Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
Alguns filmes parecem, incompreensivelmente, esquecidos no tempo. De uma escala épica e impressionante, bela e esfíngica,
Gigante chega até nós como um legado máximo da era de ouro de Hollywood. Magnificamente filmado (desde os íntimos
close-ups sobre as personagens às panorâmicas de cortar a respiração) e fotografado (arrebatam-nos a intensidade das cores e os contrastes captados, as nuances e subtilezas da iluminação e dos jogos de sombras), o filme tem o mérito de nos transportar, por inteiro, para outro tempo e para outro lugar. Justamente aclamado como uma das obras maiores de Stevens, agraciada por uma magnífica banda sonora de Dimitri Tiomkin,
Gigante parte do romance homónimo de Edna Ferber e eterniza uma saga familiar ao longo de três gerações. Romance e humor garantem-nos, ao longo de mais de três horas, o melhor entretenimento, excitante e espectacular, mas é no drama satírico que o filme descobre as fissuras do sonho americano e da humanidade. Do microcosmos ao macrocosmos, a história toca a totalidade e a universalidade. Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean encabeçam o elenco, com excelentes interpretações.
I. OS HOMENS E AS MULHERES
O argumento de
Gigante (Fred Guiol e Ivan Moffat, notáveis na consistência da adaptação) centra a sua discussão na contraposição de conceitos. A primeira oposição tem que ver com as diferentes representações sociais do homem e da mulher. Elizabeth Taylor é Leslie, uma jovem bonita e sedutora, mas sobretudo culta, respondona e emancipada. Desfila, por entre grandiosos cenários, graciosos vestidos, mas é uma mulher de calças, se for preciso, pois tem ideias próprias e jamais se inibirá de as exprimir. Apaixonar-se-á pelo charmoso fazendeiro Bick Benedict (Rock Hudson) e trocará os campos verdes e férteis de Maryland pelas planícies tórridas, estéreis e empoeiradas do Texas (mais uma oposição, que realça desde logo a dificuldade de adaptação a um novo meio, naturalmente mais hostil e socialmente mais conservador). O assombro visual da imensidão da paisagem expõe,
a priori, as evidências da mudança: aquela mansão no meio do nada é, só por si, simbólica. A sua recta arquitectura impõe austeridade; fazendo em muito lembrar a casa entre as searas do posterior
Dias do Paraíso, de Malick.
Leslie será imediatamente confrontada com o seu novo papel de esposa - com aquilo que o marido e os outros esperam dela - mas a jovem jamais se resignará à passividade ou, pior, à inutilidade. É uma mulher moderna, que arregaça as mangas e reclama a notoriedade. Como dirá mais tarde à amarga e solteirona governanta,
não quero ser uma mera hóspede em casa do marido. Há uma cena, após o almoço, em que Leslie interrompe a conversa de Bick e dos companheiros de negócios e intervém activamente na conversa. É um escândalo e o marido repreende-a:
isto são assuntos de homens! Mais tarde, o machismo de Bick vem ao de cima, novamente, quando chega a hora do primeiro filho - o primogénito que abraçará toda a herança da família e conduzirá Reata para o futuro. Quis o destino que tivessem um par de gémeos, um menino e uma menina... Bick dedicar-se-á sempre mais ao filho do que à filha - coisas de homens, entendem? - mas o destino é traiçoeiro. Se o não é, pelo menos é traiçoeira a ideia de esperar dos nossos filhos aquilo que nós, pais, queremos e não aquilos que eles, filhos, querem para eles próprios.
Emblemática, a cena em que Bick obriga o filho de quatro anos a montar um pónei e depois um cavalo, quando a criança chora atemorizada e só encontra aconchego no colo da mãe e nos brinquedos de médico. Será um médico, nem mais, a filha apaixonar-se-á pelo genro inesperado, sonhará com uma casa pequena na cidade... Moral da história? Os planos saem todos furados aos pais, de nada adiantam as excessivas imposições ou o fazer dos filhos meros projectos. Os filhos são igualmente indivíduos, que mais tarde serão - eles também - pais, perpetuando o ciclo. Nuclear, por isso, a cena em que Leslie e Bick conversam à luz dos candeeiros de cabeceira, fazendo as cedências necessárias para aceitarem os futuros trilhos da descendência. No curso da vida, por fim, evolui a mentalidade, a educação e com elas a cultura e a sociedade. A brilhante montagem da dupla William Hornbeck e Robert Lawrence joga habilmente com a passagem do tempo diegético e revela-se essencial para o triunfo narrativo. Afinal, aquilo que se poderia tornar, facilmente, uma longa-metragem interminável e enfadonha, torna-se numa experiência extremamente prazerosa.
II. O RACISMO
Com a questão da intolerância racial,
Gigante põe o dedo na ferida, especificamente no que se refere à discriminação doentia mas cultural dos americanos sobre os mexicanos. Estamos perante um filme patriótico, disso não há quaisquer dúvidas, mas que talvez por isso mesmo veja a pátria na sua multiculturalidade, sem ignorar as origens e o passado mal resolvido; é Leslie quem, ainda em Maryland e antes do casório, confronta Bick com o caso da expropriação das terras aos mexicanos, no estado do Texas. Apesar da perspectiva unilateral da denúncia, o filme é não só claro como acerrimamente crítico na sua mensagem. O racismo prolifera pela educação que passa de pais para filhos, na ilusão da superioridade, da cultura dominante.
Quando Leslie e Jett Rink (James Dean) chegam à vila de Reata, a senhora fica horrorizada perante uma povoação doente e à qual os Benedict ou quaisquer americanos negam cuidados médicos. Leslie personifica, pois, o arauto da mudança: enviará o médico da família à vila e salvará da morte certa o pequeno Ángel. Ángel, mais tarde, integrará o exército e servirá o país na guerra, sendo um motivo de orgulho para a terra. Ironia do destino, o filho mais velho de Leslie e Bick casará com uma latina, desafiando todo o código de costumes e a aceitação de um futuro neto mestiço. É por demais revoltante, por exemplo, a cena em que a pobre Juana é humilhada no salão de beleza do hotel, potenciando toda a confusão no jantar de homenagem a Jett,
self-made man, agora magnata do petróleo. O funeral de Ángel, que regressa a casa como defunto herói de guerra, prenunciava já uma mudança de mentalidade. Bick levava aos familiares da vítima as condolências e uma bandeira do Texas, em sinal de aceitação derradeira. No fim da cena, ambas as bandeiras, a americana e a texana, ondulavam ao sabor do vento, sobre o caixão do militar.
Já perto do desfecho da obra, o famoso banquete de pancadaria em pleno restaurante de hamburgueres, em que Bick se bate em defesa dos mexicanos, tomando-os por iguais. A cena é mais demorada do que seria de esperar; tem um significado romântico, como acabamos por concluir. É naquele instante que Leslie vê no marido um herói, tendo a certeza de que tudo o que viveram valeu a pena. Vence a tolerância, numa cena gratuitamente intolerante para o espectador. O racismo é, contudo e ainda hoje, uma das tendências de pensamento mais fracturantes na sociedade americana ou, pelo menos, uma das mais resistentes.
III. A TERRA E O DINHEIRO
Gigante é, também, sobre a prosperidade económica do Texas e da América, a partir do segundo quartel do século XX. É sobre a transição da produção pecuária para a produção petrolífera, sobre a alteração da paisagem: onde outrora pastavam hectares de gado passam a erguer-se repetidas e altas torres, extractoras de ouro negro, que ferem o solo mas reconfortam a carteira. É a concretização do sonho americano para o jovem Jett Rink, que desde sempre se imaginou longe do texas e a enriquecer. Nunca ninguém deu nada por ele, sobretudo Bick Benedict, que o detestava. Somente a governanta do rancho gostava dele, a mesma que sempre lhe ensinou que mais vale um punhado de terra do que um rio de dinheiro, a mesma que sempre o protegeu do infortúnio.
Quando ela morre e, em sua homenagem, decidem atribuir a Jett ou uns poucos hectares de terra ou o dobro do valor dessa mesmíssima terra, em dólares, não é por acaso que o desgraçado recusa o dinheiro e aceita a terra. Em breve, descubrirá nela petróleo, rios de petróleo, e passará de um coitado de Deus a um produtor de sucesso, de um produtor de sucesso a um empresário exportador, de exportador a milionário e magnata, a excêntrico, poderoso e famoso homem de negócios, dono - imagine-se - de uma companhia aérea; qual Howard Hughes. Quem diria. Jett tentará, por uma e outra vez, comprar o rancho de Bick, mas o Benedict jamais cederá a herança dos seus antecessores. Resistirá à mudança, mas com o tempo render-se-á à produção petrolífera, que o enriquecerá também, ainda mais. É a vitória do capitalismo imparável sobre os velhos costumes, é uma viragem crucial na identidade económica e nacional.
James Dean é simplesmente brilhante enquanto Jett Rink. Que
performance assombrosa, que cresce à medida que os anos passam e os cabelos brancos chegam; o envelhecimento é por demais credível. No final, o balanço: um homem rico, muito rico, mas só, muito só. Alcoolizado, preconiza a sua queda, numa vida sem sentido para lá da ambição e do trabalho árduo. Tantos bens materiais para quê? Quando morremos, deixamos cá tudo e não levamos nada. A única coisa que podemos deixar é a saudade e a única coisa que podemos levar, espero, é a memória do amor que sentimos enquanto estivemos vivos. A quem deixará Jett Rink saudade? Que memória de amor levará consigo para a eternidade? Admite, finalmente, ter amado Leslie toda a vida, mas nunca consumou esse amor. Eis, pois, a mais importante lição de todas.
Gigante acaba por constituir, dessa forma, uma clarividente elegia sobre a humanidade.
Sinceramente, admira-me como uma obra com a monumentalidade de
Gigante possa algum dia ser esquecida. Mas porque será, então, tão poucas vezes mencionada? Que glorioso pedaço de cinema. Um daqueles filmes de uma vida.