É um mundo de homens, este de
Master and Commander. Mulheres a bordo, aliás, seriam sempre interpretadas como um mau augúrio. Imagine-se, pois, a pressão e a tensão que não seria viver cada dia longe da mulher e das amantes. Ao largo da costa brasileira, o olhar que Aubrey lança à estrangeira, aquando das trocas comerciais, é por demais revelador. Um olhar carregado de desejo, de desejo e de lembrança da sua amada Sophie, à qual endereça as cartas que escreve. Um mundo de homens e de crendices. O diabo surgia-lhes frequentemente, nas mais variadas formas. Fosse o canto de uma baleia ou a ira de uma vaga imponente, a religião e a imaginação fundiam-se no passar dos dias e das noites. Servir o país num fantasma flutuante que apenas despertava para o fervor da refrega e para a luta desleal contra a revolta da natureza era... uma vida dura. HOLD FAST, lembram as tatuagens nos dedos do velho e supersticioso Joe Plaice.
Quando se quebra o mastro, no clamor da tempestade, e se tem que decidir a morte de alguém em prol da armada, quando se sofre as feridas do corpo e da alma... a sombra do suicídio, o espectro da morte ali, sempre presente. O medo. Recorrendo às mais engenhosas artimanhas, qual
phasmidae na empresa final, Aubrey e os seus homens enfrentam a adversidade, vezes sem conta, tentando virar o vento a seu favor. Entre a rotina e o imprevisível, a interminável espera de oficiais e marinheiros, sempre embriagados ou ressacados. Ao fim e ao cabo, a dimensão humana sobressai da tragédia e do tédio daqueles seres, que navegam no Inferno.
For England, for home, and for the prize!
England is under threat of invasion, and though we be on the far side of the world, this ship is our home. This ship, is England. So it's every hand to his rope or gun, quick's the word and sharp's the action. After all... surprise is on our side.
A cada vez que o queijo tostado sai do forno, os arcos descem sobre as cordas. Aubrey, com o seu violino, e o cirurgião Stephen Maturin, com o seu violoncelo. Boccherini,
La Musica Notturna delle Strade di Madrid. Nº 6, Op. 30. Há muito que são amigos e camaradas, num equilíbrio raramente perturbado. Maturin é um pacifista, um estudioso da ciência e um curioso da natureza. Crowe já nos deu
performances mais expressivas, é evidente, mas ainda assim não compromete a solidez de todo o elenco. Paul Bettany, por exemplo, tem uma das melhores interpretações da sua carreira.
The deaths in actual battle are the easiest to bear. For my own part, those who die under my knife, or from some subsequent infection, I have to remind myself that it was the enemy that killed them, not me.
Dr. Stephen Maturin
A proximidade das Galápagos, das
Ilhas Encantadas, possibilita uma curta e atribulada expedição e investigação às suas mais variadas e nunca dantes identificadas formas de vida. Entre iguanas e escaravelhos, uma paisagem tão fértil quanto estéril, de extremos. Bach, prelúdio da
Suite Nº 1 em Sol Maior para violoncelo. Os primórdios da evolucionismo, a décadas de Darwin. Aubrey garante ao médico uma estadia mais prolongada no arquipélago, mas as voltas e reviravoltas da intriga adiam, uma e outra vez, a promessa.
Deste modo,
Master and Commander - O Lado Longínquo do Mundo une e adapta - magistralmente - dois dos mais incontornáveis títulos da saga marítima de Patrick O'Brian. O espírito dos livros - digo-o com conhecimento e com entusiasmo - está todo no filme, desde a autêntica e fascinante viagem no tempo ao mais incrível cheiro de maresia. Por um lado, cabe o mérito à direcção artística (William Sandell, Robert Gould, Wendy Stites) que, com tremendo perfeccionismo e ínfimo detalhe, se encarregou do retrato e da reconstituição histórica, seja ela nos cenários, no figurino ou no acabamento e brilho dos instrumentos. Em seguida, à equipa que tão minuciosamente tratou o som e os efeitos sonoros (Richard King, Paul Massey, Doug Hemphill e Art Rochester), elementos que nos transportam em absoluto para a experiência do alto mar. Depois, ao absorvente esplendor da fotografia de Russell Boyd: um trabalho verdadeiramente deslumbrante e irrepreensível, no qual há
frames que chegam a parecer quadros pintados a óleo. A banda sonora é tão erudita quanto sublime: para além das orquestrações acima mencionadas, as virtuosas composições de Arcangelo Corelli, Ralph Vaughan Williams e de Mozart, e as originais de Iva Davies, Christopher Gordon e de Richard Tognetti. Os efeitos digitais, por fim, aplicados subtil e discretamente à narrativa, revelam uma sofisticação notável.
Master and Commander emana, por tudo isto, um realismo atroz, de contornos épicos, aliado a um requinte estético raramente alcançado.
Peter Weir concretiza, com mestria e serenidade, um clássico instantâneo. Certamente, uma das melhores sagas marítimas de todos os tempos, jamais filmadas.