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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O MUNDO A SEUS PÉS (1941)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Citizen Kane
Realização
: Orson Welles
Principais Actores: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Ray Collins, George Coulouris, Agnes Moorehead, Ruth Warrick, Erskine Sanford, Everett Sloane
Crítica:

ROSEBUD: O ENIGMA, O PUZZLE
E O PRINCÍPIO DA MODERNIDADE

Se há filmes incontornáveis para a História do Cinema, O Mundo a Seus Pés é sem dúvida um deles. Originalmente imaginado e magistralmente concretizado por Orson Welles, o estranho e complexo exercício trouxe à Sétima Arte um vastíssimo número de inovações técnicas, absolutamente imprescindíveis daí em diante. Film à clef, sátira, profecia ou pérola de grande confluência estética, O Mundo a Seus Pés é tão mais misterioso quanto mais o estudamos. A sua aura mística fá-lo-á - com toda a justiça - eterno.

Na vanguarda da linguagem cinematográfica, a obra-prima do génio rompeu o cânone clássico e instaurou a modernidade. Como? Revolucionando o storytelling por meio da fragmentação narrativa e da sequente multiplicação dos pontos de vista e da recusa simultânea da linearidade e da cronologia. O filme ignora o aviso NO TRESPASSING e nós aventuramo-nos com ele. O prólogo dá-nos conta da morte e do lançamento do enigma. E, num filme dentro do filme, faz um resumo biográfico de Charles Foster Kane. A partir daí, a estrutura narrativa assume uma forma assumidamente labiríntica, com um acentuado desfazamento entre o tempo diegético e o tempo da narrativa e com o flashback como motivo constituinte e essencial. Impõe-se, pois, o puzzle. Deste modo, esta ambiciosa parábola existencial introduziu o conceito de relativismo na captação do universo diegético, sendo que, imediatamente, foi conferido ao espectador um papel activo na interpretação da obra, na descodificação do enigma e na resolução do puzzle. O sentido total da obra, se é que possível, só será compreendido aquando da reunião de todas as peças, de cada uma das pétalas da rosa.

Mr. Kane was a man who got everything he wanted and then lost it. Maybe Rosebud was something he couldn't get, or something he lost. Anyway, it wouldn't have explained anything... I don't think any word can explain a man's life. No, I guess Rosebud is just a... piece in a jigsaw puzzle... a missing piece.

Rosebud... Entreviste-se Susan Alexander, a segunda mulher do multi-milionário, tão embriagada em álcool como em memórias... Entreviste-se o Sr. Bernstein ou o Sr. Tatcher, o Sr. Leland ou o mordomo do palácio... As memórias dos entrevistados revelar-nos-ão as desventuras e as mil facetas do grande homem de Xanadu. Nunca o significado daquela última palavra... Mas afinal, o que importa a última palavra? Ela permite-nos concluir o puzzle, fechar o sentido inicialmente proposto pela diegese. É, portanto, um elemento fundamental. Afinal, não só de pétalas é feita uma rosa... Rosebud encerra em si mesma a única memória respeitante ao magnata... a recordação de uma infância onde foi amado e onde realmente se sentiu como tal: amado. That's all he ever wanted out of life... was love. That's the tragedy of Charles Foster Kane. You see, he just didn't have any to give. Poderemos nós conhecer um homem a partir de memórias? It's the greatest curse that's ever been inflicted on the human race: memory. O máximo que poderemos conhecer, parece-me, é um retrato fragmentado da sua figura. Através da soma das partes chegaremos ao todo - a experiência, a qual certamente agradou Derrida, é por demais reveladora. E é essa a proposta de O Mundo a Seus Pés; note-se o efeito de mise en abyme do seguinte fotograma, sinedoquizando a própria obra:


Quando nos centramos no argumento de O Mundo a Seus Pés (Orson Welles, Herman Mankiewicz), alegadamente inspirado na biografia de W. R. Hearst, é por demais interessante perceber como, no plano ficcional, seguimos a demanda do Sr. Thompson na incessante busca de Rosebud... No final, todavia, percebemos que ele e todas aquelas personagens estão condenadas a jamais desvendar o mistério. O filme moderno é, para além de tudo mais, um objecto tantas vezes consciente de si próprio e neste caso escolhe-nos a nós, espectadores, como confidentes. Só nós, elementos extradiegéticos, descobriremos a chave-mestra que despoleta toda a diegese, ainda que para nós a diegese seja em si mesma tão mais importante ou relevante quanto o significado da palavra Rosebud.

Kane não é senão um self-made man, uma poderosíssima máquina de fazer dinheiro, dotado de uma carreira relampejante, ainda que movido não pelo dinheiro mas pelo sonho, pela ambição e por essa tão vital vontade de ser amado por todos. A sua natureza ávida fá-lo superar o tutor, o banqueiro Sr. Tatcher. De forma a liderar o mercado de vendas, leva o sensacionalismo despudorado e manipulador ao Inquirer. A Declaração de Princípios que regerá essa lógica jornalística custar-lhe-á o fracasso da campanha política que empreenderá, tempo depois. As mulheres vêm e vão, assim como as conspirações que o tramam, e, à medida que os anos passam e a caracterização lhe acentua a velhice, as possibilidades do triunfo esvaem-se numa vertiginosa sucessão de infortúnios... A tragédia trespassará as grades de Xanadu e o negrume da solidão abater-se-á sobre ele.

Em O Mundo a Seus Pés, a imagem ganha uma dimensão prismática e ambígua da realidade, como nunca até então. A fotografia (Gregg Toland) é, por isso, tão inovadora quanto extraordinária. Há planos magníficos, sequências de uma encenação e detalhe surpreendentes: a câmera que sobe pela opera house, atravessa o telhado e entra pelo bar adentro... a câmera que invade a fotografia e, como por magia, lhe dá vida e movimento... o estilo realista e teatral de uma enriquecida mise en scène, fruto da composição em profundidade de campo - o também denominado deep focus... o resultado de um literal mundo a seus pés, permitido pelo recurso aos low-angle shots... os enquadramentos com espelhos... O Mundo a Seus Pés é, a bem dizer, como uma enciclopédia de estilos, efeitos e técnicas. Enfim... puro deleite cinematográfico.

Para além de tudo isto, do exuberante e meticuloso trabalho de montagem de Robert Wise (capaz de jogar com a visibilidade e invisibilidade da découpage, criando um dinamismo notável), e da magnífica banda sonora de Bernard Herrmann, o que dizer da performance do próprio Orson Welles? Absolutamente assombrosa. Como se confluem e espelham, um no outro, Welles e Kane. Criador e criação parecem intimamente ligados, muito para além d' O Mundo a Seus Pés. E essa coincidência (ou não-coincidência) constitui um dos pilares essenciais para o fascínio que, de modo intemporal, parece recair sobre esta obra.

Fragmento, auto-consciência artística, complexidade interpretativa: modernidade. O Mundo a Seus Pés é um marco autêntico, um clássico absoluto e obrigatório, uma experiência tão híbrida quanto os meandros que definem a nossa própria existência. É, artisticamente falando, uma das obras mais completas a que tive o prazer de assistir. Pelas mãos, igualmente, de um dos artistas mais completos que a Sétima Arte já conheceu. Ele sim, o puzzle por inteiro.
Enfim... grande filme. Um daqueles sobre os quais ficará sempre tanto por dizer.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões