quinta-feira, 10 de junho de 2010

BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES (1937)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Snow White and the Seven Dwarfs
Realização: David Hand

Filme de Animação



Crítica:

O FRUTO PROIBIDO

Mais do que um fabuloso filme, uma extraordinária e imaculada obra-prima: feito genuina e esteticamente revolucionário, aventura por demais corajosa e empreendedora, diamante perfeitamente esculpido. Um conto imortal sobre inocência, pureza e amor.

As sequências musicais são magistralmente orquestradas, brincando com as imagens com criatividade e sintonia. E com a maior comicidade, pois claro. O filme está repleto de momentos hilariantes. Mas também de cenas de acção, emoção, tragédia... Branca de Neve e os Sete Anões leva-nos, com a maior naturalidade e com o encanto único dos seus desenhos, do mais descontido riso à mais sentida lágrima... E esse é o seu maior condão, por certo.

Assistir à pioneira viagem da Disney pelas longas-metragens de animação é, por isso, como enveredar num ritual de purificação. Antes de acontecer, uma longa-metragem em animação era vista como uma loucura. Por fim, o fruto proibido revelou-se muito apetecido. Sem dúvida: um dos melhores filmes de sempre.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O PADRINHO (1972)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Godfather
Realização: Francis Ford Coppola
Principais Actores: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton, Talia Shire, Al Lettieri, Sterling Hayden, John Cazale, Richard S. Castellano

Crítica:

CRÓNICAS DE CRIME E FAMÍLIA

A man who doesn't spend time with his family
can never be a real man.

O Padrinho é muito mais do que uma história sobre gangsters e máfia, a partir da obra literária de Mario Puzo. Francis Ford Coppola, magistral na arte de filmar e dotado de um inspirado virtuosismo clássico, serve-se da organização e das intrigas da sociedade do crime para conceber uma verdadeira epopeia sobre a família e sobre a evolução dos valores familiares ao longo do século XX. Aliás, O Padrinho será, porventura, a primeira grande crónica cinematográfica do século XX sobre a família do próprio século XX. É uma espécie de auto-análise; um exercício que o tempo veio a comprovar como extraordinário.

Marlon Brando, num dos grandes papéis da sua carreira, veio eternizar as figuras do patriarca e do padrinho: hoje quase inexistentes nas sociedades ocidentais; sobretudo quando tendo em conta a expressividade e relevância que tinham outrora. A ruína da figura patriarcal (também a do casamento enquanto instituição) anunciou a decadência e o fim da família como rede organizada, com espírito de entre-ajuda, união e coesão... Com a queda dos últimos alicerces e tradições familiares, o ser humano cai no individualismo e no alheamento identitário, carente de raízes. Este facto sinedoquiza, de forma metadiegética - tanto no primeiro como nos seguintes capítulos da saga - a própria evolução da família Corleone.

A banda sonora tornou-se um autêntico ícone da saga, assim como a rosa ao peito e aquele ambiente de respeito e consideração do escritório. O Padrinho enche-se, da abertura ao desfecho, de cenas memoráveis: a chocante cena da cabeça do cavalo ou a morte de Don no jardim, depois de brincar com o futuro da família, são absolutamente magníficas. Grande, grande filme.

10 Breves Perguntas (16)

A iniciativa aproxima-se do fim.
Desta vez... Jeniss Walker, autor do blogue Cinéfilo Inútil, aceitou o convite do CINEROAD para responder a mais um questionário desta 2ª Edição do 10 Breves Perguntas.

Eis as respostas:
1. O Melhor Filme desde 2000:
The Lord of the Rings - The Fellowship of the Ring

2. A Banda-Sonora da Minha Vida:
Into the Wild
3. Um Amor de Infância:
The Goonies
4. Um Filme de Animação:
Monsters, Inc.
5. Uma Comédia: American Pie 2
6. Filme-Fenómeno cujo Mediatismo não compreendo:
Qualquer filme de Lars Von Trier
7. Tantos detestam. Eu adoro:
The Village
8. Um elenco:
The Lord of the Rings - The Fellowship of the Ring

9. A Melhor Fotografia que conheço:
Into the Wild

10. Já mudei de ideias sobre este filme:
There Will Be Blood

Um muito obrigado, Jeniss Walker.

Compare as respostas dadas por todos os convidados até ao momento: AQUI

terça-feira, 8 de junho de 2010

A VIDA DE BRIAN (1979)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Life of Brian
Realização: Terry Jones
Principais Actores: Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin, Terence Bayler, Carol Cleveland, Kenneth Colley, Neil Innes, Charles McKeown

Crítica:

BRIAN ITE DOMUM

A Vida de Brian não é senão uma mistura inteligente e absurda, algures entre a ridicularização e a sátira à moral cristã e às incongruências do fenómeno bíblico, longe de quaisquer pretensões artísticas maiores.

Critica fortemente os seguidores dos messias que, desde os primeiros tempos, desesperavam por um salvador, capaz de purificar o mundo e de completar as profecias. No entanto, tem tanto de controverso, ofensivo e provocador como de absolutamente estúpido. Ou seja, puro Monty Python: inteligente, mas estúpido.

A Vida de Brian
terá, por isso, os seus fãs. Aqueles que seguiram, durante anos, o entusiasmo, o talento e a originalidade do grupo de comediantes britânicos e aqueles que apreciam este género de comédia. É mais um marco na História da Comédia (e na História da Comédia enquanto género cinematográfico) do que na História do Cinema, propriamente. A mim, não me conquistou especialmente.

RASHÔMON - ÀS PORTAS DO INFERNO (1950)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Rashômon
Realização
: Akira Kurosawa

Principais Actores: Toshirô Mifune, Machiko Kyô, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijiro Ueda, Fumiko Honma, Daisuke Katô

Crítica:

QUEM CONTA UM CONTO...

Há obras puramente sublimes e Rashômon - Às Portas do Inferno é um desses feitos memoráveis: uma obra-prima de uma genialidade ímpar, esculpida como se fosse um diamante. Akira Kurosawa assina aqui uma parábola eloquentemente enaltecida por interpretações viscerais, por uma narrativa complexa e poderosíssima, e pela sua visão magistral de fazer cinema.

No início, chuva. Uma portaria em ruínas. Dois homens atormentados: um lenhador e um bonzo, ambos réus de um processo em tribunal relacionado com o misterioso assassinato de um homem. Nada... não percebo nada... nada de nada... Não percebo nada de nada. De nada mesmo - desabafa em voz alta o lenhador. Eis que chega um plebeu desconhecido e que aborda as intrigadas e introspectivas criaturas. O sacerdote adianta, a medo: mataram um homem. (...) As guerras... os sismos... os tufões... as fomes... as epidemias... cada ano traz as suas catástrofes. Além disso, todas as noites os bandidos cometem vários crimes. Com os meus próprios olhos vi homens, não sei quantos, serem abatidos como animais. No entanto, nunca vi nada tão terrível como isto! Sim... nada tão terrível como isto. A minha fé na humanidade ficou abalada. É mais terrível que os bandidos, que as epidemias, que a fome, o fogo ou a guerra. Note-se a retórica densa, lenta e hesitante, num crescendo de suspense notável. É então que o padre e o lenhador se prontificam a contar ao forasteiro o que aconteceu. Inicia-se, desta forma, uma série de flashbacks e de flashbacks dentro de flashbacks; uma construção narrativa assaz ambiciosa, intrincada e ao mesmo tempo tremendamente estimulante.

Primeiro, o lenhador assume a narração: atravessava o bosque - a fabulosa banda sonora faz aumentar a expectativa - quando se deparou com os primeiros indícios do crime. O chapéu de mulher preso a um galho. Um boné de samurai no chão. Um saco em brocado em cima de umas folhas mortas. Uma corda cortada ao pé do cadáver. Foi esta, também, a sequência dos acontecimentos revelados na audiência judicial. Depois, contou do depoimento do bonzo, falou do homem que apanhou o assassino Tajomaru e este, por sua vez, falou das circunstâncias em que o prendeu. Falou do assassino que, por sua vez, assumiu o crime, se pronunciou a propósito da mulher do falecido (pela qual se perdera imediatamente de amores) e que acabou por contar a sua versão da história.

Discordando da figura da mulher traçada por Tajomaru e que o lenhador deu a conhecer até aqui, o bonzo vem contrapô-lo, lembrando que a mesma se deslocou mais tarde ao tribunal para contar a sua versão. Versão, essa, de flagrante distinção. Ao tribunal foi convocada ainda uma médium, para dar parecer da versão do morto. Outra versão completamente diferente.

No meio de tanta versão contraditória, ninguém se entende a respeito do que terá realmente acontecido. Nós, inclusivé, pois claro. A sucessão de versões, cada uma mais verosímil do que a outra, vem mergulhar-nos num mar de dúvidas... em vez de nos encaminhar para o apuramento da verdade. Já não se sabe quem fez o quê, quem matou afinal aquele homem que passeava pela mata, acompanhado da esposa. A dificuldade em resolver o caso é extrema. No meio de tanta versão, contudo, jamais nos perdemos. A narrativa tem um encadeamento tão bem concebido que rapidamente entramos na lógica da divisão diegética e dos múltiplos pontos de vista. Nós somos colocados no local dos juízes, ocupamos a posição da câmera para a qual os intervenientes discursam e chegará a altura em que nos aperceberemos da forma como cada um subverte a história a seu favor e/ou a seu gosto. Afinal, quem conta um conto... acrescenta um ponto e a natureza do facto, já por si irreversível, ficcionaliza-se por meio da palavra. Não é essa senão a origem das histórias. Afinal, a história é, ela própria, essa farsa tão humana. É mimesis, diria Platão. Uma mentira, que existe desde que o Homem existe.

Kurosawa filma com uma inspiração extraordinária, movendo a câmera tão subtilmente, com tamanha perfeição... A banda sonora de Fumio Hayasaka desempenha um papel fundamental na criação da atmosfera e na condução do suspense. Os enquadramentos da fotografia de Kazuo Miyagawa são verdadeiramente excepcionais. A montagem, a cargo do realizador, é feita com a maior fluidez. E o filme em si é, da abertura ao desfecho, absolutamente assombroso e impressionante. Toshirô Mifune, Machiko Kyô, Masayuki Mori, Takashi Shimura, Minoru Chiaki, Kichijiro Ueda, Fumiko Honma... que performances incríveis, que elenco excepcional.

A sua fraqueza [dos Homens] força-os a mentir. (...) Se não podemos acreditar em ninguém, este mundo é um inferno - conclui o bonzo, temendo pelo futuro da humanidade. E, por meio dele, conclui Kurosawa a moral da história, na forma de uma mordaz crítica à sociedade. Eis, pois, a metáfora do estado do mundo: a mentira é intemporal e é tão intrínseca ao Homem como a necessidade de contar histórias, como a necessidade de comer, beber ou respirar. A mentira corrói a moralidade, faz-nos cair na desconfiança e no egoísmo. Se não queremos viver como cães, hoje em dia, só podemos ser egoístas - remata o plebeu que, tal como nós, ouviu aquela insólita história nas paragens chuvosas de Rashômon.

Quando o choro de um bebé abandonado irrompe pela precipitação, finalmente, cada uma das três personagens é posta à prova. O plebeu rouba os pertences da criança e sai de cena. Terá o sacerdote motivos para perder a fé no Homem? Estaremos condenados à perdição? Eis, na derradeira hora, dois homens com o futuro nos braços, conscientes da sua humanidade. Uma portaria em ruínas. A chuva pára.

Por tudo isto e tanto mais, Rashômon - Às Portas do Inferno, de Akira Kurosawa, constitui um filme essencial e obrigatório. Um dos expoentes máximos da Sétima Arte e, com certeza, um dos melhores filmes de sempre.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

3 Grandes Obras Subvalorizadas (1)

Começa aqui uma nova iniciativa do CINEROAD.
3 Convidados Especiais dão a conhecer aquelas que são para eles 3 Grandes Obras Subvalorizadas da Década 2000.

| Carlos Gandra, Camelo, Leão e Criança
Werckmeister Harmóniák (2000), de Bela Tarr
Notre Musique (2004), de Jean-Luc Godard
Last Days (2005), de Gus Van Sant

| Pedro Pereira, Por Um Punhado de Euros
One Point O (2004), de Jeff Renfroe e Marteinn Thorsson
The Machinist (2004), de Brad Anderson
800 Balas (2002), de Álex de la Iglesia

| Tiago Ramos, Split Screen
Blindness (2008), de Fernando Meirelles
Revolutionary Road (2008), de Sam Mendes
Caos Calmo (2008), de Antonello Grimaldi

PRIMAVERA, VERÃO, OUTUNO, INVERNO... E PRIMAVERA (2003)

PONTUAÇÃO: BOM
★★★★
Título Original: Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom
Realização: Kim Ki-duk
Principais Actores: Yeong-su Oh, Ki-duk Kim, Young-min Kim, Jae-kyeong Seo, Yeo-jin Ha, Jong-ho Kim

Crítica:

O CAMINHO DA PURIFICAÇÃO

Não sei de quem é a autoria do texto da contra-capa da edição portuguesa do DVD de Primavera, Verão, Outuno, Inverno... e Primavera, magnífica e transcendental incursão do cineasta Kim Ki-duk pela filosofia e espiritualidade budista, mas o certo é que sintetiza perfeitamente, na sua subtil cadência poética, o âmago da obra. Ora vejamos:

Ninguém fica imune ao poder das estações e ao seu ciclo anual de nascimento, crescimento e envelhecimento. Nem mesmo dois monges que partilham um mosteiro flutuante, num lago rodeado de montanhas.

À medida que as estações se sucedem, todos os aspectos das suas vidas são insuflados com uma intensidade que conduz ambos a uma enorme espiritualidade - e à tragédia, porque também eles não conseguem resistir à escalada da vida, aos anseios, sofrimentos e às paixões que nos arrebatam a todos.

Sob o olhar atento do Velho Monge, um jovem monge experimenta a perda da inocência quando as brincadeiras se transformam em crueldade... o despertar do amor quando uma mulher entra no seu mundo fechado... o poder assassino do ciúme e da obsessão... o preço da redenção... a iluminação da experiência.

Assim, como as estações continuam a alternar-se até ao fim dos tempos, também o mosteiro permanecerá como a morada do espírito suspenso entre o agora e o sempre...

Às vezes creio não ser necessário fazer uso de palavras nossas... A mim, pessoalmente, o filme confrontou-me com os silêncios da existência. Prefiro ficar neles e meditar neles... Ki-duk concretizou um feito sereno e apaziguador, repleto de símbolos, metáforas e parábolas sábias e enriquecedoras; um filme que nos apresenta o Nirvana como destino, longe das angústias e sofrimentos da vida terrena. Para lá chegarmos há o caminho de libertação e de purificação.

Não sei se o Nirvana será o estado de alma perfeito, tanto em termos de felicidade como de plenitude - tenho as minhas dúvidas. Mas a introspecção e a meditação do mundo e do nosso lugar nele é sem dúvida essencial e decisivo para a harmonia e o para o re-equilíbrio natural das coisas.

Considerações finais: a fotografia de Dong-hyeon Baek inebria-nos, a banda sonora de Ji-woong Park embala-nos e o todo sublime da obra entrega-nos em mãos uma experiência derradeiramente única - um autêntico retiro espiritual, ao qual podemos sempre voltar...

quinta-feira, 3 de junho de 2010

FEBRE TROPICAL (2004)

PONTUAÇÃO: [a atribuir]
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Título Original: Sud pralad
Realização: Apichatpong Weerasethakul
Principais Actores: Banlop Lomnoi, Sakda Kaewbuadee, Huai Dessom, Sirivech Jareonchon, Udom Promma

Crítica: [Em espera]




quarta-feira, 2 de junho de 2010

A DESAPARECIDA (1956)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: The Searchers
Realização: John Ford
Principais Actores: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Natalie Wood, John Qualen, Ward Bond, Olive Carey, Henry Brandon

Crítica:

RASTOS DE ÓDIO

Abre-se a porta e passamos da sombra à luz: rochedos altos e imponentes, uma paisagem empoeirada, com cheiro a terra e a suor, com um céu azul radioso, num todo absolutamente belo e extasiante. Bem-vindos ao Oeste, ao Oeste de John Ford, à imensidão de Monument Valley e às cavalgadas pelas pradarias de vegetação rarefeita, à América tradicional e empreendedora, ainda que racista e à procura de si própria.

Texas, 1868. Ethan Edwards (John Wayne, naquela que é unanimamente considerada uma das suas mais intensas e complexas interpretações) regressa da Guerra Civil, três anos após o seu término. Torna a casa de Aaron, o irmão, qual the Prodigal Brother!, onde vivem também a cunhada Martha (pela qual sente um amor não assumido que se depreende no subtexto narrativo), as sobrinhas Lucy e Debbie e Martin (Jeffrey Hunter), o órfão mestiço, eighth Cherokee. Ethan é um homem solitário e misterioso, forte e obstinado, com aura de herói mas não é propriamente um herói. Nutre um ódio de morte pelos índios (daí menosprezar Martin, apesar de o ter resgatado ao infortúnio, no passado) e tem atitudes humanamente desprezíveis, apesar de não ser também um vilão. É, pois, um ser humano em toda a sua ambiguidade, com motivações pessoais contraditórias e conflitos internos que doseiam a história de imprevisibilidade e realismo; e não mais um formato vazio, personagem-tipo de atirador sem dó nem piedade.

Na manhã seguinte à sua chegada, o Reverendo e Capitão Samuel Clayton (Ward Bond) vem buscar ajuda entre os homens da casa para solucionar um roubo de gado no rancho do vizinho Lars Jorgensen. Ethan ainda hesita, mas acaba por juntar-se a Martin na perseguição. Durante a sua ausência, todavia, um ataque de índios reduz a casa a chamas e cinzas e a tragédia abate-se sobre a família. Quando tornam, deparam-se com Aaron e Martha brutalmente chacinados e com os indícios do sequestro de Lucy e Debbie. A dor corrói-lhes então a alma. A sede de vingança, friamente personificada por Ethan, e a esperança de resgatar as pequenas, inesgotavelmente personificada por Martin, assumem-se determinantes para a desenfreada caça ao homem que empreenderiam durante cinco longos anos.

O argumento (Frank S. Nugent, a partir do romance de Alan LeMay) condensa um sem fim de frases memoráveis, um outro tanto de referências bíblicas e um leque de personagens memorável, mas acima de tudo uma trama extremamente bem escrita e bem construída, onde se cruzam com perfeição o drama, o melodrama, a acção, a aventura e, também, a comédia. A cena do casamento é, claramente, muito mais do que um ocasional compêndio de comic reliefs. Comic reliefs, esses, que, diga-se de passagem, pontuam a obra com alguma frequência. As implicações e os efeitos narrativos da leitura da carta, pela encantadora e apaixonada Laurie (Vera Miles), nomeadamente os cinco anos que por meio dela se condensam, resulta, quanto a mim, num dos feitos mais admiráveis do argumento.

Esses cinco longos anos são também uma odisseia pessoal de aproximação entre Ethan e Martin, ao jeito de relação pai-filho. Para o primeiro, é uma oportunidade para desenvolver laços emocionais com alguém e uma forma de atenuar os seus ódios e preconceitos raciais, por meio de uma maior compreensão da natureza humana e da pluralidade cultural. Para o segundo, é um caminho para atingir a maturidade, para cimentar e lutar pelos seus bons valores e princípios e para descobrir o amor. Aos poucos, apercebemo-nos das semelhanças entre Ethan e Scar, o índio-chefe dos Comanches - o que separa e diferencia os brancos dos índios é, afinal e essencialmente, os costumes. Somente os costumes. Há humanidade em ambos os povos. Heróis e vilões, bons e maus... em ambos os povos. O próprio cowboy se apercebe e se rende a essa realidade; daí a reviravolta final, que um close-up verdadeiramente notável já deixara antever: let's go home, Debbie.

Deste modo, A Desaparecida impõe-se, sob todos os primas, como uma viagem derradeiramente marcante, em que o western, consciente do seu simplismo maniqueísta, se aventura a abraçar novos horizontes, plenos de humanidade - tal como ela é: ambígua. Ao mesmo tempo que dá seguimento ao cânone, glorificando a paisagem mítica do Oeste, o filme condena o racismo e a violência que o próprio género representou, vezes e vezes sem conta. É por isso que lhe é indissociável uma forte ressonância reflexiva e moral sobre as consequências da violência e sobre a tragédia do choque de culturas. É, por isso mesmo também, um filme que marca a maturidade do género.

Eis, pois, um dos mais deslumbrantes filmes de sempre, magistralmente filmado por John Ford, dotado de um monumental trabalho de fotografia e iluminação (Winton C. Hoch), de um exímio trabalho de cenografia (James Basevi, Frank Hotaling e Victor A. Gangelin) e de uma magnífica composição musical (Max Steiner).

No final, dita a forma que se fine o círculo. A câmera recua para a escuridão do interior da casa. A paisagem fica ao longe. Ethan Edwards caminha, elegante e apaziguado, de regressa ao Oeste. A porta fecha-se.

Fica-nos um clássico absoluto. Absolutamente essencial.

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Notas adicionais (1) para a infeliz escolha do título português e (2) para a excepcional remasterização da mais recente versão do filme.

INTERVENÇÃO DIVINA (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Yadon ilaheyya
Realização: Elia Suleiman
Principais Actores: Elia Suleiman, Manal Khader, Nayef Fahoum Daher

Crítica:
A TRAGICOMÉDIA
DE DEUS E DOS HOMENS


Deus esqueceu-se dos Homens e os Homens enlouqueceram. Entre Israel e a Palestina, o conflito perdura há tanto tempo que não há mais esperança de paz, de coexistência pacífica e muito menos de Paraíso. O medo extinguiu as hipóteses de humanidade e o absurdo apoderou-se da realidade quotidiana. Apesar da seriedade e da sensibilidade que o tema exige, é preciso sabermos rir-nos de nós próprios. E é certo que o absurdo inspira e potencia o humor, do mais satírico e genuíno. Pois bem, é essa a fonte e a razão de ser deste magnífico Intervenção Divina, pelas mãos de Elia Suleiman, ele próprio israelo-palestino. Absolutamente brilhante, inteligente e provocador, de resoluções narrativas irreverentes e desconcertantes e dotado de uma imagética poderosíssima, o filme revela-se uma surpreendente e admirável obra de mestre.

Jerusalém é tomada pela loucura. Uma série de sequências mirabolantes concretiza a hipérbole de uma civilização assombrada por ódios culturais: um homem desempenha a tarefa épica de abrir a sua correspondência, carta por carta, um outro, que nem o diabo, é obececado pelo número 6, há um velho que colecciona garrafas de cerveja vazias no terraço, outros dois que, inalteráveis, assistem a tudo o que se passa com a maior atenção, há um homem que atira o lixo para o jardim do vizinho, há uma mulher que, por mania, aglomera a lenha do seu quintal, há um jovem que corre as ruas dando toques numa bola, há quem espere um autocarro que sabe que não vem, há carros mal-estacionados, obras públicas que importunam a consciência alheia, um povo altamente viciado em tabaco, mesmo que na cama do hospital, e que acena na rua sem trocar palavras, mas que se ofende mutuamente no silêncio. Enfim, nem o Pai Natal escapa a este devaneio colectivo, perseguido e assassinado nos campos da Nazaré.

Este é o estranhíssimo contexto para Uma Crónica de Amor e Sofrimento (como o subtítulo adianta) - a história do romance, senão impossível pelo menos improvável, entre o israelita E.S. e uma lindíssima mulher palestina. De notar que E.S. são as iniciais do próprio realizador e argumentista, Elia Suleiman, que também protagoniza o filme; detalhe que não é de todo ocasional, como é evidente. Intervenção Divina é um filme riquíssimo em simbologias, nem sempre de fácil descodificação. Um estacionamento na fronteira entre Jerusalém e Ramallah é o único local onde os dois amantes podem ter algum contacto, ainda que o desejo se fique apenas pelo intenso toque de mãos. Todavia, nem o único local para os encontros é perfeito. A poucos metros dali, com uma brutalidade e autoridade arrogante e abusiva, vários tropas inspeccionam os viajantes e os civis que transitam entre as duas regiões.

Formalmente eclética, Intervenção Divina caracteriza-se, grosso modo, pelas suas cenas demoradas e repetitivas, plenas de silêncios humanos, filmadas em planos estáticos e com uma mise en scène de minúcia e detalhe. A fotografia de Marc-André Batigne é, aliás, verdadeiramente excepcional e a arte de filmar e de abordar a comédia faz-se ao jeito hilariante de Jacques Tati. Mas há também todo um lado surreal, marcadamente ritmado pelas sonoridades de Mirwaise, Natacha Atlas, Mohammed Abdel Wahab, Amon Tobin, A. R. Rahman, entre outros. Um caroço basta para fazer explodir um tanque de guerra. Um andar de mulher, pleno de sensualidade, faz suspender as atenções dos guardas e inebriá-los em delicadeza. A mesma mulher que, qual Deus ex machina, transvia as balas inimigas numa milagrosa intervenção, arrumando os inimigos como ninjas de uma sequência de artes marciais, com efeitos especiais à la Matrix. Um balão vermelho, com o busto de Yasser Arafat, atravessa a fronteira e esvoaça pelo éter da poesia e dos prodígios semânticos, naquela que é, porventura, a sequência mais genial e erudita de toda a obra.

Nota especial para a cena final que, talvez melhor do que qualquer outra, metaforiza a explosiva situação vivida no Médio Oriente: mãe e filho esperam, sentados calmamente num sofá, que uma panela de pressão rebente ao lume. Excelente metáfora!...

Mais palavras para quê? Grande, grande filme. Politicamente mordaz, artisticamente sublime e humanamente audaz. Conquistou-me por inteiro.


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De resto, ficam - num aparte - os desejos para que Deus, se é que existe, desperte e intervenha, realmente. O quanto antes, se possível. E se não for pedir muito.


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CINEROAD ©2020 de Roberto Simões