quinta-feira, 9 de setembro de 2010

LAWRENCE DA ARÁBIA de David Lean, segundo Rato

Agradecimento Especial:
Rato, O Rato Cinéfilo

Se há filmes aos quais se associa a impossibilidade de serem feitos de novo hoje em dia, Lawrence da Arábia é certamente um dos melhores exemplos. O próprio Steven Spielberg que, como se sabe, tem o céu como limite, reconhece que, mesmo com toda a moderna tecnologia, seriam precisos mais de 250 milhões de dólares para produzir algo semelhante. E de qualquer modo não valeria a pena pois nunca teria a grandeza do original, que ele mesmo considera o melhor filme jamais realizado.

Classificado em 5º lugar na tabela do American Film Institute dos melhores 100 filmes de sempre, este épico incomparável é fruto da persistência e teimosia de David Lean, inglês nascido em Surrey no dia 25 de Março de 1908 (viria a falecer em Londres, a 16 de Abril de 1991), e que começou por trabalhar na montagem de filmes, durante toda a década de trinta. Depois, e a partir de 1942, realizou 16 longas metragens, destacando-se Brief Encounter / Breve Encontro (1946), Oliver Twist (1948), The Bridge on the River Kwai / A Ponte do Rio Kwai (1957), Doctor Zhivago / Doutor Jivago (1965), Ryan's Daughter / A Filha de Ryan (1970) e A Passage to India / Passagem Para a India (1984). Mas Lawrence of Arabia, que dirigiu aos 54 anos, permanecerá sem dúvida como a sua coroa de glória. Omar Sharif, um dos emblemáticos actores do filme, interroga-se ainda hoje como foi possível conseguir realizar-se tal empreendimento: «imagino-me no papel do produtor do filme e vir alguém dizer-me que queria investir uma data de dinheiro num projecto de cerca de quatro horas, sem estrelas, sem mulheres e nehuma história de amor, sem grande acção também e inteiramente passado no deserto, por entre árabes e camelos... Com certeza que levava uma corrida!». Mas felizmente tal não aconteceu com David Lean, por culpa talvez dos 7 Oscars que o seu último filme também recebera.

Lawrence da Arábia é um filme que, pelo menos uma vez, deveria ser visto no grande écran, numa sala escura. Só assim se poderá usufruir de toda a grandiosidade do filme. Hoje considero-me um felizardo por ter vivido esse momento único no início da década de 70, quando da reposição do filme em todo o mundo. Apesar de já então se encontrar amputado em cerca de meia hora. Mas mesmo assim, assistir ao vivo, no esplendor dos 70 mm de uma grande sala de cinema (hoje em dia uma impossibilidade estabelecida) foi sem dúvida uma excitante e inesquecível experiência. É que Lawrence da Arábia não é apenas um filme biográfico ou de aventuras, muito embora contenha esses elementos. Acima de tudo, é um filme que usa o deserto como palco de emoções, cativando os espectadores a ponto destes se entregarem totalmente ao puro prazer sensorial de ver e sentir o impacto do vento ou do sol abrasador nas dunas. E isto é algo que não se pode descrever por palavras, tal como não se pode explicar o amor que por vezes sentimos por uma pessoa em especial; porque neste caso é o deserto essa outra pessoa, o objecto da nossa paixão.

Acrescente-se agora a memorável música de Maurice Jarre e temos essa paixão elevada aos píncaros do sublime e do êxtase. É esta a razão pela qual as pessoas não se lembram do filme por elementos narrativos; recordam antes uma série de momentos visuais, cuja magia perdura na memória do filme: o apagar de um fósforo a originar o nascer do sol no deserto; a aproximação de uma silhueta no horizonte, como se de uma miragem se tratasse; a travessia do deserto de Nefud; o espectacular ataque a Akaba; o descarrilamento do comboio; a entrada de Lawrence no bar dos oficiais..., e a sequência mais bela - o resgate de Gasim por Lawrence - aqui tudo se conjuga na perfeição. Oberve-se a importância capital da música: começa titubeante, indecisa, a ilustrar a dúvida de Farraj sobre a veracidade da silhueta que mal se distingue ao longe (será ou não uma miragem mais?). Depois, e à medida que a dúvida se transforma em certeza, a música vai crescendo também, até acompanhar o galope desenfreado das duas montadas e os gritos de alegria dos dois homens na iminência do reencontro. É por cenas destas, sem qualquer diálogo, puramente cinemática, que se reconhece a genialidade dos grandes artistas. E David Lean foi sem dúvida um dos maiores.

Uma referência final a Peter O'Toole, que tem aqui um início fulgurante de carreira, com um papel à medida de toda uma vida. Este Irlandês nascido em County Galway (a 2 de Agosto de 1932) mas educado em Leeds, Inglaterra, teve na década de 60 os seus anos de glória no cinema, depois de doze anos passados nos palcos de teatros, nos quais se iniciou com apenas 17 anos; frequentou a Royal Academy of Dramatic Arts, onde teve por colegas Alan Bates, Richard Harris ou Albert Finney. Filmes como Becket (1964), Lord Jim (1965), What's New, Pussycat / Que há de Novo, Gatinha? (1965), How To Steel a Million / Como Roubar Um Milhão (1966), Night of the Generals / A Noite dos Generais (1969), The Lion in Winter / O Leão no Inverno (1969), Goodbye Mr. Chips / Adeus Mr. Chips (1969) ou ainda Man of La Mancha / O Homem da Mancha (1972), ficarão para sempre associados às magníficas interpretações de O'Toole, que conseguia estar à vontade em qualquer tipo de papel. Nomeado 7 vezes para o Oscar, nunca conseguiu levar para a casa a almejada estatueta, apesar de ser considerado um dos melhores actores da sua geração. Nos Globos de Ouro a sorte sorriu-lhe mais: ganhou aquele prémio por três vezes (nos filmes Becket, The Lion in Winter e Goodbye Mr. Chips), num total de oito nomeações. Na déada de 70 problemas de alcool quase que lhe arruinaram de vez a carreira e a própria vida. Conseguiu sobreviver, apesar dos múltiplos tratamentos a que foi submetido lhe terem acabado para sempre com a beleza da juventude, tão bem captada naqueles filmes.

TRÓIA de Wolfgang Petersen, segundo Rui Francisco Pereira

Agradecimento Especial:
Rui Francisco Pereira, Cinemajb

Aquele que poderia ter sido um épico inesquecível, falha redondamente na realização e no argumento. Falha no seu núcleo, falha na sua génese. E esta falha contamina todo o filme, como se de um vírus se tratasse, arruinando-o por completo. Wolfgang Petersen mostra falta de visão e óbvia incompetência atrás das câmaras, recorrendo e incorrendo em erros como o uso abusivo e descabido de zoom-in e slow-motion, planos absolutamente banais e até total falta de orientação nas batalhas.

O argumento de David Benioff iguala o nível de miserabilidade, começando por deturpar e manipular a história original, adaptando-a a um formato mais fácil e pseudo-dramático, com diálogos banais e pouco fluídos. A cereja no topo do bolo é mesmo o ridículo visual de Aquilles. Interpretado por um grande actor como Brad Pitt e... transformado num ídolo das adolescentes. Cabelos oleosos e puxados para trás, pele bronzeada, músculos definidos, peito sem pêlos... E com isto, Tróia perde definitivamente toda a sua credibilidade.

Brad Pitt, com tudo isto, cai no ridículo e traz-nos uma das piores interpretações da sua carreira. Quanto ao restante elenco, é, quase todo, igualmente aniquilado pela dupla Petersen-Benioff. Salvam-se Eric Bana, Brian Cox e Sean Bean.Os restantes valores de produção são, como seria de esperar para o orçamento em questão, de luxo.

Era com a Versão de Realizador que Wolfgang Petersen tinha a oportunidade para provar que o desastre não tinha sido culpa sua. Mas o que Petersen alcançou nesta sua segunda oportunidade foi o que se esperaria de um tarefeiro: um filme ligeiramente melhor. Os trinta minutos que Petersen adiciona a esta nova versão, não têm importância suficiente que justifique a sua inclusão. O filme em si ganha alguma riqueza, sem dúvida, mas a Wolfgang Petersen falta mesmo contenção. Note-se, por exemplo, a adição e maior explicitação das cenas de nudez e de cariz sexual. Mas haveria mesmo necessidade? Foi este o motivo do insucesso do filme? A não aparição dos seios de Diane Kruger? Por favor…

Tróia é, muito lamentavelmente e em qualquer versão, um falhanço.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

KAGEMUSHA - A SOMBRA DO GUERREIRO (1980)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Kagemusha
Realização
: Akira Kurosawa

Principais Actores: Tatsuya Nakadai, Tsutomu Yamazaki, Kenichi Hagiwara, Jinpachi Nezu, Hideji Otaki, Daisuke Ryu, Masayuki Yui, Kaori Momoi, Mitsuko Baisho, Hideo Murota, Takayuki Shiho, Koji Shimizu, Noburo Shimizu, Sen Yamamoto, Shuhei Sugimori, Kota Yui, Yasuhito Yamanaka, Kumeko Otowa

Crítica:

A SOMBRA E O ARCO-ÍRIS

Poucos foram os cineastas que, até hoje, se revelaram magistrais pintores da tela mágica. Akira Kurosawa foi, porventura, um dos melhores. Autor de portentosos clássicos a preto e branco como Rashômon - Às Portas do Inferno ou Os Sete Samurais, o mestre japonês criaria toda uma nova e impressionante linguagem visual baseada na poética conjugação de luzes e cores: Kagemusha - A Sombra do Guerreiro é, muito provavelmente, um dos mais deslumbrantes exemplos dessa audaz visão artística. Do fulgor das bandeiras e estandartes ao suor das cavalgadas e tiroteios, das épicas marchas sobre a terra às sangrentas cargas sobre os homens, da paisagem natural à dimensão onírica dos sonhos... as cenas de Kagemusha assumem-se como autênticas aguarelas vivas, imersas em tons vermelhos e amarelos, verdes ou azuis. É a arte de criar o belo na recriação de universos extraordinários, ricos em detalhe e visualmente arrebatadores.

Kagemusha - A Sombra do Guerreiro conta a história do clã Takeda, uma das mais afamadas e poderosas famílias do Japão do século XVI. O seu líder é Shingen, conhecido por ser veloz como o vento, silencioso como a floresta, feroz como o fogo e inalterável como a montanha, a quem é apresentado um sósia que lhe poderia ser muito útil em tempos futuros. Na verdade, esse kagemusha (= sósia) não é senão um ladrão condenado à cruz, que vê na proposta uma oportunidade de ouro para escapar à morte. Quando Shingen é ferido mortalmente em combate, o sósia é levado a substituí-lo, enganando grande parte do clã e, sobretudo, o inimigo. A ilusão sustentará, portanto, a guerra.

A farsa, enquanto resistir, atribuirá ao filme um registo fortemente irónico que, por sua vez, lhe conferirá também um humor inesperado e bem-vindo. Ao mesmo tempo que é glorificada a imagem do samurai e há uma representação ambiciosa das estratégias bélicas, das armaduras e artefactos que vestiam e equipavam aquelas gentes e dos cenários que reclamam a autenticidade da reconstituição histórica, esboça-se sobre essa ironia a tragédia do ser humano, pois há - sempre subjacente - uma crítica à ambígua natureza do Homem: muitas são as vezes em que preferimos a mentira à verdade para manter a aparência e os nossos interesses e, às tantas, acreditamos mais na mentira e preferimo-la sobre qualquer verdade. Ao fim e ao cabo, o filme dá conta dessa relativa facilidade com que o ser humano transforma a mentira numa verdade e como esta aparente aleatoriedade define o nosso sistema de crenças.

Marcando o contraponto com toda esta escala grandiosa e massiva, o filme assume também um cunho intimista e profundamente emocional. À tragédia do clã (metáfora e sinédoque da tragédia da espécie) sobrepõe-se por vezes a tragédia pessoal do kagemusha, brilhantemente interpretada por Tatsuya Nakadai e acentuada pela transfiguração facial que a maquilhagem possibilita. Afinal, ele terá que prescindir da sua própria identidade e tornar-se num convincente actor. A problemática filosófica instala-se: um sósia só significa algo quando há um original. Quando o original desaparece, o que acontece ao sósia? Kurosawa explora as potencialidades dramáticas do argumento por meio de uma siderada direcção de actores e de uma inspirada e determinada encenação.

Destaques especiais para a fotografia de Takao Saitô e de Shôji Ueda, que se coadunou harmoniosamente com a visão do mestre (em muito, graças à adaptação dos storyboards) e para a banda sonora de Shinichirô Ikebe, ao serviço das mais variadas exigências dramatúrgicas. Excusado será mencionar a excelência do design e o raro aprumo na concretização da direcção artística, do figurino aos décors. Há cenas absolutamente memoráveis: tanto aquelas em que silhuetas escurecidas se imortalizam sobre fumos e fundos vermelhos, como aquelas em que o entardecer luminoso ofusca as hostes da refrega, como aquele arco-íris que se esboça sobre o horizonte da praia, como aqueles cavalos moribundos que, na derradeira agonia, falecem sob a cadência poética.

Akira Kurosawa assina, aqui, uma arte que conflui perfeitamente a herança clássica da forma oriental de contar histórias com uma inovadora explosão de criatividade pictórica. Kagemusha - A Sombra do Guerreiro é, em si mesma, uma obra que irradia inspiração e que viria a exercer uma sombra imensa sobre o futuro do cinema. Quando muito não seja sobre a magnífica obra que se seguiria na filmografia do realizador: Ran - Os Senhores da Guerra.

O SENHOR DOS ANÉIS (2001, 2002, 2003)


PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★
Título Original: The Lord of the Rings
Realização: Peter Jackson

Principais Actores: Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, Andy Serkis, Bernard Hill, Orlando Bloom, John Rhys-Davies, Miranda Otto, Billy Boyd, Dominic Monaghan, Hugo Weaving, Liv Tyler, Karl Urban, Cate Blanchett, David Wenham, Christopher Lee, Brad Dourif, Andy Serkis


A ODISSEIA DAS ODISSEIAS


Even the smallest person can change the course of the future.

O melhor filme de sempre? Para mim, sem dúvida, um dos melhores. Poucos se poderão comparar, jamais, a O Senhor dos Anéis; seja em originalidade, seja em grandeza, seja em genialidade, seja em excelência.

Um dos mais ambiciosos - senão o mais ambicioso - projecto da indústria do cinema, a adaptação dos livros de J. R. R. Tolkien à grande tela mágica, foi concebido pela mestria e pela ousadia de um quase desconhecido: Peter Jackson.

Depois da obra-prima, consumada em três partes do éter, o mundo da sétima arte nunca mais seria o mesmo...


A IRMANDADE DO ANEL (2001)
Título Original: The Fellowship of The Ring

The world is changed. I feel it in the water. I feel it in the earth. I smell it in the air. Much that once was is lost, for none now live who remember it.

A demanda pelo Anel começava. Um espírito verdadeiramente contagiante, embebido de esperança... sequeoso de triunfo... se alastrava. As escolhas... foram as certas. Um elenco perfeito, uma perfeita equipa técnica... e um filme perfeito.

Um mundo recriado num argumento imenso. Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson. Que ganhou vida numa visão arrebatadoramente mágica, imersa em sentidos, tão rica em personagens, paisagens, detalhes. Esse argumento, essas palavras... criaram uma verdade, uma autêntica existência: a Terra Média. Tão fantástica. Tão real.

O início é arte pura. A mais pura arte que é possível conceber.

A fotografia de Andrew Lesnie revelar-se-ia uma das principais essências do sonho, de enquadramentos arrojados e uma paleta de cores impressionante, aliada aos revolucionários efeitos digitais, que tornaram real o impossível. Assim como os cenários e o guarda-roupa. A banda sonora de Howard Shore, rio do imaginário, condutor de emoções, omnipresente e ao serviço das mais variadas necessidades dramatúrgicas, sempre épica. Brilhante trabalho de montagem, a cargo de John Gilbert. Todas as categorias revelam uma invulgar e superior excelência. É delas que se alimentou a beleza e pureza de um Shire inesquecível, as perseguições dos Nazgul até e para além de Bree ou a magia de Rivendell.

Elijah Wood, Viggo Mortensen, Liv Tyler, a voz e presença de Cate Blanchett. Ian Holm, Sean Astin, o humor de John Rhys-Davies, Billy Boyd, Dominic Monaghan. O assombro de Christopher Lee, a mestria da representação no eterno Gandalf de Ian McKellen. Tantos são os nomes a referir. Acima de tudo, o génio inventivo de Tolkien, o génio inventivo de Peter Jackson e a dedicação inspirada da sua irmandade.

Fantástico e Sedutor. Absolutamente apaixonante.



AS DUAS TORRES (2002)
Título Original: The Two Towers

Sam: How could the world go back to the way it was when so much bad had happened? But in the end, it's only a passing thing, this shadow. Even darkness must pass. A new day will come. And when the sun shines it will shine out the clearer. Those were the stories that stayed with you. That meant something, even if you were too small to understand why. But I think, Mr. Frodo, I do understand. I know now. Folk in those stories had lots of chances of turning back, only they didn't. They kept going. Because they were holding on to something.

Frodo: What are we holding onto, Sam?

Sam: That there's some good in this world, Mr. Frodo... and it's worth fighting for.

O meio é arte pura. A mais pura arte que é possível conceber.

Mais humana, esta segunda parte ganha proporções épicas surpreendentes. A banda sonora evolui, os cenários e decoração superam-se ao mais alto nível. A fotografia mantém-se essencial para a transmissão do belo. A montagem, agora nas mãos de Michael Horton e de Jabez Olssen, flui perfeita entre a irreverência da câmara de Jackson e as várias linhas narrativas que há por segurar e alimentar. Bernard Hill está soberbo, assim como Brad Dourif. Miranda Otto surge-nos esbeltamente como Eowyn.

Os efeitos especiais, mais do que nunca, fazem história. Surge Gollum, que capta não só os movimentos e expressões como a emoção transmitida pela magnífica interpretação de Andy Serkis. E que personagem, surge aos nossos olhos. Que feito.

A batalha do Abismo do Elmo é acção pura, de um fascinante delírio visual. A poesia do Barba de Árvore, de uma simplicidade encantadora, é o oposto exacto aos tempos hostis impostos por Mordor. Cenas como a de Gandalf a descer pela colina abaixo, impelido pela força do amanhecer, nas imediações da fortaleza de Rohan, são absolutamente memoráveis. O mesmo a dizer da cena final da fraqueza de Frodo, na cidade em ruínas de Osgiliath, ou dos mergulhos de Gollum no Lago Proibido.

Tocante e Avassalador.



O REGRESSO DO REI (2003)
Título Original: The Return of The King

I'm glad to be with you, (...) here at the end of all things.

For Frodo!
Pippin: I didn't think it would end this way.
Gandalf
: End? No, the journey doesn't end here. Death is just another path... One that we all must take. The grey rain-curtain of this world rolls back, and all turns to silver glass... And then you see it.
Pippin
: What? Gandalf?... See what?
Gandalf
: White shores... and beyond, a far green country under a swift sunrise...

E a demanda chega ao fim. O fascínio que nos fazia vibrar e chorar com as aventuras de Frodo e dos seus toma agora proporções nunca dantes alcançadas ou imaginadas. O Regresso do Rei é o tudo por tudo. A narrativa, a banda sonora e as personagens, a dado ponto, transfiguram-se... e elevam-se da perfeição... às estrelas.

Mais do que nunca, todas as categorias - sem excepção - estão sublimes. Fotografia, caracterização, montagem de Jamie Selkirk, cenários e decoração e efeitos especiais (Que Minas Tirith! Que batalha em culminar de Guerra nos Pelennor! Que Mordor em chamas!) e guarda-roupa e som! Elijah Wood, soberbo. Grande Viggo Mortensen, Liv Tyler, Ian McKellen! Mas também John Noble, David Wenham e as primorosas superações de Billy Boyd e de Sean Astin.

Grande final, pura arte no seu máximo esplendor. Peter Jackson, um dos melhores realizadores desta geração e Ulisses de uma indústria, conseguiu-o. Conseguiu-o. Quão inspirador se tornaria este filme para tantos que se lhe seguiram.

Eterno.



Depois do Anel, a Terra Média nunca mais seria a mesma. Depois da obra-prima, consumada em três partes do éter, o mundo da sétima arte nunca mais seria o mesmo... Depois d'O Senhor dos Anéis, também o nosso mundo... (e o meu mundo, especialmente...) nunca mais seria o mesmo. Seria impossível que pudesse voltar a sê-lo.

Será sempre mais difícil dissertar com a cabeça do que com o coração, sobre os filmes que, na juventude, nos transformaram nos cinéfilos que somos e que nos fizeram apaixonar pela sétima arte. Voltarei sempre aos filmes, ao filme - tantas vezes a ele já voltei, ao longo dos anos, e o fascínio é sempre o mesmo, não se extingue. Tenho esperança de sobre ele falar melhor, de sobre ele voltar a escrever, de lhe fazer mais justiça, numa análise mais digna. Não sei se algum dia o farei, mas se não o fizer não me angustio. O Senhor dos Anéis mora no meu coração. E o que é meu bem pode ficar comigo.
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Nota especial para as versões alargadas da trilogia, que completam ainda mais o que, já por si, é sublime.

O facto de uma única publicação sustentar, neste caso, a crítica a três filmes, prende-se com o facto de que, para mim, as três partes de O Senhor dos Anéis constituírem uma obra única.

O SENHOR DOS ANÉIS - A Trilogia



Um dos melhores filmes de sempre.
Palavras para quê?

ÁLAMO de John Wayne, segundo Álvaro Martins

Agradecimento Especial:
Álvaro Martins, Preto e Branco

The Alamo é a exaltação da liberdade, da resistência e da república. É a luta contra a tirania. O filme de John Wayne tem tudo para ser (e é-o) um grande épico. Não só na magnificência dos cenários e da sua história, mas essencialmente por tudo o que o Duke herdou de Ford. Acima de tudo, a glorificação do seu (Ford) cinema e o patriotismo. E é este “herdamento” (além das interpretações, da fotografia, das sombras, da forma como filma o céu [novamente Ford], etc.) que faz com que o Duke consiga encontrar o equilíbrio essencial para criar um épico desta natureza. E, seguramente, há poucos como este.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

2º Aniversário do CINEROAD

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2 Anos de Cinema.
Muitas horas de dedicação diária a um espaço que se tornou, efectivamente, de todos.

O pequeno vídeo supra não é senão um pequeno tributo a todos os fãs, visitantes, leitores, comentadores e parceiros e uma homenagem sincera a todo o reconhecimento que têm dado ao blogue, impulsionando-o a continuar - sempre com a maior dedicação - por esta demanda de paixão e entrega à 7ª Arte.

Obrigado a todos!

ROBIN HOOD (2010)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: Robin Hood
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Russell Crowe, Cate Blanchett, Mark Strong, William Hurt, Eileen Atkins, Kevin Durand, Scott Grimes, Max von Sydow, Matthew Macfadyen, Oscar Isaac, Mark Addy, Danny Huston

Crítica:

ATÉ QUE OS CORDEIROS
SE TORNEM LEÕES


Ninguém faz um épico como Ridley Scott. Vibrante, poético, estrondoso, visualmente sofisticado e tecnicamente arrojado, visceral na sua acção, envolvente no seu romance e com uma sincronia meticulosa e singular entre som, imagem e música. Robin Hood é tudo isso. A glorificação de um herói lendário, na hora do seu nascimento, solidificada por elevadíssimos valores de produção, onde as visões clássica e moderna de concretizar o género se aliam vitalmente. Já antes acontecera o mesmo com Gladiador, ou ainda melhor com Reino dos Céus. Ninguém faz, pois, um épico como Ridley Scott.

Brian Helgeland formula as origens do eterno fora-da-lei que rouba aos ricos para dar aos pobres. Se Reino dos Céus nos deixara com a partida de Ricardo para as cruzadas de Jerusalém, Robin Hood principia com o seu retorno, num empreendedor e derradeiro confronto contra Filipe de França. Robin Longstride é um simples mas irreverente arqueiro inglês que, em pleno século XIII, integra as hordes do rei Coração de Leão, aquando da sua morte. Safa-se por um triz de um mortal embaraço a que entretanto se sujeitara e regressa a Inglaterra, como arauto do infortúnio da coroa, sob um disfarce de esperteza e uma identidade falsa e com uma espada que o conduzirá tanto ao seu passado como ao seu futuro. De volta a Nottingham, a sua terra natal, tantos anos depois da partida para a refrega, encontra uma realidade cheia de mulheres e de órfãos, fustigada pela pobreza e pelas terras bravas, envelhecida pelo adeus da esperança e corrompida pelos gananciosos interesses do poder. Que nem o filósofo, seu pai, Robin sonha com a igualdade e com a justiça para todos e entre todos. In England, every man's home is his castle. Se todos fossem reis do seu próprio castelo, que nem Coração de Leão fora, o mundo seria certamente mais justo e igual.

If you're building for the future, you need to keep your foundations strong, laws of the land enslave the people to a king who demands loyalty but offers nothing in return, I've been to the South of France, Palestine and back, you build a kingdom the same way you build a cathedral from the ground up!

Qual é a mensagem de Robin Hood, afinal? Nunca desistir. Rise, and rise again. Until lambs become lions. Uma e outra vez, sempre que a sombra dos poderosos escurecer o caminho da luz, a flecha soltar-se-á e reivindicará a liberdade, a igualdade e a justiça. É este o prenúncio da lenda e o prólogo da história do eterno fora-da-lei que rouba aos ricos para dar aos pobres.

Agora, uma breve sequência de perguntas e respostas que, na simplicidade e clareza com que se apresentam, marcam um legado de uma qualidade inquestionável e irrepreensível. Fotografia? John Mathieson. Montagem? Pietro Scalia. Cenografia? Arthur Max. Restante direcção artística? John Kingm, David Allday, Ray Chan, Karen Wakefield e Sonja Klaus. Guarda-roupa? Janty Yates. Banda sonora? Marc Streitenfeld, magnífico. Excelente som e efeitos sonoros, excepcionais efeitos especiais. O espantoso casting completa o filme: Russell Crowe, Cate Blanchett, Mark Strong, Max von Sydow, William Hurt, Danny Huston.

Concluindo, Robin Hood é um filme majestoso. Só não é um feito extraordinário, verdadeiramente extraordinário, porque a história não dá para mais e porque há, desse modo, lugares comuns absolutamente indesejados e resoluções dramatúrgicas pouco originais. Mas enfim, que não se pense que estes são factores decisivos para arruinar a obra. O filme em si mesmo é um projecto que se arquitectou sólido e suficientemente consistente, com rasgos de uma beleza inebriante.

ROBIN HOOD de Ridley Scott, segundo Tiago Ramos

Agradecimento Especial:
Tiago Ramos, Split Screen

Aquilo que Ridley Scott nos traz, apesar da ideia interessante, não é mais que um épico frouxo e morno, vítima de uma certa falta de ambição em tornar o projecto potencialmente mais aliciante.

Robin Hood poderia ser a prequela bem sucedida de um dos mitos mais conhecidos de sempre. Este Robin dos Bosques, este guerreiro encapuçado que conhecemos, não é ainda o herói dos mais desfavorecidos, que rouba aos ricos para dar aos pobres. Não é ainda o mito que o tornou popular. É apenas um guerreiro, regressado das Cruzadas, ansioso por descobrir as suas origens e com alguns dos tiques de justiceiro. Ridley Scott abandona as ideias em focar o filme em Nottingham e no domínio do seu xerife e volta as suas atenções para o óbvio: a origem de Robin Hood. Por consequência temos um argumento desinteressante em grande parte do tempo e descurando as personagens secundárias, como Ricardo Coração de Leão e outras. Russel Crowe não tem o carisma necessário para interpretar tal personagem, actua em piloto automático grande parte do tempo e nem a forma física abona a seu favor. Por outro lado, temos uma Cate Blanchett a interpretar uma das personagens mais interessantes e melhor compostas do filme: Lady Marion. A que conhecemos aqui é uma mulher corajosa, feminista, autónoma e independente. É ela que segura grande parte do filme e é precisamente quando se foca nesta personagem que o épico atinge novos contornos. Max von Sydow e Mark Strong complementam o elenco com os seus desempenhos competentes. Robin Hood cumpre a sua função. A reconstituição histórica, desde o guarda-roupa, aos cenários, ao som e à fotografia, atinge um grande nível de competência que lhe poderá garantir algumas nomeações (quem sabe prémios), na próxima temporada. Porém, como ponto negativo existem algumas soluções questionáveis como a contextualização história inicial, altamente cliché, evocando a época medieval, bem como o uso dos close-ups e slow-motions.

Robin Hood apenas não é a desgraça que poderíamos pensar, porque cumpre a sua função de blockbuster de entretenimento e que certamente irá agradar às massas. Mas da ideia e de Ridley Scott esperava-se mais. Muito mais.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

GLADIADOR (2000)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Gladiator
Realização: Ridley Scott
Principais Actores: Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi, Djimon Hounsou, David Schofield, John Shrapnel, Tomas Arana, Ralf Moeller, Spencer Treat Clark, David Hemmings, Tommy Flanagan, Sven-Ole Thorsen, Omid Djalili

Crítica:

O LEGIONÁRIO, O ESCRAVO E O HOMEM

What we do in life echoes in eternity...

História, mito e imaginação. Sobre esse baluarte de génio e criação se fortalece, grandiosa e sofisticada, a visionária incursão de Ridley Scott à antiga Roma Imperial. Magistralmente arquitectada, musicalmente dimensionada e inesquecivelmente interpretada, certa será a sua conquista da eternidade... Gladiador é, pois, um feito monumental. Trata-se da arte do belo na sua forma suprema, em toda a sua majestade e elegância. Da primeira à última cena.

Um compêndio de influências:
Spartacus, mas sobretudo o clássico e genial A Queda do Império Romano são pontos de partida. A eloquência do Grande Coliseu relembra a impressionante corrida de quadrigas de Ben-Hur. Escrito a três mãos (David Franzoni, John Logan e William Nicholson), serve-se da inteligência e da maior subtileza para glorificar por meio da palavra a história de um homem que quer voltar a casa e aos seus e ao qual a tragédia ditará uma odisseia de vingança e sobrevivência. I live only to hold them again, for all else is dust and air. Gladiador é, por isso, muito mais do que espectáculo brihante irradiado por coreografias muito bem concebidas.

Da epicidade bélica da província à trama política de Roma, do espectáculo de gladiadores ao banquete de sangue e pão ou dos fôlegos de vida aos interlúdios poéticos da morte,
Russell Crowe lidera, num papel absolutamente memorável, um elenco de prestações viscerais: Richard Harris, Oliver Reed, Djimon Hounsou, Joaquin Phoenix ou Connie Nielsen. A riqueza e exuberância da obra alarga-se a todas as categorias técnicas, sem excepção. A cinematografia de John Mathieson, visualmente arrebatadora e deslumbrante, a cenografia de Arthur Max e Crispian Sallis, de um perfeccionismo e aprumo inexcedíveis (só comprometida, por vezes, pela falta de autenticidade do CGI), ou o guarda-roupa, pelas mãos inspiradas de Janty Yates, são cruciais para a recriação e concepção histórica e artística. A montagem de Pietro Scalia é de uma meticulosidade absoluta, revelando uma cadência rápida e inovadora; ao mesmo tempo que, por um lado, complexifica a compreensão da acção, confere-lhe, por outro, um fascínio absorvente e único. A banda sonora de Lisa Gerrard e Hans Zimmer inscreve a obra na transcendência, deixando a sensação de que ou à terra desceu o condão de Júpiter ou aos Céus ascendeu o esplendor de tão magnífica obra de arte.

De entre o espectáculo que ostenta e da profunda inspiração lírica que emana, uma coisa é certa:
um toque de génio incitou Gladiador à perfeição. Só Deus tem o poder de criar mundos; só Deus e o artista maior. E não é Ridley Scott, sabemos nós, um desses raros e extraordinários artistas? Depois de Braveheart - O Desafio do Guerreiro, de Mel gibson, também a sua triunfal façanha contribuiu de forma decisiva para a ressureição do épico enquanto género, às portas do novo milénio e qual fénix das cinzas, dando-lhe não só um fulgor revigorado como renovado. Cenas que ecoarão célebres no tempos do Amanhã? Muitas. Todas filmadas com sublime confluência estética. There was a dream that was Rome. You could only whisper it. Agora, podemos proferi-lo, convictos, aos sete ventos: o sonho foi... concretizado. Gladiador impõe-se pois, inabalável, como um clássico absoluto.
 


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões