quinta-feira, 20 de maio de 2010

10 Breves Perguntas (15)

A iniciativa aproxima-se do fim.
Desta vez... Paulo Altmann, autor do blogue They Watch Us, aceitou o convite do CINEROAD para responder a mais um questionário desta 2ª Edição do 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000:
Into the Wild

2. A Banda-Sonora da Minha Vida:
Across the Universe
3. Um Amor de Infância:
Adventures in Babysitting
4. Um Filme de Animação:
Peter Pan
5. Uma Comédia: Home Alone
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
The Blair Witch Project
7. Tantos detestam. Eu adoro:
Gigli (2003)
8. Um elenco: Brokeback Mountain
9. A Melhor Fotografia que conheço:
Moulin Rouge!

10. Já mudei de ideias sobre este filme:
West Side Story

Um muito obrigado, Paulo Altmann.

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

APOCALYPTO (2006)

Comente o filme Apocalypto, aqui!

MATRIX (1999)

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quarta-feira, 19 de maio de 2010

O LADO SELVAGEM (2007)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Into the Wild
Realização: Sean Penn

Principais Actores: Emile Hirsch, Marcia Gay Harden, William Hurt, Jena Malone, Brian H. Dierker, Catherine Keener, Vince Vaughn, Kristen Stewart, Hal Holbrook, Jim Gallien, James O'Neill, Malinda McCollum, Paul Knauls, Zach Galifianakis


Crítica:

O HOMEM E A NATUREZA

No longer to be poisoned by civilization he flees, and walks alone upon the land to become lost in the wild.
Alexander Supertramp
Maio, 1992

Nenhum documento revela a nossa identidade. Cortem-se, pois, os cartões. O dinheiro alimenta, acima de tudo, o estatuto, a aparência, o lado superficial das coisas. Queimem-se as notas. Careers are a 20th century invention e a sociedade é uma relação de convenções. Anti-naturais, cada vez mais. Sociedade, sociedade, sociedade: pais, hipócritas, políticos, cretinos, arrogantes... Onde está a liberdade autêntica, a verdade da nossa existência? É por partir em busca dessa verdade que Christopher McCandless abandona toda uma vida em sociedade. No phone, no pool, no pets, no cigarettes. Assume-se um extremista. An aesthetic voyager whose home is the road.

Empreender uma aventura como a de Christopher McCandless, com tão elevado grau de consciência e de convicção, demonstra excepcional cultura e profundo idealismo. The climactic battle to kill the false being within and victoriously conclude the spiritual pilgrimage. Mas possuir um saber não é possuir, necessariamente, sabedoria. Sabedoria e ser extremista são opostos absolutos. E a viagem solitária rumo à vivência primitiva, nos confins do mundo e da natureza, ensinar-lhe-á isso muito bem...

Happiness only real when shared.
Christopher Johnson McCandless
Agosto, 1992

A beleza de O Lado Selvagem transcende as paisagens que a fotografia de Eric Gautier tão sublimemente capta. Ela envolve-se nas palavras, nos sons, nos silêncios... e, de novo, na extraordinária banda sonora, nas canções de Eddie Vedder... Ela comove-nos no brio das interpretações, plenas de sinceridade: Emile Hirsch está soberbo e inteiro. Marcia Gay Harden, William Hurt e Hal Holbrook estão igualmente magníficos. Ela deslumbra-nos num genuíno e fascinante pedaço de arte, com pura inspiração arquitectado e pela confluência estética abonado (note-se a cadência perfeita entre slow motion, ângulos meticulosos e ousados, alternância entre focar e desfocar, split screen ou múltiplas divisões do ecrã, filmagem de videocamera, frames longos e paragem de movimento). Adaptando o livro de Jon Krakauer, O Lado Selvagem revela-se também exímio no storytelling (dois níveis narrativos, que se alternam entre si: um primeiro dá-nos a conhecer as aventuras de Chris entre 1990 e 1992. Encontra-se estruturado em 5 capítulos, de acordo com as etapas de crescimento pessoal (My Own Birth, Adolescence, Manhood, Family e Getting Of Wisdom), é narrado por Carine McCandless e é continuamente interrompido com analepses. Um segundo nível, correspondente à fase que antecede a tragédia final e que conta o passar das semanas no Autocarro Mágico, é como que narrado pelo próprio peregrino; nele, são-nos lidas as últimas passagens do diário).

If we admit that human life can be ruled by reason,
then all possibility of life is destroyed.

Por tudo isto, O Lado Selvagem poderia ser um bom filme. Mas não o é: supera-se, irrepreensivelmente. Poderia, pois, ser um filme muito bom. O facto é que é tão verdadeiro que não consegue ser nada mais nada menos do que... um filme excelente. Nem enquanto criação artística o filme trai a sua natureza: cada vez que, surpreendentemente, o Chris de Emlie Hirsch olha directamente para a câmera... é ultrapassada qualquer regra narrativa imprescindível para a verossimilhança e o filme dá-nos verdade, assumindo-se como obra de arte, mimesis.

I'm going to paraphrase Thoreau here... rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth.

DONNIE DARKO (2001)

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REVOLUTIONARY ROAD (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Revolutionary Road
Realização: Sam Mendes
Principais Actores: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Michael Shannon, David Harbour, Kathryn Hahn, Dylan Baker

Crítica
:

O DESESPERANTE VAZIO DA VIDA A DOIS

1º Acto | Sobre a expectativa e a felicidade

Quando solteiros, cada um de nós tem uma certa imagem de si próprio e, até certo ponto, uma imagem de si próprio projectada num futuro imaginado. Ao exercício, à efabulação, chamam-lhe: expectativas, expectativas de vida. Porém, o momento em que conhecemos a nossa cara-metade marcará um ponto de viragem no nosso percurso. A pessoa pela qual nos apaixonamos, a qual conheceremos, a qual amaremos e com a qual aceitaremos partilhar os nossos dias, é igualmente um indivíduo com a sua dose de expectativas. O ponto de viragem é o ponto em que as nossas individualidades cedem e se ajustam à construção de um projecto conjunto. E que não haja dúvida: uma relação é uma construção. Cada uma tem o seu tempo, a sua morosidade... Na verdade, e uma vez iniciada, a construção nunca acaba. Os ingredientes são sempre os mesmos e são todos tão necessários quanto possíveis; só variam as doses, de casal para casal: verdade, silêncio e diálogo, afecto, respeito, honestidade, fidelidade, compreensão e espaço próprio. Da reciprocidade e do equilíbrio da receita nascerá, entre os dois seres, um elo único, que se fortalecerá com o tempo e que se traduzirá em felicidade. Eis, pois, o segredo da felicidade.

2º Acto | Sobre a frustração e a infelicidade

O segundo e indesejado ponto de viragem na relação entre duas pessoas é quando cai o primeiro tijolo, antecipando a ruína e a destruição. Nem sempre as relações atingem este 2º acto; todavia, e como sabemos bem, a realidade das pessoas está repleta de relações mal-sucedidas que em vez de caminharem para a construção fazem o caminho inverso. Nesses casos, saem defraudadas do jogo de expectativas a dois, ficam frustradas, aborrecidas, cheias de dúvidas e caem na rotina e no vazio. Ofendem-se, traem-se, magoam-se e a relação acaba, na infelicidade. Ou mediram mal as doses ou nem usaram os ingredientes certos. Em si próprias encerram cacos da destruição.

April e Frank, brilhantes desempenhos de Kate Winslet e Leonardo DiCaprio, inscrevem-se neste 2º acto. Apesar de tanto tentarem o diálogo, a falta de verdade das suas palavras jamais fez juz àquilo que sentiam. Talvez o silêncio lhes tivesse sido a melhor forma de diálogo, porque ao menos o silêncio é verdadeiro.

Às tantas, o processo de destruição é irreversível a tal ponto que não há mais possibilidade para a catarse e a história dos dois precipita-se para a tragédia.

Último Acto

Revolutionary Road analiza esta complexidade do casamento e da vida a dois. Explora a fórmula do melodrama de forma intensa, visceral e perturbadora. The hopeless emptiness? Now, you've said it. Plenty of people are on to the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness...

Sam Mendes é magistral na arte de filmar, virtuoso na contenção e fluído na adaptação do romance de Richard Yates a partir do igualmente muito bem escrito argumento de Justin Haythe. Com um arrojado e minucioso trabalho de mise-en-scène, uma subtil banda sonora de Thomas Newman - que chega sempre no momento certo - e um absolutamente memorável trabalho de actores (notem-se também os secundários Michael Shannon e Kathy Bates), eis pois - e em suma - uma obra de elevada maturidade e inequívoca competência artística. Mais uma, sob o selo autoral do realizador.

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Nota especial para algumas das Cenas Cortadas, fenomenais, cuja exclusão era, a meu ver, perfeitamente prescindível.

IMPERDOÁVEL (1992)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Unforgiven
Realização: Clint Eastwood
Principais Actores: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Thomson

Crítica:

O MITO
E A ORIGEM DO MITO

All right, I'm coming out. Any man I see out there, I'm gonna shoot him. Any sumbitch takes a shot at me, I'm not only gonna kill him, but I'm gonna kill his wife, all his friends, and burn his damn house down.
Bill Munny

Em Imperdoável há todo um passado que assombra o presente; o que ecoa e se dimensiona, essencialmente, a dois níveis. Primeiramente, a um nível diegético. Depois, a um nível conceptual, de género.

1. A nível diegético.

A personagem de Clint Eastwood, William Munny, recalca a essência do seu ser assassino na construção de uma vida campestre e pacata, em família e sem whisky. O seu fiel companheiro dos velhos tempos, Ned Logan (Morgan Freeman), também se encontra aposentado; sabendo que consegue acertar no olho de um pássaro em pleno vôo, hesita agora em acertar no alvo. I guess I'd rather be blind and ragged than dead. Little Bill, o cherife desempenhado por Gene Hackman, há muito que renunciou às armas e se reconfortou confiantemente no poder da Lei. Na sua vila, Big Whiskey, não permite qualquer tipo de confronto ou violência e de forma pacífica assume a figura do justiceiro. Serve-se de Bob English (Richard Harris), aliás, para ditar o exemplo. The Schofield Kid, interpretado por Jaimz Woolvett, é o jovem no meio de tantos senhores do western, que, sem noção do que é matar, vive do mito e sonha tornar-se um grande pistoleiro. Será um elemento essencial para o confronto geracional que se estabelecerá e se fortalecerá. Finalmente, o mito e a origem do mito encontram-se... a personagem de Saul Rubinek, o escritor, simboliza a entidade responsável pelo mito: o western virou história em livro e repercute-se em edições - mas num registo fantasioso, com bons e maus e onde a violência não tem consequências morais. Beauchamp vive, como muitos ficcionistas, mais da própria mitologia do que da dura e crua realidade do western. O mito e os demónios do passado persistem e perseguem as personagens até ao último fôlego.

I ain't like that no more. I ain't the same (...) Just 'cause we're goin' on this killing, that don't mean I'm gonna go back to bein' the way I was. I just need the money, get a new start for them youngsters.
Bill Munny

Clint Eastwood mostra-se irrepreensível na direcção de actores; é evidente a sublimidade atingida pelas performances.


2. A nível conceptual, de género.

O argumento de David Web Peoples, de uma qualidade dramatúrgica inegável, permite que o western se confronte a si mesmo, se questione, amadureça e se transforme. A figura do escritor, aliás, configura a mise-en-abyme, através da qual o género se espelha a si mesmo e se auto-critica. É com Imperdoável, pois, que se dá a reconversão da fórmula que definia o género e se emancipam notórias diferenças:

- não há mais romance; a figura da mulher de Munny, por exemplo, é assumidamente fundamental para o filme, embora ausente: note-se a pertinência do prólogo e do epílogo e a carga emotiva que a sua imagem acarreta no dia-a-dia do cowboy. A própria figura feminina, representada pelas prostitutas, desencadeia a trama e assume protagonismo, não sendo mais um mero acessório.
Just because we let them smelly fools ride us like horses don't mean we gotta let 'em brand us like horses. Maybe we ain't nothing but whores but we, by god, we ain't horses.
Strawberry Alice

- não há sentido de espectacularidade no gunplay. A acção desenfreada, as cavalgadas e a gritaria, outrora constantes, perdem o protagonismo para dar lugar à profundidade psicológica dos cowboys; não mais maniqueístas, mas agora vítimas de uma violência imperdoável, angustiados pela consciência que lhes corrompe a alma. A violência emana, mas não mais ao acaso; agora, com conflito moral. Não há mais o matar por matar.

Eis a introspecção e consciência crítica da essência do western. Daí o estatuto especial que o filme de Eastwood tem para a reconfiguração do género: lida com o remorso, faz a catarse e honra a memória como nenhum outro.

I've killed women and children. I've killed everything that walks or crawls at one time or another. And I'm here to kill you, Little Bill, for what you done to Ned.

It's a hell of a thing, killin' a man. Take away all he's got, and all he's ever gonna have.
Bill Munny

Magnificamente fotografado (Jack N. Green) e montado (Joel Cox), Imperdoável reclama autenticidade a cada cena, imerso numa atmosfera histórica de detalhe e bom gosto. Eis, pois, e desta feita assombrado pelo futuro, um clássico absoluto. Magistralmente bem feito.

QUEM QUER SER BILIONÁRIO? (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: Slumdog Millionaire
Realização: Danny Boyle, Loveleen Tandan

Principais Actores: Dev Patel, Anil Kapoor, Saurabh Shukla, Rajendranath Zutshi, Freida Pinto, Irrfan Khan, Azharuddin Mohammed Ismail, Ayush Mahesh Khedekar, Rubiana Ali, Madhur Mittal, Sunil Kumar Agrawal

Crítica:

O DESTINO
DE UM MOSQUETEIRO

When somebody asks me a question,
I tell them the answer.

Slumdog Millionaire é um filme sensacional, de uma energia pujante, contagiante e mágica. É sobre a Índia em transformação. De entre os lamacentos bairros de lata erguem-se, hoje, imponentes prédios que arranham os ceús e acentuam os contrastes de um país multifacetado em todas as suas cores e culturas. Da miséria profunda à potência emergente, há todo um reflexo de um país que se espelha - claramente - no percurso pessoal de Jamal Malik. Afinal, quem diria que o menino que consegue o autógrafo de Amitabh Bachchan, imundo dos pés à cabeça, conseguiria vencer 20 milhões de rupias, tornar-se multi-milionário e cair nas bençãos da fama? D) It is written. O verdadeiro tema de Slumdog Millionaire - mais do que qualquer leitura sobre a Índia ou Bollywood - é, pois, o destino. A sorte.

Danny Boyle (com o apoio de Loveleen Tandan) filma aquilo que podemos chamar uma autêntica explosão de alegria e de energias positivas. A obra aborda temas sérios, é certo, mas fá-lo sempre com uma ligeireza muito particular, cheia de esperança e romantismo. Não é difícil, por isso, evadirmo-nos da nossa própria realidade e escaparmo-nos nesta aventura de sonho, onde nos sentimos confortáveis nas mãos do destino, antevendo um happy ending, bigger than life. Eis o que explica, em grande parte, o sucesso à escala global de um filme como Slumdog Millionaire e, da mesma forma, um concurso como Quem Quer Ser Milionário? - It's the chance to escape, isn't it? Walk into another life. Doesn't everyone want that? Na verdade, poder-se-á dizer que Slumdog Millionaire é tão sensacional quanto sensacionalista. E não há nenhum mal nisso. Fá-lo deliberadamente e é essa a sua voz de afirmação. Afinal, explora a mesma fórmula que os programas televisivos, na conquista pelas audiências... Envolve o espectador, possibilita-lhe infindáveis momentos de boa disposição e apela ao derradeiro poder das emoções. Não importa que a proposta do argumento seja absolutamente idílica. Porque não deixarmo-nos levar?

Aparte uma ou outra performance menos bem conseguida (refiro-me, inevitavelmente, a Freida Pinto, Rubina Ali ou Tanvi Ganesh Lonkar) ou, a meu ver, a ausência total de química na relação amorosa entre Jamal e Latika, é certo que estamos perante um filme irrepreensivelmente bem feito, aceite que está a sua natureza. O argumento desenvolve-se em três linhas narrativas (1. O interrogatório policial; 2. O programa de televisão; 3. Os flashbacks.) e constrói-se na alternância entre todas elas. A fotografia de Anthony Dod Mantle é visualmente arrebatadora, com enquadramentos radicalmente inesperados, a montagem de Chris Dickens é verdadeiramente prodigiosa e a banda sonora de A. R. Rahman extraordinariamente vibrante e extasiante. Que nem as suas várias canções. No elenco destacam-se Dev Patel, Anil Kapoor, Irrfan Khan ou o pequeno e encantador Ayush Mahesh Khedekar.

A cena dos créditos finais, que tantos repudiam e consideram ridícula, não é senão o espelho de todo o espírito do filme: descontraído, divertido e cheio de vida. Populista, à la Bollywood. Por tudo isto, Slumdog Millionaire tem o candor de nos fazer sonhar a vida como uma celebração. Basta deixarmo-nos levar. E como sabe bem, de vez em quando, não levarmos as coisas demasiado a sério.

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Nota especial para a infeliz escolha do título português.

MILLION DOLLAR BABY - SONHOS VENCIDOS (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Million Dollar Baby
Realização: Clint Eastwood

Principais Actores: Clint Eastwood, Hilary Swank, Morgan Freeman, Anthony Mackie, Margo Martindale, Brian F O`Byrne

Crítica:

TUDO POR UM SONHO

Em Million Dollar Baby, de Clint Eastwood, o boxe é a metáfora perfeita da vida: it's the magic of fighting battles beyond endurance, beyond cracked ribs, ruptured kidneys and detached retinas. It's the magic of risking everything for a dream that nobody sees but you. Negro, sombrio e tão íntimo, o esboço da condição humana faz-se, essencialmente, por meio da palavra e do sentimento.

O argumento, a cargo de Paul Haggis, flui sereno, inspirado e, no momento certo, assertivo, espelhando, de forma intensa, a tragédia das relações humanas e o poder inesperado e irreversível da fatalidade. As prestações do elenco, preciosamente escolhido, irradiam excelência. Frankie e Scrap, interpretados respectiva e brilhantemente por Eastwood e Freeman, há muito que se retiraram da luta. São uns vencidos da vida, mas cujas feridas do passado estão longe de sarar, definitivamente. O primeiro afunda a solidão na dificuldade do gaélico e na facilidade de, no dia-a-dia, não correr riscos. Não tem família, não tem Deus, não tem esperança. O amor paternal que desenvolverá por Maggie será a sua última oportunidade para a redenção. O segundo parece limpar o ginásio em permanente contemplação, como se na inércia de não comprar, por exemplo, umas meias novas ou na determinação de lavar o chão com uma boa lixívia apaziguasse a dor da memória. A verdade é que, quando intervém, irónico e de bom humor, as suas sentenças revelam-se genuinamente certeiras e memoráveis. Para não falar da sua narração que, omnisciente, concretiza as surpreendentes cadências do argumento. Maggie Fitzgerald (Hilary Swank, num papel de transfiguração e entrega total) vive a sua pobreza em constante poupança para alimentar o sonho, para poder continuar a fazer aquilo que mais prazer lhe dá - o pugilismo - e para, quem sabe um dia, conseguir dar uma vida melhor à família e a si mesma. Nunca desiste e insiste em encontrar força nos momentos de maior fraqueza (que são tantos) para vencer. A luta é o seu destino: I was born two pounds, one-and-a-half ounces. Daddy used to tell me I'd fight my way into this world, and I'd fight my way out. A sua história é, no fim de contas, derradeiramente comovente e inspiradora.

Million Dollar Baby prova, ao mesmo tempo, a importância soberana de, em cinema, contar uma boa história, com boas performances dos actores. Clint Eastwood, realizador, fá-lo de forma magistral, com simplicidade e grande contenção: reduzida banda sonora, subtil trabalho de montagem e grande cuidado na iluminação. Fá-lo, afinal e acima de tudo, com palavra e sentimento.

Clássico absoluto.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O NOVO MUNDO (2005)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: The New World
Realização: Terrence Malick
Principais Actores: Colin Farrell, Q`Orianka Kilcher, Christian Bale, Christopher Plummer, Wes Studi, David Thewlis, Ben Chaplin, Jamie Harris, Jonathan Pryce, Noah Taylor

Crítica:

OS ÚLTIMOS DIAS DO PARAÍSO

I will find joy in all I see.

Trata-se de um poema. Dos mais sensíveis. E também dos mais belos. Deslumbrante em cada imagem. Em cada som. Em cada silêncio... O Novo Mundo é espiritualmente magnífico e emocionalmente profundo. Visualisá-lo, constitui uma experiência transcendental e derradeiramente purificante, de grande fôlego romântico e reflexivo.

A invocação de um mundo há muito perdido, pelo choque de culturas
, e a viagem ao que há de mais genuíno em nós, humanos, denunciam-se pela perfeição e subtileza de um nome: Terrence Malick.

A fotografia, de Emmanuel Lubezki, faz jus à sublimidade intrínseca a toda a obra e canta a Natureza
acima de todas as coisas. A banda sonora de James Horner, a contraponto com as notas de Wagner e de Mozart, cria uma sinfonia maior e eleva o poema a um estatuto superior. Excelente recriação histórica, por parte dos cenários e decoração, e guarda-roupa.

O Novo Mundo é uma daquelas raras e inspiradíssimas obras que, sob a graça do génio, possuem uma aura especial e eternizante.
Que obra-prima.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões