quarta-feira, 19 de maio de 2010

MILLION DOLLAR BABY - SONHOS VENCIDOS (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Million Dollar Baby
Realização: Clint Eastwood

Principais Actores: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman, Anthony Mackie, Margo Martindale, Brian F O`Byrne

Crítica:

TUDO POR UM SONHO

Em Million Dollar Baby, de Clint Eastwood, o boxe é a metáfora perfeita da vida: it's the magic of fighting battles beyond endurance, beyond cracked ribs, ruptured kidneys and detached retinas. It's the magic of risking everything for a dream that nobody sees but you. Negro, sombrio e tão íntimo, o esboço da condição humana faz-se, essencialmente, por meio da palavra e do sentimento.

O argumento, a cargo de Paul Haggis, flui sereno, inspirado e, no momento certo, assertivo, espelhando, de forma intensa, a tragédia das relações humanas e o poder inesperado e irreversível da fatalidade. As prestações do elenco, preciosamente escolhido, irradiam excelência. Frankie e Scrap, interpretados respectiva e brilhantemente por Eastwood e Freeman, há muito que se retiraram da luta. São uns vencidos da vida, mas cujas feridas do passado estão longe de sarar, definitivamente. O primeiro afunda a solidão na dificuldade do gaélico e na facilidade de, no dia-a-dia, não correr riscos. Não tem família, não tem Deus, não tem esperança. O amor paternal que desenvolverá por Maggie será a sua última oportunidade para a redenção. O segundo parece limpar o ginásio em permanente contemplação, como se na inércia de não comprar, por exemplo, umas meias novas ou na determinação de lavar o chão com uma boa lixívia apaziguasse a dor da memória. A verdade é que, quando intervém, irónico e de bom humor, as suas sentenças revelam-se genuinamente certeiras e memoráveis. Para não falar da sua narração que, omnisciente, concretiza as surpreendentes cadências do argumento. Maggie Fitzgerald (Hilary Swank, num papel de transfiguração e entrega total) vive a sua pobreza em constante poupança para alimentar o sonho, para poder continuar a fazer aquilo que mais prazer lhe dá - o pugilismo - e para, quem sabe um dia, conseguir dar uma vida melhor à família e a si mesma. Nunca desiste e insiste em encontrar força nos momentos de maior fraqueza (que são tantos) para vencer. A luta é o seu destino: I was born two pounds, one-and-a-half ounces. Daddy used to tell me I'd fight my way into this world, and I'd fight my way out. A sua história é, no fim de contas, derradeiramente comovente e inspiradora.

Million Dollar Baby prova, ao mesmo tempo, a importância soberana de, em cinema, contar uma boa história, com boas performances dos actores. Clint Eastwood, realizador, fá-lo de forma magistral, com simplicidade e grande contenção: reduzida banda sonora, subtil trabalho de montagem e grande cuidado na iluminação. Fá-lo, afinal e acima de tudo, com palavra e sentimento.

Clássico absoluto.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O NOVO MUNDO (2005)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The New World
Realização: Terrence Malick
Principais Actores: Colin Farrell, Q`Orianka Kilcher, Christian Bale, Christopher Plummer, Wes Studi, David Thewlis, Ben Chaplin, Jamie Harris, Jonathan Pryce, Noah Taylor

Crítica:

OS ÚLTIMOS DIAS DO PARAÍSO

I will find joy in all I see.

Trata-se de um poema. Dos mais sensíveis. E também dos mais belos. Deslumbrante em cada imagem. Em cada som. Em cada silêncio... O Novo Mundo é espiritualmente magnífico e emocionalmente profundo. Visualisá-lo, constitui uma experiência transcendental e derradeiramente purificante, de grande fôlego romântico e reflexivo.

A invocação de um mundo há muito perdido, pelo choque de culturas
, e a viagem ao que há de mais genuíno em nós, humanos, denunciam-se pela perfeição e subtileza de um nome: Terrence Malick.

A fotografia, de Emmanuel Lubezki, faz jus à sublimidade intrínseca a toda a obra e canta a Natureza
acima de todas as coisas. A banda sonora de James Horner, a contraponto com as notas de Wagner e de Mozart, cria uma sinfonia maior e eleva o poema a um estatuto superior. Excelente recriação histórica, por parte dos cenários e decoração, e guarda-roupa.

O Novo Mundo é uma daquelas raras e inspiradíssimas obras que, sob a graça do génio, possuem uma aura especial e eternizante.
Que obra-prima.

terça-feira, 11 de maio de 2010

CASABLANCA (1942)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Casablanca
Realização: Michael Curtiz
Principais Actores: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains, Paul Henreid, Peter Lorre

Crítica:

AMOR... 
AS TIME GOES BY

Em plena 2ª Guerra Mundial, o Inferno alastra-se a P
aris. Para milhares de pessoas, a fuga afigura-se como a melhor a solução e Casablanca como um ponto crucial na rota da Salvação. Todavia, não só de sorte se faz o destino e, perante o infortúnio, todos os refúgios do mundo se podem transformar numa prisão. É o caso do Rick's Café Américain; oásis de libertação e, simultaneamente, palco de uma trama fascinante, repleta de intriga, mistério e perigo.

Casablanca não tem nem assume nunca um género específico. É romance, é drama, é melodrama, é policial... e conflui magistralmente todos esses registos. Está repleto de frases e diálogos memoráveis e é rico em personagens maravilhosas. O argumento (da autoria dos irmãos Epstein e de Howard Koch), apesar de construído e concluído no decorrer das filmagens, constitui um grande exercício dramatúrgico, brilhante na subtileza e humor com que enaltece certas passagens. O capitão Renault é, porventura, o expoente máximo da ironia e da inteligência com que nos presentearam os argumentistas; a personagem de Claude Rains é, aliás, a minha favorita deste clássico de Michael Curtiz. Depois segue-se o icónico casal romântico Rick e Ilsa, claro. Humphrey Bogart e Ingrid Bergman estão magníficos nos seus papéis. O primeiro cheio de charme e carisma, a segunda com um brilho nos olhos intenso e comovente.

Casablanca é considerado um dos filmes mais românticos de todos os tempos, mas é pertinente e interessante perceber como o próprio rompe com o cânone e arrisca um final tão pouco romântico. Afinal, o par não acaba junto e feliz para sempre. Há um amor maior, maduro e consciente das suas possibilidades, que escapa ao egoísmo e assume um papel determinante na escolha: é a decisão de Rick que proporciona aquele surpreendente e inesquecível twist final. Há valores que, para serem preservados, merecem sacrifícios; e aí reside a maior moral da obra. O próprio triângulo amoroso entre Rick, Ilsa e Victor é tudo menos desputado. Todos amam, mas todos têm o maior respeito entre si e pelo que cada um sente. Vêem-se vértices de um injuntiçado triângulo e tentam-se fazer as melhores opções para minimizar as consequências... Outrora, já Ilsa tomara uma opção difícil, tentando o melhor para Rick e para o marido. Victor sabe do amor entre a mulher e o proprietário do café, mas é incapaz de forçar o destino. E Rick, talvez mais do que todos os outros, demonstra a nobreza e a integridade do seu carácter. You have to think for both of us. For all of us.

Play it once, Sam. For old time's sake. A banda sonora de Max Steiner é fabulosa e o que o compositor faz com temas já existentes como As Time Goes By ou La Marseillaise é extraordinário. Aquela cena em que o hino francês da Lirbeté, Igualité et Fraternité abafa o regozijo alemão é simplesmente arrepiante. As próprias variações de certos temas ajustam-se na perfeição ao evoluir das cenas. A direcção artística acompanha a competência e excelência da produção; produção essa, diga-se, cheia de voltas e reviravoltas, que resultou triunfante por uma série de felizes acasos e por uma realização segura e arrojada.

Enfim... ontem, hoje e amanhã... Casablanca é universal. Uma grande lição de amor, verdadeiro amor, que, para sempre, inspirará gerações. Porque há valores eternos.

Louis, I think this is the beginning
of a beautiful friendship.

sábado, 8 de maio de 2010

Os Meus 10 Realizadores de Eleição (5)

Rui Francisco Pereira, autor do blogue » Cinemajb «, aceitou o convite do CINEROAD - A Estrada do Cinema para partilhar connosco o seu leque de realizadores preferidos. O Rui aproveitou para justificar as suas escolhas:

Quentin Tarantino
"O" Realizador. Se tivesse de definir os meus
gostos cinematográficos numa palavra, essa seria Tarantino.
Steven Spielberg
Capaz de criar obras-primas em qualquer domínio.
Quando a genialidade se alia à versatilidade, o resultado é um
qualquer filme de Spielberg.
Ridley Scott
Injustamente subvalorizado, mas constantemente a criar
deliciosas obras. Actualmente, o Rei do género épico.
David Fincher
A verdade nua e crua, eis a máxima dos filmes de
Fincher. Por vezes, é feia e fenomenal (Seven- 7 Pecados Mortais).
Noutras, é linda e fenomenal (O Estranho Caso de Benjamin Button).
Michael Mann
Ninguém filma a noite e a cidade como este senhor.
Perfecionista ao máximo e capaz de encontrar e transmitir a mais pura
beleza nos mais simples pormenores.
Peter Jackson
Em três anos, marcou para sempre a 7.ª Arte. De uma
visão e uma dedicação sobre-humanas.
M. Night Shyamalan
O talento no seu estado mais puro. Um mestre do
suspense e capaz de manipular emoções como poucos.
Martin Scorsese
Quanto a mim, capaz do melhor e do pior. Mas o seu
melhor é demasiado bom. Símbolo da experiência e da coragem.
Francis Ford Coppola
Classicista como já não há, e incapaz de ser
definido. Não se prende a estilos, rotinas e convenções. Tão místico
quanto os seus filmes.
Woody Allen
Capta a essência humana como ninguém, retratando esta
tragédia cómica a que alguns dão o nome de vida com uma mestria
extrema.

Um muito obrigado, Rui Francisco Pereira!

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Sleepy Hollow
Realização: Tim Burton

Principais Actores: Johnny Depp, Christina Ricci, Michael Gambon, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Christopher Lee

Crítica:


CIÊNCIA vs. MISTICISMO


Seeing is believing.


1799: a passagem do milénio aproxima-se. Perpetuada em nevoeiro, enclausurada pelo negrume da floresta e perdida por entre abóbodas flamejantes e fumos amaldiçoados, existe uma pequena vila pastoril, de nome Sleepy Hollow, habitada por uma comunidade quase familiar, de fortes práticas religiosas e de sanguinárias crenças místicas, aterrorizada pelos seus fantasmas e pelos seus segredos. Quando a notícia de uma série de hediondos e misteriosos crimes bate às portas de Nova Iorque, o inventor e mestre da razão Ichabod Crane (Johnny Depp) parte para o interior americano, decidido resolver o caso. Quando chega à povoação, justificam-se os crimes com uma inacreditável lenda: um espírito inquieto e atormentado, um cavaleiro sem cabeça, de negro corsel e negras vestes, com insaciável desejo de vingança. Haverá desmistificação possível para a história do cruel e letal cavaleiro, hábil manejador do gládio da morte? Ou confrontar-se-á Crane, inadvertidamente, com uma dimensão diabólica e sobrenatural, capaz de desafiar a razão e os valores em que tão pia e excentricamente acredita?

Katrina Anne Van Tassel: What do you believe in, Ichabod?
Ichabod Crane: Sense and reason, cause and consequence, an ordered universe...

Com um elenco secundário de uma excelência inegável e dotado dos mais elevados e sofisticados valores de produção, Tim Burton concretiza uma autêntica apoteose visual do barroco, tanto pela direcção artística (irrepreensível nos cenários e decorações, exuberantes e minuciosamente trabalhados - Rick Heinrichs, Peter Young), como pelos faustosos vestuário e acessórios, riquíssimos em detalhe (Colleen Atwood), como pela fotografia e iluminação de Emmanuel Lubezki (um dos mais geniais e impressionantes trabalhos do técnico), como pela assombrosa e absolutamente magnífica banda sonora de Danny Elfman. Enfim, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é um puro primor artístico.

Katrina Anne Van Tassel: I have shed my tears for Brom... and yet my heart is not broken. Do you think me wicked?
Ichabod Crane: No... but perhaps there is a little bit of witch in you, Katrina.
Katrina Anne Van Tassel: Why do you say that?
Ichabod Crane: Because you have bewitched me.

Lamentável, só mesmo o desequilíbrio narrativo na segunda metade do filme, que impossibilita a obra de um todo verdadeiramente sublime.

Enfim... um
operático, fascinante e assustador deleite visual, verdadeiramente contagiante e enérgico, pontuado por momentos de inspirado humor. Um filme arrojadíssimo, de contornos fantásticos e com uma fabulosa interpretação de Johnny Depp.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

10 Breves Perguntas (14)

A iniciativa aproxima-se do fim.
Desta vez... Ricardo Vieira, autor do blogue 35mm, aceitou o convite do CINEROAD para responder a mais um questionário desta 2ª Edição do 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000:
The Fountain
(uma experiência transcendental)
2. A Banda-Sonora da Minha Vida:
Braveheart
(o som tocante da gaita de foles)
3. Um Amor de Infância:
The Lion King (Hakuna Matata)
4. Um Filme de Animação:
The Lion King (o melhor de sempre)
5. Uma Comédia: Ace Ventura: When Nature Calls
(marcou-me especialmente pois conheci Jim Carrey)
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
There Will Be Blood
(não tive paciência para o ver)
7. Tantos detestam. Eu adoro:
Lady in the Water
(foi cruxificado porquê? Senti-me criança ao ver este filme)
8. Um elenco: The Village
(Bryce Dallas Howard, Joaquin Phoenix, Adrien Brody, William Hurt e Sigourney Weaver. Adorei a interacção deste elenco).
9. A Melhor Fotografia que conheço:

The Lord of the Rings (linda, linda, linda!)
10. Já mudei de ideias sobre este filme:
The Matrix
(Achei demasiado fraco e esquisito. Agora acho um dos melhores filmes de Ficcção científica).

Um muito obrigado, Ricardo Vieira.

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

terça-feira, 4 de maio de 2010

Os Meus 10 Filmes Preferidos

O desafio é difícil: escolher aqueles que são Os Meus 10 Filmes Preferidos - aqueles filmes que mais vezes vejo durante o ano e aqueles que mais repetidamente assisti na minha vida, aqueles que me fizeram ver, sentir e pensar aquilo que poucos mais conseguiram.
Na selecção, muitas foram as obras que acabei por excluir, apesar da sua inegável excelência e do meu absoluto amor para com elas.

Mas enfim. Ei-las, de momento, as minhas paixões maiores!, por ordem alfabética:

THELMA & LOUISE (1991)

Um road-movie bem filmado e bem interpretado (Susan Sarandon, Geena Davis), de grande competência técnica e narrativa.

PONTUAÇÃO: BOM

O CASAMENTO DE RACHEL (2008)

Magnífico desempenho de Anne Hathaway,
num filme nada mais do que...

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL

terça-feira, 27 de abril de 2010

A ESQUIVA (2003)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: L'Esquive
Realização: Abdel Kechiche
Principais Actores: Osman Elkharraz, Sara Forestier, Sabrina Ouazani, Nanou Benhamou, Aurélie Ganito, Carole Franck, Hafet Ben-Ahmed

Crítica:

CONVERSAS DE ADOLESCENTES

Abdel Kechiche transporta a steadicam para o interior dos subúrbios parisienses e concretiza, com assaz realismo e autenticidade, o retrato de uma adolescência irascível e conflituosa.

Se, enquanto espectadores adolescentes, nos deixarmos levar pela história, facilmente identificaremos aquelas personagens com algumas outras do nosso próprio núcleo de amigos. Sentiremos a história tão próxima de nós e da nossa realidade quotidiana. Assim sendo, A Esquiva contará a história de Krimo - um jovem de quinze anos, tímido e apaixonado, que integrará a peça de teatro da turma de forma a aproximar-se de Lydia, a loirinha autoritária.

Se, por outro lado, formos espectadores adultos, facilmente reconheceremos a teatralidade de toda a adolescência: uma encenação exagerada do ego, violenta e revoltada, extremamente sensível, temperamental e efervescente. Não nos identificaremos propriamente com as reacções e os sentimentos daquelas personagens, mas identificá-los-emos certamente na nossa experiência passada, quando tínhamos quinze anos e caminhávamos, com as emoções à flôr da pele, pelo centro do mundo.

Contudo, o retrato estende-se ainda a outras leituras. As longas cenas do filme revelam também, por exemplo, uma realidade periférica e multi-cultural, de língua rude e imediatamente substimada pela autoridade. Estará esta geração condenada ao seu meio original? Marivaux argumentava que sim.

Os resultados da encenação são francamente admiráveis e os desempenhos são genuínos. Destaque para a interpretação de Sara Forestier, um desempenho excepcional e surpreendente. O primor estético não é, propriamente, uma das virtudes da obra (creio mesmo que a forma se esgota em si mesma), mas o argumento apresenta uma reflexão pensada sobre a adolescência, interessante e pertinente, e isso é digno de mérito.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões