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sábado, 15 de abril de 2017

ALEMANHA, ANO ZERO (1948)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Germania Anno Zero
Realização: Roberto Rossellini
Principais Actores: Edmund Moeschke, Ernst Pittschau, Ingetraud Hinze, Franz-Otto Krüger, Erich Gühne

Crítica:

NAS CINZAS DA GUERRA

Una serena constatazione di fatti.

O olhar de uma criança é um olhar privilegiado para retratar a guerra ou a devastação que a mesma pode causar ao coração humano: as crianças são, sobre todos, o símbolo maior da inocência e do futuro da civilização, ambos corrompidos ou ameaçados pelo sangrento confronto. Os neo-realistas italianos sabiam disso e exploraram isso. Se pensarmos nas demais características do movimento artístico, identificamo-las facilmente num filme com Alemanha, Ano Zero, último capítulo da trilogia da guerra de Roberto Rossellini. É interpretado por actores não profissionais, é filmado nos locais reais da acção.

Não sou fã de nenhum movimento em particular, penso que qualquer escola tem as suas virtudes e que, através delas, pode expressar mais ou menos a sua arte. Acontece que Alemanha, Ano Zero, preso em demasia aos pilares da sua doutrina, serve-se mais do pretexto artístico para um registo histórico e documental do que do pretexto histórico para se afirmar como objecto iminentemente artístico. Nem sempre muito bem filmado, a cidade degradada em constante background grita o seu realismo, mas depois os indivíduos que fazem de actores são, na grande parte das cenas, tão pouco credíveis que o poder da história tende a cair por terra. A fotografia é, por vezes, tão miserável quanto a atmosfera em que os acontecimentos têm lugar. O desmazelo artístico é, na minha opinião, claro e evidente. Se a tal evidência me responderem: pois, mas neo-realismo é mesmo assim. Eu respondo com o também neo-realista Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica e do mesmo ano. Atentem-se, nesse magistral filme, à fotografia, à condução do conflito moral e à direcção dos indivíduos que fazem de actores. Basta compararem o carisma e o talento do Bruno de Enzo Staiola com o do Edmund de Edmund Moeschke - aliás, basta pesquisarem quantos filmes fez Enzo depois do filme de Sica e quantos filmes fez Edmund depois deste Alemanha. Não terá sido certamente por acaso.

Ainda assim, o argumento salva o filme da total tragédia: no rescaldo da guerra e antes do eventual renascimento da fénix, a sobrevivência entre os escombros da moral. Na mais plena amoralidade, uma criança não é uma criança: é obrigada pelas circunstâncias a corromper-se, a jogar um jogo demasiado cruel e monstruoso para a sua idade, para a sua maturidade. O caminho não é só perigoso, é irreversível.

Por tudo isto, um filme com interesse sobretudo histórico. Arte... arte é outra coisa.

sábado, 17 de agosto de 2013

A PAIXÃO DOS FORTES (1946)

 PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: My Darling Clementine
Realização: John Ford
Principais Actores: Henry Fonda, Linda Darnell, Victor Mature, Cathy Downs, Walter Brennan, Tim Holt, Ward Bond

Crítica:

A VINGANÇA DE WYATT EARP

Maybe when we leave this country young kids like you
 will be able to grow up and live safe.

Wyatt Earp, por John Ford. Mais a lenda, não tanto a história, daquela mítica figura que o próprio cineasta conheceu pessoalmente em 1927 e que Henry Fonda interpreta, formidavelmente. Mais um homem do oeste - sequeoso de vingança e de justiça, mas mais brando nos costumes e no trato, muito menos bruto e grosseiro certamente, e que finalmente alia o charme natural ao cuidado com a apresentação.

Clementine: I love your town in the morning, Marshal. The air is so clean and clear... the scent of the desert flower.
Wyatt Earp: That's me... barber. 

Após o misterioso assassinato do irmão, num intervalo à travessia do gado pela empoeirada imensidão da paisagem rumo à Califórnia, Tombstone torna-se o lugar para um novo começo. Earp deixa a sua existência errante e assume responsabilidade civil como xerife. É então que My Darling Clementine abranda o seu principal fio narrativo - a vingança - e se demora na crónica de costumes, no retrato histórico, na invocação nostálgica de um passado perdido; muito ao estilo do que faria Hawks, também, mais tarde, de set em set, em Rio Bravo. Após densos ou bem humorados diálogos e alguns tiros esporádicos - na barbearia, na pensão ou no alpendre - a acção retorna a Tombstone - precisamente, com a fuga do alcoolizado, tísico e enigmático Doc (Victor Mature). E quando o faz, fá-lo de forma explosiva e absolutamente electrizante, até ao final. Puro entretenimento. A fotografia de Joseph MacDonald toma-nos de assombro, glorificando o céu, as nuvens e as rochas, transpirando, a cada frame, uma beleza de cortar a respiração.

Também o romance marca presença, nesta narrativa de múltiplos registos que é My Darling Clementine. A figura feminina - representada de duas formas opostas pelas personagens de Chihuahua (Linda Darnell, a prostituta, mulher de recreio) e de Clementine (Cathy Downs, professora, a mulher para casar) - partilha e distrai as atenções dos homens do ódio que os corrói no dia-a-dia. Clementine, ao qual o título (por sua vez oriundo da canção popular) faz menção, simboliza a esperança e a redenção do homem do oeste a uma fórmula mais pacífica e romantizada do herói. Afinal, também há lugar para a doçura e para o amor no coração e na vida de um homem duro.

Embora a construção narrativa não esteja tão magnificamente esculpida quanto a composição dos planos, muito menos quando comparada, obviamente, à imponência silenciadora de Monumment Valley - encontramo-nos perante um western enérgico e incontestavelmente prazeroso e valoroso. A salientar, obrigatoriamente, que a versão final que chegou aos cinemas de todo o mundo beneficiou (ou sofreu?) de cortes por parte de Zanuck, da Fox, que achara a versão de Ford demasiado demorada e cansativa. Há uma versão do realizador, seis minutos mais longa, mas não definitiva.

A SEMENTE DO ÓDIO (1945)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Southerner
Realização: Jean Renoir
Principais Actores: Zachary Scott, Betty Field, J. Carrol Naish, Beulah Bondi, Percy Kilbride, Charles Kemper, Blanche Yurka, Norman Lloyd, Estelle Taylor, Paul Harvey

Crítica:

A TRILOGIA DA ESSÊNCIA:
O TRABALHO, A TERRA E A FAMÍLIA 


Grow your own crops.

The Southerner é sobre uma família pobre. Tal evidência reduz o filme, logo à partida, às suas questões verdadeiramente essenciais, como verdadeiramente essenciais são os valores do ser humano: a importância da inter-ajuda e da união (afinal, ninguém vence sozinho), do esforço e da persistência face às adversidades da vida, da fé e da convicção num futuro melhor para um futuro, efectivamente, melhor.

A história (talentosa adaptação do romance de George Sessions Perry, Hold Autumn in Your Hand) é tremendamente simples e eficaz na sua forma narrativa - sucedem-se episódios, impressões - desenvolvendo-se com uma fluidez notável e cimentada por personagens com as quais nos identificamos, nos envolvemos e pelas quais, em crescendo, torcemos. Inesquecível, a velha e hilariante matriarca (tão resmungona e insuportável: When ya all look down on my cold dead face, in that county pine box, you’ll be sorry then—maybe!), o incansável Sam (herói da mulher, dos filhos e de toda a família) ou o vizinho Devers (tão invejoso e hostil que só perante a pesca do Grande Peixe encontra a redenção).

Concluamos, portanto, que o argumento, à luz da palavra e pela representação calorosa dos actores, destila humanidade a cada colheita, a cada superação. Não obstante o seu tom moralista e a sua mensagem iminentemente política, é a preocupação maior com as pessoas (as mais desfavorecidas, neste caso os trabalhadores rurais) que prevalece, esse humanismo basilar que de forma tão franca e humilde faz a força motriz de The Southerner, o seu coração partilhado com o espectador; que nos faz ignorar, inclusivé e tão facilmente, qualquer imperfeição técnica, por mínima que seja, que aqui e ali se note.

Um olhar poético de Renoir capta a natureza, na sua graça e na sua ira, ao rigor das estações e na omnipresença de Deus. Só a aliança maior, entre todos os elementos, permite o triunfo. Na vida e no cinema. Um filme virtuoso, pois, sobre a miséria e a riqueza do espírito.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O VALE ERA VERDE (1941)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: How Green Was My Valley
Realização: John Ford
Principais Actores: Walter Pidgeon, Maureen O'Hara, Anna Lee, Donald Crisp, Roddy McDowall, John Loder, Sara Allgood, Barry Fitzgerald, Patric Knowles

Crítica:

MEMÓRIA E NOSTALGIA

Memory... Strange that the mind will forget so much of what only this moment has passed, and yet hold clear and bright the memory of what happened years ago; of men and women long since dead.Huw Morgan

O Vale Era Verde vem reforçar a minha ideia a respeito (do trajecto) do cineasta John Ford: como é notável a façanha de, filme após filme, conseguir um inter-diálogo permanente entre cada uma das suas obras e, simultaneamente, concretizar pedaços de cinema tão distintos e versáteis, com tamanha mestria.

O filme, pelo argumento de Philip Dunne (e a partir do romance de Richard Llewellyn) confere um tom novelesco à trama: a sucessão de acontecimentos, de episódios e a colecção de memórias recapituladas pela analepse do narrador, que relembra os seus anos de infância e de juventude. Pelas alegrias e tristezas então experienciadas flui a narrativa, do drama à tragédia, da comédia ao romance.

Uma vez mais, neste filme, temos um leque de personagens sólidas, carinhosamente tratadas e brilhantemente tridimensionadas pelo elenco, numa apaixonante história de família. As relações pais-filhos, o pai e a mãe como alicerces da instituição e o complemento fundamental entre ambos (o patriarca que sustenta a casa e educa os filhos homens, a mãe dona-de-casa que educa as filhas e mima todos por igual), o papel das mulheres solteiras, os casamentos, nascimentos e funerais, o divórcio como vergonha e desgraça.

Por outro lado, as preocupações sociais: a comunidade mineira de trabalhadores, que tão sofridamente ganha o seu salário. As baixas de salários, a greve e a luta sindical, o socialismo. Tanto na família como na comunidade, as relações humanas, o cultivo da união. Inclusivé na capela, todos sentados ao Domingo; por mais hipocrisia que disfarcem. A fé, a devoção e a religião, também, como veículo de união entre as pessoas.

And by prayer, I don't mean shouting, mumbling, and wallowing like a hog in religious sentiment. Prayer is only another name for good, clean, direct thinking. When you pray, think. Think well what you're saying. Make your thoughts into things that are solid. In that way, your prayer will have strength, and that strength will become a part of you, body, mind, and spirit.
Sr. Gruffydd

Deus, pátria e família. Independentemente das conotações políticas, a conservadora tríade de ideais na qual reside o coração do filme. Eis, pois, a invocação dos tempos idos com saudade, perante um presente que se depreende tão menos rico em sentimentos e em humanidade.

Magnífica, a fotografia de Arthur C. Miller, desde o recorte dos montes aos contornos poluentes das chaminés da mina. Perfeita, a iluminação, cena a cena. Realce merecido para a direcção artística (Richard Day, Nathan Juran, Thomas Little). A banda sonora de Alfred Newman envolve-nos na viagem ao passado, acompanhando o emocionante crescimento do Huw, de benjamin a sonhador acamado, de erudito de banco de escola a rapaz do carvão, suado e tisnado. Nenhum médico ou advogado. Sem qualquer glória. Simplesmente, um filho de família ao peito - e quão valorosa é esta a sua opção.

Certamente, um dos melhores filmes de John Ford.

Men like my father cannot die. They are with me still, real in memory as they were in flesh, loving and beloved forever. How green was my valley then.
Huw Morgan

domingo, 2 de janeiro de 2011

AS VINHAS DA IRA (1940)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The Grapes of Wrath
Realização: John Ford
Principais Actores: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Charley Grapewin, Dorris Bowdon, Russell Simpson, O.Z. Whitehead, John Qualen, Eddie Quillan, Zeffie Tilbury, Frank Sully, Frank Darien, Darryl Hickman, Shirley Mills

Crítica:

A TERRA PROMETIDA

All that lives is holy.


As Vinhas da Ira, monumental obra de John Ford, é universalmente aclamada como uma das expressões máximas do cinema enquanto arte. Partilho, com entusiasmo, dessa opinião: a arte de filmar é absolutamente magistral, a fotografia de Gregg Toland atinge um lirismo visual esplendoroso e irretocável, o argumento (de Nunnally Johnson, a partir do romance de John Steinbeck) desenvolve-se num storytelling envolvente, consistente e muito bem escrito, a montagem (Robert L. Simpson) toma as rédeas da narrativa com exímia destreza e as performances dos actores são irrepreensíveis - Henry Fonda e Jane Darwell agarram os seus papéis como se apertassem a própria terra.

Oklahoma, década de 30 do século XX. Decorre a Grande Depressão, trazendo consequências não só nefastas como profundamente trágicas para milhares de famílias. Os ventos anunciam tempestade e abre-se um fosso social gigantesco entre os grandes latifundiários e senhores do capital e os mais desfavorecidos economicamente. A expropriação avança sobre os miseráveis, condenados, na forma de tractores e imponentes máquinas que, na vanguarda do progresso, destroem os lares de famílias inteiras, sem dó nem piedade ou qualquer pingo de humanidade.

There ain't nobody gonna push me of my land! My grandpa took up this land 70 years ago, my pa was born here, we were all born on it. And some of of us was killed on it! ...and some of us died on it. That's what make it our'n, bein' born on it,...and workin' on it,...and and dying' on it! And not no piece of paper with the writin' on it!
Muley Graves

Quatro anos passados após um homicídio involuntário, Tom Joad (Fonda, num fortíssimo desempenho) sai da cadeia em liberdade condicional e torna a casa. O choque é tremendo, quando se apercebe que já lá não vive ninguém, que a família tudo abandonou por obrigação. Quando finalmente reencontra os seus, temporariamente instalados em casa do tio John, a quilómetros dali, é confrontado com a dura, inacreditável e inaceitável realidade: a sua família perdeu tudo - tudo menos o ferveroso amor à terra que, durante décadas, os alimentou e prosperou. Inconsoláveis, engolindo a revolta e temendo pelo seu futuro, partem rumo à Califórnia, na sucata ambulante que a poupança permitiu, acreditando nos empregos que os jornais, cartazes e folhetins anunciam, na esperança de uma vida melhor. Mas a estrada, a viagem, será para eles uma implacável luta pela sobrevivência e revelar-se-á como um verdadeiro teste à sua dignidade e união.

They ain't human. Human being wouldn't live the way they do.
Human being couldn't stand to be so miserable.
Empregado da Gasolineira

On the road e rumo ao oeste, o realismo que provém das filmagens no exterior fala por si. Entre o céu (em Ford o céu, sempre o céu) e a terra, o homem: sublimemente enquadrado na natureza, na paisagem. O cuidado da mise-en-scène é notável e raramente descuidado. As grandes cenas de um filme como As Vinhas da Ira sucedem-se e são inúmeras as que, ao logo do percurso, fortalecem o retrato às condições constrangedoras que as personagens ultrapassam. Recordo, a título de exemplo, a paragem naquela espécie de pub, em que a mera compra de um pão para matar a fome, a 10 cêntimos e num local onde só se vendem sandes a 15, se torna uma missão humilhante. Por fim, no rematar da cena, os dois doces que os netinhos comem com os olhos e que o avô compra, não suportando a si próprio a vergonha de ver os seus queridos a passarem por privações tão simples. Mas o filme é, todo ele, sumo. Repleto de diálogos brilhantes, um triunfante exercício narrativo, que vê espelhado nos olhos dos actores a sua poderosa carga dramática.

If there was a law, they was workin' with maybe we could take it, but it ain't the law. They're workin' away our spirits, tryin' to make us cringe and crawl, takin' away our decency.
Tom Joad

A chegada ao destino, falecidos com pesar alguns dos familiares, não é senão uma desilusão. Exaustos e famintos, vêem-se enganados pela propaganda, tratados como desterrados vadios e crimonosos e obrigados a aceitar os escassos trabalhos mais mal pagos que poderiam alguma vez imaginar. Migrando de terra em terra e de acampamento em acampamento, sem qualquer sentimento de pertença, ei-los completamente entregues à sorte, sustentados pelas relações familiares que, cada vez mais ardua e melancolicamente, resistem à degradação. A família surge-nos, pois, como o suporte mais importante, o bem mais precioso e sagrado.

Maybe I can do somethin'... maybe I can just find out somethin', just scrounge around and maybe find out what it is that's wrong and see if they ain't somethin' that can be done about it.
Tom Joad

Desolado pelas dificuldades e iluminado pelas ideias do companheiro Casy (I can't ever be a preacher again. Preachers gotta know. I don't know. I gotta ask), Tom reflecte sobre a necessidade da rebelião, da luta e da união entre todos os sem-terra contra o capitalismo sem escrúpulos. O sonho e a promessa de terem trabalho, casa, família e de recuperarem a vida de outrora tem que ser uma bandeira. É no final que o filme deixa transparecer a esperança da sua mensagem, apelando a toda uma consciencialização social fundamental para a coesão e para o triunfo dos valores humanistas. No desfecho, Tom despede-se da mãe (a importância da relação mãe-filho ganha uma importância nuclear ao longo de todo o texto fílmico) numa cena comovedora.

I'll be all around in the dark - I'll be everywhere. Wherever you can look - wherever there's a fight, so hungry people can eat, I'll be there. Wherever there's a cop beatin' up a guy, I'll be there. I'll be in the way guys yell when they're mad. I'll be in the way kids laugh when they're hungry and they know supper's ready, and when the people are eatin' the stuff they raise and livin' in the houses they build - I'll be there, too.
Tom Joad

Com as últimas linhas do argumento, os nossos heróis familiares ganham uma dimensão simbólica que transcende, claramente, os seus contornos originais. Tom parece assumir um discurso batalhador e a mãe dá voz à índole comunista; aspectos mais preponderantes no romance, mas que aparecem aqui estilizados, ampliando as potencialidades semânticas da obra, sem que, no entanto e no meu entender, assinem propriamente um manifesto ideológico.

Rich fellas come up an' they die, an' their kids ain't no good an' they die out. But we keep a'comin'. We're the people that live. They can't wipe us out; they can't lick us. We'll go on forever, Pa, 'cause we're the people.
Ma Joad

Destaques finais para o brio da encenação, para a excelente banda sonora e para o restante aprumo técnico e artístico que, nos mais variados aspectos, surge aos olhos do espectador perfeitamente orquestrado.

Marcante e arrebatador, fica-me a certeza de que há poucos filmes como este. Mais do que um clássico absoluto do cinema americano, uma obra-prima intemporal e obrigatória. Absolutamente inesquecível.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

FORTE APACHE (1948)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Fort Apache
Realização: John Ford
Principais Actores: John Wayne, Henry Fonda, Shirley Temple, Pedro Armendáriz, Ward Bond, George O'Brien, Victor McLaglen, Anna Lee, Grant Withers
 
Crítica:

OFICIAIS,
CAVALHEIROS E SELVAGENS

De um candor elegíaco e grandioso, um western profundamente belo e humano: Forte Apache resplandece sob um radioso e imenso céu, tão monumental quanto a rocha e a poeira que envolvem o glorioso Monument Valley. No horizonte, as silhuetas de índios e cavaleiros - eternos inimigos deste cenário mítico - recortam a paisagem, manchada de sangue, de ódio e de racismo, mas igualmente suada de honra, de medo e de esperança. John Ford filma-o magistralmente, numa inconfundível e perfeita fusão de registos. Do romance ao drama, do humor à música, do silêncio da imensidão aos gritos e disparos da batalha. É o início da aclamada Trilogia da Cavalaria, que continuará com Os Dominadores e que terminará com Rio Grande.

Destacado para o meio de nenhures, o Tenente Coronel Owen Thursday (Henry Fonda, num fortíssimo desempenho), fazendo-se acompanhar da filha Philadelphia, torna-se o novo líder do Forte. Extremamente ambicioso e rigoroso, no que à sua carreira e postura militar diz respeito, respectivamente, Thursday será um oficial perfeitamente ciente da sua elevada patente e mostrar-se-á implacável e inflexível na aplicação da sua autoridade.

Gentlemen, I did not seek this command, but since it's been assigned me, I intend to make this regiment the finest on the frontier. I fully realize that prolonged duty in a small outpost can lead to carelessness... and inefficiency and laxity in dress and deportment. I call it to your attention that only one of you has reported here this morning properly dressed. The uniform, gentlemen, is not a subject for individual, whimsical expression. We're not cowboys at this post... or freighters with a load of alfalfa.
Thursday

Inicialmente habituados à liderança informal e carismática do Capitão Yorke (John Wayne, na competência que lhe é característica), os soldados terão alguma dificuldade em, dia após dia, se apresentarem de farda engomada, sóbrios e determinados na sua postura e resposta. Enfim, ordem e disciplina que a sua memória rapidamente se incubirá de restabelecer. Até o próprio Yorke, no terreno tão mais experiente do que o superior, terá que se reduzir à sua posição na hierarquia:

Thursday: What, no debate this time, Captain?
Yorke: No debate, sir; no questions.

Acostumada à vida da cidade, Philadelphia vê-se confrontada com uma nova realidade, despida de conforto e dos melhores móveis. Quando o seu destino se cruza com o do Sargento-mor Michael O'Rourke, é amor à primeira vista... Mas o senhor seu pai rapidamente se ocupará de manter a rédea curta entre os dois, proibindo-os de se encontrarem, nomeadamente.

Para além dos fait-divers do dia-a-dia na aldeia, tanto amorosos como militares, o filme aprofundar-se-á com a questão do choque cultural e civilizacional. Desde os finais da Guerra Civil Americana que o Forte tem a sensível missão de lidar com os índios locais e a chegada de Thursday terá sérias implicações nas conversações até então estabelecidas entre ambas as partes. Numa pertinente discussão entre o Tenente Coronel e o Capitão Yorke, nota-se a ignorância e o preconceito de um e o conhecimento e bom-senso de outro:

Thursday: We here have little chance for glory or advancement. While some of our brother officers are leading their well-publicized campaigns against the great Indian nations - the Sioux and the Cheyenne - we are asked to ward off the gnat stings and flea bites of a few cowardly digger Indians.
Yorke: Your pardon, Colonel. You'd hardly call Apaches digger Indians, sir.
Thursday: You'd scarcely compare them with the Sioux, Captain.
Yorke: No, I don't. The Sioux once raided into Apache territory. Old-timers told me you could follow their line of retreat by the bones of their dead.
Thursday: I suggest the Apache has deteriorated since then, judging by a few of the specimens I've seen on my way out here.
Yorke: Well, if you saw them, sir, they weren't Apaches.

As posições radicalmente distintas destes dois homens acabam por ser, ao fim e ao cabo, a sinédoque da mentalidade americana da época. Também os índios têm voz:

The Apaches are a great race. (...) They've never been conquered. But it is not well for a nation to be always at war. The young men die... the women sing sad songs... and the old ones are hungry in the winter. And so I led my people from the hills. And then came this man.

Quando a diplomacia falha e o orgulho e o egoísmo falam mais alto - Your word to a breech-clouted savage! An illiterate, uncivilized murderer and treaty-breaker! There is no question of honor, sir, between an American officer and Cochise - impõe-se a guerra como inevitável solução. Com ela e com a marcha da cavalaria pelo deserto, Forte Apache concretiza algumas das suas sequências mais extraordinárias e tecnicamente audazes. A fotografia de Archie Stout e do não-creditado William H. Clothier é verdadeiramente fabulosa: sucedem-se os grandes planos, em enquadramentos de cortar a respiração; tal é o seu esplendor visual. As sonantes composições de Richard Hageman preparam o espectáculo que se seguirá. Com a acção ao rubro, a câmera mover-se-á, empolgante, a um ritmo e destreza notáveis, num clímax absolutamente memorável.

No final, mais do que exacerbar o patriotismo, Ford acaba por imortalizar os heróis da História. Não pelo maniqueísmo redutor, fazendo deles modelos irrepreensíveis, agentes do bem vs. mal, mas dramatizando a ambiguidade da natureza humana que é, no fim de contas, universal. A mortal selvajaria dos homens residirá, sempre, na sua cruel intolerância e incompreensão.
A sua superioridade, por sua vez, na sua capacidade de diálogo e de entendimento.

They aren't forgotten because they haven't died. They're living - right out there. Collingwood and the rest. And they'll keep on living as long as the regiment lives. The pay is thirteen dollars a month; their diet: beans and hay. Maybe horsemeat before this campaign is over. Fight over cards or rotgut whiskey, but share the last drop in their canteens. The faces may change... the names... but they're there: they're the regiment... the regular army... now and fifty years from now. They're better men than they used to be. Thursday did that. He made it a command to be proud of.
Yorke

Enfim, que magnífica sessão de cinema. Grande filme de John Ford.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O MUNDO A SEUS PÉS (1941)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Citizen Kane
Realização
: Orson Welles
Principais Actores: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Ray Collins, George Coulouris, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Erskine Sanford, Everett Sloane
Crítica:

ROSEBUD: O ENIGMA, O PUZZLE
E O PRINCÍPIO DA MODERNIDADE

Se há filmes incontornáveis para a História do Cinema, O Mundo a Seus Pés é sem dúvida um deles. Originalmente imaginado e magistralmente concretizado por Orson Welles, o estranho e complexo exercício trouxe à Sétima Arte um vastíssimo número de inovações técnicas, absolutamente imprescindíveis daí em diante. Film à clef, sátira, profecia ou pérola de grande confluência estética, O Mundo a Seus Pés é tão mais misterioso quanto mais o estudamos. A sua aura mística fá-lo-á - com toda a justiça - eterno.

Na vanguarda da linguagem cinematográfica, a obra-prima do génio rompeu o cânone clássico e instaurou a modernidade. Como? Revolucionando o storytelling por meio da fragmentação narrativa e da sequente multiplicação dos pontos de vista e da recusa simultânea da linearidade e da cronologia. O filme ignora o aviso NO TRESPASSING e nós aventuramo-nos com ele. O prólogo dá-nos conta da morte e do lançamento do enigma. E, num filme dentro do filme, faz um resumo biográfico de Charles Foster Kane. A partir daí, a estrutura narrativa assume uma forma assumidamente labiríntica, com um acentuado desfazamento entre o tempo diegético e o tempo da narrativa e com o flashback como motivo constituinte e essencial. Impõe-se, pois, o puzzle. Deste modo, esta ambiciosa parábola existencial introduziu o conceito de relativismo na captação do universo diegético, sendo que, imediatamente, foi conferido ao espectador um papel activo na interpretação da obra, na descodificação do enigma e na resolução do puzzle. O sentido total da obra, se é que possível, só será compreendido aquando da reunião de todas as peças, de cada uma das pétalas da rosa.

Mr. Kane was a man who got everything he wanted and then lost it. Maybe Rosebud was something he couldn't get, or something he lost. Anyway, it wouldn't have explained anything... I don't think any word can explain a man's life. No, I guess Rosebud is just a... piece in a jigsaw puzzle... a missing piece.

Rosebud... Entreviste-se Susan Alexander, a segunda mulher do multi-milionário, tão embriagada em álcool como em memórias... Entreviste-se o Sr. Bernstein ou o Sr. Tatcher, o Sr. Leland ou o mordomo do palácio... As memórias dos entrevistados revelar-nos-ão as desventuras e as mil facetas do grande homem de Xanadu. Nunca o significado daquela última palavra... Mas afinal, o que importa a última palavra? Ela permite-nos concluir o puzzle, fechar o sentido inicialmente proposto pela diegese. É, portanto, um elemento fundamental. Afinal, não só de pétalas é feita uma rosa... Rosebud encerra em si mesma a única memória respeitante ao magnata... a recordação de uma infância onde foi amado e onde realmente se sentiu como tal: amado. That's all he ever wanted out of life... was love. That's the tragedy of Charles Foster Kane. You see, he just didn't have any to give. Poderemos nós conhecer um homem a partir de memórias? It's the greatest curse that's ever been inflicted on the human race: memory. O máximo que poderemos conhecer, parece-me, é um retrato fragmentado da sua figura. Através da soma das partes chegaremos ao todo - a experiência, a qual certamente agradou Derrida, é por demais reveladora. E é essa a proposta de O Mundo a Seus Pés; note-se o efeito de mise en abyme do seguinte fotograma, sinedoquizando a própria obra:


Quando nos centramos no argumento de O Mundo a Seus Pés (Orson Welles, Herman Mankiewicz), alegadamente inspirado na biografia de W. R. Hearst, é por demais interessante perceber como, no plano ficcional, seguimos a demanda do Sr. Thompson na incessante busca de Rosebud... No final, todavia, percebemos que ele e todas aquelas personagens estão condenadas a jamais desvendar o mistério. O filme moderno é, para além de tudo mais, um objecto tantas vezes consciente de si próprio e neste caso escolhe-nos a nós, espectadores, como confidentes. Só nós, elementos extradiegéticos, descobriremos a chave-mestra que despoleta toda a diegese, ainda que para nós a diegese seja em si mesma tão mais importante ou relevante quanto o significado da palavra Rosebud.

Kane não é senão um self-made man, uma poderosíssima máquina de fazer dinheiro, dotado de uma carreira relampejante, ainda que movido não pelo dinheiro mas pelo sonho, pela ambição e por essa tão vital vontade de ser amado por todos. A sua natureza ávida fá-lo superar o tutor, o banqueiro Sr. Tatcher. De forma a liderar o mercado de vendas, leva o sensacionalismo despudorado e manipulador ao Inquirer. A Declaração de Princípios que regerá essa lógica jornalística custar-lhe-á o fracasso da campanha política que empreenderá, tempo depois. As mulheres vêm e vão, assim como as conspirações que o tramam, e, à medida que os anos passam e a caracterização lhe acentua a velhice, as possibilidades do triunfo esvaem-se numa vertiginosa sucessão de infortúnios... A tragédia trespassará as grades de Xanadu e o negrume da solidão abater-se-á sobre ele.

Em O Mundo a Seus Pés, a imagem ganha uma dimensão prismática e ambígua da realidade, como nunca até então. A fotografia (Gregg Toland) é, por isso, tão inovadora quanto extraordinária. Há planos magníficos, sequências de uma encenação e detalhe surpreendentes: a câmera que sobe pela opera house, atravessa o telhado e entra pelo bar adentro... a câmera que invade a fotografia e, como por magia, lhe dá vida e movimento... o estilo realista e teatral de uma enriquecida mise en scène, fruto da composição em profundidade de campo - o também denominado deep focus... o resultado de um literal mundo a seus pés, permitido pelo recurso aos low-angle shots... os enquadramentos com espelhos... O Mundo a Seus Pés é, a bem dizer, como uma enciclopédia de estilos, efeitos e técnicas. Enfim... puro deleite cinematográfico.

Para além de tudo isto, do exuberante e meticuloso trabalho de montagem de Robert Wise (capaz de jogar com a visibilidade e invisibilidade da découpage, criando um dinamismo notável), e da magnífica banda sonora de Bernard Herrmann, o que dizer da performance do próprio Orson Welles? Absolutamente assombrosa. Como se confluem e espelham, um no outro, Welles e Kane. Criador e criação parecem intimamente ligados, muito para além d' O Mundo a Seus Pés. E essa coincidência (ou não-coincidência) constitui um dos pilares essenciais para o fascínio que, de modo intemporal, parece recair sobre esta obra.

Fragmento, auto-consciência artística, complexidade interpretativa: modernidade. O Mundo a Seus Pés é um marco autêntico, um clássico absoluto e obrigatório, uma experiência tão híbrida quanto os meandros que definem a nossa própria existência. É, artisticamente falando, uma das obras mais completas a que tive o prazer de assistir. Pelas mãos, igualmente, de um dos artistas mais completos que a Sétima Arte já conheceu. Ele sim, o puzzle por inteiro.
Enfim... grande filme. Um daqueles sobre os quais ficará sempre tanto por dizer.

domingo, 12 de setembro de 2010

BAMBI (1942)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Bambi
Realização: David Hand

Filme de Animação
Crítica:

O BOSQUE ENCANTADO
Árvores, troncos e ervinhas, coelhos, esquilos e doninhas, flores, bolotas e cogumelos, codornizes corujas e outros passarinhos, riachos, borboletas e inocência. Apetece dizer que Bambi é de uma época nostálgica em que ainda se faziam filmes para crianças. E, na verdade, já não os fazem assim, tão encantadores, simples e puros.

A obra abre que nem uma canção de embalar, quando a natureza da floresta desperta para a beleza e magia da Primavera. A vida floresce entre todos os animais, entre todos os seres e há alegria no ar. Bambi nasce e todos os animais se dirigem para a clareira, para conhecerem o desajeitado jovem príncipe que, do cimo das suas quatro altas e esguias pernas, tenta o equilíbrio, com dificuldade. Há uma sincronia perfeita entre a imagem, mais abstracta no segundo plano, e a maravilhosa composição musical de Edward H. Plumb. Há sequências magníficas e de uma esplendorosa criatividade: por exemplo, quando a música nasce do tilintar das gotas da chuva sobre as folhas, subtilmente. Depois, há outras longas passagens sem diálogos e onde esta interactividade entre música e imagem se revela um autêntico triunfo.

As folhas secas caem sobre o riacho e dançam ao sabor do vento, o manto branco anuncia o rigor do Inverno. Mudam as estações e Bambi desenvolve, prodigiosamente, o seu candor de fábula: uma fábula sobre a descoberta do mundo e daquilo que nos rodeia, uma fábula sobre o crescimento, sobre a amizade (o coelhinho tambor ou a doninha flôr serão seus amigos para a vida) e sobre os bons valores (os cumprimentos, a boa educação ou o respeito pelos mais velhos, nomeadamente). Uma fábula sobre os obstáculos que, ao longo de toda a vida, atravessamos, sejam eles as rivalidades, os riscos ou mesmo a dor da perda. A morte da mãe de Bambi é, a propósito, uma cena comovente e crucial na sua etapa enquanto ser vivo. Note-se o poder destrutivo do Homem, tanto pela caça como pelos incêndios - as principais ameaças e os maiores perigos para toda a vida e diversidade do bosque. Bambi lança, pois, uma importante mensagem ecológica sobre a preservação da natureza.

Com o regresso da Primavera, despertam as paixões e o ciclo da vida perpetua-se. Quando Bambi ganha um adversário pela conquista amorosa de Falina, a equipa artística tem o cuidado de alterar a estética cromática, como forma de representar e simultaneamente condenar a violência.

Enfim, um clássico deslumbrante e verdadeiramente bonito.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

LADRÕES DE BICICLETAS (1948)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Ladri di Biciclette
Realização: Vittorio de Sica


Principais Actores: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Vittorio Antonucci, Gino Saltamerenda, Giulio Chiari, Elena Altieri, Carlo Jachino, Michele Sakara

Crítica:

A OCASIÃO FAZ O LADRÃO

Profundamente tocante e humano, Ladrões de Bicicletas é a prova irrefutável de como se podem criar obras de arte genuinamente brilhantes e inspiradoras a partir de escassos recursos. O neo-realismo italiano, aliás, foi o responsável por vários desses casos.

Magnificamente fotografado (Carlo Montuori) e musicalmente orquestrado (Alessandro Cicognini), é com a maior compaixão que seguimos o difícil percurso de Antonio Ricci (de corpo e alma interpretado por Lamberto Maggiorani), que faz de tudo para superar a miséria: em busca de sustento, estabilidade e felicidade para uma humilde e modesta vida em família. Porém, o roubo fatídico da sua bicicleta porá todas essas aspirações em causa. É com o intuito de reaver a bibicleta que encabeça uma perseguição desesperada pelas ruas de uma Roma assolada pela guerra. A bicicleta significa tudo. E essas mesmas ruas enchem-se de bicicletas a cada plano... que nem chuva num Domingo... mas não estão ao alcance de todos. Por isso, o retrato social intensifica-se, fiel a uma realidade por demais dura e implacável, injusta e desigual. A demanda pela bicicleta dá-nos também a conhecer o evoluir da relação entre pai e filho, sujeita a uma educação muito franca e cuidada. Mais próximos do final, todavia, deparamo-nos, tal como o próprio Antonio, com a expansão do conflito moral a uma maior dimensão: no plano humano, aquilo que nos faz muitas vezes optar um caminho em detrimento de um outro é algo de muito ténue. E, no entanto, basta para marcar a diferença e definir quem somos. E é tão-pouco aquilo que separa ladrões e roubados. Quando Antonio confronta o ladrão, dá-se um twist significativo na sua ordem de valores; provavelmente precipitado, mas absolutamente compreensível, à luz das circunstâncias. O acontecimento levá-lo-á ao dilema. E o dilema à inversão da sua identidade e imagem social; algo danoso para o exemplo deixado a Bruno.

De forma simples, mas absolutamente poderoso e essencial na sua mensagem, Ladrões de Bicicletas assume-se facilmente como um conto intemporal e um filme de valor inestimável, um inesquecível e incontornável marco na História do Cinema.

terça-feira, 11 de maio de 2010

CASABLANCA (1942)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Casablanca
Realização: Michael Curtiz
Principais Actores: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains, Paul Henreid, Peter Lorre

Crítica:

AMOR... 
AS TIME GOES BY

Em plena 2ª Guerra Mundial, o Inferno alastra-se a P
aris. Para milhares de pessoas, a fuga afigura-se como a melhor a solução e Casablanca como um ponto crucial na rota da Salvação. Todavia, não só de sorte se faz o destino e, perante o infortúnio, todos os refúgios do mundo se podem transformar numa prisão. É o caso do Rick's Café Américain; oásis de libertação e, simultaneamente, palco de uma trama fascinante, repleta de intriga, mistério e perigo.

Casablanca não tem nem assume nunca um género específico. É romance, é drama, é melodrama, é policial... e conflui magistralmente todos esses registos. Está repleto de frases e diálogos memoráveis e é rico em personagens maravilhosas. O argumento (da autoria dos irmãos Epstein e de Howard Koch), apesar de construído e concluído no decorrer das filmagens, constitui um grande exercício dramatúrgico, brilhante na subtileza e humor com que enaltece certas passagens. O capitão Renault é, porventura, o expoente máximo da ironia e da inteligência com que nos presentearam os argumentistas; a personagem de Claude Rains é, aliás, a minha favorita deste clássico de Michael Curtiz. Depois segue-se o icónico casal romântico Rick e Ilsa, claro. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman estão magníficos nos seus papéis. O primeiro cheio de charme e carisma, a segunda com um brilho nos olhos intenso e comovente.

Casablanca é considerado um dos filmes mais românticos de todos os tempos, mas é pertinente e interessante perceber como o próprio rompe com o cânone e arrisca um final tão pouco romântico. Afinal, o par não acaba junto e feliz para sempre. Há um amor maior, maduro e consciente das suas possibilidades, que escapa ao egoísmo e assume um papel determinante na escolha: é a decisão de Rick que proporciona aquele surpreendente e inesquecível twist final. Há valores que, para serem preservados, merecem sacrifícios; e aí reside a maior moral da obra. O próprio triângulo amoroso entre Rick, Ilsa e Victor é tudo menos desputado. Todos amam, mas todos têm o maior respeito entre si e pelo que cada um sente. Vêem-se vértices de um injuntiçado triângulo e tentam-se fazer as melhores opções para minimizar as consequências... Outrora, já Ilsa tomara uma opção difícil, tentando o melhor para Rick e para o marido. Victor sabe do amor entre a mulher e o proprietário do café, mas é incapaz de forçar o destino. E Rick, talvez mais do que todos os outros, demonstra a nobreza e a integridade do seu carácter. You have to think for both of us. For all of us.

Play it once, Sam. For old time's sake. A banda sonora de Max Steiner é fabulosa e o que o compositor faz com temas já existentes como As Time Goes By ou La Marseillaise é extraordinário. Aquela cena em que o hino francês da Lirbeté, Igualité et Fraternité abafa o regozijo alemão é simplesmente arrepiante. As próprias variações de certos temas ajustam-se na perfeição ao evoluir das cenas. A direcção artística acompanha a competência e excelência da produção; produção essa, diga-se, cheia de voltas e reviravoltas, que resultou triunfante por uma série de felizes acasos e por uma realização segura e arrojada.

Enfim... ontem, hoje e amanhã... Casablanca é universal. Uma grande lição de amor, verdadeiro amor, que, para sempre, inspirará gerações. Porque há valores eternos.

Louis, I think this is the beginning
of a beautiful friendship.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

PINÓQUIO (1940)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Pinocchio
Realização:
Hamilton Luske e Ben Sharpsteen

Filme de Animação


Crítica: 



O SONHO TORNADO REALIDADE


A magia existe. Cintilante no firmamento das maiores obras de animação de todos os tempos, a eterna aventura pela descoberta da vida tem um nome: Pinóquio. É como uma orquestra viva de sonho, fantasia e imaginação... Uma montanha russa de emoções, risos e lágrimas, que inspirará, para sempre, gerações atrás de gerações.

Repleto de sequências de grande criatividade e originalidade, onde desenhos e música interagem na genialidade, o universo de personagens é extremamente rico e povoa o nosso imaginário. Desde o grilo falante, narrador e voz da consciência, ao preguiçoso gato Fígaro, da luminosa Fada Azul à temida baleia Monstro, do malvado cigano Stramboli à dupla traiçoeira liderada por João Honesto (note-se o rasgo de ironia, dada a paradoxalidade entre o nome e a personalidade matreira da personagem) ou do velho e simpático Gepeto à inocente e inexperiente marioneta que dá nome à obra... é extraordinária a concepção da pintura, a caracterização das personagens e a sua sintonia e harmonia com a maravilhosa banda sonora de Leigh Harlile e de Paul J. Smith. A canção When You Wish Upon a Star, essa então, tem um encanto redentor. Pela sua estrutura episódica, Pinóquio desenvolve um argumento fluido e coeso, cheio de ritmo, imerso em pluralismo semântico. Constitui, sem dúvida, um concentrado de importantes lições a reter: as consequências de dar conversa a estranhos (os perigos estão sempre ao virar da esquina), de não escutar a consciência ou de mentir (a metáfora do nariz é célebre e sublime), o papel educacional da escola versus a perdição nos maus hábitos e maus valores na metafórica Ilha da Diversão ou a recompensa das boas acções (o salvamento de Gepeto e o renascer num corpo de menino).

Enfim, arte pura: esteticamente ambiciosa e com muito coração. Um clássico imperdível, absolutamente intemporal.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões