sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (2005)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Brokeback Mountain
Realização: Ang Lee
Principais Actores: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Randy Quaid, Linda Cardellini, Roberta Maxwell, Anna Faris, Kate Mara, Peter McRobbie, Scott Michael Campbell


Crítica:
 

A FORÇA DO AMOR

I wish I knew how to quit you...

O Segredo de Brokeback Mountain é uma obra organica e estruturalmente simples e linear, baseada no conto de Annie Proulx, mas que atinge - pela virtuosíssima realização de Ang Lee e pelas extraordinárias performances dos atores - uma dimensão profundamente bela e trágica. Abre ao som das sonantes mas aparentemente descomprometidas cordas de Santaolalla, com a mesma naturalidade com que a neblina se desvanece com o raiar do dia. Inicia-se como uma pintura naturalista ou uma elegia bucólica, entre a abundância das árvores e da verdura e as íngremes escarpas, plenas de rebanhos. O céu é azul luminoso - irretocável Rodrigo Prieto -, as nuvens vagueiam a espaços. O cenário é puro e natural... e, assim como o amor é uma força da natureza, conhecerá o despertar e o poder do genuíno amor. 


Wyoming, verão de 1963. Depois de uma longa viagem desde o Texas, Jack Twist (brilhante Jake Gyllenhaal) chega para uma temporada a guardar rebanhos na Brokeback. Prefere ganhar a vida nos rodeos ou a trabalhar longe do que a sujeitar-se ao suor do rancho, sob a autoridade do pai com o qual - deixa antever - não se relaciona maravilhosamente. Junto à cabine do empregador Joe Aguirre (arrogante Randy Quaid), espera já - em silêncio e muito reservado - um outro cowboy: Ennis Del Mar (um surpreendente, intenso e telúrico Heath Ledger). Jack, mais irreverente e falador, e Ennis, claramente mais introvertido, ambos bastante hábeis e viris, partem a cavalo montanha acima, prontos a disparar contra qualquer coiote que ouse ameaçar as ovelhas do criador. Há pouca conversa, pouca interação, parecem dispostos a que o tempo passe sem desenvolverem especial amizade um pelo outro. Chegará o dia em que a tranquilidade da paisagem contrastará veementemente com a convulsão interior dos protagonistas. Sucede-se o sol, a lua e o dia-a-dia até que, numa noite de frio mais aguerrido, Ennis procura alento na tenda do companheiro. E, mesmo sem se conhecerem especialmente, desperta entre eles uma atração espontânea e mais forte do que qualquer razão. Beijam-se, envolvem-se, abraçam-se... e adormecem. Quando clareia a madrugada e por mais que tentem, não poderão mais ignorar-se: o amor é uma força da natureza - repita-se a tagline do filme, porque, afinal, ela diz tudo. 

Ennis Del Mar: This is a one-shot thing we got goin' on here. 
Jack Twist: It's nobody's business but ours. 
Ennis Del Mar: You know I ain't queer. 
Jack Twist: Me neither.

O romance evolui, mas está inevitavelmente condenado pelo tempo e pelo espaço em que acontece, pelas circunstâncias, pela sociedade e pelos seus valores, modelos e preconceitos. Ainda para mais no contexto rural, do interior, amplamente machista e profundamente conservador. Se Ennis e Jack decidissem continuar a encontrar-se, que futuro teriam? O medo, a humilhação, a vergonha, todos esses sentimentos os assombram. Às tantas, Ennis relembra o que presenciou em criança, quando se descobriu que dois homens locais se envolviam. Entra o flashback. Compreendemos perfeitamente o que eles sentem - deve ser angustiante, quem sabe se asfixiante, gostar-se até às entranhas e ser obrigado a escondê-lo de tudo e todos, até deles próprios, como se o que sentissem fosse anti-natura. 

 You ever get the feelin'... I don't know, er... when you're in town and someone looks at you all suspicious, like he knows? And then you go out on the pavement and everyone looks like they know too? 
Ennis Del Mar

Quando o trabalho acaba e dão conta da separação, os efeitos são devastadores. Note-se como Ennis se retira para um beco sombrio e cai de joelhos, em lágrimas, como se caísse no abismo do vazio, sem o seu Jack. O Segredo de Brokeback Mountain parte para o segundo acto tentando convencê-los - e convencer-nos a nós, espetadores - que a vida continua e que o que se passou na montanha pode ser apagado da memória e do coração. Mas não pode. A ação do tempo, daí em diante, será reveladora quanto baste... porém também implacável e fatal. Não admira, pois, que o filme se afigure como uma experiência tão penosa e desoladora para o espetador. As cordas de Santaolalla há muito que nos deixaram de soar descomprometidas... entretanto envolveram-nos. Agora arrebatam-nos e ecoam-nos na alma. Quando Ennis e Jack se reencontram, apercebemo-nos da inevitabilidade daquele amor proibido, capaz de superar a distância. Sentimos a dor e o desnorte de Alma (comovente Michelle Williams), a entretanto esposa de Ennis, quando descobre aquele fogoso e apaixonado beijo no vão das escadas. Não há meras pescarias de amigos, afinal, naqueles fins-de-semana fora, de volta ao sítio onde tudo começou... É interessantíssimo, a propósito, perceber como evolui o retrato e o significado da montanha na relação de ambos. Primeiramente, Brokeback é o lugar imaculado onde tudo acontece e onde tudo é possível. Depois, surge-nos apenas como paisagem, que assiste, impotente, ao desmoronamento da relação pelas demais pressões, preconceitos e novas responsabilidades, mas sobretudo pela distância que acaba por fazer sentir-se. Por fim, aparece-nos apenas num postal ilustrado, arrumado num armário como a mais inesquecível das memórias, juntamente com a camisa manchada de sangue.

Tell you what, we coulda had a good life together! (...) Had us a place of our own. But you didn't want it, Ennis! So what we got now is Brokeback Mountain! Everything's built on that! That's all we got, boy, fuckin' all. So I hope you know that, even if you don't never know the rest! You count the damn few times we have been together in nearly twenty years and you measure the short fucking leash you keep me on (...) You have no idea how bad it gets! I'm not you... I can't make it on a coupla high-altitude fucks once or twice a year! You are too much for me Ennis, you sonofawhoreson bitch! I wish I knew how to quit you...
Jack Twist
 
Heath Ledger entrega-se a um trabalho de composição e contenção extremamente complexo: o seu cowboy jamais cai no caricato, é um ser humano amplamente real, dimensionado pela sua interioridade, que se revela nos silêncios e, apesar de tudo, na sua fisicalidade. É uma personagem completamente notável, que nos parte o coração não só pelo seu sentimentalismo, mas sobretudo pela sua sinceridade. O instante em que abraça a camisa do amado, numa sentida e condolente visita aos pais de Jack, é, simplesmente, de ir às lágrimas. 

O Segredo de Brokeback Mountain é como um diamante em bruto - na fluente e graciosa evolução dramática, na subtileza e na sensibilidade de cada cena, no sentimento que emana de cada olhar e de cada gesto (afinal, os estados mais primitivos da palavra e da linguagem). Está tanto no implícito. Ang Lee expõe-nos, assim, o seu filme mais intimista, que se perpetua na sonoridade única da banda sonora.

Um clássico instantâneo e absoluto.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

HERÓI (2002)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
★★★★★
Título Original: Ying Xiong
Realização: Zhang Yimou
Principais Actores: Jet Li, Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung, Zhang Ziyi, Chen Daoming, Donnie Yen, Daoming Chen, Zheng Tia Yong, Yan Qin, Chang Xiao Yang, Ma Wen Hua, Wang Shou Xin, Jin Ming, Xu Kuang Hua

Crítica:

A LENDA DO HERÓI SEM NOME
OU O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO


O maior feito de todos é conseguido 
pela ausência da espada tanto na mão como no coração.

São poucas as obras de arte, desde que há cinema, capazes de rivalizar com a pureza e a beleza poética deste Herói, esmagadora obra-prima visual de Zhang Yimou. É, com toda a certeza, um dos mais belos filmes de sempre. Depois do virtuoso O Tigre e o Dragão, de Ang Lee, ter aberto as portas do cinema oriental ao mundo, como há muito não acontecia, eis que, pelas mãos dos mesmos produtores, os épicos de artes marciais - os wuxia, daqueles que desafiam a gravidade e a imaginação - atingem o seu máximo esplendor. As lendas do nascimento da China e da edificação da Grande Muralha inspiram um argumento arrojado: qual Rashômon - Às Portas do Inferno, de Kurosawa, Herói esculpe o seu diamante jogando com as sucessivas perspetivas das personagens sobre os mesmos acontecimentos, o que resulta numa desafiante odisseia interpretativa para o espetador, aliada a um deslumbrante e arrebatador festim de cores e emoções.

Há dois mil anos (...) a China estava dividida em sete reinos. Durante anos bateram-se pela supremacia enquanto os seus povos sofriam. O mais temível no desejo de conquistar terras e de tudo unificar debaixo dos céus era o rei Qin. Era visto pelos outros seis reinos como um inimigo comum. Os anais da história chinesa abundam de narrativas sobre assassinos enviados para matar o grande rei. Eis uma dessas lendas...

O protagonista Sem Nome, interpretado por um frio Jet Li - o anonimato não deixa de possuir uma forte carga simbólica - tem a honra de ser recebido pelo rei Qin (Daoming Chen), a uns escassos dez passos, para a entrega das espadas de Céu (Donnie Yen), Neve Esvoaçante (Maggie Cheung) e Espada Partida (Tony Leung Chiu Wai), os três assassinos mais procurados e com a cabeça a prémio, até então jamais apanhados, desde uma tentativa passada e falhada de regicídio. A oferta das espadas significa que Sem Nome os derrotou, apesar da sua fama de invencíveis. O rei anseia agora tomar conhecimento da sua versão dos acontecimentos. Mas a história que o herói lhe conta é tão inverosímil que o rei jamais acreditaria no seu conto. Eis que sua majestade o confronta, com uma possível versão mais plausível. E como não há duas sem três, Sem Nome acaba por contar uma terceira versão, menos fantástica e muito mais fiel à realidade. O filme consiste na audiência real e na contraposição/esgrima de argumentos e perspetivas. A palavra como arma. É fascinante acompanhar a retórica de cada um e o desvendar do mistério. No final, até a chama das velas aponta para a verdade. A identidade do herói é afinal outra e não passou tudo de um plano para tentar assassinar Qin de uma vez por todas. Curioso que o significado do caracter, a vigésima forma de escrever espada, apele à diplomacia para a resolução do conflito, à paz pela palavra e que por ela se reja a honra dos heróis e dos grandes Homens. É a demanda de Sem Nome que acaba por desencadear o nascimento do império e a sua filosofia.

O genial trabalho de cinematografia de Christopher Doyle, em constante harmonia com a paisagem ou a cenografia (Tingxiao Huo, Zhenzhou Yi), transcende-nos em absoluto. Vermelho, azul, branco, verde... o jogo de tonalidades resulta magistralmente na diferenciação das várias linhas diegéticas. Também no guarda-roupa o arrojo é notável e cooperante com esta estética colorida e maravilhosa. A banda sonora de Tan Dun, profundamente espirituosa, perpetua o encantamento e os efeitos especiais (quase impercetíveis de tão sofisticados) aliam-se à criatividade mágica da obra. Confluem-se, subtilmente, com a estética das lutas e das fabulosas sequências de acção. Os comoventes desempenhos de Maggie Cheung, Tony Leung Chiu Wai ou Daoming Chen sobressaem e dão vida e alma à lenda. Cenas memoráveis? Inúmeras e já antológicas: a luta entre Sem Nome e Céu, entre os pingos da chuva. O ataque do exército real à escola de caligrafia. O confronto enraivecido entre Lua (Zhang Ziyi) e Neve Esvoaçante; ambas de vermelho, qual bailado, entre as folhas caídas e douradas. O duelo entre o herói e Espada Partida sobre o lago. A cada golpe de espada não há violência, apenas lirismo. Cada plano, cada enquadramento, ousa tocar o divino. É como pintura em movimento. Que mais poderíamos pedir de uma obra de arte?

Zhang Yimou, apaixonado e inspiradíssimo, filma com o maior sentido de espetacularidade e extravagância. Herói impõe-se, pois, como um colossal exemplo de perfecionismo e megalomania. Mas Yimou jamais se perde nos excessos: Herói é, afinal, um filme profundamente intimista e um exercício de extrema sensibilidade na forma como jamais descura a dimensão e as relações das suas personagens. É ainda meditativo e contemplativo quanto baste. Enfim, uma obra-prima delirante e incontornável. Dá a sensação que a perfeição existe, a cada instante imperdível.

HERÓI (2002)

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

AS HORAS (2002)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Hours
Realização: Stephen Daldry

Principais Actores: Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep, Stephen Dillane, John C. Reilly, Ed Harris, Miranda Richardson, Toni Collette, Claire Danes, Jeff Daniels, Allison Janney, Jack Rovello

Crítica: 

I choose death.

A ANGÚSTIA DO TEMPO

I chose life.

A morte assombra As Horas desde o primeiro instante: desde o trágico prólogo em que Virginia Woolf sai de casa, atravessa o jardim apressadamente e avança pelas águas do rio Ouse adentro, de pedregulho no bolso, decidida a terminar o seu longo tormento: existir. Desde esse primeiro instante, as prodigiosas notas de Philip Glass acompanham cada fôlego das personagens - a música emerge como a lúgubre alma do filme. Quando o quadro se desvanece a negro e os créditos finais encerram a obra, a fluidez, a repetição e o dramatismo existencial das notas do compositor já penetraram a memória do espetador e acompanhá-lo-ão na reflexão.

Someone has to die in order that the rest of us should value life more. It's contrast.  
Virginia Woolf

As Horas é um ensaio filosófico tremendo, sobre a tristeza e a profunda infelicidade que advém da prisão em que se pode tornar a nossa vida caso persistamos em ignorar a nossa voz interior e em sermos nós próprios. É sobre a busca da felicidade no tempo... quando esta não vive senão na inquietude do instantes presentes. A passagem do tempo, das horas, pode ser uma experiência extremamente dolorosa... A partir do romance original de Michael Cunningham, a bem sucedida adaptação de David Hare: uma construção narrativa a três tempos, exigente, ousada e magnífica, assim como as performances da tríade de atrizes principais - Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep - as quais o filme enaltece como lendas da representação que, verdadeiramente, são. Para alguns a morte pode ser uma libertação (é com toda a certeza um escape para a instável, depressiva e intensa Virginia Woolf, decorre a ação no Reino Unido entre 1923 e 1941; Kidman transfigura-se sublimemente na pele da escritora britânica e não só por mérito da excelente caracterização), para outros uma incógnita (é o caso de Laura Brown, para quem a vida doméstica e familiar se tornou numa experiência profundamente frustrante, surgindo o suicídio como uma possível solução, decorre o melodrama na Los Angeles de 1951; o olhar de Moore transcende-se a cada cena e compreendemo-la embora tenhamos dificuldade em perdoá-la), para outros um destino cruel a evitar a todo o custo (Clarissa Vaughan deixou de viver para ela própria e perpetua uma tristeza crescente enquanto trata do amigo Richard, vítima da sida e de um desejo de morte quase poético; estamos em Nova Iorque, 2001. Meryl Streep entrega-nos mais um fabuloso desempenho da sua carreira. Richard é interpretado por um tocante e comovente Ed Harris).

Virginia Woolf, nos anos 20, escrevendo o seu romance Mrs Dalloway
Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself. 

Laura Brown, em 1951, lendo o livro de Woolf: 
Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself. 

Clarissa Vaughan, 2001, vivendo, de alguma forma, a realidade ficcional: 
Sally, I think I'll buy the flowers myself.  

Stephen Daldry concretiza um filme, em todos os aspetos, magistral. É o triunfo da inspiração e da arte sobre quaisquer dificuldades de adaptação. É a captação e a conversão da essência e do espírito do livro à linguagem cinematográfica. No guião ou na palavra proferida pelos atores, no movimento de câmera ou na beleza dos enquadramentos (fotografia de Seamus McGarvey) ou na já referida banda sonora, há uma noção harmoniosa da sensibilidade e subtileza necessárias e extremas para potenciar cada cena, cada momento. Esse uníssono, neste filme em particular, foi determinante. Funcionam assim as três histórias em paralelo e estabelecem-se, pelos detalhes, os vários pontos de ligação, como se houvesse uma narrativa comum e que evolui ao longo do tempo, como que numa superação ou entendimento maior da morte. Daí que Virginia escolha a morte, que Laura a tente mas opte pela vida e que para Clarissa a morte não seja sequer uma possibilidade - o contacto que estebelece com a morte é pela morte do outro, do amigo Richard (que às tantas descobrimos ser o adorável filho de Laura, que conhecemos no trecho dos anos 50). A ligação das três mulheres ao romance Mrs Dalloway é fulcral à sucessão dos acontecimentos. Viriginia já escrevia o romance quando decidiu que a protagonista não se suicidaria. The poet will die. The visionary. Daí a viragem no trajeto de Laura, a leitora. Daí também a morte de Richard, na terceira história.
 

To look life in the face, always... to look life in the face, and to know it for what it is... at last, to love it for what it is, and then, to put it away.
Virginia Woolf

E assim temos um filme que, tal como o inspirador livro de Richard, é... de «leitura difícil», tão lírico e erudito. Uma obra fascinante sobre tudo aquilo que antecede a Morte... o Tempo... as Horas... e a angústia decorrente dessa consciência. Um dos melhores filmes da década.

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT (2002)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: About Schmidt
Realização: Alexander Payne
Principais Actores: Jack Nicholson, Hope Davis, Dermot Mulroney, Kathy Bates, June Squibb 

Crítica:

 A ÚLTIMA ESTRADA


Remember that, young man: 
you've got to appreciate what you have, while you still have it.

As Confissões de Schmidt, de Alexander Payner, resulta numa comovente e reflexiva tragicomédia sobre a chamada terceira idade. Sem quase dar por isso, a vida voou e Warren Schmidt conta os segundos para se despedir, definitivamente, do escritório e da empresa aos quais dedicou a vida. Reformado e sem nada para fazer, resta-lhe o dia-a-dia doméstico com a mulher que conhece de trás para a frente, a tal que tem sempre razão e que o convenceu a urinar sentado, que tira a chave da mala muito antes de chegar a casa e da qual já não suporta o cheiro ou a forma como se senta. Até que... a mulher morre, subitamente. E, de um dia para outro, não só está reformado como viúvo, verdadeiramente só. A filha que tanto estima na memória vive longe, está prestes a casar-se com um futuro genro que detesta, um vendedor de colchões de água com uma barba e um penteado tão hippie como as ideias levianas da sua mãe Roberta (desconcertante Kathy Bates). Abismado pela profunda falta da esposa, incapaz de chorar ou de assumir a sua dor, Schmidt acaba por valorizar a sua querida Helen, com quem partilhou um longo casamento, mas... Ao desfiar recordações, dá com cartas de amor antigas, endereçadas à mulher... pelo seu melhor amigo... Reformado, viúvo e... traído. Não é de espantar, pois, que o pobre Schmidt se deixe ir abaixo num desmazelo depressivo, deixando-se arrastar pela casa, de pijama, dias a fio - desponta a barba - sem lavar um prato ou ir ao lixo, enquanto a sua existência não voltar a ter um sentido.

Relatively soon, I will die. Maybe in 20 years, maybe tomorrow, it doesn't matter. Once I am dead and everyone who knew me dies too, it will be as though I never existed. What difference has my life made to anyone. None that I can think of. None at all.

Para quem nunca desabafa sobre si mesmo, a catarse - e a narração - desperta no sofá, em frente ao televisor, enquanto assiste a um anúncio sobre solidariedade e ajuda internacional a crianças desprotegidas em África, por apenas vinte e dois dólares por mês. Conquistado pela retórica publicitária, abraça humana e despretensiosamente a missão, que lhe trará algum significado à vida ou conforto ao coração, por saber que pode ser útil e ajudar uma de muitas pobres crianças em dificuldades. Começa a escrever cartas a um tal Ndugo e para nós, espetadores, é como se no-las lesse. É a sua voz interior, a que finalmente ouvimos e a que ele, creio, finalmente ouve também. Certa madrugada decide-se, agarra nas malas e faz-se à estrada na sua novíssima e luxuosa Winniebago de dez metros (mais um dos caprichos da mulher, que não teve tempo de nela partilhar com o marido as viagens dos seus sonhos). A viagem pela auto-descoberta nesta nova e provavelmente última etapa de vida começa. Há que reconhecer que está na hora de deixar a filha seguir o seu próprio caminho, há que aprender a reinterpretar toda a sua existência e o seu papel no mundo.

 I know we're all pretty small in the big scheme of things, and I suppose the most you can hope for is to make some kind of difference, but what kind of difference have I made? What in the world is better because of me?

Que outro ator senão Jack Nicholson poderia interpretar este sexagenário de forma tão avassaladoramente profunda, sentida e real? A sua carga emocional é tremenda e a sua performance assaz brilhante, cativante e memorável. É por reconhecermos Nicholson mais jovem e de icónicos papéis mais excêntricos e arrogantes - entra imediatamente em jogo a nossa memória como espetadores de cinema - que sentimos ainda mais intensamente a sua dor, tão parca em palavras. Schmidt é um ser, às tantas, totalmente devastado e desencantado pelas circunstâncias que, sabemos, nos esperam a todos - é também por essa identificação, por sabermos o que nos espera também a nós, que o lado satírico e filosófico resulta tão eficazmente. O argumento da dupla Payne e Jim Taylor, a partir do romance de Louis Begley, é, neste aspeto, particularmente incisivo e inteligente. No último acto, a
fluída montagem de Kevin Tent desenboca nalgum sentimentalismo exagerado, ao qual se apressa a dar a mão a banda sonora de Rolfe Kent, mas o tom narrativo inicial torna ainda antes do fim e da carta de Ndugu, escrita por uma freira local.

As Confissões de Schmidt ganhará certamente com o envelhecimento do próprio espetador, à medida que se estreitarem as afinidades com o protagonista. Jack Nicholson tem aqui um dos seus desempenhos mais surpreendentes e intensos.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

UM MÉTODO PERIGOSO (2011)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Português: Um Método Perigoso
Realização: David Cronenberg
Principais Actores: Henry Cavill, Mickey Rourke, Stephen Dorff, Freida Pinto, Luke Evans, John Hurt, Joseph Morgan, Isabel Lucas

Crítica:

A CURA PELA PALAVRA

Do not pass by the oasis without stopping to drink.

Aqueles detratores que adoram comparações lembrar-se-ão naturalmente dos telefilmes da BBC, quando visualizarem esta nova obra de Cronenberg, Um Método Perigoso. O filme é um portento, tecnicamente falando, verosímil quanto baste na reconstituição histórica (dos cenários e decoração ao guarda-roupa e acessórios), irrepreensível na fotografia e na banda sonora (Peter Suschitzky e Howard Shore, respectivamente, em mais uma frutuosa parceria com o cineasta) e nos demais departamentos técnicos. A nível da história, contudo, fica-se pelo drama eficiente e nunca demasiadamente estimulante.

O mais interessante para quem já conhece, de antemão, o triângulo explorado (refiro-me às relações entre Sabrina Spielrein, Carl Jung e Sigmund Freud) está mesmo nas performances dos actores escolhidos para protagonistas; respetivamente: Keira Knightley, Michael Fassbender e Viggo Mortensen. A primeira, vem comprovar uma vez mais ser uma actriz capaz, de muito trabalho e entrega aos seus papéis. Sobretudo no overacting dos seus espasmos de abertura, Knightley é impressionante, em toda a sua expressão corporal. Brilhante desempenho. Fassbender é outro actor em ascensão, tem tido um percurso notável nos últimos anos que culmina ainda em 2011 com a sua segunda cooperação com Steve McQueen, no profundamente intimista Shame. Em Um Método Perigoso mantém-se ao mais alto nível; é um actor muito constante, à semelhança de Mortensen que tem liderado o elenco dos dois últimos filmes do realizador, que referirei abaixo. Saliente-se ainda a robusta prestação de Vincent Cassel, já no elenco secundário.

De resto, sejamos sinceros: de uma abordagem às origens da psicanálise (já nem me refiro ao facto de se tratar de um filme pelas mãos de Cronenberg) esperava-se uma experiência minimamente ousada, provocante e, se não tanto, pelo menos desconcertante. Não é nada disso que acontece: o argumento de Christopher Hampton adapta o livro A Most Dangerous Method, de John Kerr, e sobretudo a sua peça The Talking Cure. Corre o biopic, sucedem-se os episódios (uns mais relevantes do que outros) e aquilo que temos é mais um filme bem feito, a que se assiste com passividade e com pouco mais interesse do que se assiste a um documentário; pouco, diria, para um cineasta que já nos trouxe títulos como Uma História de Violência ou Promessas Perigosas; só para citar os mais recentes na sua filmografia. De todos estes filmes, o Método, apesar de Perigoso, é certamente o mais inofensivo. Assiste-se ao filme sem qualquer apelo maior ao inteleto ou às emoções (ainda assim, talvez mais às emoções do que ao inteleto). É Cronenberg sem sair da sua zona de conforto, jogando pelo seguro em todas as frentes. Enfim, se há crítica negativa que lhe posso apontar é esta, porque no seu todo o filme parece-me claramente imune a objeções maiores.

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Originalmente publicada na edição 28 da Revista Take.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

BUFFALO 66 (1998)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Buffalo '66
Realização: Vincent Gallo
Principais Actores: Vincent Gallo, Christina Ricci, Ben Gazzara, Mickey Rourke, Rosanna Arquette, Jan-Michael Vincent, Anjelica Huston, Kevin Pollakdlund

Crítica:

O ALIENADO

We are a couple that doesn't touch.

Buffalo 66, a primeira incursão do ator Vincent Gallo pela realização, é uma comédia absolutamente alucinada e improvável, a partir de uma representação realista, em parte autobiográfica, na qual se exageram e criticam propositadamente personagens (com base nas suas peculiaridades) e se explora a própria linguagem cinematográfica e as suas potencialidades no ecrã, para além do usual. É notório o intuito do realizador em conceber um objeto artístico tão original quanto possível na sua abordagem, despido de maneirismos e de lugares comuns. Qual Billy Brown, sabemo-lo, também Gallo é um alien, porque faz questão de o ser e não só porque o meio o determinou.

Saído da prisão e em liberdade após cumprir a sua pena, o narcísico Billy Brown (poderosa performance de Gallo) inicia uma insólita odisseia, de tentativa em tentativa frustrada para urinar. Primeiro tenta regressar à cadeia, mas negam-lhe o acesso ao wc. Depois, entra num restaurante; porém o proprietário frisa em alto e bom som que estão fechados. Entra, com a maior naturalidade, pela escola de dança do lado e procura um urinol, mas o descarado voyeurismo de um sedento gay impossibilita-lhe mais uma vez o alívio. É então que o seu mau génio se evidencia, mais claramente, e os seus olhos se esbugalham sobre as suas olheiras marcadas. Mostra-se um homem de irritabilidade fácil. E, aflitinho por urinar, acaba por ameaçar uma loira de proeminentes seios a conduzi-los sobre pressão num automóvel, até se afigurar possível parar para finalmente tranquilizar a bexiga e os humores.

Tudo se torna mais estranho quando a loira e desmiolada jovem Layla (encantadora Christina Ricci), de sapatos prateados e cintilantes, aparenta estar cada vez mais fascinada pelo bruto desconhecido, tornando-se capaz de satisfazer todos os seus pedidos. Participará numa farsa perante os pais deste, fingindo-se passar por sua mulher - conheceremos dois pais completamente desligados do filho e da realidade; formidáveis, os excêntricos desempenhos de Anjelica Huston, a mãe loucamente viciada em futebol, e de Ben Gazzara, o pai tarado e adepto do playback. Gallo filmou aliás na casa dos seus próprios pais, em Buffalo, e não é o filme senão um hilariante ajuste de contas com as suas origens. Do sapateado da pista de bowling à persistência do photomaton, do café do chocolate quente ao quarto de motel onde nada acontece e ao final surpreendente, Billy e Layla desenvolvem uma química conturbada e nem sempre recíproca. Aos poucos, Layla vai fazendo as suas pequenas conquistas - o que é evidente, por exemplo, quando Billy volta atrás após a discussão do café e lhe pede desculpa. Aos poucos, vamos torcendo para que a relação dos dois dê certo, para que preencham a colossal solidão um do outro, mas desconfiamos que o carácter impetuoso do protagonista vai desencadear, a qualquer instante, acontecimento trágico e irreversível. Quem sabe se não? Buffalo 66 é tudo menos previsível, a cada esquina se desenha uma nova possibilidade, sempre numa atmosfera de abismo, bizarria e inevitabilidade.

Enquanto realizador, Gallo é virtuoso no momento de câmera, especialmente inspirado nos enquadramentos e na encenação. Os jogos da montagem de Curtiss Clayton são fabulosos. A par da banda sonora de Gallo ouvem-se Yes ou King Crimson. E o uso dos flashbacks é efetivamente extraordinário, ou não permitisse ele aquele apaixonante e inesquecível twist final. Enfim, brilhante filme independente; Buffalo 66 destila, a cada cena, pujante criatividade cinematográfica.

CLOUD ATLAS (2012)

PONTUAÇÃO: EXCELENTE
Título Original: Cloud Atlas
Realização: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski
Principais Actores: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Whishaw, James D`Arcy, Susan Sarandon, Hugh Grant, Doona Bae, David Gyasi

Crítica:

A VIAGEM E A EVOLUÇÃO DA ALMA

I believe death is only a door. When it closes, another opens.

Há filmes destinados a existirem. O aclamado romance Cloud Atlas, de David Mitchel, dir-se-ia completamente intransponível à sétima arte, tal era a sua complexidade no papel. Seis histórias em seis tempos diferentes, contadas em simultâneo, cada uma delas com um género distinto, sendo que as personagens reencarnam de tempo para tempo, reclamando a evolução da alma e uma missão pela Verdade que se concretiza ao longo dos séculos, almejando aperfeiçoar a existência dos Homens. Mas como diria o intenso e eloquente Robert Frobisher de Ben Whishaw: all boundaries are conventions, waiting to be transcended. One may transcend any convention, if only one can first conceive of doing so. E o filme fez-se.

Em cada tempo narrativo, à parte as reencarnações assumidas fisicamente pelos mesmos atores, há um sinal de nascença. Os protagonistas marcados com o cometa herdam do passado um testemunho de fé e uma luta por um mundo mais livre, igual e pleno de amor. This world spins from the same unseen forces that twist our hearts. A herança é transmitida pelas forças do cosmos e materializada na palavra: o diário, as cartas, o livro, o guião, o filme, o vídeo, a oralidade - os fios narrativos interligam-se por um ritual de leitura, pela arte de contar a história (que nos remete para a lógica do prodigioso As Horas de 2002, de Stephen Daldry). Os protagonistas continuam a demanda no seu presente, pelas suas atitudes e ações, num aperfeiçoamento eterno. Para uma conquista, cada gesto ou palavra é, no seu espaço e no seu tempo, somente um gesto ou uma palavra, como uma gota na imensidão do oceano, mas... What is an ocean but a multitude of drops?, remata Adam Ewing, eficazmente. Descodificando o cometa, ainda que as interligações sejam mais do que muitas, atentemo-nos pois aos principais fios narrativos:

- Em 1849, o drama histórico. Um navio atravessa o Pacífico. É escrito um diário por Adam Ewing (Jim Sturgess), um advogado idealista que salva o negro Autua (David Gyasi) da escravatura e que mais tarde lutará pelo abolicionismo.
- Em 1936, o romance poético. Na mansão do mestre Arys, Inglaterra, um amante e aprendiz amador procura inspiração para compor a sua obra-prima musical. É a história do bissexual e insatisfeito Robert Frobisher, que lê o diário de Adam Ewing mas cuja leitura não termina. A half-finished book is, after all, a half-finished love affair. Termina The Cloud Atlas Sextet com a mesma determinação trágica com que termina a sua vida, com o suicídio. Suicide takes tremendous courage. A sua maravilhosa música ecoa por todo o filme (composta na verdade pelo próprio cineasta Tom Tykwer, em colaboração com Reinhold Heil e Johnny Klimek). O acto criativo como acto de amor, deixado por escrito em muitas da suas cartas ao seu amado Sixmith (James D'Arcy). I believe there is a another world waiting for us, Sixsmith. A better world. And I'll be waiting for you there.
- Em 1973, o thriller policial. Em São Francisco, a jornalista Luisa Rey (Halle Berry) tenta desmascarar a conspiração por detrás de um novo e perigoso reator de energia nuclear. Tem acesso às cartas de Frobisher - conhece o envelhecido Sixmith - e procura numa loja o disco do Cloud Atlas Sextet, que assume reconhecer embora não saiba muito bem de onde. Relata em livro a sua investigação.
- Em 2012, a comédia, a farsa. O sexagenário Timothy Cavendish (hilariante e brilhante performance de Jim Broadbent) lê o manuscrito de Luisa Rey. É, por intermédio do irmão, internado num hospício (localizado na antiga mansão de Arys), do qual tentará fugir a todo o custo. Acaba por escrever um guião para cinema com base na sua experiência.
- Em 2044, a ficção científica. Na Nova Seul de um futuro distópico - ecoa o imaginário visionário de Blade Runner - Sonmi-451 (Doona Bae) é uma ingénua e inocente fabricante, uma clone humana, concebida por engenharia genética de ponta, moda alheia a qualquer ética moral. É escrava num restaurante de fast food, alimentada a soap. Quando descobre a verdade sobre si mesma e inspirada no filme a que assiste baseado no argumento do velho Cavendish - I will not be subjected to criminal abuse -, a rebelião contra o sistema começa. No matter if we're born in a tank or a womb, we are all Pureblood. (...) We must all fight and, if necessary, die to teach people the truth. Somni-451 grava uma mensagem em vídeo.
- Em 2321, cento e seis invernos após a Queda, a ficção pós-apocalíptica. Nas denominadas Big Islands, a sociedade humana tornou à fórmula primitiva, assombrada pelo medo e pelo desconhecimento. Adoram uma divindade chamada Somni, temem os ataques canibais dos Kona e tanto mais as tentações diabólicas do Old Georgie. O poder tecnológico de outrora está na posse, apenas, dos prescientes, uma elite avançada mas igualmente condenada que não vive por ali. É neste contexto que Zachry (mais uma inesquecível interpretação de Tom Hanks) tenta ajudar a presciente Meronym a enviar um aviso para as colónias fora do planeta, através de um emissor escondido na ilha, para que os resgatem de uma doença que entre os Homens se alastra sem salvação. Zachry assiste ao vídeo de Somni.

Our lives are not our own. From womb to tomb, we are bound to others. Past and present. And by each crime and every kindness, we birth our future.
Sonmi-451

Quanto ao karma e às reencarnações, há almas que evoluem, outras que nem tanto. Como diria o general Maximus de Gladiador, tão a propósito: what we do in life echoes in eternity. Há almas como a das variadíssimas e memoráveis personagens de Hugo Weaving que oscilam entre o Mal e o Mal. De traficante de escravos a nazi, a assassino, a enfermeira cruel, a membro do sistema totalitário, a personaficação imaginada do diabo. As personagens de Hugh Grant também não devem muito ao Bem, ou não terminasse o ator como líder de uma tribo canibal. Depois temos personagens como as de Tom Hanks, cuja alma evolui claramente, ou como as almas femininas das personagens de Halle Berry ou Doona Bae, que evoluem no sentido da afirmação. A alma das personagens de Jim Sturgess, por exemplo, contribui decisivamente para a transformação da existência futura numa existência melhor.

Belief, like fear or love, is a force to be understood as we understand the Theory of Relativity and Principles of Uncertainty: phenomenon that determine the course of our lives. Yesterday, my life was headed in one direction. Today, it is headed in another. Yesterday I believed that I would never have done what I did today. These forces that often remake time and space, that can shape and alter who we imagine ourselves to be, begin long before we are born and continue after we perish. Our lives and our choices, like quantum trajectories, are understood moment to moment. At each point of intersection, each encounter suggests a new potential direction.
Isaac Sachs

É impossível prever o curso do futuro. David Mitchell diz:

Souls cross ages like clouds cross skies, an' tho' a cloud's shape nor hue nor size don't stay the same, it's still a cloud an' so is a soul. Who can say where the cloud's blowed from or who the soul'll be 'morrow? 

Não obstante, encontramos tamanha carga significante no mistério. No epílogo como no prólogo, Zachry conta aos espetadores e às gerações futuras as muitas histórias de Cloud Atlas (vislumbrou-as num sonho revelador): histórias que, na sua multiplicidade, assumem uma unidade tão inequívoca. Como se houvesse uma continuação, após a vida: o que estabelece naturalmente a ponte com a epígrafe deste texto, palavras proferidas por Somni 451.

Cloud Atlas transcende-se na ousadia e na ambição das suas ideias (é afinal um filme de grande orçamento, independente e arriscado), na beleza impressionante e hipnótica da sua fotografia, música e tremendos efeitos digitais. Tom Tykwer (o mesmo do notável Heaven - Por Amor e de Perfume - História de Um Assassino, realizador das sequências de 1936, 1973 e 2012) e os irmãos Wachowski (os mesmos de Matrix, responsáveis pelos tomos de 1849, 2044 e 2321) em boa hora se uniram para o triunfo da adaptação. Superam-se na condução das histórias, filmando-as de forma absolutamente apaixonada e magnetizante. Mas o que dizer do extraordinário elenco? Cloud Atlas assume-se, também na sua essência, como um soberbo e poderosíssimo filme de atores.

A complexidade narrativa de Cloud Atlas desafia, exige e merece, a cada segundo, um espetador por demais atento e ativo na sua interpretação, mas igualmente disposto a envolver-se emocionalmente na experiência que proporciona. É daqueles filmes-mosaico, estimulantes embora profundamente intrincados, com alguma pretensão à mistura, que nos coloca, abertamente e sem conceder todas as respostas, as questões existenciais suficientes para refletirmos durante horas e horas, ou dias e dias. Provavelmente, duas ou três visualizações da obra não serão suficientes para nos apercebermos de todos os seus detalhes e de toda a sua amplitude.

Cloud Atlas não é, pois, senão um daqueles raros, monumentais e incompreendidos filmes, de alguma forma tocados pela genialidade, aos quais só se fará justiça a seu tempo, no futuro. Tornar-se-á com toda a certeza um filme de culto.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

O HOMEM QUE VEIO DO FUTURO (1968)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Planet of the Apes
Realização: Franklin J. Schaffner
Principais Actores: Charlton Heston, Roddy McDowall, Kim Hunter, Maurice Evans, James Whitmore, James Daly, Linda Harrison, Robert Gunner, Lou Wagner, Woodrow Parfrey, Jeff Burton, Buck Kartaliandlunddlund

Crítica:

PLANETA DOS MACACOS

Somewhere in the universe there has to be
 something better than man. Has to be.

O Homem que Veio do Futuro, de 1968, é tudo aquilo que sempre quisemos encontrar num filme da saga Planeta dos Macacos (exceto o título português, naturalmente, que não lembra o diabo). Mais: é tudo aquilo que sempre quisemos encontrar e que sempre deveríamos encontrar num filme de ficção científica, de pura ficção científica: um cenário hipotético, cientificamente plausível e estudado, capaz de convocar alguma discussão filosófica ou sociológica. Viajar ao passado e descobrir a obra original de Franklin J. Schaffner (adaptada livremente a partir do livro de Pierre Boulle), revela-se, por isso, uma experiência absolutamente reconfortante, estimulante e, intemporalmente, pertinente.

É Planeta dos Macacos - tratemos já dessa correspondência imaginativa e hedionda que é o título português - mais uma profunda dissertação filosófica e sociológica do que o filme de entretenimento e aventuras de Hollywood? Não, não é. Desenvolve-se ao sabor do perigo, do suspense e de sucessivas e empolgantes sequências de ação, bem humoradas pelo carácter pedante e provocador do não menos eloquente e cínico comandante Taylor, de Charles Heston; o que não invalida que se mantenha ao longo de todo o filme um equilíbrio extremamente interessante entre ambas as dimensões, a do argumento inteligente (assinado por Michael Wilson, o mesmo de Lawrence da Arábia, e por Rod Serling) e a do entretenimento, até ao célebre e extraordinário twist final. Neste aspeto, muitos dos acéfalos blockbusters de Hollywood da atualidade, que descuram a história em prol do último grito dos efeitos digitais, teriam muito a aprender com este Planeta dos Macacos. As questões são mais do que muitas: a relatividade do tempo, a existência de vida e de inteligência extra-terrestre, a evolução do homem a partir dos símios ou a evolução dos símios a partir dos homens... Planeta dos Macacos é, provavelmente, das mais interessantes propostas da ficção científica, pela visão e questões que levanta. Afinal, inverte a condição humana e por meio dela a perspectiva das coisas: algures num futuro distante, decorre o ano de 3978, uma equipa de astronautas americanos - liderada pela personagem de Heston, que despreza a sua própria espécie: Does man, that marvel of the universe, that glorious paradox who sent me to the stars, still make war against his brother? Keep his neighbor's children starving? - despenha-se num planeta incógnito, onde os mais variados símios são as espécies dominantes e mais evoluídas, no topo da cadeia e da lógica, e os humanos são a espécie mais primitiva que abunda nas redondezas, sem fala ou especial inteligência desenvolvida, subjugada à escravidão e ao tratamento brutal e humilhante dos macacos, que produzem armas de fogo. Os gorilas são os polícias e militares, os oragotangos os líderes políticos, espirituais e administrativos e os chimpazés os cientistas e intelectuais. A reflexão impõe-se à medida que acompanhamos Taylor, feito prisioneiro, e observamos as características culturais, sociais e religiosas dos mais poderosos. Aqui, somos os outros - é impossível negar as semelhanças que temos com os nossos parentes evolutivos e perguntarmo-nos a nós próprios e se? Não há como outrar-nos para apreciarmos devidamente o nosso reflexo no espelho. 

A doutora Zira (Kim Hunter) e o seu noivo e colega de investigação científica, o arqueólogo Cornelius (Roddy McDowall) - ambos macacos - são os estudiosos da espécie humana, defensores de Taylor bright eyes, inclusivé em tribunal. Estão fascinados porque descobriram finalmente um exemplar com nome próprio, capaz de pensar, escrever e falar, que afirma ter vindo de outro planeta onde reinava uma outra espécie e uma outra cultura que não a dos macacos, a humana. Os políticos recusam-se a acreditar no - aqui - animal e a aceitar a polémica ideia de que os humanos são capazes de inteligência própria; consideram tal descoberta uma ofensa às sagradas escrituras, capaz de desafiar a sua autoridade e de abalar os alicerces da sua sociedade, assim como a teoria da evolução de Darwin abalou os alicerces das sociedades humanas, construídas a partir do verbo bíblico. Os humanos são animais odiosos, que lhes parecem todos iguais (da mesma forma que, por exemplo, os chimpazés nos parecem, fisicamente, todos iguais): roubam-lhes alimentos, destroem-lhes as florestas, são capazes de grupos organizados, mas não lhes são senão dignos de museu, de algumas experiências e de pouco mais. Em tempos chegaram a ser animais domésticos dos macacos, agora merecem ser destruídos.

O doutor Zaius (Maurice Evans) é o símbolo máximo da fé e da ciência - there is no contradiction between faith and science... true science!, diz ele, mas eu diria que é um hipócrita representante de ambos, a única coisa sagrada para ele é a obscuridade. É o principal opositor aos avanços científicos da equipa de Zira e Cornelius; por conseguinte, o principal inimigo do recém-chegado Taylor, causador de todos os distúrbios, que poderá ser castrado para não reproduzir a sua inteligência a gerações futuras. Zaius esconde a verdadeira razão de tanto ódio para com os humanos, que se revelará a seu tempo, quando as principais personagens penetrarem na Zona Proibida e, nas escavações da praia, encontrarem uma prova irrefutável da existência de inteligência humana anterior ao milénio da sociedade símia: uma boneca humana... que fala. Would an ape make a human doll that talks? Quando Zaius finalmente conta a as razões pelas quais odeia os humanos, Taylor fica desarmado e remete-se ao silêncio. I have always known about man. From the evidence, I believe his wisdom must walk hand and hand with his idiocy. His emotions must rule his brain. He must be a warlike creature who gives battle to everything around him, even himself. Pela primeira vez, estão de acordo. A citação de Zaius estabelece automaticamente um paralelo com as considerações iniciais de Taylor ainda na nave espacial (aquelas que acima citei, em que o humano critica as atitudes da sua própria espécie) e o mútuo acordo alavanca a carga semântica e simbólica da poderosíssima cena final, quando a Estátua da Liberdade aparece no horizonte, qual visão surreal ou pós-apocalítica, enterrada na areia, descobrindo a chocante verdade sobre o passado da sociedade símia e do planeta onde estão. Taylor está, afinal, em casa, na terra. Como se outrora os seres humanos se tivessem auto-destruído no meio de tanta evolução tecnológica. A mensagem é clara, ainda para mais quando em 1968 o mundo vivia na ameaça da Guerra Fria e das devastadoras consequências de eventuais ataques nucleares. O futuro, como sempre, é uma incógnita, construída a partir do presente. Fica a proposta de reflexão. 

Zira: What will he find out there, doctor? 
Zaius: His Destiny. 

Os planos iniciais filmados por Schaffner, que antecedem o momento em que a nave triangular se despenha no mar, rodam a variadíssimos graus, já augurando uma reviravolta na ordem das coisas ou um mundo realmente virado ao contrário. A fotografia de Leon Shamroy confere uma beleza e uma grandiosidade quase épica ao filme, sobretudo quando enquadra e foca em profundidade extensas paisagens naturais, a perder de vista. A exótica banda sonora de Jerry Goldsmith, nem sempre de fácil digestão, tornou-se na primeira banda sonora completamente atonal num filme de Hollywood. A direção artística é determinante para a autenticidade daquela cultura projetada - note-se por exemplo a criatividade arquitetónica das casas dos macacos, que devem tanto a Gaudí - mas nenhum departamento é tão fundamental para essa autenticidade e credibilidade como a extraordinária caracterização de John Chambers que, juntamente com os figurinos (Morton Haack), nos fazem acreditar naqueles atores mascarados, naqueles macacos. É pelo excecional trabalho de caracterização que se dissiparam os mais que esperados riscos de fracasso da obra, que desde o primeiro instante assombraram a produção. Um filme repleto de macacos falantes poderia ser, afinal, completamente risível e ridículo. 

Planeta dos Macacos acabou por tornar-se um tremendo sucesso comercial, nos Estados Unidos e em todo o mundo. Desencadeou uma franquia sem precedentes - até 1973 foram lançadas quatro sequelas - e um lucrativo merchandising que se mantém até hoje, sendo um dos inegáveis precursores do modelo comercial que tão bem conhecemos no cinema norte-americano dos nossos dias. 

É, sem qualquer dúvida, um clássico absoluto.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

RESCUE DAWN - ESPÍRITO INDOMÁVEL (2006)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Rescue Dawn
Realização: Werner Herzog
Principais Actores: Christian Bale, Jeremy Davies, Steve Zahn, Zach Grenier, Craig Gellis, Marshall Bell, François Chau, Pat Healydlund

Crítica:

SOBREVIVÊNCIA NA SELVA

The jungle is the prison.

Werner Herzog filma magistralmente a selva, sabemo-lo desde Aguirre, O Aventureiro, de 72. Os primeiros minutos de Rescue Dawn - Espírito Indomável nem auguram um filme excecional, mas é preciso que o avião de Bale se despenhe nos confins do Laos para que o drama (com contornos de aventura realista) se inicie e o filme revele os seus méritos artísticos, que os tem e são absolutamente notáveis.

Há que mencionar, antes de mais, que Herzog filma uma história verídica, que já havia documentado anteriormente em Little Dieter Needs to Fly; uma clássica e inspiradora história de sobrevivência com as potencialidades d'O Náufrago, de Zemeckis. Feito prisioneiro pelos guerrilheiros locais, a primeira parte da obra é sobre a sua luta pela liberdade; face à dureza e à impossibilidade das circunstâncias, Dieter conserva um otimismo obstinado e bem-humorado, absolutamente inesperado mas intrínseco ao seu carácter, que motivará os seus companheiros - do campo de guerra para onde é levado e no qual será torturado - para a esperança e para a ação, acabando por liderá-los para o escape. Plausíveis, intensos e fabulosos, os desempenhos de Christian Bale (mais um papel física e psicologicamente bastante duro e exigente, que o ator supera com uma coragem e uma entrega fora de série; estamos lembrados desse extremo que se atingiu em O Maquinista), Steve Zahn (tão verdadeiro na sua aparente apatia, como se de um fantasma deambulante se tratasse, consumido pelo medo; um ator que até então me passara completamente despercebido) ou Jeremy Davies (para mim um eterno e inesquecível secundário desse colossal filme de guerra que será sempre O Resgate do Soldado Ryan, de Spielberg). Os desempenhos são comoventes.

Quando se concretiza a planeada fuga, a selva torna-se a prisão já anteriormente anunciada pelo Gene de Davies, uma personagem muito mais impiedosa do que qualquer um dos capangas mal-encarados do Pathet Lao, um lugar onde os limites que se julgavam até então ultrapassados exceder-se-ão radicalmente, para lá da força humana, para lá do que alguma vez imaginaram possível. A luta pela liberdade dá então lugar à luta pela sobrevivência; a experiência será terrífica e profundamente marcante. Às tantas, Dieter e o distante Duane de Zahn vêem-se a partilhar o protagonismo do segundo acto com a selva. A contracena é por demais desigual. É por isso que o otimismo de Dieter acaba por ceder e se esvai na lama, como que abalroado pelo desmoronamento que as chuvas torrenciais, a dado instante e literalmente, provocam.

A fotografia naturalista de Peter Zeitlinger e os sons da natureza reproduzidos captam toda a exuberância e a humidade daquela paisagem verdejante, desconhecida e quase impenetrável, que envolve o aldeamento de palhotas de bambu e que nos envolve também a nós, espetadores, magnetizando-nos. O espirituoso trabalho de câmera quase que nos coloca naquele hipnotizante e ameaçador ambiente selvagem, quais personagens. Quase sentimos os cheiros e as temperaturas. Quase. Esta é uma indelével proeza: a autenticidade atinge tal nível que nos permite fazer parte da viagem emocional das personagens. A fluída banda sonora de Klaus Badelt conduz-nos e induz-nos para essa viagem.

A admiração que tenho pelo filme é clara; o que não me impede de salientar, todavia, que tinha potencial para atingir maior desenvoltura, formal ou dramática, assim tivesse uma abertura e um desfecho melhor trabalhados, enquadrados e filmados. Ainda assim, é um bom filme, com muito para se apreciar prazerosamente.

CINEROAD ©2020 de Roberto Simões