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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ZODIAC (2007)

PONTUAÇÃO: BOM 
★★★ 
Título Original: Zodiac
Realização: David Fincher
Principais Actores: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch, Chloë Sevigny, Ed Setrakian, John Terry, Elias Koteas, Dermot Mulroney, Donal Logue, Philip Baker Hall

Versão do Realizador

Crítica:

ENTRE AS PISTAS DE UM MONSTRO

I need to know who he is. I... I need to stand there,
I need to look him in the eye and I need to know that it's him.

Zodiac não é seguramente um filme esquecível para todos os que o tenham assistido até ao final. Como em Se7en - Sete Pecados Mortais, crimes em série desencadeiam uma aguerrida investigação policial na tentativa de descobrir a identidade do assassino, o seu paradeiro e depois, em nome da justiça, o seu desfecho. Todavia, à imagem e semelhança de David Fincher, Zodiac chega-nos como um retrato obsessivamente realista e perfeccionista - meticuloso e detalhista - de uma história real. Assim sendo, dado que na altura do lançamento do filme o mediático e enigmático caso continuava por resolver, Zodiac jamais nos apresentará senão uma trama inconclusiva ou inconcluída. Não nos depararemos com o mau morto ou atrás das grades, antes nos depararemos com uma investigação igualmente obsessiva e, apesar disso, completamente gorada e frustrada perante os resultados (in)alcançados.

Por opção do argumentista (James Vanderbilt), só nos são mostrados os crimes que se conseguiram praticamente provados como tendo sido praticados pelo mesmo homem e os quais deixaram sobreviventes ou testemunhas. A perspectiva que nos é dada a conhecer é mesmo essa, a das testemunhas. Califórnia, finais dos anos 60, princípios dos anos 70. Dois casos de jovens casais, atacados ora aos tiros no negrume da noite ora à facada em plena luz do dia. Um caso insólito de uma falsa e intimidante ajuda a um pneu, na estrada. E um golpe fatal num táxi, em plena cidade. Zodiac, como se subscrevia, enviava depois cartas à polícia e aos jornais, assumindo os crimes praticados, assumindo outros tantos provavelmente não praticados e brincando e baralhando os investigadores com criptogramas e ameaças, lançando a confusão por puro prazer. O filme é sobre os bastidores da investigação, nas redacções dos jornais ou nas esquadras locais - e é claramente sobre o percurso da investigação, não sobre a sua resolução: um empolgante embora tortuoso caminho de estudo, entrevistas, dúvidas e muitas horas sem dormir. As provas - difíceis de reunir entre tantos falsos depoimentos e contradições - deverão apontar o suspeito e não o contrário, por mais favoritismo que determinado indivíduo ou teoria mereça.

Com o passar do tempo, sejam meses ou anos, Zodiac silencia-se e, do lado de quem investiga, vence o cansaço e impõe-se o desânimo. O jornalista Paul Avery (brilhante Robert Downey Jr., embora num curto papel) deixa-se consumir pelo álcool e demite-se do San Francisco Chronicle, abandonando o caso e, de certo modo, a vida. O inspector William Armstrong (Anthony Edwards), visivelmente saturado, confessa abandonar o caso e mudar de departamento. Até o inspector David Toschi (Mark Ruffalo), apesar da viciante dedicação de outros tempos, acaba, às tantas, por arquivar o caso na sua cabeça e rumar em frente na sua vida profissional. Só o cartoonista do San Francisco Chronicle, Robert Graysmith, tomado por um fascínio quase infantil e caricato e desde o início do caso entretido a quebrar as cifras do assassino, mantém viva a esperança e o desejo - e sobretudo a curiosidade - em reunir as peças e em montar o puzzle, eliminando as falsas pistas e descodificando, finalmente, a identidade do monstro. David Fincher transforma essa curiosidade de Graysmith na curiosidade do espectador e é ela que suporta 162 minutos de um denso e intrincado quebra-cabeças. E fá-lo magistralmente, impecável e implacavelmente, ou não fosse Fincher o mestre dos quebra-cabeças, autor do dito Se7en, de O Jogo ou de Clube de Combate.

Desde o momento em que a obra abre que nos apercebemos da importância do visual para o storytelling. Os efeitos especiais são discretos mas cruciais para a recriação da cidade e da época. Aliados à fotografia de Harris Savides e à sua inconfundível paleta de cores, ajudam na criação do imaginário e a impôr Zodiac como um filme predominantemente atmosférico, tocando não raras vezes o noir. Aquele take inicial em que o carro passeia pelo bairro sobre carris, apresentando o bairro em plena noite do 4 de Julho é absolutamente memorável: somos lentamente introduzidos à história, ao palco em que os acontecimentos terão lugar e ao seu contexto histórico-social. E há um time lapse notável, com a edificação da Transamerica Pyramid, marcando a passagem do tempo. Não sendo um filme onde a acção pujante nos faça saltar e vibrar a todo o instante, Zodiac faz-se valer de uma construção do suspense em tudo admirável e irrepreensível, onde cada investida do psicopata (na primeira parte do filme) nos aprisiona e nos deixa numa tensão silenciosa mas crescente. Nos actos seguintes, já sem a acção do assassino, o suspense continua e o filme torna-se, curiosamente, tanto ou mais perturbante e... asfixiante, sobretudo em sequências como a entrevista ao suspeito Arthur Leigh Allen no seu local de trabalho, a rusga ao seu abrigo entregue aos esquilos, a visita de Graysmith à cave do projeccionista ou, simplesmente, a cada telefonema ofegante e tenebroso.

Enquanto filme, Zodiac é uma assombrosa reprodução, datando e localizando constantemente a acção, e, nessa medida, quase um documentário, sobriamente bem filmado. Enquanto filme, também e no entanto, não abre espaço para um maior trabalho de actores e talvez beneficiasse com uma dedada de economia narrativa, que lhe encurtasse o tempo e não o demorasse tanto nos confusos meandros da investigação. Não é, por isso e certamente, um filme para todos nem um filme para todos os dias, mas não tinha que sê-lo. A sua ambição fá-lo um projecto arriscado, complexo e inteiramente singular. Assisti-lo até ao fim resultará numa experiência por demais compensatória - trata-se de um must see obrigatório no género.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A REDE SOCIAL (2010)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Social Network
Realização: David Fincher
Principais Actores: Jesse Eisenberg, Rashida Jones, Justin Timberlake, Brenda Song, Andrew Garfield, Joseph Mazzello, Rooney Mara, Malese Jow, John Getz, Bryan Barter, Patrick Mapel, Calvin Dean, Aria Noelle Curzon, Josh Pence, Steve Sires, Armie Hammer

Crítica:

INVENTANDO O FACEBOOK

Drop the The. Just Facebook. It's cleaner.

O mínimo que poderemos dizer do mais recente percurso de David Fincher é que a sua obra perdeu a ousadia e a irreverência, sem que, no entanto, tenha perdido a consistência. Mais comedido - tanto na forma como no conteúdo (que, em saudosos tempos, tinha o twist como marca principal), o realizador continua o actual e pertinente retrato social, sempre focado na tragédia moral do ser humano.

Em A Rede Social, Fincher experimenta o biopic, mais ou menos fiel à história do criador do Facebook, Mark Zuckerberg. Jesse Eisenberg assume, com inegável competência, o papel de protagonista - ironicamente, um prodigioso e falador nerd de chinelos, completamente assombrado pela alienação e pelo fracasso das suas relações pessoais. O que o motiva - there is a difference between being obsessed and being motivated - é a necessidade de pertença a um grupo de pares que defina o seu lugar no mundo. A sua ambiciosa e viciante ideia - We lived on farms, then we lived in cities, and now we're going to live on the internet! - levá-lo-á da insignificância à notoriedade social, ao sucesso e ao enriquecimento, arrastando consigo uma série de morosos processos judiciais, assentes na inveja, na mentira e na competição desregrada. Genial, a propósito de competição, a memorável sequência da prova de remo, ao som de um arrepiante arranjo de In the Hall of the Mountain King, original de Edvard Grieg.

Tecnicamente, a agilidade da montagem (Kirk Baxter, Angus Wall) alia-se magistralmente à natureza rítmica do argumento (Aaron Sorkin), concretizando uma construção narrativa sólida e permanentemente fluída. Apesar de ser um grande filme, duvido seriamente que A Rede Social se imponha como um clássico. É mais um filme centrado numa personagem - e numa realidade concreta e datável - do que um ensaio sobre o Homem condenado à solidão e à ausência de afectos, no auge das tecnologias de comunicação.

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Originalmente publicada na edição 27 da Revista Take.

sábado, 14 de maio de 2011

O ESTRANHO CASO DE BENJAMIN BUTTON (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Curious Case of Benjamin Button
Realização: David Fincher
Principais Actores: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Elias Koteas, Elle Fanning, Tilda Swinton, Taraji P. Henson

Crítica:

O TEMPO REDESCOBERTO

My name is Benjamin Button,
and I was born under unusual circumstances.


O Estranho Caso de Benjamin Button é, creio, tudo aquilo a que se propôs: uma obra de excepcional rigor e profundo sentido estético, com uma sublime e inspirada realização de David Fincher. Um filme em tudo muito bem conseguido: na iluminação, no guarda-roupa, nos cenários e decoração, na caracterização, no som, na banda sonora, nos efeitos especiais. O argumento de Eric Roth está muito bem escrito; não ambiciona, no entanto, muito mais do que aquilo que é, a um ritmo muito peculiar: uma fábula bem contada a partir de uma premissa, essa sim, original. É filosoficamente interessante, mas não filosoficamente estimulante; a meu ver a única coisa que faltou para o considerar uma obra-prima da maior excelência.

While everyone else was agin',
I was gettin' younger... all alone.

Mas é, indubitavelmente, um filme muito bem feito, que reúne magníficas interpretações e muitas cenas e pormenores memoráveis (o homem atingido sete vezes por um raio, o simbólico colibri, o atropelamento de Daisy, a dança de Daisy naquele vestido vermelho ou o derradeiro passeio da velha Daisy com o menino rejuvesnescido).

Um clássico instantâneo, absoluto e intemporal que respira subtileza, bom gosto e humanidade.

Your life is defined by its opportunities...
even the ones you miss.

domingo, 2 de janeiro de 2011

CLUBE DE COMBATE (1999)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Fight Club
Realização: David Fincher
Principais Actores: Edward Norton, Brad Pitt, Helena Bonham Carter, Meat Loaf, Zach Grenier, Richmond Arquette, David Andrews, George Maguire, Jared Leto

Crítica:


O GRITO DA REVOLUÇÃO

If you died right now,
how would you feel about your life?


Que se fodam, a primeira e a segunda regras do Clube de Combate. Há filmes que, apesar da sua natureza puramente artística, são capazes de mudar mentalidades, radicalmente. Abre-se a polémica e a vertigem, provenientes da mais assustadora consciência social... Profundamente electrizante e irreverente, desconcertante e provocadora, esta incendiária obra-prima de David Fincher não é senão o seu mais genial e original mind game. O escárnio da vergonha do ser humano, acomodado numa sociedade consumista, escravizado pelo lobby capitalista, perdido numa existência hipócrita, vazia e sem sentido... a verdade escarrapachada na cara do espectador - apetece-me dizer na fronha do espectador -, com a maior frontalidade, com a mais rasgada ironia. Poucos retratos sociais poderão soar mais autênticos. Se, ao assistir ao filme, sentir o mais revoltante arrepio na espinha a estremecer-lhe a pele, quem sabe se por mais de uma vez, talvez esteja na hora de fazer qualquer coisa pela sua vida. Qualquer coisa mais visceral do que estar sentado a assistir a um filme, por mais genial que seja.

People are always asking me if I know Tyler Durden. A ousadia da obra começa logo, aquando do genérico da abertura. Stealing Fat, The Dust Brothers. David Fincher revela-se mestre na execução dos vcm's, os travellings outrora impossíveis e desde há uns anos possíveis graças às infinitas potencialidades do digital. A câmera move-se que nem um eléctrodo da mente humana, por um atribulado circuito de moléculas e energias, até que a mesma transcende os tecidos cutâneos e, entre gotas de nervos e suores, desliza pelo cano negro de uma arma.

Three minutes. This is it - ground zero.
Would you like to say a few words to mark the occasion?
Tyler Durden

É noite. O protagonista/narrador está petrificado numa cadeira, no cimo de um prédio de iluminação soturna, com uma ameaçadora pistola enfiada na boca. A narrativa inicia-se pelo final. Por isso, tornaremos mais tarde a este momento. Até soar The Pixies, com o simbólico tema Where is My Mind, os avanços e recuos de um dos mais engenhosos argumentos de que há memória (excelente adaptação de Jim Uhls, a partir do romance homónimo de Chuck Palahniuk) suceder-se-ão. O humor negro e corrosivo inicia-se nas visitas aos grupos de auto-ajuda, onde absolutos frustrados como o protagonista sem nome - brilhantemente interpretado por Edward Norton - procuram um qualquer conforto, longe das suas angústias. A personagem vive sozinho num apartamento, trabalha numa influente companhia de seguros e sofre de insónias não só desesperantes como preocupantes. Não dorme há dias. Like so many others, ele tornou-se um escravo do Ikea nesting instinct.

I had it all. Even the glass dishes with tiny bubbles and imperfections, proof they were crafted by the honest, simple, hard-working indigenous peoples of... wherever.
Narrador

Ainda sobre a marca Ikea, um dinâmico e sugestivo catálogo chega a preencher um take da sequência. A crítica ao consumismo faz-se ainda pela nomeação de outras marcas sonantes e sedutoras, que com o tempo ritualizaram e uniformizaram os nossos costumes e os nossos desejos, aprisionando-nos numa repetição de vícios: Starbucks, Calvin Klein, DKNY, Ax, Good Year, Cadillac, etc.

Tyler Durden: We're consumers. We are by-products of a lifestyle obsession. Murder, crime, poverty, these things don't concern me. What concerns me are celebrity magazines, television with 500 channels, some guy's name on my underwear. Rogaine, Viagra, Olestra.
Narrador: Martha Stewart.
Tyler Durden: Fuck Martha Stewart. Martha's polishing the brass on the Titanic. It's all going down, man. So fuck off with your sofa units and Strinne green stripe patterns.

Tudo isto, para chegar a uma conclusão tremendamente lúcida: The things you own end up owning you. Contraditório e revelador é o que Tyler faz após proferir tamanha máxima: acende um cigarro e cede ao vício. Repito: revelador. Aquilo que o aparentemente fortuito encontro com Tyler Durden (uma das melhores personagens da História do Cinema, prodigiosa e inspiradamente interpretada por Brad Pitt) proporcionará à nossa personagem principal não será senão o caminho da iluminação, o murro no estômago - literal inclusivé - que o despertará para uma vida de prazer e de realização pessoal, alienada das castrantes organizações do sistema. Procurar a emoção, o choro e a catarse nos grupos de entre-ajuda, sejam eles de tuberculose, de doenças renais ou do cancro da pele, não poderá ser a solução, sobretudo quando não há qualquer resquício de doença física, a não ser as terríveis olheiras que reflectem as doenças da alma.

Every evening I died,
and every evening I was born again, resurrected.

Narrador

A terapia não pode passar pelo fingimento, claramente. É numa dessas cada vez mais comuns sessões, seguidas que nem seitas religiosas pelos angustiados, que o narrador conhece Marla Singer (assombroso, o underacting de Helena Bonham Carter), aquele cadáver pálido e magricela, chaminé ambulante, que devora cigarros uns atrás dos outros sem jamais os terminar e que encara de forma perfeitamente natural as suas recorrentes visitas ao grupo de cancro nos testículos.

This chick Marla Singer did not have testicular cancer. She was a liar. She had no diseases at all. I had seen her at Free and Clear, my blood parasite group Thursdays. Then at Hope, my bi-monthly sickle cell circle. And again at Seize the Day, my tuberculous Friday night. Marla... the big tourist. Her lie reflected my lie. Suddenly, I felt nothing. I couldn't cry, so once again I couldn't sleep.
Narrador

Sem qualquer réstea de esperança e completamente consumida pela neurose, Marla limita-se a aguardar pela morte; note-se a forma despreocupada e fantasmagórica com que atravessa a estrada, fazendo com que os carros travem e apitem, repetidamente.

Marla's philosophy of life is that she might die at any moment.
The tragedy, she said, was that she didn't.
Narrador

Desolado, as insónias intensificam-se. Nem o conforto das grandes mamas de Bob, companheiro de sessões, lhe trariam mais conforto. Desta feita e das poucas e fugazes vezes em que adormece, a personagem de Norton começa a sonhar com o colapso de um avião, que cederia ao infortúnio numa das muitas viagens profissionais que marcam a sua agenda. É precisamente num avião que encontra, pela primeira vez, o fashion e sorridente Tyler Durden (elegantes, os figurinos de Michael Kaplan) que, por coincidência ou não, tem uma mala igual à sua: Tyler, you are by far the most interesting single-serving friend I've ever met... see I have this thing: everything on a plane is single-serving...


I make and sell soap (...) the yardstick of civilization. (...) Did you know that if you mix equal parts of gasoline and frozen orange juice concentrate you can make napalm? (...) One could make all kinds of explosives, using simple household items. (...) Now a question of etiquette -anuncia, levantando-se - as I pass, do I give you the ass or the crotch...?
Tyler Durden

Respondendo à questão, diria que o rabo ou a braguilha varia consoante os nossos interesses, ou consoante as presenças. Note-se como Tyler vira o rabo ao parceiro de conversa e, logo de seguida, dá a braguilha à hospedeira de bordo. Não dispersando, foquemo-nos no importante: o sabão. Nunca lhe passaria pela cabeça, à personagem de Norton, que o sabão lhe rebentasse um dia com o apartamento, acabando definitivamente com a sua illusion of safety. E a explosão da fracção - How embarrassing... a house full of condiments and no food -, distinta e autenticamente recriada pelos efeitos digitais, em mais um notável travelling virtual, assume-se como um verdadeiro momento de viragem na percurso pessoal do narrador, sinédoque do homem comum. Sem nada possuir e sem nada mais que o possua, está pronto para recomeçar. A amizade com Tyler pode mesmo suscitar o recomeço que sempre quis; a não ser que, inesperadamente, o novo trilho faça um desvio alucinante. Quando se reencontra com Tyler, eterno terrorista da indústria alimentar, no mítico Lou's Tavern, e o confronta com a notícia do trágico incidente, a primeira coisa que ouve da sábia boca do fabricante de sabão é, descontraidamente: It could be worse. A woman could cut off your penis while you're sleeping and toss it out the window of a moving car. À saída do pub, dá-se a primeira luta e, depois dela, a vida do nosso protagonista nunca mais seria a mesma.

Warning: If you are reading this then this warning is for you. Every word you read of this useless fine print is another second off your life. Don't you have other things to do? Is your life so empty that you honestly can't think of a better way to spend these moments? Or are you so impressed with authority that you give respect and credence to all that claim it? Do you read everything you're supposed to read? Do you think every thing you're supposed to think? Buy what you're told to want? Get out of your apartment. Meet a member of the opposite sex. Stop the excessive shopping and masturbation. Quit your job. Start a fight. Prove you're alive. If you don't claim your humanity you will become a statistic. You have been warned.
Tyler Durden

Muito se tem especulado sobre a violência e sobre o seu significado num filme como Clube de Combate. E como a verdadeira essência da história, ao que parece, não foi descoberta por todos, a especulação terá continuidade. Será violência gratuita, a que a obra de Fincher promove? Incitará e inspirará o filme à desordem, à anarquia e ao caos? Longe de ser uma resposta politicamente correcta, é claro que Clube de Combate jamais o faria. A ironia impera e na misinterpretation residirá a problemática da influência, no que à incitação à violência diz respeito; num factor externo, portanto. Há arte e arte, mas a arte de Clube de Combate é a da sensibilização do espírito. É essa é a mudança de mentalidade que o filme sugere e encoraja.

Welcome to Fight Club. The first rule of Fight Club is: you do not talk about Fight Club. The second rule of Fight Club is: you DO NOT talk about Fight Club! Third rule of Fight Club: if someone yells "stop!", goes limp, or taps out, the fight is over. Fourth rule: only two guys to a fight. Fifth rule: one fight at a time, fellas. Sixth rule: the fights are bare knuckle. No shirt, no shoes, no weapons. Seventh rule: fights will go on as long as they have to. And the eighth and final rule: if this is your first time at Fight Club, you have to fight.
Tyler Durden

A violência em Clube de Combate é, claramente, um recurso de estilo. Uma metáfora da luta interior necessária para ser diferente e genuíno numa sociedade de padrões, de modelos standardizados. A luta para sermos nós próprios, com os nossos sonhos de futuro. O Clube de Combate é todo um processo de desintoxicação e de regresso às origens, ao essencial. Tyler Durden é a voz de uma consciência superior, que tenta despertar-nos da nossa inércia. Só de olhos abertos e bem conscientes poderemos ter hipóteses, um dia, de sermos realmente felizes.

You're not your job. You're not how much money you have in the bank. You're not the car you drive. You're not the contents of your wallet. You're not your fucking khakis. You're the all-singing, all-dancing crap of the world.
Tyler Durden

Nem Deus escapa à feroz crítica existencial do revolucionário:

Our fathers were our models for God. If our fathers bailed, what does that tell you about God? (...) Listen to me! You have to consider the possibility that God does not like you. He never wanted you. In all probability, he hates you. (...) We don't need him!
Tyler Durden

As lutas de ambos começam a atrair outros tantos malogrados e, rapidamente, o Clube é fundado. Até Bob chega a trocar os grupos de auto-ajuda pelas lutas do submundo. É como se pela violência se expiassem a agonia e o desespero do dia-a-dia; fenómeno, aliás, sobejamente estudado pela Sociologia. A violência atrai multidões, assim como as disputas masculinas por meio das quais se destilam hormonas reprimidas.

You are not special. You are not a beautiful or unique snowflake. You're the same decaying organic matter as everything else.
Tyler Durden

Quando o narrador vai viver para a mansão abandonada, juntamente com Tyler, aprenderá o que é viver longe - bem longe - do conforto. A arrojada direcção artística (Alex McDowell, Chris Gorak e Jay Hart), aliás, tem um papel fundamental na concepção daquele cenário decadente, sujo e podre. E, se ainda dúvidas houvesse, o trabalho de iluminação mostra-se determinante na criação daquela atmosfera tensa, misteriosa e imprevisível. A fotografia de Jeff Cronenweth assume-se verdadeiramente espantosa e versátil, enfantizando toda a linguagem visual da mise-en-scène. Quando Marla entra de novo em cena e se cruza no destino de Tyler, tomara ao nosso protagonista que a casa se abafasse em surdina. A gritaria insuportável da fornicação selvagem estremecerá todas as paredes e tectos. A cena de sexo, que tão distorcidamente povoa o imaginário onírico do narrador, chega-nos de forma erótica e surreal, embelezada pelas cadências da montagem (extraordinários, a destreza e o talento de James Haygood).

Às tantas, a organização do Clube de Combate sofre significativas modificações. A ideologia ganha novos e perturbadores contornos e a vertigem adensa-se:

Man, I see in fight club the strongest and smartest men who've ever lived. I see all this potential, and I see squandering. God damn it, an entire generation pumping gas, waiting tables; slaves with white collars. Advertising has us chasing cars and clothes, working jobs we hate so we can buy shit we don't need. We're the middle children of history, man. No purpose or place. We have no Great War. No Great Depression. Our Great War's a spiritual war... our Great Depression is our lives. We've all been raised on television to believe that one day we'd all be millionaires, and movie gods, and rock stars. But we won't. And we're slowly learning that fact. And we're very, very pissed off.
Tyler Durden

O sorriso de Tyler dá lugar a um riso doentio. Os membros do Clube levam homework: a nova missão é recrutar novos membros. Tyler pensa formar um exército. O Clube de Combate dará lugar ao Projecto-Destruição. Como? Start a fight. Norton chega-se a espancar a si próprio em frente ao patrão, numa cena memorável. A metáfora da violência conhece, pois, um volte-face: o perigo de uma ideologia levada ao extremo, quando a manipulação e a lavagem cerebral transcendem as liberdades individuais e põem em causa a ordem; quaisquer analogias histórico-políticas não serão, certamente, meras coincidências. Lembro, a propósito, a explosão da loja de informática, o vandalismo dos automóveis da via pública ou o incêndio daquele enorme prédio, com aquele esverdeado smile como assinatura, e a que a televisão reporta. Ou, por exemplo, o assalto à loja de conveniência, propriedade do jovem de olhos em bico, o qual Tyler ameaça matar se não se tornar, em seis semanas, o veterinário que sempre sonhou ser e do qual se despede, com a maior graça: run, Forrest, run! Assim nascem os monstros. A violência surge-nos então associada ao crime e o crime surge-nos como responsabilidade da própria sociedade.

Quando o carro em que viajam Tyler, o narrador e outros dois membros do Clube se despista - e que na traseira ostenta um autocolante dizendo recycle your animals, quem sabe se por abastecimento insuficiente das gorduras das habituais clínicas de cirurgia estética - o nosso protagonista finalmente - e após tanto tempo - dorme e descansa. E, quando acorda, Tyler desapareceu. Desapareceu sem deixar rasto. Está tudo muito confuso na mente do narrador e as peças do puzzle não encaixam. Corre mundo, em busca de respostas, mas o cenário mostra-se ambíguo e inconclusivo. Deja vu - all over again. As dúvidas assumem a acção: Tyler parece nunca ter existido. Terá executado a fuga perfeita, nas vésperas de pôr em prática o Projecto-Destruição, que acabará com todo o sistema de cartões de crédito, extinguindo a dívida e propiciando o começo de um novo sistema social? Ou terá sido uma alucinação, provocada pela acumulação de insónias? Sofrerá, talvez, do síndrome de personalidade múltipla? Ou terá simplesmente enlouquecido, tendo nós, espectadores, sido manipulados pela sua exímia retórica?

It's called a changeover.
The movie goes on, and nobody in the audience has any idea.
Narrador

O narrador telefona imediatamente a Marla, perguntando-lhe se alguma vez fizeram sexo:

You fuck me, then snub me. You love me, you hate me. You show me your sensitive side, then you turn into a total asshole! Is that a pretty accurate description of our relationship, Tyler?

Eis a resposta. Marla sabe demasiado. Por isso, Tyler pretende exterminá-la, mas o nosso alucinado protagonista fará de tudo para salvá-la, a ela e a todos quantos puder, impedindo o sucesso do projecto secreto, já em marcha. O tempo urge; contudo, não passará a única salvação pelo próprio suicídio do protagonista? O final eleva a complexidade do argumento ao rubro, pisando mais do que nunca os domínios da metaficção (afinal, é pouco verosímil que o narrador não faleça perante o disparo da bala. Trate-se, o narrador, de uma criação ficcional consciente da sua ficcionalidade). Clube de Combate assume-se, pois, como a expressão máxima do chamado mindfuck movie e o confronto final acaba por acontecer nas nossas cabeças. Assistir a Tyler - Tyler? - e Marla, de mãos dadas, no cimo daquele prédio de iluminação soturna, enquanto as explosões se sucedem lá fora, é qualquer coisa de arrebatador.

You met me at a very strange time in my life.

Um final esperançoso naquele que é, definitivamente, um filme incontornável na História do Cinema.

...Where is your mind?

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No final dos finais, como se já não bastasse de irreverência e de provocação, aparece-nos uma daquelas imagens-flash que muitos poderão ignorar, mas que está efectivamente lá. Surge-nos, como que entre-cortado por acaso e durante fracções de segundo... um volumoso... pénis. A nice big cock... É o cúmulo do atrevimento, não? :D

domingo, 29 de agosto de 2010

SETE PECADOS MORTAIS (1995)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Se7en
Realização: David Fincher

Principais Actores: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, John C. McGinley, Richard Roundtree, Kevin Spacey

Crítica:

GULA.
LUXÚRIA. GANÂNCIA.
PREGUIÇA. VAIDADE. INVEJA. IRA.

Long is the way, and hard,
that out of
hell leads up to light.

Sete Pecados Mortais
é, todo ele, um filme sobre a cidade, a cidade como inferno, e sobre a apatia que dela emana e que afecta, de forma corrosiva e silenciosa, as sociedades modernas ocidentais. E depois, é claro, sobre uma das consequências dessa apatia levada ao extremo: a psicopatia de
um John Doe, que se sente inspirado por Deus e que faz dos crimes calculados a sua obra-prima, como se por meio deles purificasse a humanidade e inspirasse o mundo.

Não é por acaso, note-se, que a maior banda sonora do filme é a banda sonora das cidades: um ruído ensurdecedor que invade cada cena, criando uma atmosfera tensa, agonizante e inevitavelmente poluída. A fotografia vive de um trabalho de iluminação portentoso, que se vê realçado pelo ambiente nocturno, negro e sombrio do meio urbano. As próprias personagens não se sentem bem na cidade, perdem-se na sua violência e infelicidade, caos e indefinição e procuram um escape, uma fuga possível. O detective William Somerset (Morgan Freeman, numa interpretação impecável), anseia por retirar-se do activo, procurando uma paz fora da cidade. Diz ele:
I just don't think I can continue to live in a place that embraces and nurtures apathy as if it was virtue. (...) it's easier to lose yourself in drugs than it is to cope with life. It's easier to steal what you want than it is to earn it. It's easier to beat a child than it is to raise it. Hell, love costs: it takes effort and work.

Quando entra num táxi, aliás, e lhe é perguntado para onde vai, rapidamente responde: far away from here. E quando Tracy Mills (Gwyneth Paltrow),
também ela desgostosa com a mudança para a cidade, lhe pergunta how long have you lived here?, naquele amontoado de prédios e de almas perdidas, a resposta é imediata: too long. Quando à noite se deita, para finalmente descansar, põe o metrónomo no seu tic-tac, como se fosse possível marcar o ritmo da confusão. Como se fosse possível converter o tumulto infindável numa apaziguante ária de Bach. A desordem está, todavia, instalada.

John Doe marca, afinal, o novo crime: metódico e estudado, paciente e implacável. Os seus crimes são sermões e a sua resolução policial ganha contornos de quebra-cabeças.

We see a deadly sin on every street corner, in every home, and we tolerate it. We tolerate it because it's common, it's trivial. We tolerate it morning, noon, and night. Well, not anymore. I'm setting the example.
John Doe

E o crime baterá à porta de David Mills (Brad Pitt), inesperado, cruel e devastador, como poderá bater às portas de qualquer um de nós. E é esse factor que é tão assustador. Porque nos é, cada vez mais, tão próximo.

O argumento é subtil e detém passagens verdadeiramente memoráveis. Os desempenhos revelam genuína solidez, em especial o de Kevin Spacey como John Doe, que é perturbador e perfeitamente conseguido. Magnificamente realizado por David Fincher, o filme é um exercício de grande equilíbrio, subtileza e contenção. O final, então, é soberbo. Profundo. Magistral.

Sete Pecados Mortais é, pois, um marco incontornável do cinema policial, onde o suspense... ascende a um estado puramente sublime.

Ernest Hemingway once wrote: the world is a fine place and worth fighting for. I agree with the second part.
William Somerset


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões