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sexta-feira, 3 de junho de 2011

GALLIPOLI (1981)

PONTUAÇÃO: BOM

Título Original: Gallipoli
Realização: Peter Weir
Principais Actores: Mel Gibson, Mark Lee, Bill Kerr, Robert Grubb, Tim McKenzie, David Argue, Harold Baigent, Bill Hunter, Peter Ford, Ian Govett, John Morris, Les Dayman

Crítica:

A IRMANDADE AUSTRALIANA

Archy Hamilton: I'll see you when I see you.
Frank Dunne: Yeah. Not if I see you first.

Deslumbrante, o trabalho de fotografia de Russell Boyd, aliado à graciosidade e ao inspirado movimento da câmera de Weir. Nem sempre regular mas sempre altamente patriótico, contudo, o filme ostenta algumas passagens banalizadas pelo excesso de humor, prejudicando o drama e tratando a seriedade da guerra com alguma leviandade jovial e aventuresca (que caracterizava a inocência e coragem inconsciente daqueles australianos, entendi, mas creio-a aqui por demais romanceada). Nota máxima para os virtuosos trechos musicais que acompanham a obra - sobretudo esse magistral adágio de Albinoni - e classificação não diria mínima mas estranha e duvidosa à aplicação do Oxigénio de Jarre a algumas das sequências. O saldo é francamente positivo, mas longe das suas reais potencialidades.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

MASTER AND COMMANDER - O LADO LONGÍNQUO DO MUNDO (2003)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Master and Commander - The Far Side of the World
Realização: Peter Weir
Principais Actores: Russell Crowe, Paul Bettany, James D`Arcy, Edward Woodall, Chris Larkin, Max Pirkis, Jack Randall, Tony Dolan, David Threlfall, Billy Boyd

Crítica:

CAPITÃO DE MAR E GUERRA

I had no idea that a study of nature
could advance the art of naval warefare.

1805. Ao largo da costa norte do Brasil, navega a H. M. S. Surprise. A bordo, 28 armas, 197 almas. O vento sopra sobre a aparente acalmia do oceano. Da escuridão do convés ao nevoeiro que encobre as cordas e as gáveas dos mastros, uma tripulação sempre suada mas atenta. Dormem os canhões e a artilharia, ondula a bandeira, hasteada pela pátria. Do balaústre da popa ao tombadilho, lançam-se os prumos sobre o horizonte, misterioso, até à proa. O diário dá conta de mais um dia de Nosso Senhor. Toca o sino. O cacarejar de uma galinha interrompe um silêncio duradouro. Ressoa a madeira do navio, em ruídos vários. She's not old; she's in her prime. Ao serviço da Marinha Real Britânica, a tripulada embarcação tem uma missão: perseguir e interceptar a poderosa fragata Acheron que, às ordens de Napoleão, expande a guerra e os seus interesses aos sete mares.

No comando, o amado Capitão Jack Aubrey, que nem por uma só vez conheceu a derrota, até à data. Captain's not called Lucky Jack for no reason. Apesar da sua longa experiência, jamais se deixou corromper pelo poder ou pela autoridade. É um homem ponderado e bem humorado, que sustém as suas decisões entre a razão e o bom senso. Daí, certamente, o respeito e a admiração que a vasta tripulação tanto tem para com ele. Liderar quase duas centenas de homens num espaço tão limitado e apertado como o Surprise, durante meses a fio e em alto mar, é, afinal, uma tarefa que, cumprida com tão considerável êxito, não pode ser empreendida por qualquer um.

Capt. Jack Aubrey: Do you see those two weevils doctor? (...) Which would you choose?
(...)
Dr. Stephen Maturin: I would choose the right hand weevil; it has... significant advantage in both length and breadth. (...)
Capt. Jack Aubrey: There, I have you! You're completely dished! Do you not know that in the service... one must always choose the lesser of two weevils.


É um mundo de homens, este de Master and Commander. Mulheres a bordo, aliás, seriam sempre interpretadas como um mau augúrio. Imagine-se, pois, a pressão e a tensão que não seria viver cada dia longe da mulher e das amantes. Ao largo da costa brasileira, o olhar que Aubrey lança à estrangeira, aquando das trocas comerciais, é por demais revelador. Um olhar carregado de desejo, de desejo e de lembrança da sua amada Sophie, à qual endereça as cartas que escreve. Um mundo de homens e de crendices. O diabo surgia-lhes frequentemente, nas mais variadas formas. Fosse o canto de uma baleia ou a ira de uma vaga imponente, a religião e a imaginação fundiam-se no passar dos dias e das noites. Servir o país num fantasma flutuante que apenas despertava para o fervor da refrega e para a luta desleal contra a revolta da natureza era... uma vida dura. HOLD FAST, lembram as tatuagens nos dedos do velho e supersticioso Joe Plaice.

Quando se quebra o mastro, no clamor da tempestade, e se tem que decidir a morte de alguém em prol da armada, quando se sofre as feridas do corpo e da alma... a sombra do suicídio, o espectro da morte ali, sempre presente. O medo. Recorrendo às mais engenhosas artimanhas, qual phasmidae na empresa final, Aubrey e os seus homens enfrentam a adversidade, vezes sem conta, tentando virar o vento a seu favor. Entre a rotina e o imprevisível, a interminável espera de oficiais e marinheiros, sempre embriagados ou ressacados. Ao fim e ao cabo, a dimensão humana sobressai da tragédia e do tédio daqueles seres, que navegam no Inferno. For England, for home, and for the prize!

England is under threat of invasion, and though we be on the far side of the world, this ship is our home. This ship, is England. So it's every hand to his rope or gun, quick's the word and sharp's the action. After all... surprise is on our side.

A cada vez que o queijo tostado sai do forno, os arcos descem sobre as cordas. Aubrey, com o seu violino, e o cirurgião Stephen Maturin, com o seu violoncelo. Boccherini, La Musica Notturna delle Strade di Madrid. Nº 6, Op. 30. Há muito que são amigos e camaradas, num equilíbrio raramente perturbado. Maturin é um pacifista, um estudioso da ciência e um curioso da natureza. Crowe já nos deu performances mais expressivas, é evidente, mas ainda assim não compromete a solidez de todo o elenco. Paul Bettany, por exemplo, tem uma das melhores interpretações da sua carreira.

The deaths in actual battle are the easiest to bear. For my own part, those who die under my knife, or from some subsequent infection, I have to remind myself that it was the enemy that killed them, not me.
Dr. Stephen Maturin

A proximidade das Galápagos, das Ilhas Encantadas, possibilita uma curta e atribulada expedição e investigação às suas mais variadas e nunca dantes identificadas formas de vida. Entre iguanas e escaravelhos, uma paisagem tão fértil quanto estéril, de extremos. Bach, prelúdio da Suite Nº 1 em Sol Maior para violoncelo. Os primórdios da evolucionismo, a décadas de Darwin. Aubrey garante ao médico uma estadia mais prolongada no arquipélago, mas as voltas e reviravoltas da intriga adiam, uma e outra vez, a promessa.

Capt. Jack Aubrey: Well, Stephen... the bird's flightless?
Dr. Stephen Maturin: Yes.
Capt. Jack Aubrey: It's not going anywhere.

Deste modo, Master and Commander - O Lado Longínquo do Mundo une e adapta - magistralmente - dois dos mais incontornáveis títulos da saga marítima de Patrick O'Brian. O espírito dos livros - digo-o com conhecimento e com entusiasmo - está todo no filme, desde a autêntica e fascinante viagem no tempo ao mais incrível cheiro de maresia. Por um lado, cabe o mérito à direcção artística (William Sandell, Robert Gould, Wendy Stites) que, com tremendo perfeccionismo e ínfimo detalhe, se encarregou do retrato e da reconstituição histórica, seja ela nos cenários, no figurino ou no acabamento e brilho dos instrumentos. Em seguida, à equipa que tão minuciosamente tratou o som e os efeitos sonoros (Richard King, Paul Massey, Doug Hemphill e Art Rochester), elementos que nos transportam em absoluto para a experiência do alto mar. Depois, ao absorvente esplendor da fotografia de Russell Boyd: um trabalho verdadeiramente deslumbrante e irrepreensível, no qual há frames que chegam a parecer quadros pintados a óleo. A banda sonora é tão erudita quanto sublime: para além das orquestrações acima mencionadas, as virtuosas composições de Arcangelo Corelli, Ralph Vaughan Williams e de Mozart, e as originais de Iva Davies, Christopher Gordon e de Richard Tognetti. Os efeitos digitais, por fim, aplicados subtil e discretamente à narrativa, revelam uma sofisticação notável. Master and Commander emana, por tudo isto, um realismo atroz, de contornos épicos, aliado a um requinte estético raramente alcançado.

Peter Weir concretiza, com mestria e serenidade, um clássico instantâneo. Certamente, uma das melhores sagas marítimas de todos os tempos, jamais filmadas.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

TRUMAN SHOW - A VIDA EM DIRECTO, THE (1998)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: The Truman Show
Realização
: Peter Weir

Principais Actores: Jim Carrey, Laura Linney, Ed Harris, Noah Emmerich, Natascha McElhone, Philip Baker Hall, Paul Giamatti, Peter Krause

Crítica:

O CÉU É O LIMITE


The whole world is watching.

A profecia de The Truman Show cumpriu-se. O inimaginável, a não ser nos contornos da ficção, aconteceu. E aconteceu tão rapidamente... Nessa medida, o irresistível e original conceito do argumento de Andrew Niccol (Gattaca) foi revolucionário, uma vez que possibilitou uma das maiores e mais profundas alterações na forma de fazer e ver televisão. Aconteceu tão rapidamente que nem se reflectiu o suficiente para medir os limites e as implicações éticas de tamanha experiência. A ideia era nova e havia todo um novo e sedutor terreno por pisar. E isso é que interessava. How's it going to end?

A realidade acabou por justificar a ambição de Christof (brilhante Ed Harris). À luz dos factos, compreendemos a sua aventura empreendedora, apesar de questionarmos com a devida legitimidade o seu direito de simular Deus. Participámos do fenómeno, com mais ou menos consciência, com mais ou menos envolvência, assim como aqueles milhões de espectadores, ao longo de trinta anos, seguiram as emissões diárias de The Truman Show, 24 sobre 24 horas. É importante que se diga: as proporções de um Big Brother ou de todo e qualquer um dos seus variantes nunca tomou as proporções bíblicas de The Truman Show, felizmente. Não obstante, é importante comparar os dois fenómenos. E não é cair no mero facilitismo de explicação e falar menos de cinema ou do filme em questão. É, porventura, a melhor forma para entender a dimensão, o impacto e as repercussões filosóficas da Reality TV, que nasceu ficcionalmente com esta obra e que depois dela existiu realmente.

We've become bored with watching actors give us phony emotions. We are tired of pyrotechnics and special effects. While the world he inhabits is, in some respects, counterfeit, there's nothing fake about Truman himself. No scripts, no cue cards. It isn't always Shakespeare, but it's genuine. It's a life.

Cada vez mais, as pessoas vivem no interior do seu casulo, na sua individualidade. Têm vizinhos, mas não os conhecem. A comunicação essencial à nossa existência faz-se, de forma crescente, pelos media. E, talvez por isso, a imediatez do consumo televisivo tem sede de identificação. Identificação entre o telespectador e os seus pares dentro da caixa mágica que mudou o mundo. Essa identificação, por sua vez, tem outra intensidade se assistirmos à vida real. Nesse caso, a comunicação é mais verdadeira e as nossas emoções são vividas à flôr da pele. Somos levados a crer que conhecemos aquelas pessoas. Assistimos a toda a sua vida, partilhamos todos os seus instantes, na nossa própria casa. Para não falar da janela aberta para o voyeurismo. Eis o que explica o sucesso tremendo dos reality shows.

Ter consciência que se é concorrente de um programa deste género, todavia, é a principal diferença que se estabelece com Truman Burbank. Truman não sabe que é a estrela de uma ambiciosa experiência televisiva, não sabe que toda a sua realidade é simulada e ficcionada. Vive uma ilusão, por imposição. Sem liberdade de escolha e sem qualquer hipótese para qualquer liberdade para além das pré-determinadas pela produção do programa. Diz-se, muitas vezes, cada um sabe de si e Deus sabe de todos. Independetemente de crermos ou não em Deus, compreendemos a ideia. A expressão é simples e acaba por resumir toda a liberdade existencial de um indivíduo, de cada ser humano. Ora, nós sabemo-lo: Truman jamais poderá proferir tamanha afirmação... Toda a gente sabe dele. Porque toda a gente que veja o programa vê pelos olhos do Criador, de Deus. Não há privacidade para Truman. Há apenas a emoção e a satisfação de brincar a uma experiência de Pavlov, esperando para ver como o nosso cãozinho vai reagir aos estímulos. Truman é um cão.

Contudo, esta experiência meio-capitalista (note-se a máquina publicitária frequentemente accionada pela performance de Laura Linney) meio-behaviorista tem, é claro, os seus limites. Truman é um cão com inteligência. You never had a camera in my head! É certo que se limita a aceitar a realidade do mundo em que vive sem a pôr em causa, mas a curiosidade é o principal impulsionador para a descoberta da verdade e, por isso, haverá um dia em que a mentira começará a ruir. Neste caso, o céu é, literalmente, o limite. E atingi-lo é por demais simbólico e carregado de significado.

Jim Carrey tem uma prestação sublime, que lhe redefiniu a carreira. De resto, fotografia e banda sonora aliam-se magistralmente com a subtil e inspirada realização de Peter Weir. O resultado é um filme muito, muito interessante, capaz de suscitar as mais pertinentes questões sobre a existência humana.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões