PESADELO INFERNAL

Every man... every man has to go
through hell to reach paradise.

O Cabo do Medo é como que Scorsese a brincar a Hitchcock. A sua câmera marca uma presença soberana na condução narrativa - cada um dos seus movimentos tem um papel activo e determinante na construção do suspense, que se intensifica num crescendo sufocante e irreversível à medida que caminhamos para o desfecho brutal. E que exímio exercício de construção e de suspense! Tensão, medo, claustrofobia, todas estas sensações nas doses exactas, nos momentos certos. Qual montagem, sempre ágil, precisa e acutilante, a técnica magnetiza eficazmente as atenções do espectador, manipulando o ritmo. Elmer Bernestein recupera a banda sonora de Bernard Herrmann e potencia uma experiência deveras arrepiante.

Ainda que seja um filme formalmente atípico na carreira do cineasta, encontramos neste remake o mesmo olhar frio e cerebral de sempre, sobre a violência e sobre o mundo do crime; temas recorrentes na filmografia de Scorsese, como sabemos. E encontramos, pois claro, o também recorrente Robert De Niro, numa performance extraordinária, verdadeiramente assombrosa. Provavelmente, uma das suas melhores interpretações de sempre. De Niro é Max Cady, um imprevisível, doentio e repugnante fantasma do passado, um psicopata de sorriso irónico e ameaçador, que procura a vingança junto do seu antigo advogado Sam Bowden (Nick Nolte) e da sua respectiva família (Jessica Lange, Juliette Lewis). Recém-libertado da prisão, passa a perseguir os seus alvos sem cessar, apertando-lhes cada vez mais o cerco. Sam espera, desespera e lança-se em estratagemas menos ortodoxos na tentativa de se livrar do louco, ainda que em vão. Max é extremamente engenhoso, meticuloso e inteligente e ultrapassará todos os limites numa caça sem tréguas.

I ain't no white trash piece of shit. I'm better than you all! I can out-learn you. I can out-read you. I can out-think you. And I can out-philosophize you. And I'm gonna outlast you. You think a couple whacks to my guts is gonna get me down? It's gonna take a hell of a lot more than that, Counselor, to prove you're better than me!
Max Cady

Perante a assustadora vivência, a utilidade do código: seguir o dever e a ética profissional ou a lei moral? O conflito assola a reflexão e a fraqueza da justiça dos Homens é posta em evidência.

Maybe 2000 years ago, we'd have stoned him to death.
I can't operate outside the law. The law is my business.
Sam Bowden

Daí o confronto final ter uma simbologia especial. Perante a ameaça da violência e na luta pela sobrevivência, todas as leis caem por terra. A justiça primitiva é a única possível e a semente do crime pende igualmente para ambos os lados da balança. Todos os homens podem ser culpados e agentes de violência, tenham razões para isso. Desse prisma, as diferenças entre Max e Sam tendem, às tantas, a dissipar-se. As circunstâncias da vida encarregar-se-ão finalmente de os encaminhar para a redenção ou não.

Max Cady: I'm Virgil and I'm guidin' you through the gates of Hell. We are now in the Ninth Circle, the Circle of Traitors. Traitors to country! Traitors to fellow man! Traitors to GOD! You, sir, are charged with betrayin' the principles of all three! Quote for me the American Bar Association's Rules of Professional Conduct, Canon Seven.
Sam Bowden: "A lawyer should represent his client... "
Max Cady: "Should ZEALOUSLY represent his client within the bounds of the law." I find you guilty, counselor! Guilty of betrayin' your fellow man! Guilty of betrayin' your country and abrogatin' your oath! Guilty of judgin' me and sellin' me out! With the power vested in me by the kingdom of God, I sentence you to the Ninth Circle of Hell! Now you will learn about loss! Loss of freedom! Loss of humanity! Now you and I will truly be the same...

Enfim, magistral. Psicologicamente estonteante.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O PROTEGIDO (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Unbreakable
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright Penn, Spencer Treat Clark

Crítica:

HERÓI VS. VILÃO

Nunca o universo dos super-heróis e da banda desenhada ganhou contornos tão humanos ou humanizados como nesta magnífica obra de M. Night Shyamalan. O Protegido revela-se como uma proeza de genuína subtileza, um trabalho de grande contenção e crescente tensão, suportado por um argumento assaz sensível e inspirado.

O que é um super-homem? Existe um super-herói? É interessante a forma como nos é apresentada a personagem de Samuel L. Jackson, Elijah Price, um homem atraiçoado pelos genes que o condicionarão às fragilidades da vida: nós aceitamo-lo como um ser real. Porque não aceitar também, com semelhante facilidade, o oposto do Sr. de Vidro, um homem forte e resistente a doenças e aos azares do destino? A questão é deveras pertinente. E o exercício dramatúrgico confrontar-nos-á tanto com a hipotética origem da mitologia de vilões e super-heróis (numa fronteira praticamente inexistente entre realidade e fantasia) como com a verdade sobre cada um dos protagonistas (essencial para saberem o seu lugar no mundo).

Eis, pois, um filme extremamente original, de construção inteligente e performances impressionantes e comovedoras, onde a mestria de Shyamalan emana especialmente em todas as cenas de maior duração, nos premeditados e vagarosos movimentos de câmera, nos planos meticulosos ou no constante jogo entre sons e silêncios. A banda sonora e o tratamento das cores e da cinematografia revelam-se cruciais para a criação do ambiente de suspense. Que assombro de filme.

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Nota especial para a infeliz escolha do título português.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

OS PÁSSAROS (1963)

PONTUAÇÃO: FRACO
★★
Título Original: The Birds
Realização: Alfred Hitchcock

Principais Actores: Rod Taylor, Tippi Hedren, Jessica Tandy

Breves Considerações: De mestre, a condução do suspense e a composição de algumas sequências - entre as quais aquela que a imagem abaixo ilustra. No entanto, absolutamente negligenciados por uma história ridícula.

sábado, 13 de novembro de 2010

A SENHORA DA ÁGUA (2006)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Lady in the Water
Realização: M. Night Shyamalan
Principais Actores: Paul Giamatti, Bryce Dallas Howard, Bob Balaban, Jeffrey Wright, Sarita Choudhury, Freddy Rodriguez, Bill Irwin, Jared Harris, M. Night Shyamalan

Crítica:

A MAGIA DE ACREDITAR

Entrar no Reino Encantado de Shyamalan não é, seguramente, para todos. É preciso ser-se especial. É preciso acreditar... na intuição, na sensibilidade, na magia... e, para lá da fronteira do sonho, na possibilidade de redenção. É por isso que, para alguns, A Senhora da Água poderá revelar-se uma experiência poderosamente inspiradora e inesquecível.

À semelhança das anteriores obras do autor, o universo de A Senhora da Água existe numa barreira invisível entre o real e o imaginário. Porém - e talvez como nunca - a importância de acreditar é absolutamente essencial. Assim como a habilidade para compreender o subtexto da obra, tão rico e incrivelmente filosófico, camuflado em símbolos que nem scrunts na relva. Esta não é, apenas, uma simples história para adormecer, contada a crianças... É tão mais do que isso.

Em primeiro lugar, é uma alegoria. Os seres humanos não só optaram por ignorar os povos do Mundo Azul como, nos seus condomínios, se isolam em si mesmos como se tentassem encontrar na solidão a verdade sobre si próprios. E não encontram, longe disso. A comunicação entre os seres humanos, mesmo entre aqueles que dominam o mesmo idioma, é, cada vez mais, algo que se perde na nostalgia dos tempos idos. Dos tempos em que as pessoas se reuniam, conversavam e contavam histórias umas às outras. O acto de contar uma história é, pois, algo extremamente simbólico, de raízes ontológicas. É um ritual sagrado e primitivo, com cerne na palavra e que possibilita a união, que se tende a dissipar totalmente na imensidão do nosso cosmos ou caos existencial. O condomínio onde acontece a história de Shyamalan (The Cove pode significar, numa dada acepção, abóbada; elemento arquitectónico de fortes e por demais evidentes conotações simbólicas) funciona, pois, como um local religioso, de reunião e de grande interacção com o transcendente.

A Senhora da Água é, por tudo isto, o mais religioso dos filmes de Shyamalan. A religião é uma questão de crença: aqui, a magia e os desígnios da história só acontecerão caso as personagens acreditem nas profecias do fantástico, mesmo que lidas em caixas de cereais. Não é por acaso que a única personagem condenada à morte é o crítico de cinema. Ele simboliza o céptico, o frio; aquele que, inteiramente convicto da Verdade, acredita que a narrativa obedece sempre à mesma lógica, não percepcionando o imprevisível e as cadências próprias do imaginário. Note-se que quando Cleveland opta por seguir os conselhos do crítico e atribuir as funções da história a certas e determinadas personagens, nada acontece! Não há magia! Quando o responsável do condomínio, brilhantemente desempenhado por Paul Giamatti, consulta o miúdo, encontra finalmente o verdadeiro oráculo. A eterna magia das histórias é que, na verdade, nunca está tudo dito, há sempre mais qualquer coisa para aprender... Uma história é um organismo vivo, tem alma própria; não se limita, jamais, a ser um mero conjunto de processos narrativos.

A Senhora da Água aborda, também, o tema da identidade. Em O Sexto Sentido, recordemos, a questão batia-se entre vivos ou mortos. Em O Protegido, entre heróis ou vilões. Em Sinais, entre estarmos ou não sós no universo. E o mesmo re-poisicionamento existencial era exigido em A Vila, quando é descoberta a verdade. Em A Senhora da Água, por entre magistrais orquestrações musicais de James Newton Howard, a mesma questão se impõe: as personagens vivem na esperança de saber o seu lugar no mundo e, também, o seu lugar na própria história (uma vez que têm consciência do seu estatuto). O facto de ser M. Night Shyamalan, o actor, a desempenhar o papel de Vick, o escritor, é outro ponto por demais importante e que não podemos descurar. É uma questão de assumir a identidade, numa relação metadiegética; note-se a mise-en-abyme: argumentista - escritor. Um fala pelo outro. E o que é que Story (magnificamente interpretada por Bryce Dallas Howard) profetiza a Shyamalan através de Vick? Que, algures, um rapaz vai ler a sua história, que crescerá e que mais tarde liderará um país e aí ocorrerá uma grande mudança. Falamos aqui, claramente, na importância da moral (inerente à existência dos contos de fadas) na formação de cidadãos melhores e, pois, da importância da inspiração do escritor para mudar o mundo.

Desde o prólogo ao emocionante desfecho, A Senhora da Água assume-se como uma obra maior que simboliza, com assaz perfeição, a condição humana e a sua existência (Comunicação, religião, identidade) e a eterna relação entre entre o plano terreno e o etéreo, encarnada com a deslumbrante aparição final da águia. Magnificamente fotografada, encenada e filmada (a subtil arte de filmar entre o focar e desfocar é, por exemplo, de uma sensibilidade extrema) eis, pois, uma daquelas obras de mestre que o tempo não deixará esquecer... Acreditem, grande obra de arte; digam alguns críticos o que disserem.


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Nota especial para a beleza e requinte na concepção do poster do filme,
acima apresentado.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões