Abre-se a porta e passamos da sombra à luz: rochedos altos e imponentes, uma paisagem empoeirada, com cheiro a terra e a suor, com um céu azul radioso, num todo absolutamente belo e extasiante. Bem-vindos ao Oeste, ao Oeste de John Ford, à imensidão de Monument Valley e às cavalgadas pelas pradarias de vegetação rarefeita, à América tradicional e empreendedora, ainda que racista e à procura de si própria.
Texas, 1868. Ethan Edwards (John Wayne, naquela que é unanimamente considerada uma das suas mais intensas e complexas interpretações) regressa da Guerra Civil, três anos após o seu término. Torna a casa de Aaron, o irmão,
qual
the Prodigal Brother!, onde vivem também a cunhada Martha (pela qual sente um amor não assumido que se depreende no subtexto narrativo), as sobrinhas Lucy e Debbie e Martin (Jeffrey Hunter), o órfão mestiço,
eighth Cherokee. Ethan é um homem solitário e misterioso, forte e obstinado, com aura de herói mas não é propriamente um herói. Nutre um ódio de morte pelos índios (daí menosprezar Martin, apesar de o ter resgatado ao infortúnio, no passado) e tem atitudes humanamente desprezíveis, apesar de não ser também um vilão. É, pois, um ser humano em toda a sua ambiguidade, com motivações pessoais contraditórias e conflitos internos que doseiam a história de imprevisibilidade e realismo; e não mais um formato vazio, personagem-tipo de atirador sem dó nem piedade.
Na manhã seguinte à sua chegada, o Reverendo e Capitão Samuel Clayton (Ward Bond) vem buscar ajuda entre os homens da casa para solucionar um roubo de gado no rancho do vizinho Lars Jorgensen. Ethan ainda hesita, mas acaba por juntar-se a Martin na perseguição. Durante a sua ausência, todavia, um ataque de índios reduz a casa a chamas e cinzas e a tragédia abate-se sobre a família. Quando tornam, deparam-se com Aaron e Martha brutalmente chacinados e com os indícios do sequestro de Lucy e Debbie. A dor corrói-lhes então a alma. A sede de vingança, friamente personificada por Ethan, e a esperança de resgatar as pequenas, inesgotavelmente personificada por Martin, assumem-se determinantes para a desenfreada caça ao homem que empreenderiam durante cinco longos anos.
O argumento (Frank S. Nugent, a partir do romance de Alan LeMay) condensa um sem fim de frases memoráveis, um outro tanto de referências bíblicas e um leque de personagens memorável, mas acima de tudo uma trama extremamente bem escrita e bem construída, onde se cruzam com perfeição o drama, o melodrama, a acção, a aventura e, também, a comédia. A cena do casamento é, claramente, muito mais do que um ocasional compêndio de
comic reliefs. Comic reliefs, esses, que, diga-se de passagem, pontuam a obra com alguma frequência. As implicações e os efeitos narrativos da leitura da carta, pela encantadora e apaixonada Laurie (Vera Miles), nomeadamente os cinco anos que por meio dela se condensam, resulta, quanto a mim, num dos feitos mais admiráveis do argumento.
Esses cinco longos anos são também uma odisseia pessoal de aproximação entre Ethan e Martin, ao jeito de relação pai-filho. Para o primeiro, é uma oportunidade para desenvolver laços emocionais com alguém e uma forma de atenuar os seus ódios e preconceitos raciais, por meio de uma maior compreensão da natureza humana e da pluralidade cultural. Para o segundo, é um caminho para atingir a maturidade, para cimentar e lutar pelos seus bons valores e princípios e para descobrir o amor. Aos poucos, apercebemo-nos das semelhanças entre Ethan e Scar, o índio-chefe dos Comanches - o que separa e diferencia os brancos dos índios é, afinal e essencialmente, os costumes. Somente os costumes. Há humanidade em ambos os povos. Heróis e vilões, bons e maus... em ambos os povos. O próprio
cowboy se apercebe e se rende a essa realidade; daí a reviravolta final, que um
close-up verdadeiramente notável já deixara antever:
let's go home, Debbie.
Deste modo,
A Desaparecida impõe-se, sob todos os primas, como uma viagem derradeiramente marcante, em que o
western, consciente do seu simplismo maniqueísta, se aventura a abraçar novos horizontes, plenos de humanidade - tal como ela é: ambígua. Ao mesmo tempo que dá seguimento ao cânone, glorificando a paisagem mítica do Oeste,
o filme condena o racismo e a violência que o próprio género representou, vezes e vezes sem conta. É por isso que lhe é indissociável uma forte ressonância reflexiva e moral sobre as consequências da violência e sobre a tragédia do choque de culturas. É, por isso mesmo também, um filme que marca a maturidade do género.
Eis, pois, um dos mais deslumbrantes filmes de sempre, magistralmente filmado por John Ford, dotado de um monumental trabalho de fotografia e iluminação (Winton C. Hoch), de um exímio trabalho de cenografia (James Basevi, Frank Hotaling e Victor A. Gangelin) e de uma magnífica composição musical (Max Steiner).
No final, dita a forma que se fine o círculo. A câmera recua para a escuridão do interior da casa. A paisagem fica ao longe. Ethan Edwards caminha, elegante e apaziguado, de regressa ao Oeste. A porta fecha-se.
Fica-nos um clássico absoluto. Absolutamente essencial.
