terça-feira, 11 de maio de 2010

CASABLANCA (1942)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Casablanca
Realização: Michael Curtiz
Principais Actores: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains, Paul Henreid, Peter Lorre

Crítica:

AMOR... 
AS TIME GOES BY

Em plena 2ª Guerra Mundial, o Inferno alastra-se a P
aris. Para milhares de pessoas, a fuga afigura-se como a melhor a solução e Casablanca como um ponto crucial na rota da Salvação. Todavia, não só de sorte se faz o destino e, perante o infortúnio, todos os refúgios do mundo se podem transformar numa prisão. É o caso do Rick's Café Américain; oásis de libertação e, simultaneamente, palco de uma trama fascinante, repleta de intriga, mistério e perigo.

Casablanca não tem nem assume nunca um género específico. É romance, é drama, é melodrama, é policial... e conflui magistralmente todos esses registos. Está repleto de frases e diálogos memoráveis e é rico em personagens maravilhosas. O argumento (da autoria dos irmãos Epstein e de Howard Koch), apesar de construído e concluído no decorrer das filmagens, constitui um grande exercício dramatúrgico, brilhante na subtileza e humor com que enaltece certas passagens. O capitão Renault é, porventura, o expoente máximo da ironia e da inteligência com que nos presentearam os argumentistas; a personagem de Claude Rains é, aliás, a minha favorita deste clássico de Michael Curtiz. Depois segue-se o icónico casal romântico Rick e Ilsa, claro. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman estão magníficos nos seus papéis. O primeiro cheio de charme e carisma, a segunda com um brilho nos olhos intenso e comovente.

Casablanca é considerado um dos filmes mais românticos de todos os tempos, mas é pertinente e interessante perceber como o próprio rompe com o cânone e arrisca um final tão pouco romântico. Afinal, o par não acaba junto e feliz para sempre. Há um amor maior, maduro e consciente das suas possibilidades, que escapa ao egoísmo e assume um papel determinante na escolha: é a decisão de Rick que proporciona aquele surpreendente e inesquecível twist final. Há valores que, para serem preservados, merecem sacrifícios; e aí reside a maior moral da obra. O próprio triângulo amoroso entre Rick, Ilsa e Victor é tudo menos desputado. Todos amam, mas todos têm o maior respeito entre si e pelo que cada um sente. Vêem-se vértices de um injuntiçado triângulo e tentam-se fazer as melhores opções para minimizar as consequências... Outrora, já Ilsa tomara uma opção difícil, tentando o melhor para Rick e para o marido. Victor sabe do amor entre a mulher e o proprietário do café, mas é incapaz de forçar o destino. E Rick, talvez mais do que todos os outros, demonstra a nobreza e a integridade do seu carácter. You have to think for both of us. For all of us.

Play it once, Sam. For old time's sake. A banda sonora de Max Steiner é fabulosa e o que o compositor faz com temas já existentes como As Time Goes By ou La Marseillaise é extraordinário. Aquela cena em que o hino francês da Lirbeté, Igualité et Fraternité abafa o regozijo alemão é simplesmente arrepiante. As próprias variações de certos temas ajustam-se na perfeição ao evoluir das cenas. A direcção artística acompanha a competência e excelência da produção; produção essa, diga-se, cheia de voltas e reviravoltas, que resultou triunfante por uma série de felizes acasos e por uma realização segura e arrojada.

Enfim... ontem, hoje e amanhã... Casablanca é universal. Uma grande lição de amor, verdadeiro amor, que, para sempre, inspirará gerações. Porque há valores eternos.

Louis, I think this is the beginning
of a beautiful friendship.

sábado, 8 de maio de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (5)

Rui Francisco Pereira, autor do blogue » Cinemajb «, aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos. O Rui aproveitou para justificar as suas escolhas:

Quentin Tarantino
"O" Realizador. Se tivesse de definir os meus
gostos cinematográficos numa palavra, essa seria Tarantino.
Steven Spielberg
Capaz de criar obras-primas em qualquer domínio.
Quando a genialidade se alia à versatilidade, o resultado é um
qualquer filme de Spielberg.
Ridley Scott
Injustamente subvalorizado, mas constantemente a criar
deliciosas obras. Actualmente, o Rei do género épico.
David Fincher
A verdade nua e crua, eis a máxima dos filmes de
Fincher. Por vezes, é feia e fenomenal (Seven- 7 Pecados Mortais).
Noutras, é linda e fenomenal (O Estranho Caso de Benjamin Button).
Michael Mann
Ninguém filma a noite e a cidade como este senhor.
Perfecionista ao máximo e capaz de encontrar e transmitir a mais pura
beleza nos mais simples pormenores.
Peter Jackson
Em três anos, marcou para sempre a 7.ª Arte. De uma
visão e uma dedicação sobre-humanas.
M. Night Shyamalan
O talento no seu estado mais puro. Um mestre do
suspense e capaz de manipular emoções como poucos.
Martin Scorsese
Quanto a mim, capaz do melhor e do pior. Mas o seu
melhor é demasiado bom. Símbolo da experiência e da coragem.
Francis Ford Coppola
Classicista como já não há, e incapaz de ser
definido. Não se prende a estilos, rotinas e convenções. Tão místico
quanto os seus filmes.
Woody Allen
Capta a essência humana como ninguém, retratando esta
tragédia cómica a que alguns dão o nome de vida com uma mestria
extrema.

Um muito obrigado, Rui Francisco Pereira!

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: Sleepy Hollow
Realização: Tim Burton

Principais Actores: Johnny Depp, Christina Ricci, Michael Gambon, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Christopher Lee

Crítica:


CIÊNCIA vs. MISTICISMO


Seeing is believing.


1799: a passagem do milénio aproxima-se. Perpetuada em nevoeiro, enclausurada pelo negrume da floresta e perdida por entre abóbodas flamejantes e fumos amaldiçoados, existe uma pequena vila pastoril, de nome Sleepy Hollow, habitada por uma comunidade quase familiar, de fortes práticas religiosas e de sanguinárias crenças místicas, aterrorizada pelos seus fantasmas e pelos seus segredos. Quando a notícia de uma série de hediondos e misteriosos crimes bate às portas de Nova Iorque, o inventor e mestre da razão Ichabod Crane (Johnny Depp) parte para o interior americano, decidido resolver o caso. Quando chega à povoação, justificam-se os crimes com uma inacreditável lenda: um espírito inquieto e atormentado, um cavaleiro sem cabeça, de negro corsel e negras vestes, com insaciável desejo de vingança. Haverá desmistificação possível para a história do cruel e letal cavaleiro, hábil manejador do gládio da morte? Ou confrontar-se-á Crane, inadvertidamente, com uma dimensão diabólica e sobrenatural, capaz de desafiar a razão e os valores em que tão pia e excentricamente acredita?

Katrina Anne Van Tassel: What do you believe in, Ichabod?
Ichabod Crane: Sense and reason, cause and consequence, an ordered universe...

Com um elenco secundário de uma excelência inegável e dotado dos mais elevados e sofisticados valores de produção, Tim Burton concretiza uma autêntica apoteose visual do barroco, tanto pela direcção artística (irrepreensível nos cenários e decorações, exuberantes e minuciosamente trabalhados - Rick Heinrichs, Peter Young), como pelos faustosos vestuário e acessórios, riquíssimos em detalhe (Colleen Atwood), como pela fotografia e iluminação de Emmanuel Lubezki (um dos mais geniais e impressionantes trabalhos do técnico), como pela assombrosa e absolutamente magnífica banda sonora de Danny Elfman. Enfim, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é um puro primor artístico.

Katrina Anne Van Tassel: I have shed my tears for Brom... and yet my heart is not broken. Do you think me wicked?
Ichabod Crane: No... but perhaps there is a little bit of witch in you, Katrina.
Katrina Anne Van Tassel: Why do you say that?
Ichabod Crane: Because you have bewitched me.

Lamentável, só mesmo o desequilíbrio narrativo na segunda metade do filme, que impossibilita a obra de um todo verdadeiramente sublime.

Enfim... um
operático, fascinante e assustador deleite visual, verdadeiramente contagiante e enérgico, pontuado por momentos de inspirado humor. Um filme arrojadíssimo, de contornos fantásticos e com uma fabulosa interpretação de Johnny Depp.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

10 Breves Perguntas (14)

A iniciativa aproxima-se do fim.
Desta vez... Ricardo Vieira, autor do blogue 35mm, aceitou o convite do CINEROAD para responder a mais um questionário desta 2ª Edição do 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000:
The Fountain
(uma experiência transcendental)
2. A Banda-Sonora da Minha Vida:
Braveheart
(o som tocante da gaita de foles)
3. Um Amor de Infância:
The Lion King (Hakuna Matata)
4. Um Filme de Animação:
The Lion King (o melhor de sempre)
5. Uma Comédia: Ace Ventura: When Nature Calls
(marcou-me especialmente pois conheci Jim Carrey)
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
There Will Be Blood
(não tive paciência para o ver)
7. Tantos detestam. Eu adoro:
Lady in the Water
(foi cruxificado porquê? Senti-me criança ao ver este filme)
8. Um elenco: The Village
(Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, Adrien Brody, William Hurt e Sigourney Weaver. Adorei a interacção deste elenco).
9. A Melhor Fotografia que conheço:

The Lord of the Rings (linda, linda, linda!)
10. Já mudei de ideias sobre este filme:
The Matrix
(Achei demasiado fraco e esquisito. Agora acho um dos melhores filmes de Ficcção científica).

Um muito obrigado, Ricardo Vieira.

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terça-feira, 4 de maio de 2010

Os Meus 10 Filmes Preferidos

O desafio é difícil: escolher aqueles que são Os Meus 10 Filmes Preferidos - aqueles filmes que mais vezes vejo durante o ano e aqueles que mais repetidamente assisti na minha vida, aqueles que me fizeram ver, sentir e pensar aquilo que poucos mais conseguiram.
Na selecção, muitas foram as obras que acabei por excluir, apesar da sua inegável excelência e do meu absoluto amor para com elas.

Mas enfim. Ei-las, de momento, as minhas paixões maiores!, por ordem alfabética:

THELMA & LOUISE (1991)

Um road-movie bem filmado e bem interpretado (Susan Sarandon, Geena Davis), de grande competência técnica e narrativa.

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★

O CASAMENTO DE RACHEL (2008)

Magnífico desempenho de Anne Hathaway,
num filme nada mais do que...

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★

terça-feira, 27 de abril de 2010

A ESQUIVA (2003)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: L'Esquive
Realização: Abdel Kechiche
Principais Actores: Osman Elkharraz, Sara Forestier, Sabrina Ouazani, Nanou Benhamou, Aurélie Ganito, Carole Franck, Hafet Ben-Ahmed

Crítica:

CONVERSAS DE ADOLESCENTES

Abdel Kechiche transporta a steadicam para o interior dos subúrbios parisienses e concretiza, com assaz realismo e autenticidade, o retrato de uma adolescência irascível e conflituosa.

Se, enquanto espectadores adolescentes, nos deixarmos levar pela história, facilmente identificaremos aquelas personagens com algumas outras do nosso próprio núcleo de amigos. Sentiremos a história tão próxima de nós e da nossa realidade quotidiana. Assim sendo, A Esquiva contará a história de Krimo - um jovem de quinze anos, tímido e apaixonado, que integrará a peça de teatro da turma de forma a aproximar-se de Lydia, a loirinha autoritária.

Se, por outro lado, formos espectadores adultos, facilmente reconheceremos a teatralidade de toda a adolescência: uma encenação exagerada do ego, violenta e revoltada, extremamente sensível, temperamental e efervescente. Não nos identificaremos propriamente com as reacções e os sentimentos daquelas personagens, mas identificá-los-emos certamente na nossa experiência passada, quando tínhamos quinze anos e caminhávamos, com as emoções à flôr da pele, pelo centro do mundo.

Contudo, o retrato estende-se ainda a outras leituras. As longas cenas do filme revelam também, por exemplo, uma realidade periférica e multi-cultural, de língua rude e imediatamente substimada pela autoridade. Estará esta geração condenada ao seu meio original? Marivaux argumentava que sim.

Os resultados da encenação são francamente admiráveis e os desempenhos são genuínos. Destaque para a interpretação de Sara Forestier, um desempenho excepcional e surpreendente. O primor estético não é, propriamente, uma das virtudes da obra (creio mesmo que a forma se esgota em si mesma), mas o argumento apresenta uma reflexão pensada sobre a adolescência, interessante e pertinente, e isso é digno de mérito.

domingo, 25 de abril de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (4)

Continua a nossa iniciativa.
Desta vez, eu próprio me desafiei a partilhar convosco o meu leque de realizadores preferidos.
Ei-los:

Darren Aronofsky
Gus Van Sant
Jean-Pierre Jeunet
Martin Scorsese
M. Night Shyamalan
Paul Thomas Anderson
Sergio Leone
Stanley Kubrick
Terrence Malick
Todd Haynes

sábado, 24 de abril de 2010

24 HOUR PARTY PEOPLE (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: 24 Hour Party People
Realização: Michael Winterbottom


Principais Actores: Steve Coogan, Paddy Considine, Keith Allen, Rob Brydon, Enzo Cilenti, Ron Cook, Lennie James, Andy Serkis, Kevin Baker

Crítica:

SEX, DRUGS & ROCK 'N' ROLL

And tonight something equally epoch-making is taking place. See? They're applauding the DJ. Not the music, not the musician, not the creator, but the medium. This is it. The birth of rave culture. The beatification of the beat. The dance age. This is the moment when even the white man starts dancing. Welcome to Manchester.

Quando Dédalo concebeu as asas de cera, bem que avisou o filho para que não se aproximasse demasiado do sol ou as asas derreteriam e a queda seria fatal. A cena de abertura de 24 Hour Party People joga, afinal, com esse mito: Is it a bird? Is it a plane? No... Tony Wilson traça a metáfora com o falhado vôo de asa-delta, rematando: You're going to see a lot more of that sort of thing in the picture. I don't want to say too much, don't want to spoil it. I'll just say one word: 'Icarus'. If you get it, great. If you don't, that's fine too. But you should probably read more. Os créditos avançam e assim começa uma vibrante e alucinada viagem à cena de Manchester, entre os finais dos anos 70 e os inícios dos anos 90, quando bandas como Sex Pistols, Joy Division, New Order ou Happy Mondays fizeram furor e ascenderam da garagem ao estrelado e à idolatria de milhares de fãs. Contudo, tal como as asas de Ícaro, a música é um universo bastante susceptível e volátil. Tão depressa se está no auge como no abismo. A filosofia do mendigo denota assaz sabedoria:

It's my belief that history is a wheel. 'Inconsistency is my very essence' - says the wheel - 'Rise up on my spokes if you like, but don't complain when you are cast back down into the depths. Good times pass away, but then so do the bad. Mutability is our tragedy, but it is also our hope. The worst of times, like the best, are always passing away'.

Tony Wilson (fantástico Steve Coogan) assume o protagonismo e a narração. E é enquanto narrador que se revela mais interessante, pois interrompe a acção para falar directamente ao espectador, para antecipar informação (He will go on tosleep with my wife (...) Later on he will try to kill me) ou para simplesmente mentir e efabular sobre os factos históricos que o filme se esmera por reconstituir: I agree with John Ford: when you have to choose between the truth and the legend, print the legend.

O argumento (Frank Cottrell Boyce) confere ao filme uma energia e vitalidade fundamental para fazer com que o espectador reviva as emoções do rock, sentidas à flor da pele naquela musical explosão de ruptura e provocação, sexo e drogas. O filme é baseado na aparente espontaneidade e liberdade de regras, tal e qual a música que nascia sob tão jovial pulsão. A música é, também ela, um agente essencial para a energia e vitalidade da obra. Afinal, 24 Hour Party People é um filme sobre música mas um filme que é, também ele próprio, música. E aos grupos acima anunciados juntam-se temas dos The Clash, dos The Buzzcocks e um remix do tema que dá nome ao filme, por Jon Carter, numa delirante banda sonora.

Para os fãs deste estilo de música, a virtuosa obra de Michael Winterbottom será um puro deleite, certamente. Para os fãs de cinema, fica um irreverente achado de irreverente confluência estética, que se constrói na fusão da comédia com o drama e do biopic com o documentário, num brainstroming musical ímpar. Excepcionalmente montado e dirigido, com momentos de surpreendente criatividade (a cena dos pombos, a título de exemplo), 24 Hour Party People impõe-se como um alien da pop culture, mas ostenta as qualidades necessárias para alimentar um merecido fenómeno de culto.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões