terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CRIMSON PEAK - A COLINA VERMELHA (2015)

PONTUAÇÃO: BOM 
★★★★ 
Título Original: Crimson Peak
Realização: Guillermo del Toro
Principais Actores: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston, Charlie Hunnam, Jim Beaver, Burn Gorman

Crítica:

A MANSÃO ASSOMBRADA 

A house as old as this one becomes,
in time, a living thing.
 

Crimson Peak - A Colina Vermelha é um romance gótico - não propriamente um filme de terror. A diferenciação ou precisão parecem-me não só urgentes e importantes como absolutamente imprescindíveis no que toca à gestão das expectativas que conduzirão o espectador ao filme e ao entendimento que depois o mesmo fará dos contornos dramáticos que a obra ganhará, em crescendo, ao longo da sua duração.

De um dos mais belos filmes de 2015 jamais se poderá esperar - tão-somente - o susto pelo susto, o macabro pelo macabro ou o brutal pelo brutal - ou seja, a gratuitidade que, não raras as vezes, estupidifica e diminui o género terror. Ao deambularmos - e na possibilidade de nos perdermos - pelos ruidosos e incontáveis corredores de Allerdale Hall, cruzar-nos-emos, na verdade, com todos eles: com o susto ao virar da esquina, com o macabro atrás de cada porta e com o brutal um pouco por todo o lado, mas sempre prioritária e poderosamente sustentados num background, numa história cujo alicerce é, imperioso, o amor. Os ecos do género terror estão omnipresentes no conteúdo, no contexto e até na forma, é certo, mas é a natureza da história e o que a motiva que a diferencia. Acompanharemos a viagem emocional das personagens e no final perceberemos: os monstros não são, como julgávamos, os fantasmas e os espíritos inquietos dos que morreram e que por ali pairam. Os verdadeiros monstros - e os que mais nos apavoram - são os que por cá ficaram, vivos, desferindo golpes e feridas e manchando de sangue a neve, tanto mais do que qualquer argila-vermelha que das profundezas da terra possa surgir. O que seria de esperar de Guillermo del Toro, aliás, ou não tivéssemos nós assistido ao maravilhoso O Labirinto do Fauno, onde as personagens da vida real eram tão mais cruéis e assustadoras do que as de qualquer fantasia.

But the horror... The horror was for love. The things we do for love like this are ugly, mad, full of sweat and regret. This love burns you and maims you and twists you inside out. It is a monstrous love and it makes monsters of us all.

Há toda uma dimensão feminina, típica do sub-género: Edith Cushing, a protagonista (Mia Wasikowska), desde pequena que tem canal aberto com o além e é assombrada pelo fantasma da mãe falecida. Lucille Sharpe, a antagonista (arrepiante desempenho de Jessica Chastain), tem um passado misterioso que tenderá a revelar-se, à medida que a investigação de Edith ganha força e os segredos, mergulhados, vêm ao de cima. No centro, Thomas Sharpe, irmão de Lucille (Tom Hiddleston, charmoso e carismático), disputado pelas duas mulheres. O amor, que justificará - como sempre - todos os actos psicóticos de Lucille, desencadeará toda a acção e precipitará, inevitavelmente, a tragédia. Com a morte do pai, Edith vê-se sozinha no mundo e embarca para a Europa, entregando-se, desesperançada, ao casamento - um casamento, da parte dela, claramente mais por escape à desilusão da realidade, fruto de uma paixão romântica que a cegou e a impediu, com lucidez e inteligência, de analisar o carácter novelesco de Thomas, o homem aparentemente perfeito. Rapidamente essa paixão se esfumará, dando lugar à desconfiança e ao desencanto de um relacionamento escaldado, mecânico, que se degradará por imperativo das circunstâncias. Ela, que sempre se achou à frente do seu tempo, ver-se-á agora encarcerada e sufocada no mais funesto pesadelo. Temos ainda o bondoso e apaixonado doutor Alan (Charlie Hunnam), único elo ao passado de Edith na América, que arrisca tudo pela amada na tentativa de, ciente da natureza vil dos Sharpe, alterar o desfecho da trama. Um elenco ao mais alto nível, pelo que podemos dizer que estamos perante um portentoso filme de actores.

Crimson Peak 
tem o cunho e a assinatura inconfundíveis de del Toro. Não admira, portanto, que seja um filme extraordinariamente estilizado. E embora recorra ao digital, del Toro resiste-lhe, como de costume, com uma tenacidade criativa e uma visão por demais inspirada. Note-se o detalhe e perfeccionismo dos cenários e decoração (Thomas E. Sanders, Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau) - o palacete é, todo ele, um organismo vivo, arquejante. É como se cheirasse a morte. Sangra de argila e tem, em cada recanto, a memória do tempo e do sofrimento das pessoas que por lá viveram. Tudo o que por lá se passou e tudo o que por lá se passa é mais do que suficiente para afastar qualquer hóspede ou curioso. No entanto, tem toda uma aura mística, um lúgubre magnetismo, que chama, enleia e aprisiona as suas vítimas, adoecendo-as, apodrecendo-as. O isolamento geográfico e o rigor do inverno são, na pior estação, os mais fiéis e terríveis aliados da casa. O primor e requinte artísticos estendem-se aos figurinos (Kate Hawley), também eles essenciais para a criação da atmosfera e daquele imaginário e a fotografia (Dan Laustsen) eleva e apura, definitivamente, o esplendor visual de toda a obra. A sonoplastia e a banda sonora magistral (Fernando Velásquez) são essenciais para orquestrar o suspense e as emoções, potenciando a carga dramática e criando um elo emocional com a história e com os espectadores. Os temas musicais são absolutamente belíssimos, capazes de  nos provocar a mais genuína e sentida comoção.

Por tudo isto, Crimson Peak é um filme do coração. Abrimo-lo, primeiramente, para entrar naquele misterioso e sinistro universo, que nos atrai - e que cedo nos adverte: Beware of Crimson Peak - e depois envolvemo-nos, angustiamo-nos e por fim sangramos, qual casa, quais personagens. Não sendo, propriamente, um ás da câmera - e é certo que, narrativamente, a história merecia um pouco mais de densidade - Guillermo del Toro apresenta-nos um belo e emotivo pedaço de cinema, forjado, como poucos, num faustoso e elegante ambiente gótico. Um deleitoso festim para os nossos sentidos.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

SINÉDOQUE, NOVA IORQUE (2008)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★
Título Original: Synecdoche, New York
Realização: Charlie Kaufman
Principais Actores: Philip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Michelle Williams, Samantha Morton, Jennifer Jason Leigh, Tom Noonan, Emily Watson, Hope Davis, Dianne Wiest, Deirdre O'Connell

Crítica:

O GRANDE ENSAIO 

The end is built into the beginning.

À primeira tentativa, Sinédoque, Nova Iorque adormeceu-me. Não terei assistido a mais do que quinze, vinte minutos, na verdade, e depois esteve na prateleira, na companhia de outros tantos títulos, durante seis ou sete anos. Até que, finalmente, me voltou a chamar. Ensonou-me não porque se tratasse necessariamente de um filme mau - quantos não são os factores que nos levam a adormecer. Os filmes de Malick, que tanto adoro, por exemplo, embalaram-me já um par de vezes - inebriam-me, o que posso fazer, mexem com o meu subconsciente. E suspeito que, tendencialmente e com os anos, o sucedido me virá a acontecer ainda mais vezes. Ter-me-ia então, o filme, efetivamente aborrecido? Não seria de estranhar: Caden Cotard (brilhante interpretação de Philip Seymour Hoffman) é, provavelmente, a personagem mais aborrecida e deprimida de que há memória. Não, certamente que não: Caden Cotard é, para o espectador, uma criação por demais rica, enigmática e fascinante. Cessarei, por isso, de tentar culpar o filme, até porque o fait diver de ter adormecido não é mais do que isso, um fait diver - pessoal e sem qualquer importância. O que importa é que, atendendo ao chamamento, vi o filme. E fiquei maravilhado: é extraordinário. Não tardará a chamar-me mais vezes. Conto ficar acordado.

Quem é Caden Cotard e sobre o que fala o filme? Bem, Caden é um encenador de teatro, casado e com uma filha. Vive rodeado de gente, no entanto está mergulhado na solidão e à beira do abismo - e assim viverá toda a vida. Sem qualquer resquício de amor-próprio, é convictamente aborrecido, deprimido, falhado, frustrado, desesperançado, paranóico e hipocondríaco (corre todos os médicos e especialidades, tem todos os sintomas e mais alguns e urina ou defeca sangue com alguma regularidade - quando não o faz certamente que imagina que sim). É incapaz de exprimir sentimentos ou sensações genuínas, já quase que não saliva ou lacrimeja e tem que estimular o corpo nesse sentido, não vá secar-lhe a alma. É mau marido, mau pai, faz terapia de casal e individual, lê livros de auto-ajuda e jornais (nos quais apenas destaca as más notícias e os obituários) e é obsessivo com as limpezas e com o trabalho. Revê-se nos reclames da televisão e até nos desenhos animados, nas situações mais indesejadas. É o centro do mundo, os arredores e a totalidade. Pintado este quadro, não admira que não divirta nada nem ninguém, que todos se fartem dele e que venha a tentar o suicídio. É masoquista, não sabe ser de outra forma, gostaria de ser de outra forma, mas nada faz para isso. A sua melhor definição é capaz de ser a que Millicent Weems, personagem de Dianne Wiest, às tantas lança:

Caden Cotard is a man already dead, living in a half-world between stasis and antistasis. Time is concentrated and chronology confused for him. Up until recently he has strived valiantly to make sense of his situation, but now he has turned to stone. 

O seu nome não é ocasional ou não fosse o síndrome de Cotard o síndrome do cadáver ambulante.

Certo dia, empreende o impossível: replicar, num enorme armazém, a cidade e nela a sua vida, naquela que será, plena de verdade, a maior peça de teatro de todos os tempos. Como se pela representação do teatro vivesse a vida realmente. I won't settle for anything less than the brutal truth. Brutal. Esta peça - por baptizar - replicará, portanto, a trama de Sinédoque, Nova Iorque. Tremendo, o efeito de mise en abyme. Joga-se o microcosmos pelo macrocosmos, a parte pelo todo: a sinédoque do título, como resurso de estilo. Sammy fará de Caden. Claire (sua segunda mulher, interpretada por Michelle Williams) fará de Adele (sua primeira mulher, interpretada por Catherine Keener). Tammy (sua quarta mulher, interpretada por Emily Watson) fará de Hazel (sua terceira mulher, interpretada por Samantha Morton, de todas a que mais genuinamente o amou e a que mais genuinamente por ele foi amada: Hazel, you've been a part of me forever. Don't you know that? I breathe your name in every exhalation) e assim sucessivamente. À medida que cada personagem nova entra em cena no filme, uma nova personagem entra em cena na peça, tendo implicações directas no rumo da acção.

A épica aventura durará quase uma vida, pois o tempo voa, na montagem e na palavra. Caden casa-se, separa-se, desdobra-se em funerais. A acção de todo o filme contemplará, ao todo, cerca de cinquenta anos, tantos dos quais a trabalhar na peça. Com ela, apercebemo-nos do poder insolitamente magnetizante do protagonista. Afinal, apesar de constante e irremediavelmente abandonado (não as terá ele também abandonado a todas?) por uma e outra mulher (ou pelas filhas - a propósito, é especialmente tocante a cena da despedida da filha Olive, onde até aí a comunicação é dificultada), conseguirá sempre atrair os interesses de alguém - e é como se os atraísse para a morte, porque jamais serão felizes ou se realizarão a seu lado. É o caso do enigmático Sammy (Tom Noonan), que desde cedo o persegue e só mais tarde se revela: sabe tudo sobre ele e, qual alter ego, será capaz de confrontá-lo consigo próprio. Atrai sobretudo actores - o elenco da sua companhia resistirá estoicamente à passagem do tempo, ao seu perfeccionismo doentio, às suas mudanças de humor e às intermináveis alterações no guião. Um a um, todos com quem alguma vez interage ou contracena se findarão - e só ele, que para todos os efeitos está morto, não conhece a morte. O assunto da sua vida é, pois, o assunto do seu espetáculo:

I will be dying and so will you, and so will everyone here. That's what I want to explore. We're all hurtling towards death, yet here we are for the moment, alive. Each of us knowing we're going to die, each of us secretly believing we won't.
Caden Cotard

Jon Brion, compositor do redentor Magnólia de P. T. Anderson, assina a espirituosa banda sonora, que tão bem se coaduna com a soturna alma do filme e que tão bem conduz o espectador pela melancólica e sentimental viagem, repleta de imagens incríveis em tão poéticos momentos... a casa que arde e fumega, o enorme dirigível que irrompe pelos céus da falsa cidade ou a pétala que cai da flor tatuada... qual lágrima de um olhar molhado. A cada compasso, cada vez mais fantástico e desolador, filme e peça misturam-se magistralmente. O hiper-realismo converte-se numa metalinguística abstracta e quase indecifrável. A ficção e a realidade da ficção confundem-se, pois, e tornando-se indissociáveis. Qual delas a mais verdadeira? A mais real? Não é possível dizer... Rendidos à magia do que nos é apresentado, resta-nos concluir o mesmo que o protagonista: there are nearly thirteen million people in the world. None of those people is an extra. They're all the leads of their own stories. They have to be given their due. - e esperar que o mesmo ainda vá a tempo de se viver a si próprio, livre e despojado da tão infectada e mórbida consciência que tanto o assombrou e inutilizou, depois do grande ensaio. 

Charlie Kaufman. Só agora, neste ponto do texto, menciono o seu nome? Tudo o que falei para trás espelha o seu génio. Charlie Kaufman é um artista maior. Os seus argumentos, ousados e originais, ensaiam a condição humana e expõem-na da forma mais criativa nos seus peculiares diálogos, personagens, situações e universos. Queres ser John Malkovich? e Inadaptado, ambos realizados por Spike Jonze, surpreenderam o mundo e o virar do século por isso mesmo e, anos depois, o esplêndido e apaixonante O Despertar da Mente, de Michel Gondry, trouxe ainda mais reconhecimento à sua inconfundível identidade artística. Qual deus, Kaufman joga com o ser humano: constrói e desconstrói ficções e realidades, brinca e baralha o espectador, lança-o numa espécie de limbo interpretativo, não poucas vezes absurdo, confundindo drama e comédia, originando a dramédia. As suas personagens, alienadas, como que procuram o sentido da existência. E com Sinédoque, Nova Iorque - que diria que é, até ao momento, a sua mais arrojada e ambiciosa proposta - eis que se lança na realização como quem se atira de um arranha-céus. O aparente devaneio, que poderia desencadear a verdadeira tragédia, acaba por arrebatar-nos e arrancar-nos o mais sentido aplauso. Hiper-lúcido e consistente, de pulso firme, Kaufman concretiza um corajoso, denso e profundo pedaço de cinema. Diria mesmo que, na realização, atinge finalmente o expoente máximo da sua expressão autoral e o controlo absoluto da sua criação. O devaneio não só faz todo o sentido, no fim de contas, como era inevitável.

They say there is no fate, but there is: it's what you create. 

Sinédoque, Nova Iorque: um imprescindível filme de culto e um complexo e inesgotável objecto de estudo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

OS OITO ODIADOS (2015)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Hateful Eight
Realização: Quentin Tarantino
Principais Actores: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Tim Roth, Michael Madsen, Demián Bichir, Bruce Dern, James Parks, Channing Tatum
 
Crítica:

No one said this job was supposed to be easy. 

A BOA CONVERSA

Nobody said it's supposed to be that hard, neither!

É um western. Toda a plateia aguarda por tiros, sangue e mortes. Ainda para mais, bem que temos presente aquele 
desenfreado e barulhento final de Django Libertado. Que a acção comece! Mas... é um western by Quentin Tarantino. Nunca mais acção e menos conversa. Antes a palavra, muitas palavras, a boa conversa fiada - essa quase interminável verborreia de estilo que demora e atrasa a acção, que nos habituámos, paciente e prazerosamente, a saborear - e a adorar. A acção faz-se, então e sobretudo, podemos dizer, pelas palavras - as palavras como armas. Ao seu oitavo filme, Tarantino - o argumentista - não se repete, antes se matura, apurando a construção dos seus diálogos - dos seus monumentais diálogos - e a forma como, através deles, estuda as personagens e as personagens mascaram ou revelam as suas verdadeiras identidades, egos e intenções. A arrojada trama deste magistral Os Oito Odiados, eu diria, é como um ensopado quentinho, servido com todo o gosto - a cada colherada, cena ou capítulo, degustamos cada pormenor intensamente. E como em qualquer boa refeição, há que saboreá-la sem pressas, lentamente. O nevão não cessa e o inverno é rigoroso. Os oito ali se encontram, na retrosaria da Minnie, e não poderão ir a mais lado nenhum. Ninguém é quem diz ser ou, pelo menos, é o que nos aparenta. Ninguém confia em ninguém. Todos estão armados. E... temos tempo - 167 minutos de puro cinema. Céus, em gloriosos 70mm Ultra Pannavision! Sentem-se confortavelmente e disfrutem da refeição. Não tardarão os tiros, o sangue e as mortes. Ou melhor, talvez demorem um pouco, mas vai valer a pena. Pelo sim pelo não, aqueçam também um café. Café? Hum, melhor, esqueçam lá o café. Concentrem-se na comida - que é como quem diz, no filme. Bom filme!

Todos são, de uma forma ou de outra, caçadores de recompensas, carrascos, prisioneiros, xerifes e foras-da-lei. Uns procuram dinheiro, outros liberdade, outros justiça... todos procuram escapar com vida àquele encontro do diabo, àquela ameaçadora partida do destino - ou de outro autor por assumir - que tão friamente se proporciona e se descortina. Sobre o que falam eles? O que teriam oito estranhos para tanto conversar? Bem, alguns talvez não sejam tão estranhos assim, talvez se conheçam de outras paragens, talvez conheçam pessoas próximas, talvez... o mistério crescente acalora-nos o estômago, mas adensa-se nos interiores da estalagem como a tempestade lá fora, sempre omnipresente. Às tantas, o inevitável e sangrento confronto é-nos servido - como a vingança, é um prato que se serve frio. Pelo meio inflamam-se as feridas e memórias da guerra civil (Bruce Dern é o velho e solitário confederado), o racismo e tanto o racismo (sobretudo para com os negros - sempre brilhante Samuel L. Jackson, dotado de um humor assaz corrosivo - e para com os mexicanos - papel que caiu que nem uma luva a Demián Bichir) e o resto é conversa de cowboys e bandidos, que se degladiam pela língua num torneio de esperteza. No final, Tarantino fará a sua justiça: sobreviverão os mais autênticos. Até lá, por mais que eles falem, nunca saberemos em quem confiar. Saberemos coisas sobre eles, verdades e mentiras, todas mais ou menos questionáveis, moralmente falando, mas até ao twist e ao desfecho nada mais conheceremos tão bem como a paranóia em que fomos lançados.

Desempenhos do mais alto nível num elenco de nomes e talentos sonantes, que o argumento tão criativamente potencia: Kurt Russell, Walton Goggins e a prata da casa - Tim Roth, a fazer de Christoph Waltz, e Michael Madsen. Destaque especial - por ser a única mulher entre o bando de homens e por nos oferecer uma performance totalmente fora-de-série - para Jennifer Jason Leigh. A sua Daisy Domergue é uma admirável e apaixonante mais-valia - pelo aspeto físico (nojento e repulsivo), pela graça (grotesca e inusitada) e pelo seu charme (doentio e inegável). O já habitual e irresistível cameo de Tarantino resume-se, desta vez e face ao reduzido cast, à voz, à breve narração na abertura do capítulo quatro e pouco mais adiante.

O prolífico e lendário Ennio Morricone, compositor dos emblemáticos westerns de Leone que Tarantino tanto idolatra como O Bom, O Mau e o Vilão e Aconteceu no Oeste (e de muitos dos mais emblemáticos filmes da História do Cinema tais como As Mil e Uma Noites de Pasolini, 1900 de Bertolucci, Dias do Paraíso de Malick, Os Intocáveis de De Palma ou Cinema Paraíso de Tornatore) assina a composição musical d'Os Oito Odiados, como o mesmo carisma imortal das suas obras de outrora. A Última Diligência para Red Rock é, em tudo, um tema absolutamente distinto e memorável. E na arte de Tarantino, esse nerd da pop culture, há sempre espaço para canções não originais, coladas com especial sentido de ocasião. Nunca Silent Night, por exemplo, tocada ao piano de forma tão amadora e persistente pelo barbudo mexicano, teve tamanho impacto na preparação das emoções, numa cena. A música, que se sobrepõe ao vento e à queda de neve - e até, se necessário, àquela maldita e inesquecível, estrondosa e tão pregada porta - cria tensão, aumenta o suspense e prende-nos aos acontecimentos. Dá gozo ao tempo.

O igualmente lendário Robert Richardson (d'O Aviador ou A Invenção de Hugo do não menos lendário Scorsese) alinha no devaneio nostálgico e desafiante de Tarantino e recupera as lentes das câmeras Ultra Pannavision de 70mm, que conheceram os seus tempos áureos - embora curtos - no final dos anos 50 e na década de 60. Saudemos, a propósito e de caminho, o ilustre e bem-aventurado Ben-Hur (1959), de William Wyler. Pois bem, desde essa época até ao seu ano de lançamento, Os Oito Odiados foi o único filme filmado e exibido no formato. No ano seguinte seguir-se-ia a continuação da saga Star Wars, no seu capítulo VII. E o mérito do revivalismo é todo deste filme, ainda que, na grande parte do seu tempo, não nos maravilhe com as amplas paisagens a céu aberto, antes com os ínfimos detalhes de interiores ou de planos mais aproximados. Os Oito Odiados é, pois, na relativa escala das coisas que nos é proposta, um surpreendente banquete, quando a narrativa ou os cenários, à partida, não pediriam tanta informação por frame. O resultado é deveras espetacular e enriquecedor, sobretudo num grande ecrã. Os nossos olhos sondam cada imagem, na busca incessante de uma pista que ajude a decifrar a trama. Neste sentido, o seu contributo para o efeito da narrativa no espectador é determinante. Para além de, naturalmente, valorizar o trabalho da direcção artística.

A violência gráfica tarda, mas não falta ao compromisso. Rasga, a dado ponto e plena de irreverência, quaisquer formalismos. Afinal, quantos realizadores conhecemos tão zelosos do seu estilo e tão fiéis a si próprios como Tarantino? Mais do que um realizador e realizador-argumentista (o que é decisivo), Tarantino é um autor, um artista. Nós que, tal como ele, alimentamos e vivemos do culto, nem precisamos de assistir a um trailer para querer ver um dos seus filmes. Basta um nome, o seu nome. Tarantino é sinónimo de arte, de excelência, de lenda viva. Tal como Leone, Morricone, Richardson ou Scorsese, ele pertence ao panteão. Os Oito Odiados é, por tudo isto, um proveitoso pedaço de cinema, um western singular e um dos seus melhores filmes. Não admira que o filme termine e apeteça repetir a dose.

Pensar que Tarantino chegou a desistir de concretizá-lo, quando viu o argumento exposto, inadvertidamente, na internet. Estamos perante um clássico instantâneo, senhores! Absolutamente magistral.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O ABRAÇO DA SERPENTE (2015)

 PONTUAÇÃO: EXCELENTE
Título Original: El Abrazo de la Serpiente
Realização: Ciro Guerra

Principais Actores: Nilbio Torres, Jan Bijvoet, Antonio Bolivar, Brionne Davis, Yauenkü Migue, Nicolás Cancino, Luigi Sciamanna 

Crítica: 

NO CORAÇÃO DA AMAZÓNIA

Abandona tudo e imerge, sozinho, pela selva adentro, guiado apenas pelos seus sonhos.

Há filmes com espíritos lá dentro. Espíritos vivos, que nos chamam, possuem e que, sem pedir autorização, nos ficam cá dentro - dias, anos, num tempo sem tempo. Em nós se alimentam, crescem e criam raízes. Estabelecem, interiormente, um inesgotável diálogo de consciências, memórias e efabulações. Quando damos conta, são parte de nós, confundem-se connosco. Eu nunca estive realmente na Amazónia, pulmão do mundo. No entanto, como posso explicar a absurda mas igualmente real sensação de já lá ter estado, por meio da experiência - absolutamente transcendente - que O Abraço da Serpente tão inesperadamente me proporcionou, enquanto espectador? Nós não vemos o filme, nós vivemo-lo. Entramos nele e ele entra em nós. Sentimos os cheiros e as temperaturas... tocamos as árvores e as folhas... sentimos o medo... o vazio e a plenitude. Estamos, pois - em primeira ou derradeira instância - perante uma aventura espiritual profundamente contemplativa, meditativa, apaziguadora e totalizante. A arte enquanto experiência mística. Um imaculado e singular pedaço de cinema.

O Abraço da Serpente marca a primeira vez em trinta anos que, nos meandros da ficção, uma câmera desbravou a selva colombiana. Ciro Guerra assumiu ser intransponível para a tela aquele verde único, intenso, tão denso. Curiosamente ou talvez por isso, a opção estética de filmar todo o filme num cristalino e prateado preto e branco possa, à partida, surpreender. Mas aquilo que a fotografia de David Gallego faz pelo filme é milagroso. Nela está o espírito da Amazónia - nós sentimo-lo. As imagens são de um esplendor visual inebriante e hipnotizante, reclamando uma autenticidade voraz. É
 como se, por vezes, chegássemos mesmo a vislumbrar o verde. A imersão proporciona-se, ex aequo, graças à extraordinária profusão e riqueza dos efeitos sonoros utilizados: pássaros, insectos, ventos e toda aquela biodiversidade - nós estamos lá. Outras obras assinaláveis procuraram captar, ao longo dos anos, a essência da selva. Recordo, a título de exemplo, Aguirre, O Aventureiro ou Fitzcarraldo de Herzog, A Missão de Joffé, O Novo Mundo de Malick ou Apocalypto de Gibson. Todas elas o conseguiram, de forma exímia, mas nenhuma com a verdade e escapando a tantos clichés como O Abraço da Serpente, arriscaria dizer. Quando muito não seja por recusar a cor. Até a banda sonora de Nascuy Linares é sempre tão orgânica.

A história conta-se a dois tempos. A uni-los, o mesmo lugar, o mesmo rio - a serpente, que abraça a selva e leva a vida a todas as paragens. O mesmo homem - Karamakate, um xamã indígena, o último sobrevivente da sua tribo, que, com quarenta anos de diferença e algures 
nos primórdios do século XX, guia dois cientistas e exploradores europeus na mesma busca - a busca da yakruna, uma planta rara, lendária e sagrada, de elevados poderes curativos. Às tantas e intencionalmente, parece que toda a acção decorre no mesmo tempo. Como se a Amazónia não tivesse tempo. Baseada nos relatos escritos de Theodor Koch-Grunberg e Richard Evans Schultes, a viagem ganha, entre tantos, interesse antropológico, sociológico e etnográfico - não é propriamente sobre o choque civilizacional, mas sobre as diferenças culturais, religiosas e os diferentes entendimentos do mundo, da natureza e da vida entre os indígenas autócnes e os orientais, cujo impacto devastador é alvo de crítica (a elevada exploração da borracha e dos recursos naturais, por exemplo) e sátira dissimulada, nunca pérfida (às nefastas missões religiosas, sobretudo). E a viagem faz-se num misto de emoções: por um lado, o prazer da descoberta, o deslumbramento, e, por outro, as tantas fobias inerentes - o medo da loucura e do isolamento nos confins da selva, o perigo dos animais ferozes e venenosos, a sombra do canibalismo, a brutalidade e violência dos inimigos e da catequização obscena, que impõe o evangelho e a sua verdade, dizimando tribos e tradições ancestrais. Eis, pois, a Amazónia como expressão máxima do paraíso e, simultaneamente, do inferno.

Quando menos esperamos, os símbolos e as metáforas ganham uma importância crescente, assumindo a narrativa e abraçando uma dimensão metafísica. Karamakate aceita guiar os brancos porque é essa a sua missão épica e derradeira, a de transmitir o seu saber, de partilhar a yakruna e os seus segredos. 
O conhecimento pertence a todosSem descendência e sem futuro, com quem mais poderia partilhar? É quando Theo morre (a visão do jaguar, que morde a serpente), doente e, aos olhos do índio, desrespeitoso para com a Mãe Natureza, que a sua missão é abruptamente interrompida e se torna um chullachaqui - um corpo vazio e sem alma, como uma fotografia, como um fantasma, suspenso no tempo e espaço. Limita-se a envelhecer e a sonhar. Os sonhos ainda recordam o lugar da yakruna, mas o seu ser acordado somente existe, somente paira. Ecoa Weerasethakul. Quando Evan aparece, décadas mais tarde, retomando a demanda do seu antecessor, Karamakate como que desperta e, pelo mistério, sente-se impulsionado a acompanhá-lo, para concluir finalmente a sua missão. A serpente segue o seu curso, a seu ritmo.

Karamakate é, provavelmente, das personagens mais puras que poderemos encontrar na história do cinema ficcional. Talvez por ser - não direi interpretado, direi - personificado por dois não-actores, Nilbio Torres (enquanto jovem) e Antonio Bolivar (enquanto velho), é de uma simplicidade e genuinidade desarmantes. É ele a alma do filme e a alma da Amazónia. Representa todos e cada um dos indígenas seus antepassados e contemporâneos. Respira verdade. E isto é um feito notável. Desconfia de tudo o que é do homem branco, vê inutilidade em cada livro, bússola ou fé cristã. Aliás, para ele como para qualquer índio, tudo é passível de troca à excepção do colar, intimamente ligado à alma. Talvez a única coisa que chega a admirar seja mesmo a música. A dado momento, Evan gira o disco de Haydn e ouve-se A Criação. Karamakate diz-lhe: nesta tua música está o caminho, escuta-a. É um sonho, deves guiar-te por ele. E de sonhos percebe Karamakate. O próprio filme é como um sonho, do qual não queremos acordar, c
omo se estivéssemos drogados e alucinados pelo fumo de um caapi. Um sonho ao qual voltaremos mais vezes, pois responderemos ao seu chamamento. Quando se finda e concretiza a missão, Karamakate deixa-lhe a sua canção, o colar e a alma. Evan regressa envolto em borboletas, renascido. Cumprem-se o simbolismo, a crença e o ritual. Cumpre-se a natureza das coisas.

Ciro Guerra mostra-se inspiradíssimo na captação das expressões de Torres e de Bolivar como prima, aliás, na realização e na finalização de toda a obra. O tempo encarregar-se-á de atribuir a'O Abraço da Serpente, estou certo, todo o valor e reconhecimento que tem e merece. É, seguramente, um dos mais deslumbrantes e fascinantes filmes deste início de século. A natureza não dorme. Prestemos atenção. Estamos perante arte em estado puro.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

FÚRIA (2014)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Fury
Realização: David Ayer

Principais Actores: Brad Pitt, Shia LaBeouf, Logan Lerman, Michael Peña, Jon Bernthal, Jim Parrack, Brad William Henke, Kevin Vance, Xavier Samuel, Jason Isaacs 

Crítica: 

CAVALOS DE FERRO

Ideals are peaceful. History is violent.

Se há género que proliferou em Hollywood, nas últimas décadas, foi o filme de guerra, retratando e reflectindo, especialmente e na grande parte das vezes, a brutalidade, o horror e a desumanidade da 2ª Guerra Mundial, cuja sombra ainda esvanece, cujas feridas ainda saram, cuja memória ainda não esquece. Ainda há sobreviventes, marcas e arte. Fúria continua a tradição e esse cânone, na sombra da guerra e, claramente, na sombra d'O Resgate do Soldado Ryan. A angústia da influência, como lhe chamaria Harold Bloom, é por demais notória e a comparação, se não necessária, pelo menos irresistível. Édipo não mata o pai - Ayer não foi nem é um Spielberg - no entanto, diria que estamos perante um digno discípulo, um bom filme do género.

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O Resgate diria que herda, a olhos vistos, os tons. Os tons, mas não o grão. Falo de cores e da atmosfera que estas possibilitam. A fotografia de Roman Vasyanov é absolutamente deslumbrante e é capaz de pintar o mais atrativo dos quadros perante o pior dos cenários. O plano de abertura - cujo mérito é mais do diretor de fotografia do que realizador - é magnífico: uma luz centrada, gélida e bruxuleante ilumina a tela, azulando-a. Vem do horizonte longínquo e parece inebriar a terra com uma quase neblina: não se percebe se o que vemos são arvoredos ou campos, pois não temos noção das escalas ou proporções. À medida que a luz se vai e o ecrã escurece, dá lugar a um vulto cavalgante. Somos reposicionados. E só quando a câmera solenemente decide mover-se finda o mistério. São poucos mas não meros segundos. Belíssimos. Dá gosto saborear, que abertura.

Também pelos ouvidos ecoa o mestre; aquele, o de 1998. A experiência de um filme de guerra vive-se sobremaneira pelo espectáculo sonoro e, nesse aspecto, Fúria jamais poderia defraudar o espectador. É com a fúria do título com que tiros, ricochetes e explosões irrompem cena a cena, retumbantes, reclamando a atenção e uma qualidade fora de série. Tanto os efeitos como a sua montagem são de primeiríssima linha - a equipa responsável é vastíssima e mereceria, com toda a certeza, a nomeação individual. Fica a menção honrosa pela brilhante sonoplastia. A composição musical de Steven Price é, de forma geral, subtil e temperada, pontuando ou alavancando, de forma sábia, os momentos narrativos. Sempre com o volume certo, à hora certa.

Feitos os principais destaques, foquemo-nos no elenco - um colectivo com um potencial poderosíssimo; notem-se os principais nomes: Brad Pitt (mega-estrela, com um historial de personagens que fala por si), Logan Lerman (claramente em ascensão e a ter em conta) e o malogrado 
Shia LaBeouf (malogrado por sua própria conta e risco, porque de talento está muito bem servido - aqui num notável underacting). Temos em Fúria grandes interpretações, pelo menos à altura do argumento, que orienta um road dos tanques ao sabor dos ataques e das investidas do inimigo. Um road movie como o filme de Spielberg e tantos outros propõem, num tempo em que a verdadeira cavalaria ganha força nos ares mas que em terra não é assegurada senão pelos tanques blindados, essas claustrofóbicas e assustadoras máquinas de guerra, que tudo levam à frente, conduzindo a ambição - e a esperança - humanas de campo em aldeia e em cidade, esmagando pó, carne ou osso. Cavalo a cavalo, todos sucumbem ao fogo e à destruição. Temos até direito a um duelo, em que só a maior astúcia ou inteligência poderá ditar a vitória. Animais, monstros, todos se tornam monstros, todos se transformam. Até o cândido Norman de Lerman, pela força das circunstâncias, quando o impulso ganha domínio sobre qualquer reflexão. Na guerra, não há tempo para isso.

Tivesse David Ayer mais cuidado e inspiração na encenação e na construção das cenas e estaríamos, provavelmente, perante um filme superior, mas não procuro, de todo, cair na tantas vezes fácil lamentação e exigência cinéfilas. Estamos perante um filme tremendo. O momento mais tenso e melhor conseguido será, porventura, aquele central em que as personagens de Pitt e Lerman sobem ao apartamento das primas alemãs. As diferenças linguísticas impõem, desde logo, uma barreira que rapidamente se esbaterá no respeito ou desrespeito com que os soldados tratarão as duas mulheres. A contrabalançar as violentas e viscerais sequências de acção que se antecederam e que se sucederão, esta
 cena mais demorada ou este acto mais delicado; nunca menos brutal ou impactante, pois... o que dizer do emocionante final, em que a coragem é extremada e aqueles homens se superam na defesa do tanque como quem defende a sua própria casa, até ao último fôlego? Que chacina, que final.

Fúria é, por tudo isto, uma homenagem maior a todos esses heróis que manobraram os míticos veículos, armados até aos dentes, atemorizados até ao mais profundo e recôndito lugar das suas almas. Uma homenagem, um retrato embebido num realismo esfomeado, um convite à reflexão, mas um filme. O filme dos tanques. E um filme que vale seguramente a pena. Não leva as cinco estrelas por uma unha negra.

domingo, 29 de janeiro de 2017

ENCONTROS IMEDIATOS DO 3º GRAU (1977)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM 
★★★★★ 
Título Original: Close Encounters of the Third Kind
Realização: Steven Spielberg
Principais Actores: Richard Dreyfuss, François Truffaut, Teri Garr, Melinda Dillon, Bob Balaban, Cary Guffey 

Versão do Realizador

Crítica:

OS SINAIS E O CONTACTO 

Major Walsh, it is an event sociologique.
Claude Lacombe 

Encontros Imediatos do 3º Grau é, por variadíssimos motivos, um dos mais icónicos e extraordinários filmes de Spielberg. Desde cedo fascinado pela cultura popular dos OVNI's, a obra concretiza o abraço duvidoso dos grandes estúdios de Hollywood à temática, numa altura em que a Columbia Pictures encarava sérios problemas financeiros. O devaneio de Spielberg era considerado um risco, mesmo estreando-se na sequência do estrondoso sucesso de Tubarão, considerado o primeiro blockbuster de todos os tempos. Por isso mesmo se estreou em apenas 2 salas, a medo, antes do êxito se propagar pelo país e, depois, por todo o mundo. Alimentaria e ajudaria a expandir o fenómeno dos extraterrestres como poucos, na verdade e de forma incontornável, seguindo-se o acarinhado E.T. - O Extraterrestre em 1982 e só em 2005 o tão subvalorizado Guerra dos Mundos, numa altura em que a sua fé se rendera ao cepticismo - ou não tivessem os avistamentos tão misteriosamente abrandado, em inícios do século XXI, numa era tão marcadamente tecnológica e em que as câmeras de filmar proliferaram. 

A história é sobre pessoas banais (traço comum nas obras do cineasta) que, em circunstâncias extraordinárias, são alvo do extraordinário e concretizam o extraordinário. O Roy de Dreyfuss é exatamente uma dessas pessoas, que se vê alienado do seu dia-a-dia e da sua família por força de um chamamento superior, que o impele e desafia numa busca existencial, em busca de significado, de revelação, de respostas às suas muitas perguntas. O argumento mergulha o fascínio extraterrestre com um complô à escala internacional, que tenta esconder, no maior dos secretismos, os sinais e os contactos entre os humanos e as criaturas desconhecidas. A narrativa avança num impressionante crescendo de suspense, entre cenas em que discos luminosos e voadores rasgam os céus nocturnos, navios aparecem misteriosamente no meio de desertos ou adoráveis crianças são, na sua desarmante inocência, atraídas pelo desconhecido e sequestradas pelos invasores. Nem por um momento, no entanto, Spielberg deixa antever se os extraterrestres nos querem bem ou mal. O segredo adensa-se como o mais forte dos nevoeiros e nós, que presos ao filme nos encontramos, embrenhamo-nos sem resistência. 

Nota para a presença de François Truffaut como Claude Lacombe - Spielberg sempre pensou nele como ideal para o papel, por se tratar de uma criança grande ou de um adulto que vê o mundo com os olhos e a natureza de uma criança. Segundo Spielberg, Encontros é para adultos capazes de se entregarem ao desconhecido com a mesma fé - incondicional - de uma criança. Da mesma forma, espontânea, com que o pequeno Barry (brilhante Cary Guffey) abre a porta de sua casa ao mistério. Destaque ainda para o cuidado inspirado no fecho de determinadas cenas: são como demonstrações de amor à arte, numa arquitetura da cena ao mais ínfimo pormenor, do primeiro ao último instante.

Encontros estreou no mesmo ano de Guerra das Estrelas - o contributo de ambos os filmes para a ficção científica é evidente; não obstante Spielberg preferisse chamar-lhe, no seu caso, especulação científica. Contudo, o poder imagético daquele grandioso final não só ecoa na memória do espectador que adora o género como na própria História do Cinema. Spielberg arquitectou um fascinante espetáculo de luz e som no cume da Torre do Diabo (Wyoming) - para sempre associada ao filme - como se pela matemática da música enquanto linguagem universal fosse possível o contacto e a comunicação. O grande mistério culmina ali, na audaciosa orquestração de John Williams a partir das cinco notas, na extravagância visual da Direção Artística de Joe Alves e Daniel A. Lomino e no portento de fotografia de Vilmos Zsigmond - a experiência transcende-se num momento absolutamente mágico, belo e inebriante.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

DIA DA INDEPENDÊNCIA (1996)

 PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: Independence Day
Realização: Roland Emmerich
Principais Atores: Will Smith, Jeff Goldblum, Bill Pullman, Randy Quaid, Judd Hirsch, Vivica A. Fox, Margaret Colin, James Duval, Mary McDonnell, Robert Loggia, Adam Baldwin, Harvey Fierstein

Crítica:

O ATAQUE ALIENÍGENA

 That's what I call a close encounter.

O cinema também anuciou, em meados dos anos 90 do século XX e de forma tão marcante, a globalização ao mundo. Dia da Independência, mega blockbuster de Hollywood, é disso um caso inequívoco: a ação é global. A invasão extraterrestre revela-se uma ameaça massiva, destrutiva, capaz de exterminar da face da Terra toda a Humanidade, alheia a culturas ou a civilizações.

É, Dia da Independência, um triunfo? É. $817,400,891, worldwide. Triunfa o espetáculo imagético, inesquecível - a imponente, negra e flutuante nave sobre as cidades ou sobre a Casa Branca sobressai de entre as memórias do filme. Há, por isso, shots memoráveis. As criações da direção artística são assombrosas e a fotografia deslumbra a espaços - os efeitos especiais, qual som, potenciam a beleza e a alucinante experiência. A ação é explosiva, plena de adrenalina. Ecoa Spielberg, Lucas. Ecoa John Williams na enérgica banda sonora de David Arnold. O entretenimento está, pois, assegurado. Emmerich pega nas naves dos filmes de série B e eleva-as ao mais espetacular e mainstream dos filmes.

Peca pela duração excessiva ou pela leveza com que aborda a tragédia, faltando-lhe, às tantas, uma maior maturação dos episódios. Sucedem-se os lugares comuns. Não há personagens modeladas (a melhor, ainda assim, é a do presidente Whitmore, de Bill Pullman). Will Smith e Jeff Goldblum partilham um protagonismo superficial, alternando o bom humor com o elenco secundário (Randy Quaid, Judd Hirsch).

Quando nos apercebemos, contudo, que os americanos é que sabem e que os americanos é que descobrem os melhores meios e técnicas para destruir os invasores, apercebemo-nos de que o filme vende por demais a bandeira e a liderança americana a todo o planeta. Cai por terra aquele ideal de globalização que o filme parece abraçar inicialmente, sobrepondo-se o ego americano, irresistível a tanto do seu cinema comercial. Mas enfim, esta é uma questão secundária, de abordagem. O filme não é sobre a globalização, é sobre o ataque alienígena. Nesses termos, o filme faz-nos voar no imaginário, no nosso e no da visão de Emmerich, o que é meritório. Agradou exponencialmente a milhares e milhares de espetadores, marcou um tempo. Por isso, missão cumprida; apesar dos - para mim, detetáveis - desequilíbrios.

sábado, 8 de março de 2014

O ARTISTA (2011)

 PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★
Título Original: The Artist
Realização: Michel Hazanavicius
Principais Atores: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch, Ken Davitian, Malcolm McDowell, Basil Hoffman, Bill Fagerbakke, Nina Siemaszko

Crítica:

O CREPÚSCULO DO CINEMA MUDO

 If only he could talk.

O Artista é uma viagem no tempo: um caso de puro revivalismo, de homenagem, não tanto de nostalgia, como alguns críticos avançam. É certo que a saudade do cinema de outrora terá estado, seguramente, na sua origem, mas é muito bem humorado, dramático quando assim tem de ser, romântico porque é essa a sua natureza. É um filme mudo (a prodigiosa e espirituosa banda sonora de Ludovic Bource dá voz aos silêncios, com toda a graça e eloquência), a preto e branco, como se tivesse sido feito nos anos 20 do século XX, à parte uma ou outra sequência que (inteligentemente) brinca com as potencialidades do som - como naquele pesadelo mordaz em que o som e as gargalhadas assaltam e assombram o protagonista. O Artista resulta, por isso e como não podia deixar de ser, numa experiência curiosa e rara.

Inicia-se com o filme dentro do filme, num jogo de espelhos, em auto-observação. Assume-se: é, sobre todas as coisas, um filme artístico, sobre a própria arte cinematográfica. É, também, sobre as estrelas cadentes e o seu irremediável pathos, sobre os atores maiores do cinema mudo, plenos de uma expressividade física e teatral exagerada, que são ultrapassados ou caem no esquecimento pela novidade, chamariz e sucesso do cinema sonoro. É, pois, justo, porventura imediato, estabelecer um paralelismo entre George Valentin (carismaticamente interpretado por Jean Dujardin) e a extravagante Norman Desmond (memorável Gloria Swanson), do magistral de Billy Wilder O Crepúsculo dos Deuses. Apesar de terem personalidades completamente distintas, os protagonistas de ambos os filmes têm em comum o malfadado percurso no seio da velha Hollywood. Também o genial Serenata à Chuva foi claramente uma influência.

Ironia do destino, pois, que George se apaixone pelo brilho e encanto da jovem Peppy Miller (Bérénice Bejo), que se tornará - por mérito próprio -  nada mais nada menos do que a mais recente heroína do cinema americano - sonoro, claro está. Enquanto ele, inadaptado à modernidade, fica no desemprego, entregue ao álcool e à desesperante solidão após gastar a sua fortuna no comovente embora fracassado Tears of Love (do qual foi produtor, realizador e estrela, e no qual é literalmente sugado pelas areias movediças; o que adquire uma dimensão simbólica, metafórica), ela alimenta as bilheteiras como ninguém, bilheteiras que se estendem a perder de vista pelas ruas, enriquecendo a máquina capitalista dos Kinograph Studios, para contentamento do patrono Al Zimmer (John Goodman). Valha-lhe - a George - o cão (Uggie), fiel companheiro para todas as horas, também artista, mas sem qualquer ego ou vedetismo. Ou mesmo o serviente motorista Clifton (James Cromwell), que acaba por despedir por não ter mais rendimentos. E por fim valha-lhe mesmo a suposta rival Peppy Miller, pela qual o seu coração sangra, que tanto o admira sem ele saber... As fases da tragédia grega sucedem-se: catástrofe, anagnórise, catarse. Bem que desconfiamos do final feliz, com música e dança como num bom e antigo musical que se preze. No fim, a comédia vence a tragédia.

Michel Hazanavicius é virtuoso. Estudou bem os clássicos, nota-se, e O Artista reflete toda essa herança: a cada cena no movimento de câmera, na precisão com que insere os quadros de legendas, na montagem e na iluminação (a fotografia de Guillaume Schiffman é um autêntico portento), na esmerado guarda-roupa (Mark Bridges) ou na majestosa cenografia (Laurence Bennett e Robert Gould) que asseguram a verosímil reconstituição histórica. O filme é, todo ele, tecnicamente irrepreensível e o elenco é fabuloso - a dupla principal tem, efetivamente, a aura de outros tempos (o que não é senão o resultado do seu extraordinário trabalho de composição). A obra acaba por triunfar e conquistar o espetador, sobretudo pelo seu despretensiosismo e pela simplicidade da sua história.

Uma última ironia do destino? Passados tantos anos, O Artista arrebata prémios por todo o globo. O mudo encontra um novo auge em tempos do sonoro e do 3D. Que o apaixonado filme de Hazanavicius inspire à descoberta dos primórdios do cinema.

sexta-feira, 7 de março de 2014

RELATÓRIO KINSEY (2004)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Kinsey
Realização: Bill Condon
 
Principais Atores: Liam Neeson, Laura Linney, Chris O`Donnell, Peter Sarsgaard, Timothy Hutton, John Lithgow, Tim Curry, Oliver Platt, Dylan Baker 

Crítica:
 
A NATUREZA 
DA SEXUALIDADE HUMANA 

The gap between what we assume people do
 and what they actually do... is enormous. 

A publicação dos estudos de Alfred Kinsey sobre a sexualidade de homens e mulheres foram, para a sociedade norte-americana dos finais dos anos 40 e inícios dos anos 50 do século XX, como uma bomba atómica. Eu diria, uma bomba atómica para o mundo. Atentando contra a sociedade conservadora, de costumes profundamente religiosos e puritanos, eis a verdade sobre a prática sexual humana, sem eufemismos: sexo oral, anal, posições sexuais, masturbação, preliminares, homossexualidade, bissexualidade, heterosexualidade, frequência de orgasmos, de relações sexuais, etc. Falar abertamente de sexo e de prazer, rompendo pudores, desmistificando tabus e esclarecendo toda uma população na ignorância até perceber que everybody's sin is nobody's sin, and everybody's crime is no crime at all

As barreiras quebradas por Kinsey permitiram a sociedade que hoje conhecemos, com maior abertura para o sexo e para a sexualidade. É preciso ter bem presente que até então a masturbação era entendida como um pecado maior, capaz de levar à loucura, à cegueira ou à epilepsia, ou mesmo até à morte; tal era o medo e a culpa impostos pela cultura da época. A solução recomendada para o alívio, como alternativa à masturbação, era - no caso dos homens - mergulhar os testículos em água fria, ler o Sermão da Montanha ou - imagine-se - pensar na própria mãe. Se Relatório Kinsey, o biopic dramático de Bill Condon sobre Kinsey, ainda chocar, provocar ou de alguma forma causar desconforto no espetador, é sinal que ainda muita coisa está para mudar no que toca à abertura e naturalidade das pessoas para falar da sexualidade - aspeto determinante na formação da personalidade de qualquer indivíduo.

O apaixonante - para ele, Kinsey (memorável desempenho de Liam Neeson, num dos grandes papéis da sua carreira) - estudo da vespa-dos-galhos, da qual colecionou milhares e milhares de espécimes, levou-o a concluir que não há dois seres iguais, que a diversidade é irredutível, mas que, apesar de todos diferentes, há variações entre os indivíduos. Criado por um pai protestante e por demais castrador (John Lithgow, o qual entrevistará mais tarde, apercebendo-se dos seus traumas de infância), a sua investigação da sexualidade será uma luta metafórica contra o próprio pai, o qual sempre amou mas do qual nunca sentiu reconhecimento e uma continuação dessa sede de conhecimento, de respostas, iniciada com a vespa-dos-galhos. Afinal, tinha que ter provas científicas para argumentar com os pacientes que acreditam que a gravidez pode ter origem no sexo oral. Naturalmente, zoologia e biologia não são a mesma coisa, lidam com forças de opinião distintas na sociedade e desconstruir o mito da sexualidade trouxe-lhe muitos dissabores. Sex is a risky game, because if you're not careful, it will cut you wide open. Mas compensou.

Começou por destronar a ineficácia das aulas de higiene na Indiana University com o seu próprio curso. Let's start with the six stages of the coital sequence. Stimulation... lubrication, erection... increased sensitivity... orgasm and nervous release. Both sexes experience all six stages equally. Através de questionários pessoais, anónimos e confidenciais, iniciou as suas estatísticas e a descoberta foi por demais reveladora. Kinsey apercebeu-se de que a maioria da população é bissexual, embora essa maioria esconda os seus comportamentos desviantes (desviantes, considerando a cultura dominante que a heterossexualidade é a normalidade) por vergonha. As pessoas traem a sua própria natureza para serem aceites, para integrarem os grupos sociais. Assim sendo, compreendemos melhor os costumes da antiguidade clássica, por exemplo, ou mesmo os contrastantes e atuais. Kinsey refere-se ao assunto: Homosexuality happens to be... out of fashion in society now. That doesn't mean it won't change someday. A prática e a orientação sexual surge-nos não só predeterminada pelas necessidades biológicas mas inequivocamente influenciada pelos contextos sociais, ao fim e ao cabo também como uma questão de moda. Kinsey estabeleceu uma escala de 1 a 6 para classificar os indivíduos, sendo 1 exclusivamente homossexual e 6 exclusivamente heterossexual. Assistiu a encontros sexuais, filmou muitos deles, experimentou outros tantos. O amor pela mulher Clara McMillen (estupendo desempenho de Laura Linney) viu-se às tantas abalado pelas experiências extraconjugais, até que Clara também experimenta o amante do marido, Clyde Martin (Peter Sarsgaard). Acabam por redefenir o amor de ambos e entender-se perfeitamente até à velhice, salientando a necessidade e a importância de certas convenções para que as pessoas não se magoem mutuamente. 

Clyde Martin: Just one more question. You've just told me your entire history: childhood, family, career, every person you've ever had sex with. But there hasn't been a single mention of love. 
Alfred Kinsey: That's because it's impossible to measure love. And, as you know, without measurements there can be no science. But I have been thinking a lot about the problem lately (...)
When it comes to love, we're all in the dark.

A dado momento, Kinsey diz: Love is the answer, isn't it? But, sex raises a lot of very interesting questions... Há depoimentos insólitos, perturbantes, outros especialmente tocantes, outros até repugnantes como casos de incesto, de violações ou de pedofilia, obviamente condenáveis. O testemunho final, excecionalmente interpretado por Lynn Redgrave, a respeito da sua homossexualidade, é derradeiramente comovente e acaba por simbolizar o reconhecimento e o agradecimento de todos quantos viram as suas vidas melhorar graças ao trabalho e à coragem de Kinsey:

We'd been married for years, with three marvelous children. And as soon as my youngest left to go to college... I took a job in an arts foundation. I met a woman there - secretary in the grants office. We became fast friends, and... before long, I fell in love with her. Hmm. This came as quite a shock, as you might imagine. The more I tried to ignore it... the more... powerful it became. You have no idea... what it's like to have your own thoughts... turn against you like that. I couldn't talk to anyone about my situation... so I found other ways to cope. Uh, I took up drinking. Eventually, my husband left me. Even my children fell away. I came very close to... ending it all (...) Things have gotten much better (...) After I read your book, I realized... how many other women were in the same situation. I mustered the courage to talk to my friend... and she told me, to my great surprise... that the feelings were mutual. We've been together for three happy years now. You saved my life, sir.

Relatório Kinsey não é, com toda a certeza, o melhor dos filmes (como a maioria dos biopics, aliás), assim como Bill Condon não é o melhor dos realizadores. No entanto, não sejamos injustos: apesar de aqui e ali inequivocamente formatado, tem grandes interpretações, valores seguros de produção (montagem, direção artística, fotografia ou banda sonora) e um interessantíssimo argumento, muito bem humurado, que acaba por enfatizar a sua natureza ensaística e didática. O argumento deste filme é essencial para o filme mas também para o conhecimento público, sobretudo para todos quantos desconhecem a figura histórica e o seu legado para as gerações futuras. Para todos esses, o filme terá passado despercebido, mas é de visualização obrigatória. Para todos os outros, poderá sempre conduzir a alguma descoberta, quando muito não seja sobre eles próprios.

PROCUREM ABRIGO (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★ 
Título Original: Take Shelter
Realização: Jeff Nichols
Principais Atores: Michael Shannon, Jessica Chastain, Tova Stewart, Shea Whigham, Katy Mixon, Natasha Randall, Ron Kennard, Scott Knisley, Robert Longstreet

Crítica:

O PRESSÁGIO DO APOCALIPSE

 There's a storm coming like nothing you've ever seen,
 and not a one of you is prepared for it.

Procurem Abrigo evoca o melhor suspense de Hitchcock a Shyamalan: até os pássaros trazem o pior augúrio e a dualidade entre o real e o imaginário ou entre o natural e o sobrenatural renova, a cada instante e até ao final, a dúvida no espetador. O medo impera - o drama cede, não raras vezes, ao thriller psicológico e ao terror. Há como que uma sensação de ameaça omnipresente e iminente, lançada pelo negrume daquelas nuvens carregadas; as mesmas que instalam, logo desde a abertura, o mistério e o pânico interior no assustado Curtis de Michael Shannon - naquela que é, seguramente e até agora, a sua mais notável e intensa performance.

Assolado por terríveis sonhos que lhe angustiam a existência depois de acordar, Curtis vê-se involuntaria e obsessivamente obrigado a mudar as suas atitudes, o seu dia-a-dia. Sonha que uma tempestade apocalítica se aproxima e começa a ampliar o abrigo subterrâneo do quintal, qual Arca de Noé, para a proteção da família quando a intempérie chegar. Retira o cão de casa e constrói um cercado na rua, não vá o animal morder-lhe como no pesadelo. Precipitam-se visões e o ouvir de trovoada quando ela, na realidade, não existe. A mãe está há anos internada num lar psiquiátrico e Curtis teme que a genética comece a falar mais alto. Esse passado, aliás, assombra-o mormente. Estranhamente, esconde toda a situação da mulher e da filha surda-muda, que tanto ama e que tanto o amam incondicionalmente, numa paisagem rural tão desoladora que parece acentuar as suas perturbadoras circunstâncias. As premonições não param e Curtis afasta-se de tudo e todos, pondo em causa as suas relações pessoais e o emprego, cujo seguro pagará a operação da filha.

A ação torna-se inquietante, de suster a respiração. Quase que penetramos a conturbada dimensão interior do protagonista e sufocamos nela. Sem artifícios maiores, a humanidade das personagens vem ao de cima, graças à inteligente construção do argumento (Jeff Nichols escreve e realiza) e à verdade das emoções, extraída da direção de atores fora-de-série. Destacam-se, naturalmente, Shannon e a Jessica Chastain - a graciosa Srª O'Brien de A Árvore da Vida, obra-prima de Terrence Malick, que em 2011 ascendeu ao estrelato de Hollywood como uma das suas mais promissoras atrizes. A cena em que Curtis revela à mulher o que lhe está realmente a acontecer é seguramente a melhor do filme (o drama familiar atinge aí o seu auge); pelo menos até então, porque o falso final no abrigo e o efetivo final na praia são tremendos: na encenação, na banda sonora (por David Wingo, uma das principais responsáveis pelo desconforto da experiência), inclusivé na fotografia (Adam Stone)... O escape à claustrofobia imposta pelo abrigo é tão libertador para as personagens como para nós, espetadores.

Procurem Abrigo consegue, pois, surpreender, transcender-nos em emoções e superar-se enquanto objeto fílmico, ascendendo claramente a um patamar superior. Desta obra em diante, Jeff Nichols não é senão um nome a ter em conta. Procurem Abrigo arrebatou-me. Foi uma conquista inesperada e arrepiante, daquelas que justificam e alimentam a nossa paixão pelo cinema. Que excecional pedaço de cinema. Absolutamente imperdível.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões