segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

12 ANOS ESCRAVO (2013)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: 12 Years a Slave
Realização: Steve McQueen
Principais Actores: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Paul Giamatti, Lupita Nyong'o, Sarah Paulson, Brad Pitt, Alfre Woodard, Dwight Henry, Dickie Gravois, Bryan Batt, Ashley Dyke, Kelsey Scott, Scoot McNairy

Crítica:

NO TEMPO DA VERGONHA

I don't want to survive. I want to live.

12 Anos Escravo é daqueles filmes históricos, profundamente sérios e frontais, que, procurando retratar com verdade as atrocidades do passado, nos envergonham enquanto seres humanos e nos pesam numa consciência colectiva que jamais poderá cair no esquecimento. É a denominada história verídica, a transposição para o cinema da autobiografia de Solomon Northup, o cidadão negro letrado e livre na Nova Iorque de 1841, que se vê inadvertidamente enganado e raptado e tragicamente entregue à escravatura que ainda vigorava no sul do país, separado da mulher, dos filhos, da carreira de músico e de qualquer noção de liberdade. Mais tarde escreverá o livro que dará nome ao filme, relatando, de forma pormenorizada e sem floreados, o violento e absurdo desvio que a sua vida, às tantas, tomou, marcando-lhe para sempre o corpo e a alma. Até lá, 12 Anos Escravo é a história de um homem comercializado como gado, tratado que nem uma besta e humilhado simplesmente por ter uma cor dita amaldiçoada, de uma etnia igual mas monstruosamente inferiorizada desde o tempo das descobertas. Como se tivesse culpa de ter nascido. Tiram-lhe tudo, até o nome - passará a chamar-se Pratt. Tentará a todo o custo manter a lucidez e a esperteza, a fé e a esperança e aguardar pela hora certa para fugir, escapar ou escrever, na invisibilidade, a carta aos amigos que lhe poderão trazer a salvação - e a vida de volta.

I will not fall into despair! I will keep myself hardy until freedom is opportune!

A todo o instante, a fotografia de Sean Bobbitt extrai da natureza e da paisagem bucólica a maior beleza. Ainda que falte o sol, encoberto pelas nuvens. Sopra um ligeiro vento, mas nunca suficiente para abolir velhos costumes. A maravilha está no rio, nas árvores, nas folhas... até nas lagartas e na praga que, a dado momento, afecta a plantação de algodão. O cenário é idílico em contraste gritante com as chicotadas que silvam, vergam e dilaceram, com as cordas que soerguem, apertam e sufocam, com os gemidos que dos tormentos a medo se soltam, seja no silêncio da noite ou entre o ensurdecedor canto das cigarras, em pleno dia. Em cada estrada um caminhante traiçoeiro, em cada quinta um reles capataz ou um feroz senhor, sempre pronto a destilar o ódio e a desferir o golpe. Ford (Benedict Cumberbatch), apesar de dono de escravos, revela uma humanidade singular, mas Tibeats (Paul Dano), seu braço-direito, é de uma repulsa incompreensível para com Solomon e os restantes negros. Quando o violinista (visceral interpretação de Chiwetel Ejiofor) o enfrenta e, fora de si, o agride... espera-o a forca. A cena é, à semelhança de outras, um long take. Bem sabemos da predilecção de Steve McQueen pelas tomadas mais demoradas - lembramos a dureza de Fome. Dessa simplicidade e honestidade - não há truques de montagem, a câmera está parada e limita-se a observar - advém uma carga emocional brutal e uma sensação de realismo e autenticidade inegável. Essa cena é tanto ou mais perturbante quando notamos que os outros, à volta do castigado suspenso no nó, aparentam fazer a sua vida normalmente, pactuantes no medo e na necessidade impreterível de sobrevivência.

Survival is not about certain death, it is about keeping your head down. 

Salvo da forca mas não ileso e sem consequências, Solomon vê-se transferido para a herdade de Edwin Epps (assustadora, a entrega de Michael Fassbender). É recebido com palavras da Bíblia, mas é como se tivesse chegado ao Inferno. Epps é um alcoólatra tirano, em tudo incurável e doentio, um espírito fraco embora de uma força boçal, dominado pela ignorância, pela fragilidade e pelos ciúmes da mulher. É incompreensivelmente (para ele) obcecado pelos encantos carnais de Patsey (Lupita Nyong'o, num papel tão penoso quanto arrebatador), o que desencadeará nalguns dos instantes mais irascíveis, sofridos e chocantes de toda a obra. Para Solomon, o futuro desvanece-se então de dia para dia, como um sol que perde calor. Quando, assolado pela desilusão, destrói em pedaços o violino que o patrão Ford lhe dera em tempos, percebemos que a sua esperança está por um fio. A sua honra e a sua dignidade, há muito que as perdeu. Encontrará alguma luz ou benfeitor no seu poço sem fundo? Haverão lágrimas, ainda, capazes de lhe encher os olhos de felicidade? Tornará a sentir um beijo ou um abraço? Ficam as respostas para quem assiste ao filme e ao seu terno final.

McQueen, num exercício de proximidade tremendo - a câmera está a maior parte do tempo sobre os actores, em planos fechados e intimistas, alternando muitas vezes o focar e o desfocar - potencia as excepcionais performances do elenco, a que se juntam nomes como Brad Pitt (ele também produtor) e Paul Giamatti. Hans Zimmer assina a banda sonora minimalista, pontuando o filme com a sua envolvência, convocando à reflexão - esse mérito maior, todavia, provém sobretudo do trabalho dos actores, dos seus olhares brilhantes e plenos de verdade na história que contam, na História que representam. Que o presente e o futuro ponham fim à injustiça. Tantos anos após a abolição da escravatura, as feridas ainda se sentem na pele: na desigualdade, na descriminação, no racismo. Fica a vergonha e a arte - mas que fiquem, como alerta.

Laws change (...) Universal truths are constant. It is a fact, a plain and simple fact, that what is true and right is true and right for all. White and black alike.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

BIRDMAN OU A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance)
Realização: Alejandro Gonzalez Iñárritu
Principais Actores: Michael Keaton, Emma Stone, Naomi Watts, Edward Norton, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Lindsay Duncan, Jeremy Shamos, Natalie Gold, Merritt Wever 

Crítica:

O METEORITO E AS ALFORRECAS

A thing is a thing, not what is said of that thing.

Mas - permitam-me começar com a adversativa - como é que raio ou meteorito fizeram este inacreditável filme? Prodígio técnico absoluto - na câmera, na encenação e na representação -, assistir a Birdman será sempre um deslumbramento. O rigor e o formalismo jamais se esgotam em si mesmos, antes acentuam o realismo e a sensação de que assistimos a uma grande peça de teatro, com uma peça de teatro lá dentro. Sufoca-nos, a nós e às personagens, a claustrofobia daqueles corredores intermináveis, dos camarins minúsculos e da iluminação soturna e sempre artificial do backstage. Sufoca-nos, tão-mormente, aqueles geniais e engenhosos planos-sequência que se unem e fluem como um só. Não admira, pois, que quando a câmera acompanha as personagens ao topo do edifício ou numa saída à rua - alia-se geralmente a sinfonia - nós e o filme inspiremos e expiremos profundamente, numa prazerosa lufada de oxigénio. Nós e o filme, nós e as personagens - sempre: os travellings perseguitórios tornam-nos íntimos e cúmplices e, quais personagens, deambulamos pelo set, vivendo as suas angústias.

Michael Keaton, Naomi Watts e Edward Norton arrasam em atuações excepcionais. São actores a fazer de actores e o filme é, em parte, sobre o que significa ser actor. A busca, sempre crescente, do sucesso e do reconhecimento - ou da alimentação do ego. A procura da representação da verdade na ficção perante o risco de, sem perceber, se representar a vida, tornando-a uma trágica mentira. Note-se o caso de Mike (Norton) para quem o palco é o único sítio onde consegue ser autêntico e ter, com facilidade, uma erecção, sendo capaz de pôr toda a peça em risco em nome da verdade e das sensações genuínas. Note-se o caso de Lesley (Watts) que sempre sonhou ser actriz da Broadway e que, tornando-se finalmente quem sempre quis ser, se esbate com as inseguranças de menina. Note-se Riggan (Keaton, o protagonista) que investe tudo o que tem e o que é na derradeira tentativa de regresso aos êxitos e de não cair no esquecimento (relação metadiagética com a situação real do próprio actor), numa era em que se atropelam as sequelas de super-heróis (a sátira é clara) e a memória da trilogia Birdman, onde estrelou, se apaga a cada dia. Riggan é o meteorito com que a obra abre, a estrela-cadente que, plena de frustração e de incapacidade em superar-se e em renovar-se, conhecerá a morte no impacto que se aproxima. A imagem é belíssima. Conseguirá ele reerguer-se e tornar ao firmamento, ausente que está dos fenómenos virais da sua atualidade como o facebook, o youtube ou o twitter? Abismado que está pelas dúvidas existenciais, pela honra ferida e pela crítica feroz? Riggan está sozinho entre um elenco de egos. E ninguém parece disposto a dar-lhe a mão. This stage has belonged to a lot of great actors, but you are not one of them - diz-lhe Mike, a dado momento, confrontando-o - You nobody piece of shit! (...) My massive hard-on got 50,000 views on YouTube. A cat playing with a dildo gets more than that. O seu alter ego, com quem tantas vezes dialoga na solidão e que não é senão a voz do seu Birdman de outros tempos, tão depressa o endeusa como o desmoraliza: without me, all that's left is you... a sad, selfish, mediocre actor... grasping at the last vestiges of his career. A crítica Tabhita Dickson devasta-o: you're no actor, you're a celebrity. Let's be clear on that. E até a melancólica filha Sam (brilhante Emma Stone) o chama à razão: you're doing this because you're scared to death, like the rest of us, that you don't matter. And you know what? You're right. You don't. It's not important. You're not important. Get used to it. Quais alforrecas, todos se lhe colam e queimam o corpo e a alma. Não admira, portanto, que o desencanto triunfe e que o suicídio seja encarado como a única solução - e salvação. Terá um ego tão inflamado, mesmo na desilusão, coragem para tamanho feito?

Com Birdman, Alejandro G. Iñárritu lembra-nos por que é, afinal, um dos mais ambiciosos e mais estudados cineastas deste início de século - lembremos, a título de exemplo, Babelesse seu extraordinário filme-mosaico, cuja urgência é gritante e a excelência completamente irrevogável. E quando utilizo o adjectivo estudado (não me justificarei quanto ao ambicioso, porque acho que a obra fala por si), utilizo-o na sua dupla acepção: não apenas no sentido em que o estudam, mas sobretudo no sentido em que Iñárritu estudou e conhece o legado que a sua arte e os seus mestres lhe deixaram. Só se pode procurar ser original e inovador, num mundo onde já tudo foi inventado, se estudarmos o melhor possível a nossa arte, os clássicos e o que já foi feito. Até imitar não é para todos e saber imitar bem uma obra de arte. O mesmo é válido para qualquer cinéfilo ou crítico: a nossa apreciação de filmes como este só beneficiará se tivermos assistido ao A Corda de Hitchcock ou se soubermos mais sobre as experiências e as propostas que têm sido feitas com os planos-sequência ao longo dos tempos. O estudo é importante. Da mesma forma é estúpido criticar Iñárritu só porque é audaz ou reúne esta ou aquela influência. Chamam-lhe, alguns, arrogância. À leviandade desses alguns, chamaria, por cortesia, inesperada virtude da ignorância. Por mais que se rodeie de alforrecas, se há coisa que Iñárritu não é é seguramente um meteorito; excepto na força. O seu trajecto é claramente inverso e ascendente. O cineasta arquitecta e concretiza aqui mais um desafiante e brioso exercício de estilo, distante de clichés, matematicamente preciso e assaz meticuloso e sem grandes truques de montagem, que se transcende em criatividade e emoções, sempre atento às fragilidades da condição humana. Não tenhamos dúvidas: Birdman é o fascinante resultado de ensaios, ensaios e mais ensaios, muita dedicação, paixão e entrega à arte e, claro, de uma boa dose de loucura. O assustador trabalho de Emmanuel Lubezki revela-se, em tudo e por tudo, absolutamente épico.

Por isto, estamos perante um imperioso triunfo - um filme para a vida.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

A BRUXA (2015)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: The VVitch: A New-Englad Folktale
Realização: Robert Eggers
Principais Actores: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Bathsheba Garnett, Wahab Chaudhry, Julian Richings, Sarah Stephens  

Crítica:

When I sleep, my spirit slips away from my body...

UM CONTO SATÂNICO

... and dances naked with The Devil.

Algumas extraordinárias e insólitas composições musicais, quando perfeitamente aliadas às mais enigmáticas motion pictures, têm o dom e o poder de tocar o divino. É o caso, por exemplo, dos coros atonais de Ligeti, que imortalizaram o aparecimento do monólito aos primeiros Homens, na obra-prima de Kubrick 2001: Odisseia no Espaço. É o caso, também, da ensurdecedora confusão de cordas e percussões - proposta por Jonny Greenwood - para marcar a explosão do poço de petróleo na numa das mais emblemáticas cenas de Haverá Sangue, de P. T. Anderson. Num caso como no outro, a música impõe - ao filme e ao espectador - estranheza, incómodo e até algum mal-estar. Neste arrepiante A Bruxa, Mark Coven, o compositor, parece ter aprendido com os melhores. Neles bebeu, claramente, inspiração. Caleb's Seduction, por exemplo, imita o Requiem de Ligeti e todos os seus efeitos perturbantes e repulsivos, conduzindo o silêncio do suspense aos mais periclitantes picos da adrenalina e do terror. Na realização, o estreante Robert Eggers nunca atinge, é certo, a dimensão visionária de qualquer um dos realizadores atrás mencionados. Não obstante, concretiza um sólido e por demais virtuoso trabalho de contenção, potenciando o terror psicológico como poucos e causando, certamente, alguns suores frios. A Bruxa poderá nunca atingir o divino, mas jamais terá sido esse o objectivo. A Bruxa é obra do diabo!

Este será sempre um filme de autor: Eggers assina também o argumento. E se há palavra que o caracteriza, tanto na arte de escrever como na arte de filmar, é economia. Poucas vezes estaremos perante um filme tão económico - não há um diálogo a mais, uma palavra a menos, não há uma cena a mais ou um shot a menos. Tudo, nesta belíssima obra, se reduz ao essencial. Cada imagem ou cada som tem a sua carga significante. Mas A Bruxa é também um filme de significados ocultos, de símbolos atrás de símbolos cuja interpretação - e muitas vezes ambiguidade - enriquecerá o sentido da história, permitindo decifrá-la.

New England, na obscura década de 30 do século XVII. O âmago da história é uma família de sete elementos - imigrante, pobre e profundamente religiosa e supersticiosa - cuja devota e doentia existência se resume tão-somente à Bíblia, como se respirassem o evangelho de manhã à noite e o seu pão na mesa fosse a palavra sagrada e a sua literal interpretação. Expulsos pela própria Igreja da comunidade e plantação onde viviam - tal era a sua cega e fervorosa paixão pelos testamentos de Deus, considerada uma tremenda ameaça e tudo menos bem-vinda - encontram, nos terrenos bravios na orla de uma densa e misteriosa floresta, o local ideal para o recomeço. Totalmente isolados do mundo - a aldeia mais próxima fica a largas horas de viagem - têm-se a si próprios, aos seus medos e anseios e a um conhecimento por demais limitado para extrair da terra a abundância necessária a uma vivência cómoda e estável. Temos William, o pai (Ralph Ineson, dotado de um impressionante tom gutural), de todos o mais puritano e que a toda a hora lembra as parábolas e as figuras bíblicas, que deverão guiar as ações dos filhos e livrá-los do pecado. Temos Katherine, a mãe (Kate Dickie), que não tardará a ceder à dúvida e à histeria. E depois temos 5 filhos: o mais novo, Samuel, é um bebé inofensivo. Seguem-se dois gémeos, Mercy e Jonas (Ellie Grainger e Lucas Dawson), duas diabruras mal-comportadas e indomáveis. Mercy é plena de ironia no nome - se há coisa que não terá por ninguém será precisamente misericórdia, quando muito não seja pelos seus repetidos gritos estridentes. Temos Caleb (Harvey Scrimshaw), por demais curioso e fascinado com os relatos bíblicos do pai e por fim, mas não menos importante - pelo contrário -, temos Thomasin (Anya Taylor-Joy, promissora revelação), a filha mais velha, sobre a qual a câmera abre e encerra o filme. De olhar intenso e intrincado, a jovem servirá de bode expiatório para justificar tudo o que de inexplicável e hediondo vier a acontecer - e que será muito.

Sempre presente, a floresta como pano de fundo - a observar, a escutar... Virgem e intocada, é vítima das piores suspeitas e da mais supersticiosa ignorância, como se da fonte de todo o Mal se tratasse, onde retorcidas forças se dispõem para atacar sem motivo aparente, a qualquer instante. Por isso, está decidido que a devem evitar. A floresta desempenha n'A Bruxa, portanto, papel semelhante ao que desempenhara n'A Vila, de Shyamalan, em que atravessá-la significava transgredir as fronteiras do medo rumo ao temido desconhecido.

Tornemos a Thomasin, que desde logo assume o protagonismo. Certa vez, enquanto brinca com Samuel perante a floresta, o bebé desaparece-lhe como por magia. Vêem-se ervas secas a mexer-se, na direcção do arvoredo. Samuel é raptado e não se sabe por quem, desencadeando a acção. A mãe apressar-se-á a culpá-la - antes disso, porém, acompanharemos, na escuridão da noite, uma bruxa into the woods e de bebé ao colo, pronta para mutilá-lo e, num acto de canibalismo, prová-lo. Qual lobo mau no conto popular infantil do Capuchinho Vermelho, ávido de criancinhas inocentes. Mais tarde, quando Caleb e Thomasin, quais Hansel e Gretel, se aventuram pelo bosque, noite adentro, na tentativa de aliviar a escassez e de encontrar caça e recursos que impeçam os pais de a vender na aldeia - por já ter formas maduras - Caleb encontra uma lebre de olhar suspicaz e perde-se da irmã. Acaba por encontrar o grutesco lar da bruxa que logo avança para ele, voluptuosa e sedutora, o beija e experimenta, corrompendo-lhe o corpo e a alma, num acto de - aos olhos de hoje - pura pedofilia. Thomasin regressa então a casa, tendo, sem querer, entregue à morte mais um dos irmãos que tanto amava. E será a Thomasin que Caleb lhe aparecerá, no mais chuvoso e nocturno breu, nu e possesso, como que envenenado pela bruxa cuja existência, aos olhos de todos, nunca foi comprovada. Até da boca lhe tira o pai uma maçã - clara alusão ao conto da Branca de Neve. A cena que se segue é das mais impressionantes de todo o filme: o momento em que a família, desesperada com a maldição, dá entre si as mãos à volta do leito de Caleb, rezando e implorando pelo exorcismo e pela cura. É como se Deus e o Diabo medissem forças. É a cena nuclear, em que se confrontam uns aos outros na tentativa de entender a maldição e a experiência sobrenatural que se lhes impõe, implacavelmente. Nela acreditam mas, simultaneamente, não querem acreditar. É a altura em que se percebe, claramente, de que lado estão os gémeos, que se recusam a rezar perante as bizarrias e bruxedos que Caleb, no acesso de loucura, tão fortemente profere: A cat. A crow. A raven. A great black dog. A wolf. She desires of my blood. She sends em upon me! They feed upon her teats, her nether parts! She sends em upon me. Sufocam-nos as cordas de Coven e os gémeos repetem, incessantemente, contorcendo-se no chão: She desires of my blood! She desires of my blood! Quando as cordas se calam e se silencia a força derrotada, as culpas recaem novamente sobre Thomasin. Como se fosse ela a bruxa, a infiel, a pactuante com a Besta. Nós, espectadores, pela forma como Eggers joga o seu xadrez, sabemo-la injustiçada. E é precisamente por jogar, desde o início, de forma pouco clara e pouco explicativa que se instala a dúvida. Coloca-nos o realizador, ao fim e ao cabo, no lugar e sob o prisma de qualquer elemento daquela família, prostrado e incapacitado face à violência da inevitabilidade e da fatalidade. A problemática da origem do Mal relacionada com as crianças lembra-nos, a espaços, o ensaio de Haneke, o magistral O Laço Branco.

Quando, anteriormente, à beira do riacho e perante a floresta, Thomasin ouve Mercy falar de uma bruxa da floresta e a assusta dizendo I am that very witch. When I sleep my spirit slips away from my body and dances naked with The Devil. That's how I signed his book. (...) He bade me bring him an unbaptized babe, so I stole Sam, and I gave him to my master. And Ill make any man or thing else vanish I like. Aye. And Ill vanish thee too if thou displeaseth me... acreditamos que apenas brinca com a fedelha. How I crave to sink my teeth into thy pink flesh. If ever thou tellst thy mother of this, I will witch thee and thy mother! And Jonas too! No entanto, não tardará a perceber que tudo o que disser perante a floresta tenderá a ser entendido como uma proposta aceite pelo Diabo, invocado e cultuado pelas bruxas e corpóreo na forma do Black Phillip, o negro bode - símbolo pagão e satânico - que a família alimenta e ignora. O mesmo que os gémeos afirmaram segredar-lhes e que tão alto cantaram aos céus: Black Phillip, Black Phillip, King of sky and land! O mesmo que o pai se recusa a acreditar que seja o Diabo, quando mais tarde encerra os restantes filhos no estábulo, a tábuas e pregos, na companhia do malvado animal e das cabras, como que os castigando ou protegendo. Como se o lobo não destruísse casas de madeira (referência a'Os Três Porquinhos). If that old billy be The Devil - lança o pai, na presença da floresta - I would have danced with him myself. Proposta que o Baphomet se prontifica a aceitar. E não tardará muito a marrar mortalmente contra ele e contra as pilhas de lenha que William tão bem cortou ao longo do filme (Thomasin chega a dizer-lhe, a dado momento: Thou canst do nothing save cut wood!). Os gémeos desaparecem na hora da bruxa, pela ainda escura madrugada, quando esta visita o estábulo, sedenta não de leite mas de sangue de cabra. À mesma hora em que Katherin se levanta da cama e tem uma visão improvável: Caleb aparece-lhe de Samuel ao colo, como que regressados do Inferno, e o bebé dá lugar a um corvo, que lhe debica o seio, na profusão dos símbolos. A imagem é macabra e transtorna-nos. O Mal manifesta-se, pois, numa pluralidade de formas. Revela-se, portanto, um pacto secreto e por demais perverso entre os agentes do Mal, servas bruxas e reles Diabo, que se concretiza numa divertida - e para nós e para as personagens absolutamente aterradora - brincadeira de sangue e morte. O jogo da eliminação continua, caindo os peões uns atrás dos outros, sem qualquer clemência.

O conflito do feminino - foi notória desde o início a especial dificuldade de relacionamento entre a mãe e as filhas e as filhas entre si - conhece um duelo sem precedentes. Estamos no último acto e a mãe sai à rua, completamente desvairada e fora de si, cobrando à filha mais velha - que já lhe competia nas formas - a tragédia que se abatera sobre a família. You have made a covenant with death! You bewitched thy brother, proud slut! Did you not think I saw thy sluttish looks to him, bewitching his eye as any whore? And thy father next! You took them from me! (...) Witch! É caso para dizer: santa ignorância, pensamos. E desfere-se o golpe final, quebrando a inocência, provando o sangue. Estava principiado o ritual. O plano é de afastamento médio e a fotografia (Jarin Blaschke), sempre com luz natural, cores esmorecidas e abrilhantada pela incrível recriação histórica do guarda-roupa (Linda Muir), lembra Veermer ou outros mestres da idade de ouro da pintura holandesa; como nos lembrou noutros instantes, nomeadamente quando os pais olham para Caleb na sepultura, envoltos no frio da paisagem e na companhia da casa, fumegante. O plano, dizia, é incrível e abre lentamente à medida que Thomasin se levanta, enquadrando o pai, ali também caído ao lado, e o restante cenário de destruição. Quando entra em casa, a jovem cobre-se com um manto, senta-se e apoia a cabeça na mesa. O silêncio é imperioso. Fade out. E o filme poderia acabar ali, deixando em aberto o porquê de Thomasin ser a única sobrevivente de tudo aquilo.

Não obstante, há uma coda, a fechar o conto. E o bode ainda está vivo, claro está. Cumprir-se-á o ritual no abraço da floresta, a floresta que ouviu Thomasin, ainda que em vão, e que aceitou a sua proposta. O chifrudo rirá por último, vitorioso sobre qualquer reza ou súplica. Há coisas, dizem os supersticiosos, com as quais não devemos brincar e muito menos pronunciar. Ora bem, A Bruxa é um filme supersticioso, com personagens supersticiosas num tempo em que, longe do esclarecimento científico, a superstição dominava. Não tardaria a começar um dos períodos mais intensos da caça às bruxas nos Estados Unidos, que ficou marcado nomeadamente pelo icónico episódio das Bruxas de Salém, no final do século.

I will guide thy hand...

Por tudo isto, que exímio contador de histórias se revela Robert Eggers - que inclusivé consultou relatos históricos das autoridades de então para recriar as expressões e as falas das personagens, tão focado que estava no episteme e no escape a revisionismos. O subtítulo da obra aponta precisamente para esta natureza real e folclórica do conto. A viagem no tempo parece-nos, por isso, cabalmente plausível. É de filmes destes, superiores, que o género precisa para se vitalizar. Bem, parece-me que está de boa saúde. A Bruxa é um autêntico clássico instantâneo - e nem vou arriscar a dizer o contrário, não vá o Diabo tecê-las!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CRIMSON PEAK - A COLINA VERMELHA (2015)

PONTUAÇÃO: BOM 
★★★★ 
Título Original: Crimson Peak
Realização: Guillermo del Toro
Principais Actores: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston, Charlie Hunnam, Jim Beaver, Burn Gorman

Crítica:

A MANSÃO ASSOMBRADA 

A house as old as this one becomes,
in time, a living thing.
 

Crimson Peak - A Colina Vermelha é um romance gótico - não propriamente um filme de terror. A diferenciação ou precisão parecem-me não só urgentes e importantes como absolutamente imprescindíveis no que toca à gestão das expectativas que conduzirão o espectador ao filme e ao entendimento que depois o mesmo fará dos contornos dramáticos que a obra ganhará, em crescendo, ao longo da sua duração.

De um dos mais belos filmes de 2015 jamais se poderá esperar - tão-somente - o susto pelo susto, o macabro pelo macabro ou o brutal pelo brutal - ou seja, a gratuitidade que, não raras as vezes, estupidifica e diminui o género terror. Ao deambularmos - e na possibilidade de nos perdermos - pelos ruidosos e incontáveis corredores de Allerdale Hall, cruzar-nos-emos, na verdade, com todos eles: com o susto ao virar da esquina, com o macabro atrás de cada porta e com o brutal um pouco por todo o lado, mas sempre prioritária e poderosamente sustentados num background, numa história cujo alicerce é, imperioso, o amor. Os ecos do género terror estão omnipresentes no conteúdo, no contexto e até na forma, é certo, mas é a natureza da história e o que a motiva que a diferencia. Acompanharemos a viagem emocional das personagens e no final perceberemos: os monstros não são, como julgávamos, os fantasmas e os espíritos inquietos dos que morreram e que por ali pairam. Os verdadeiros monstros - e os que mais nos apavoram - são os que por cá ficaram, vivos, desferindo golpes e feridas e manchando de sangue a neve, tanto mais do que qualquer argila-vermelha que das profundezas da terra possa surgir. O que seria de esperar de Guillermo del Toro, aliás, ou não tivéssemos nós assistido ao maravilhoso O Labirinto do Fauno, onde as personagens da vida real eram tão mais cruéis e assustadoras do que as de qualquer fantasia.

But the horror... The horror was for love. The things we do for love like this are ugly, mad, full of sweat and regret. This love burns you and maims you and twists you inside out. It is a monstrous love and it makes monsters of us all.

Há toda uma dimensão feminina, típica do sub-género: Edith Cushing, a protagonista (Mia Wasikowska), desde pequena que tem canal aberto com o além e é assombrada pelo fantasma da mãe falecida. Lucille Sharpe, a antagonista (arrepiante desempenho de Jessica Chastain), tem um passado misterioso que tenderá a revelar-se, à medida que a investigação de Edith ganha força e os segredos, mergulhados, vêm ao de cima. No centro, Thomas Sharpe, irmão de Lucille (Tom Hiddleston, charmoso e carismático), disputado pelas duas mulheres. O amor, que justificará - como sempre - todos os actos psicóticos de Lucille, desencadeará toda a acção e precipitará, inevitavelmente, a tragédia. Com a morte do pai, Edith vê-se sozinha no mundo e embarca para a Europa, entregando-se, desesperançada, ao casamento - um casamento, da parte dela, claramente mais por escape à desilusão da realidade, fruto de uma paixão romântica que a cegou e a impediu, com lucidez e inteligência, de analisar o carácter novelesco de Thomas, o homem aparentemente perfeito. Rapidamente essa paixão se esfumará, dando lugar à desconfiança e ao desencanto de um relacionamento escaldado, mecânico, que se degradará por imperativo das circunstâncias. Ela, que sempre se achou à frente do seu tempo, ver-se-á agora encarcerada e sufocada no mais funesto pesadelo. Temos ainda o bondoso e apaixonado doutor Alan (Charlie Hunnam), único elo ao passado de Edith na América, que arrisca tudo pela amada na tentativa de, ciente da natureza vil dos Sharpe, alterar o desfecho da trama. Um elenco ao mais alto nível, pelo que podemos dizer que estamos perante um portentoso filme de actores.

Crimson Peak 
tem o cunho e a assinatura inconfundíveis de del Toro. Não admira, portanto, que seja um filme extraordinariamente estilizado. E embora recorra ao digital, del Toro resiste-lhe, como de costume, com uma tenacidade criativa e uma visão por demais inspirada. Note-se o detalhe e perfeccionismo dos cenários e decoração (Thomas E. Sanders, Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau) - o palacete é, todo ele, um organismo vivo, arquejante. É como se cheirasse a morte. Sangra de argila e tem, em cada recanto, a memória do tempo e do sofrimento das pessoas que por lá viveram. Tudo o que por lá se passou e tudo o que por lá se passa é mais do que suficiente para afastar qualquer hóspede ou curioso. No entanto, tem toda uma aura mística, um lúgubre magnetismo, que chama, enleia e aprisiona as suas vítimas, adoecendo-as, apodrecendo-as. O isolamento geográfico e o rigor do inverno são, na pior estação, os mais fiéis e terríveis aliados da casa. O primor e requinte artísticos estendem-se aos figurinos (Kate Hawley), também eles essenciais para a criação da atmosfera e daquele imaginário e a fotografia (Dan Laustsen) eleva e apura, definitivamente, o esplendor visual de toda a obra. A sonoplastia e a banda sonora magistral (Fernando Velásquez) são essenciais para orquestrar o suspense e as emoções, potenciando a carga dramática e criando um elo emocional com a história e com os espectadores. Os temas musicais são absolutamente belíssimos, capazes de  nos provocar a mais genuína e sentida comoção.

Por tudo isto, Crimson Peak é um filme do coração. Abrimo-lo, primeiramente, para entrar naquele misterioso e sinistro universo, que nos atrai - e que cedo nos adverte: Beware of Crimson Peak - e depois envolvemo-nos, angustiamo-nos e por fim sangramos, qual casa, quais personagens. Não sendo, propriamente, um ás da câmera - e é certo que, narrativamente, a história merecia um pouco mais de densidade - Guillermo del Toro apresenta-nos um belo e emotivo pedaço de cinema, forjado, como poucos, num faustoso e elegante ambiente gótico. Um deleitoso festim para os nossos sentidos.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

SINÉDOQUE, NOVA IORQUE (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★
Título Original: Synecdoche, New York
Realização: Charlie Kaufman
Principais Actores: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Michelle Williams, Samantha Morton, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan, Emily Watson, Hope Davis, Dianne Wiest, Deirdre O'Connell

Crítica:

O GRANDE ENSAIO 

The end is built into the beginning.

À primeira tentativa, Sinédoque, Nova Iorque adormeceu-me. Não terei assistido a mais do que quinze, vinte minutos, na verdade, e depois esteve na prateleira, na companhia de outros tantos títulos, durante seis ou sete anos. Até que, finalmente, me voltou a chamar. Ensonou-me não porque se tratasse necessariamente de um filme mau - quantos não são os factores que nos levam a adormecer. Os filmes de Malick, que tanto adoro, por exemplo, embalaram-me já um par de vezes - inebriam-me, o que posso fazer, mexem com o meu subconsciente. E suspeito que, tendencialmente e com os anos, o sucedido me virá a acontecer ainda mais vezes. Ter-me-ia então, o filme, efetivamente aborrecido? Não seria de estranhar: Caden Cotard (brilhante interpretação de Philip Seymour Hoffman) é, provavelmente, a personagem mais aborrecida e deprimida de que há memória. Não, certamente que não: Caden Cotard é, para o espectador, uma criação por demais rica, enigmática e fascinante. Cessarei, por isso, de tentar culpar o filme, até porque o fait diver de ter adormecido não é mais do que isso, um fait diver - pessoal e sem qualquer importância. O que importa é que, atendendo ao chamamento, vi o filme. E fiquei maravilhado: é extraordinário. Não tardará a chamar-me mais vezes. Conto ficar acordado.

Quem é Caden Cotard e sobre o que fala o filme? Bem, Caden é um encenador de teatro, casado e com uma filha. Vive rodeado de gente, no entanto está mergulhado na solidão e à beira do abismo - e assim viverá toda a vida. Sem qualquer resquício de amor-próprio, é convictamente aborrecido, deprimido, falhado, frustrado, desesperançado, paranóico e hipocondríaco (corre todos os médicos e especialidades, tem todos os sintomas e mais alguns e urina ou defeca sangue com alguma regularidade - quando não o faz certamente que imagina que sim). É incapaz de exprimir sentimentos ou sensações genuínas, já quase que não saliva ou lacrimeja e tem que estimular o corpo nesse sentido, não vá secar-lhe a alma. É mau marido, mau pai, faz terapia de casal e individual, lê livros de auto-ajuda e jornais (nos quais apenas destaca as más notícias e os obituários) e é obsessivo com as limpezas e com o trabalho. Revê-se nos reclames da televisão e até nos desenhos animados, nas situações mais indesejadas. É o centro do mundo, os arredores e a totalidade. Pintado este quadro, não admira que não divirta nada nem ninguém, que todos se fartem dele e que venha a tentar o suicídio. É masoquista, não sabe ser de outra forma, gostaria de ser de outra forma, mas nada faz para isso. A sua melhor definição é capaz de ser a que Millicent Weems, personagem de Dianne Wiest, às tantas lança:

Caden Cotard is a man already dead, living in a half-world between stasis and antistasis. Time is concentrated and chronology confused for him. Up until recently he has strived valiantly to make sense of his situation, but now he has turned to stone. 

O seu nome não é ocasional ou não fosse o síndrome de Cotard o síndrome do cadáver ambulante.

Certo dia, empreende o impossível: replicar, num enorme armazém, a cidade e nela a sua vida, naquela que será, plena de verdade, a maior peça de teatro de todos os tempos. Como se pela representação do teatro vivesse a vida realmente. I won't settle for anything less than the brutal truth. Brutal. Esta peça - por baptizar - replicará, portanto, a trama de Sinédoque, Nova Iorque. Tremendo, o efeito de mise en abyme. Joga-se o microcosmos pelo macrocosmos, a parte pelo todo: a sinédoque do título, como resurso de estilo. Sammy fará de Caden. Claire (sua segunda mulher, interpretada por Michelle Williams) fará de Adele (sua primeira mulher, interpretada por Catherine Keener). Tammy (sua quarta mulher, interpretada por Emily Watson) fará de Hazel (sua terceira mulher, interpretada por Samantha Morton, de todas a que mais genuinamente o amou e a que mais genuinamente por ele foi amada: Hazel, you've been a part of me forever. Don't you know that? I breathe your name in every exhalation) e assim sucessivamente. À medida que cada personagem nova entra em cena no filme, uma nova personagem entra em cena na peça, tendo implicações directas no rumo da acção.

A épica aventura durará quase uma vida, pois o tempo voa, na montagem e na palavra. Caden casa-se, separa-se, desdobra-se em funerais. A acção de todo o filme contemplará, ao todo, cerca de cinquenta anos, tantos dos quais a trabalhar na peça. Com ela, apercebemo-nos do poder insolitamente magnetizante do protagonista. Afinal, apesar de constante e irremediavelmente abandonado (não as terá ele também abandonado a todas?) por uma e outra mulher (ou pelas filhas - a propósito, é especialmente tocante a cena da despedida da filha Olive, onde até aí a comunicação é dificultada), conseguirá sempre atrair os interesses de alguém - e é como se os atraísse para a morte, porque jamais serão felizes ou se realizarão a seu lado. É o caso do enigmático Sammy (Tom Noonan), que desde cedo o persegue e só mais tarde se revela: sabe tudo sobre ele e, qual alter ego, será capaz de confrontá-lo consigo próprio. Atrai sobretudo actores - o elenco da sua companhia resistirá estoicamente à passagem do tempo, ao seu perfeccionismo doentio, às suas mudanças de humor e às intermináveis alterações no guião. Um a um, todos com quem alguma vez interage ou contracena se findarão - e só ele, que para todos os efeitos está morto, não conhece a morte. O assunto da sua vida é, pois, o assunto do seu espetáculo:

I will be dying and so will you, and so will everyone here. That's what I want to explore. We're all hurtling towards death, yet here we are for the moment, alive. Each of us knowing we're going to die, each of us secretly believing we won't.
Caden Cotard

Jon Brion, compositor do redentor Magnólia de P. T. Anderson, assina a espirituosa banda sonora, que tão bem se coaduna com a soturna alma do filme e que tão bem conduz o espectador pela melancólica e sentimental viagem, repleta de imagens incríveis em tão poéticos momentos... a casa que arde e fumega, o enorme dirigível que irrompe pelos céus da falsa cidade ou a pétala que cai da flor tatuada... qual lágrima de um olhar molhado. A cada compasso, cada vez mais fantástico e desolador, filme e peça misturam-se magistralmente. O hiper-realismo converte-se numa metalinguística abstracta e quase indecifrável. A ficção e a realidade da ficção confundem-se, pois, e tornando-se indissociáveis. Qual delas a mais verdadeira? A mais real? Não é possível dizer... Rendidos à magia do que nos é apresentado, resta-nos concluir o mesmo que o protagonista: there are nearly thirteen million people in the world. None of those people is an extra. They're all the leads of their own stories. They have to be given their due. - e esperar que o mesmo ainda vá a tempo de se viver a si próprio, livre e despojado da tão infectada e mórbida consciência que tanto o assombrou e inutilizou, depois do grande ensaio. 

Charlie Kaufman. Só agora, neste ponto do texto, menciono o seu nome? Tudo o que falei para trás espelha o seu génio. Charlie Kaufman é um artista maior. Os seus argumentos, ousados e originais, ensaiam a condição humana e expõem-na da forma mais criativa nos seus peculiares diálogos, personagens, situações e universos. Queres ser John Malkovich? e Inadaptado, ambos realizados por Spike Jonze, surpreenderam o mundo e o virar do século por isso mesmo e, anos depois, o esplêndido e apaixonante O Despertar da Mente, de Michel Gondry, trouxe ainda mais reconhecimento à sua inconfundível identidade artística. Qual deus, Kaufman joga com o ser humano: constrói e desconstrói ficções e realidades, brinca e baralha o espectador, lança-o numa espécie de limbo interpretativo, não poucas vezes absurdo, confundindo drama e comédia, originando a dramédia. As suas personagens, alienadas, como que procuram o sentido da existência. E com Sinédoque, Nova Iorque - que diria que é, até ao momento, a sua mais arrojada e ambiciosa proposta - eis que se lança na realização como quem se atira de um arranha-céus. O aparente devaneio, que poderia desencadear a verdadeira tragédia, acaba por arrebatar-nos e arrancar-nos o mais sentido aplauso. Hiper-lúcido e consistente, de pulso firme, Kaufman concretiza um corajoso, denso e profundo pedaço de cinema. Diria mesmo que, na realização, atinge finalmente o expoente máximo da sua expressão autoral e o controlo absoluto da sua criação. O devaneio não só faz todo o sentido, no fim de contas, como era inevitável.

They say there is no fate, but there is: it's what you create. 

Sinédoque, Nova Iorque: um imprescindível filme de culto e um complexo e inesgotável objecto de estudo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

OS OITO ODIADOS (2015)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Hateful Eight
Realização: Quentin Tarantino
Principais Actores: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Tim Roth, Michael Madsen, Demián Bichir, Bruce Dern, James Parks, Channing Tatum
 
Crítica:

No one said this job was supposed to be easy. 

A BOA CONVERSA

Nobody said it's supposed to be that hard, neither!

É um western. Toda a plateia aguarda por tiros, sangue e mortes. Ainda para mais, bem que temos presente aquele 
desenfreado e barulhento final de Django Libertado. Que a acção comece! Mas... é um western by Quentin Tarantino. Nunca mais acção e menos conversa. Antes a palavra, muitas palavras, a boa conversa fiada - essa quase interminável verborreia de estilo que demora e atrasa a acção, que nos habituámos, paciente e prazerosamente, a saborear - e a adorar. A acção faz-se, então e sobretudo, podemos dizer, pelas palavras - as palavras como armas. Ao seu oitavo filme, Tarantino - o argumentista - não se repete, antes se matura, apurando a construção dos seus diálogos - dos seus monumentais diálogos - e a forma como, através deles, estuda as personagens e as personagens mascaram ou revelam as suas verdadeiras identidades, egos e intenções. A arrojada trama deste magistral Os Oito Odiados, eu diria, é como um ensopado quentinho, servido com todo o gosto - a cada colherada, cena ou capítulo, degustamos cada pormenor intensamente. E como em qualquer boa refeição, há que saboreá-la sem pressas, lentamente. O nevão não cessa e o inverno é rigoroso. Os oito ali se encontram, na retrosaria da Minnie, e não poderão ir a mais lado nenhum. Ninguém é quem diz ser ou, pelo menos, é o que nos aparenta. Ninguém confia em ninguém. Todos estão armados. E... temos tempo - 167 minutos de puro cinema. Céus, em gloriosos 70mm Ultra Pannavision! Sentem-se confortavelmente e disfrutem da refeição. Não tardarão os tiros, o sangue e as mortes. Ou melhor, talvez demorem um pouco, mas vai valer a pena. Pelo sim pelo não, aqueçam também um café. Café? Hum, melhor, esqueçam lá o café. Concentrem-se na comida - que é como quem diz, no filme. Bom filme!

Todos são, de uma forma ou de outra, caçadores de recompensas, carrascos, prisioneiros, xerifes e foras-da-lei. Uns procuram dinheiro, outros liberdade, outros justiça... todos procuram escapar com vida àquele encontro do diabo, àquela ameaçadora partida do destino - ou de outro autor por assumir - que tão friamente se proporciona e se descortina. Sobre o que falam eles? O que teriam oito estranhos para tanto conversar? Bem, alguns talvez não sejam tão estranhos assim, talvez se conheçam de outras paragens, talvez conheçam pessoas próximas, talvez... o mistério crescente acalora-nos o estômago, mas adensa-se nos interiores da estalagem como a tempestade lá fora, sempre omnipresente. Às tantas, o inevitável e sangrento confronto é-nos servido - como a vingança, é um prato que se serve frio. Pelo meio inflamam-se as feridas e memórias da guerra civil (Bruce Dern é o velho e solitário confederado), o racismo e tanto o racismo (sobretudo para com os negros - sempre brilhante Samuel L. Jackson, dotado de um humor assaz corrosivo - e para com os mexicanos - papel que caiu que nem uma luva a Demián Bichir) e o resto é conversa de cowboys e bandidos, que se degladiam pela língua num torneio de esperteza. No final, Tarantino fará a sua justiça: sobreviverão os mais autênticos. Até lá, por mais que eles falem, nunca saberemos em quem confiar. Saberemos coisas sobre eles, verdades e mentiras, todas mais ou menos questionáveis, moralmente falando, mas até ao twist e ao desfecho nada mais conheceremos tão bem como a paranóia em que fomos lançados.

Desempenhos do mais alto nível num elenco de nomes e talentos sonantes, que o argumento tão criativamente potencia: Kurt Russell, Walton Goggins e a prata da casa - Tim Roth, a fazer de Christoph Waltz, e Michael Madsen. Destaque especial - por ser a única mulher entre o bando de homens e por nos oferecer uma performance totalmente fora-de-série - para Jennifer Jason Leigh. A sua Daisy Domergue é uma admirável e apaixonante mais-valia - pelo aspeto físico (nojento e repulsivo), pela graça (grotesca e inusitada) e pelo seu charme (doentio e inegável). O já habitual e irresistível cameo de Tarantino resume-se, desta vez e face ao reduzido cast, à voz, à breve narração na abertura do capítulo quatro e pouco mais adiante.

O prolífico e lendário Ennio Morricone, compositor dos emblemáticos westerns de Leone que Tarantino tanto idolatra como O Bom, O Mau e o Vilão e Aconteceu no Oeste (e de muitos dos mais emblemáticos filmes da História do Cinema tais como As Mil e Uma Noites de Pasolini, 1900 de Bertolucci, Dias do Paraíso de Malick, Os Intocáveis de De Palma ou Cinema Paraíso de Tornatore) assina a composição musical d'Os Oito Odiados, como o mesmo carisma imortal das suas obras de outrora. A Última Diligência para Red Rock é, em tudo, um tema absolutamente distinto e memorável. E na arte de Tarantino, esse nerd da pop culture, há sempre espaço para canções não originais, coladas com especial sentido de ocasião. Nunca Silent Night, por exemplo, tocada ao piano de forma tão amadora e persistente pelo barbudo mexicano, teve tamanho impacto na preparação das emoções, numa cena. A música, que se sobrepõe ao vento e à queda de neve - e até, se necessário, àquela maldita e inesquecível, estrondosa e tão pregada porta - cria tensão, aumenta o suspense e prende-nos aos acontecimentos. Dá gozo ao tempo.

O igualmente lendário Robert Richardson (d'O Aviador ou A Invenção de Hugo do não menos lendário Scorsese) alinha no devaneio nostálgico e desafiante de Tarantino e recupera as lentes das câmeras Ultra Pannavision de 70mm, que conheceram os seus tempos áureos - embora curtos - no final dos anos 50 e na década de 60. Saudemos, a propósito e de caminho, o ilustre e bem-aventurado Ben-Hur (1959), de William Wyler. Pois bem, desde essa época até ao seu ano de lançamento, Os Oito Odiados foi o único filme filmado e exibido no formato. No ano seguinte seguir-se-ia a continuação da saga Star Wars, no seu capítulo VII. E o mérito do revivalismo é todo deste filme, ainda que, na grande parte do seu tempo, não nos maravilhe com as amplas paisagens a céu aberto, antes com os ínfimos detalhes de interiores ou de planos mais aproximados. Os Oito Odiados é, pois, na relativa escala das coisas que nos é proposta, um surpreendente banquete, quando a narrativa ou os cenários, à partida, não pediriam tanta informação por frame. O resultado é deveras espetacular e enriquecedor, sobretudo num grande ecrã. Os nossos olhos sondam cada imagem, na busca incessante de uma pista que ajude a decifrar a trama. Neste sentido, o seu contributo para o efeito da narrativa no espectador é determinante. Para além de, naturalmente, valorizar o trabalho da direcção artística.

A violência gráfica tarda, mas não falta ao compromisso. Rasga, a dado ponto e plena de irreverência, quaisquer formalismos. Afinal, quantos realizadores conhecemos tão zelosos do seu estilo e tão fiéis a si próprios como Tarantino? Mais do que um realizador e realizador-argumentista (o que é decisivo), Tarantino é um autor, um artista. Nós que, tal como ele, alimentamos e vivemos do culto, nem precisamos de assistir a um trailer para querer ver um dos seus filmes. Basta um nome, o seu nome. Tarantino é sinónimo de arte, de excelência, de lenda viva. Tal como Leone, Morricone, Richardson ou Scorsese, ele pertence ao panteão. Os Oito Odiados é, por tudo isto, um proveitoso pedaço de cinema, um western singular e um dos seus melhores filmes. Não admira que o filme termine e apeteça repetir a dose.

Pensar que Tarantino chegou a desistir de concretizá-lo, quando viu o argumento exposto, inadvertidamente, na internet. Estamos perante um clássico instantâneo, senhores! Absolutamente magistral.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O ABRAÇO DA SERPENTE (2015)

 PONTUAÇÃO: EXCELENTE
Título Original: El Abrazo de la Serpiente
Realização: Ciro Guerra

Principais Actores: Nilbio Torres, Jan Bijvoet, Antonio Bolivar, Brionne Davis, Yauenkü Migue, Nicolás Cancino, Luigi Sciamanna 

Crítica: 

NO CORAÇÃO DA AMAZÓNIA

Abandona tudo e imerge, sozinho, pela selva adentro, guiado apenas pelos seus sonhos.

Há filmes com espíritos lá dentro. Espíritos vivos, que nos chamam, possuem e que, sem pedir autorização, nos ficam cá dentro - dias, anos, num tempo sem tempo. Em nós se alimentam, crescem e criam raízes. Estabelecem, interiormente, um inesgotável diálogo de consciências, memórias e efabulações. Quando damos conta, são parte de nós, confundem-se connosco. Eu nunca estive realmente na Amazónia, pulmão do mundo. No entanto, como posso explicar a absurda mas igualmente real sensação de já lá ter estado, por meio da experiência - absolutamente transcendente - que O Abraço da Serpente tão inesperadamente me proporcionou, enquanto espectador? Nós não vemos o filme, nós vivemo-lo. Entramos nele e ele entra em nós. Sentimos os cheiros e as temperaturas... tocamos as árvores e as folhas... sentimos o medo... o vazio e a plenitude. Estamos, pois - em primeira ou derradeira instância - perante uma aventura espiritual profundamente contemplativa, meditativa, apaziguadora e totalizante. A arte enquanto experiência mística. Um imaculado e singular pedaço de cinema.

O Abraço da Serpente marca a primeira vez em trinta anos que, nos meandros da ficção, uma câmera desbravou a selva colombiana. Ciro Guerra assumiu ser intransponível para a tela aquele verde único, intenso, tão denso. Curiosamente ou talvez por isso, a opção estética de filmar todo o filme num cristalino e prateado preto e branco possa, à partida, surpreender. Mas aquilo que a fotografia de David Gallego faz pelo filme é milagroso. Nela está o espírito da Amazónia - nós sentimo-lo. As imagens são de um esplendor visual inebriante e hipnotizante, reclamando uma autenticidade voraz. É
 como se, por vezes, chegássemos mesmo a vislumbrar o verde. A imersão proporciona-se, ex aequo, graças à extraordinária profusão e riqueza dos efeitos sonoros utilizados: pássaros, insectos, ventos e toda aquela biodiversidade - nós estamos lá. Outras obras assinaláveis procuraram captar, ao longo dos anos, a essência da selva. Recordo, a título de exemplo, Aguirre, O Aventureiro ou Fitzcarraldo de Herzog, A Missão de Joffé, O Novo Mundo de Malick ou Apocalypto de Gibson. Todas elas o conseguiram, de forma exímia, mas nenhuma com a verdade e escapando a tantos clichés como O Abraço da Serpente, arriscaria dizer. Quando muito não seja por recusar a cor. Até a banda sonora de Nascuy Linares é sempre tão orgânica.

A história conta-se a dois tempos. A uni-los, o mesmo lugar, o mesmo rio - a serpente, que abraça a selva e leva a vida a todas as paragens. O mesmo homem - Karamakate, um xamã indígena, o último sobrevivente da sua tribo, que, com quarenta anos de diferença e algures 
nos primórdios do século XX, guia dois cientistas e exploradores europeus na mesma busca - a busca da yakruna, uma planta rara, lendária e sagrada, de elevados poderes curativos. Às tantas e intencionalmente, parece que toda a acção decorre no mesmo tempo. Como se a Amazónia não tivesse tempo. Baseada nos relatos escritos de Theodor Koch-Grunberg e Richard Evans Schultes, a viagem ganha, entre tantos, interesse antropológico, sociológico e etnográfico - não é propriamente sobre o choque civilizacional, mas sobre as diferenças culturais, religiosas e os diferentes entendimentos do mundo, da natureza e da vida entre os indígenas autócnes e os orientais, cujo impacto devastador é alvo de crítica (a elevada exploração da borracha e dos recursos naturais, por exemplo) e sátira dissimulada, nunca pérfida (às nefastas missões religiosas, sobretudo). E a viagem faz-se num misto de emoções: por um lado, o prazer da descoberta, o deslumbramento, e, por outro, as tantas fobias inerentes - o medo da loucura e do isolamento nos confins da selva, o perigo dos animais ferozes e venenosos, a sombra do canibalismo, a brutalidade e violência dos inimigos e da catequização obscena, que impõe o evangelho e a sua verdade, dizimando tribos e tradições ancestrais. Eis, pois, a Amazónia como expressão máxima do paraíso e, simultaneamente, do inferno.

Quando menos esperamos, os símbolos e as metáforas ganham uma importância crescente, assumindo a narrativa e abraçando uma dimensão metafísica. Karamakate aceita guiar os brancos porque é essa a sua missão épica e derradeira, a de transmitir o seu saber, de partilhar a yakruna e os seus segredos. 
O conhecimento pertence a todosSem descendência e sem futuro, com quem mais poderia partilhar? É quando Theo morre (a visão do jaguar, que morde a serpente), doente e, aos olhos do índio, desrespeitoso para com a Mãe Natureza, que a sua missão é abruptamente interrompida e se torna um chullachaqui - um corpo vazio e sem alma, como uma fotografia, como um fantasma, suspenso no tempo e espaço. Limita-se a envelhecer e a sonhar. Os sonhos ainda recordam o lugar da yakruna, mas o seu ser acordado somente existe, somente paira. Ecoa Weerasethakul. Quando Evan aparece, décadas mais tarde, retomando a demanda do seu antecessor, Karamakate como que desperta e, pelo mistério, sente-se impulsionado a acompanhá-lo, para concluir finalmente a sua missão. A serpente segue o seu curso, a seu ritmo.

Karamakate é, provavelmente, das personagens mais puras que poderemos encontrar na história do cinema ficcional. Talvez por ser - não direi interpretado, direi - personificado por dois não-actores, Nilbio Torres (enquanto jovem) e Antonio Bolivar (enquanto velho), é de uma simplicidade e genuinidade desarmantes. É ele a alma do filme e a alma da Amazónia. Representa todos e cada um dos indígenas seus antepassados e contemporâneos. Respira verdade. E isto é um feito notável. Desconfia de tudo o que é do homem branco, vê inutilidade em cada livro, bússola ou fé cristã. Aliás, para ele como para qualquer índio, tudo é passível de troca à excepção do colar, intimamente ligado à alma. Talvez a única coisa que chega a admirar seja mesmo a música. A dado momento, Evan gira o disco de Haydn e ouve-se A Criação. Karamakate diz-lhe: nesta tua música está o caminho, escuta-a. É um sonho, deves guiar-te por ele. E de sonhos percebe Karamakate. O próprio filme é como um sonho, do qual não queremos acordar, c
omo se estivéssemos drogados e alucinados pelo fumo de um caapi. Um sonho ao qual voltaremos mais vezes, pois responderemos ao seu chamamento. Quando se finda e concretiza a missão, Karamakate deixa-lhe a sua canção, o colar e a alma. Evan regressa envolto em borboletas, renascido. Cumprem-se o simbolismo, a crença e o ritual. Cumpre-se a natureza das coisas.

Ciro Guerra mostra-se inspiradíssimo na captação das expressões de Torres e de Bolivar como prima, aliás, na realização e na finalização de toda a obra. O tempo encarregar-se-á de atribuir a'O Abraço da Serpente, estou certo, todo o valor e reconhecimento que tem e merece. É, seguramente, um dos mais deslumbrantes e fascinantes filmes deste início de século. A natureza não dorme. Prestemos atenção. Estamos perante arte em estado puro.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

FÚRIA (2014)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Fury
Realização: David Ayer

Principais Actores: Brad Pitt, Shia LaBeouf, Logan Lerman, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Brad William Henke, Kevin Vance, Xavier Samuel, Jason Isaacs 

Crítica: 

CAVALOS DE FERRO

Ideals are peaceful. History is violent.

Se há género que proliferou em Hollywood, nas últimas décadas, foi o filme de guerra, retratando e reflectindo, especialmente e na grande parte das vezes, a brutalidade, o horror e a desumanidade da 2ª Guerra Mundial, cuja sombra ainda esvanece, cujas feridas ainda saram, cuja memória ainda não esquece. Ainda há sobreviventes, marcas e arte. Fúria continua a tradição e esse cânone, na sombra da guerra e, claramente, na sombra d'O Resgate do Soldado Ryan. A angústia da influência, como lhe chamaria Harold Bloom, é por demais notória e a comparação, se não necessária, pelo menos irresistível. Édipo não mata o pai - Ayer não foi nem é um Spielberg - no entanto, diria que estamos perante um digno discípulo, um bom filme do género.

D'
O Resgate diria que herda, a olhos vistos, os tons. Os tons, mas não o grão. Falo de cores e da atmosfera que estas possibilitam. A fotografia de Roman Vasyanov é absolutamente deslumbrante e é capaz de pintar o mais atrativo dos quadros perante o pior dos cenários. O plano de abertura - cujo mérito é mais do diretor de fotografia do que realizador - é magnífico: uma luz centrada, gélida e bruxuleante ilumina a tela, azulando-a. Vem do horizonte longínquo e parece inebriar a terra com uma quase neblina: não se percebe se o que vemos são arvoredos ou campos, pois não temos noção das escalas ou proporções. À medida que a luz se vai e o ecrã escurece, dá lugar a um vulto cavalgante. Somos reposicionados. E só quando a câmera solenemente decide mover-se finda o mistério. São poucos mas não meros segundos. Belíssimos. Dá gosto saborear, que abertura.

Também pelos ouvidos ecoa o mestre; aquele, o de 1998. A experiência de um filme de guerra vive-se sobremaneira pelo espectáculo sonoro e, nesse aspecto, Fúria jamais poderia defraudar o espectador. É com a fúria do título com que tiros, ricochetes e explosões irrompem cena a cena, retumbantes, reclamando a atenção e uma qualidade fora de série. Tanto os efeitos como a sua montagem são de primeiríssima linha - a equipa responsável é vastíssima e mereceria, com toda a certeza, a nomeação individual. Fica a menção honrosa pela brilhante sonoplastia. A composição musical de Steven Price é, de forma geral, subtil e temperada, pontuando ou alavancando, de forma sábia, os momentos narrativos. Sempre com o volume certo, à hora certa.

Feitos os principais destaques, foquemo-nos no elenco - um colectivo com um potencial poderosíssimo; notem-se os principais nomes: Brad Pitt (mega-estrela, com um historial de personagens que fala por si), Logan Lerman (claramente em ascensão e a ter em conta) e o malogrado 
Shia LaBeouf (malogrado por sua própria conta e risco, porque de talento está muito bem servido - aqui num notável underacting). Temos em Fúria grandes interpretações, pelo menos à altura do argumento, que orienta um road dos tanques ao sabor dos ataques e das investidas do inimigo. Um road movie como o filme de Spielberg e tantos outros propõem, num tempo em que a verdadeira cavalaria ganha força nos ares mas que em terra não é assegurada senão pelos tanques blindados, essas claustrofóbicas e assustadoras máquinas de guerra, que tudo levam à frente, conduzindo a ambição - e a esperança - humanas de campo em aldeia e em cidade, esmagando pó, carne ou osso. Cavalo a cavalo, todos sucumbem ao fogo e à destruição. Temos até direito a um duelo, em que só a maior astúcia ou inteligência poderá ditar a vitória. Animais, monstros, todos se tornam monstros, todos se transformam. Até o cândido Norman de Lerman, pela força das circunstâncias, quando o impulso ganha domínio sobre qualquer reflexão. Na guerra, não há tempo para isso.

Tivesse David Ayer mais cuidado e inspiração na encenação e na construção das cenas e estaríamos, provavelmente, perante um filme superior, mas não procuro, de todo, cair na tantas vezes fácil lamentação e exigência cinéfilas. Estamos perante um filme tremendo. O momento mais tenso e melhor conseguido será, porventura, aquele central em que as personagens de Pitt e Lerman sobem ao apartamento das primas alemãs. As diferenças linguísticas impõem, desde logo, uma barreira que rapidamente se esbaterá no respeito ou desrespeito com que os soldados tratarão as duas mulheres. A contrabalançar as violentas e viscerais sequências de acção que se antecederam e que se sucederão, esta
 cena mais demorada ou este acto mais delicado; nunca menos brutal ou impactante, pois... o que dizer do emocionante final, em que a coragem é extremada e aqueles homens se superam na defesa do tanque como quem defende a sua própria casa, até ao último fôlego? Que chacina, que final.

Fúria é, por tudo isto, uma homenagem maior a todos esses heróis que manobraram os míticos veículos, armados até aos dentes, atemorizados até ao mais profundo e recôndito lugar das suas almas. Uma homenagem, um retrato embebido num realismo esfomeado, um convite à reflexão, mas um filme. O filme dos tanques. E um filme que vale seguramente a pena. Não leva as cinco estrelas por uma unha negra.

domingo, 29 de janeiro de 2017

ENCONTROS IMEDIATOS DO 3º GRAU (1977)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: Close Encounters of the Third Kind
Realização: Steven Spielberg
Principais Actores: Richard Dreyfuss, François Truffaut, Teri Garr, Melinda Dillon, Bob Balaban, Cary Guffey 

Versão do Realizador

Crítica:

OS SINAIS E O CONTACTO 

Major Walsh, it is an event sociologique.
Claude Lacombe 

Encontros Imediatos do 3º Grau é, por variadíssimos motivos, um dos mais icónicos e extraordinários filmes de Spielberg. Desde cedo fascinado pela cultura popular dos OVNI's, a obra concretiza o abraço duvidoso dos grandes estúdios de Hollywood à temática, numa altura em que a Columbia Pictures encarava sérios problemas financeiros. O devaneio de Spielberg era considerado um risco, mesmo estreando-se na sequência do estrondoso sucesso de Tubarão, considerado o primeiro blockbuster de todos os tempos. Por isso mesmo se estreou em apenas 2 salas, a medo, antes do êxito se propagar pelo país e, depois, por todo o mundo. Alimentaria e ajudaria a expandir o fenómeno dos extraterrestres como poucos, na verdade e de forma incontornável, seguindo-se o acarinhado E.T. - O Extraterrestre em 1982 e só em 2005 o tão subvalorizado Guerra dos Mundos, numa altura em que a sua fé se rendera ao cepticismo - ou não tivessem os avistamentos tão misteriosamente abrandado, em inícios do século XXI, numa era tão marcadamente tecnológica e em que as câmeras de filmar proliferaram. 

A história é sobre pessoas banais (traço comum nas obras do cineasta) que, em circunstâncias extraordinárias, são alvo do extraordinário e concretizam o extraordinário. O Roy de Dreyfuss é exatamente uma dessas pessoas, que se vê alienado do seu dia-a-dia e da sua família por força de um chamamento superior, que o impele e desafia numa busca existencial, em busca de significado, de revelação, de respostas às suas muitas perguntas. O argumento mergulha o fascínio extraterrestre com um complô à escala internacional, que tenta esconder, no maior dos secretismos, os sinais e os contactos entre os humanos e as criaturas desconhecidas. A narrativa avança num impressionante crescendo de suspense, entre cenas em que discos luminosos e voadores rasgam os céus nocturnos, navios aparecem misteriosamente no meio de desertos ou adoráveis crianças são, na sua desarmante inocência, atraídas pelo desconhecido e sequestradas pelos invasores. Nem por um momento, no entanto, Spielberg deixa antever se os extraterrestres nos querem bem ou mal. O segredo adensa-se como o mais forte dos nevoeiros e nós, que presos ao filme nos encontramos, embrenhamo-nos sem resistência. 

Nota para a presença de François Truffaut como Claude Lacombe - Spielberg sempre pensou nele como ideal para o papel, por se tratar de uma criança grande ou de um adulto que vê o mundo com os olhos e a natureza de uma criança. Segundo Spielberg, Encontros é para adultos capazes de se entregarem ao desconhecido com a mesma fé - incondicional - de uma criança. Da mesma forma, espontânea, com que o pequeno Barry (brilhante Cary Guffey) abre a porta de sua casa ao mistério. Destaque ainda para o cuidado inspirado no fecho de determinadas cenas: são como demonstrações de amor à arte, numa arquitetura da cena ao mais ínfimo pormenor, do primeiro ao último instante.

Encontros estreou no mesmo ano de Guerra das Estrelas - o contributo de ambos os filmes para a ficção científica é evidente; não obstante Spielberg preferisse chamar-lhe, no seu caso, especulação científica. Contudo, o poder imagético daquele grandioso final não só ecoa na memória do espectador que adora o género como na própria História do Cinema. Spielberg arquitectou um fascinante espetáculo de luz e som no cume da Torre do Diabo (Wyoming) - para sempre associada ao filme - como se pela matemática da música enquanto linguagem universal fosse possível o contacto e a comunicação. O grande mistério culmina ali, na audaciosa orquestração de John Williams a partir das cinco notas, na extravagância visual da Direção Artística de Joe Alves e Daniel A. Lomino e no portento de fotografia de Vilmos Zsigmond - a experiência transcende-se num momento absolutamente mágico, belo e inebriante.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

DIA DA INDEPENDÊNCIA (1996)

 PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Independence Day
Realização: Roland Emmerich
Principais Atores: Will Smith, Jeff Goldblum, Bill Pullman, Randy Quaid, Judd Hirsch, Vivica A. Fox, Margaret Colin, James Duval, Mary McDonnell, Robert Loggia, Adam Baldwin, Harvey Fierstein

Crítica:

O ATAQUE ALIENÍGENA

 That's what I call a close encounter.

O cinema também anuciou, em meados dos anos 90 do século XX e de forma tão marcante, a globalização ao mundo. Dia da Independência, mega blockbuster de Hollywood, é disso um caso inequívoco: a ação é global. A invasão extraterrestre revela-se uma ameaça massiva, destrutiva, capaz de exterminar da face da Terra toda a Humanidade, alheia a culturas ou a civilizações.

É, Dia da Independência, um triunfo? É. $817,400,891, worldwide. Triunfa o espetáculo imagético, inesquecível - a imponente, negra e flutuante nave sobre as cidades ou sobre a Casa Branca sobressai de entre as memórias do filme. Há, por isso, shots memoráveis. As criações da direção artística são assombrosas e a fotografia deslumbra a espaços - os efeitos especiais, qual som, potenciam a beleza e a alucinante experiência. A ação é explosiva, plena de adrenalina. Ecoa Spielberg, Lucas. Ecoa John Williams na enérgica banda sonora de David Arnold. O entretenimento está, pois, assegurado. Emmerich pega nas naves dos filmes de série B e eleva-as ao mais espetacular e mainstream dos filmes.

Peca pela duração excessiva ou pela leveza com que aborda a tragédia, faltando-lhe, às tantas, uma maior maturação dos episódios. Sucedem-se os lugares comuns. Não há personagens modeladas (a melhor, ainda assim, é a do presidente Whitmore, de Bill Pullman). Will Smith e Jeff Goldblum partilham um protagonismo superficial, alternando o bom humor com o elenco secundário (Randy Quaid, Judd Hirsch).

Quando nos apercebemos, contudo, que os americanos é que sabem e que os americanos é que descobrem os melhores meios e técnicas para destruir os invasores, apercebemo-nos de que o filme vende por demais a bandeira e a liderança americana a todo o planeta. Cai por terra aquele ideal de globalização que o filme parece abraçar inicialmente, sobrepondo-se o ego americano, irresistível a tanto do seu cinema comercial. Mas enfim, esta é uma questão secundária, de abordagem. O filme não é sobre a globalização, é sobre o ataque alienígena. Nesses termos, o filme faz-nos voar no imaginário, no nosso e no da visão de Emmerich, o que é meritório. Agradou exponencialmente a milhares e milhares de espetadores, marcou um tempo. Por isso, missão cumprida; apesar dos - para mim, detetáveis - desequilíbrios.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões